Gelson Domingos e os limites da ação da imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Gelson Domingos e os limites da ação da imprensa

Por Lilia Diniz em 09/11/2011 na edição 667

A morte do repórter cinematográfico Gelson Domingos, funcionário da Rede Bandeirantes e da TVBrasil, reacendeu o debate sobre os riscos a que os profissionais de imprensa são submetidos na cobertura diária da violência urbana. O cinegrafista gravava cenas de uma operação policial em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, na manhã de domingo (06/11), para o programa Brasil Urgente, da Band, quando foi atingido por um tiro de fuzil. Gelson Domingos usava um colete à prova de balas que não era resistente a armamentos pesados. O projétil ultrapassou a proteção e o cinegrafista já chegou ao hospital sem vida.

Impetuoso, Gelson era conhecido pela ousadia na busca da notícia, mas também pela cautela com que pautava sua atuação. O cinegrafista cobria ações policiais há mais de duas décadas. A morte de Gelson – assim como o assassinato do jornalista Tim Lopes, da TV Globo, em 2002 – levou jornalistas, empresas de comunicação, entidades de classe e o poder público a refletir sobre os limites da ação da imprensa em situações de risco. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (08/11) abriu espaço para a discussão deste tema.

Alberto Dines recebeu três convidados no estúdio do Rio de Janeiro: Aziz Filho, Antonio Rangel e Eurico Figueiredo. Aziz é gerente executivo de Jornalismo da TV Brasil no Rio de Janeiro. Foi chefe da sucursal Rio da revista IstoÉ, repórter do O Globo, do JB, da Folha de S. Paulo e de O Dia e presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro. Eurico Figueiredo é coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (NEST-UFF). É também professor titular de Relações Internacionais e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos da Defesa (ABED). Antonio Rangel é coordenador do Programa de Controle de Armas do Viva Rio. Sociólogo pós-graduado no Canadá e Estados Unidos, Rangel coordena a atual Campanha Nacional de Desarmamento, representando a Sociedade Civil.

Sangue de toda a imprensa

Em editorial, Dines sublinhou que o tiro que matou Gelson Domingos acertou toda a imprensa: “Hora de prantear, louvar, hora de parar, hora de pensar. O sangue que ficou no asfalto da favela de Antares, Zona Oeste do Rio, é sangue nosso – dos que fazem televisão e veem televisão, dos que se indignam contra a violência e dos que são obrigados a conviver com ela por dever de ofício. Hora de parar, hora de pensar. O ministro Gilmar Mendes declarou em voto no STF que jornalismo não é profissão. Ele vem sendo desmentido diariamente há dois mil anos. O ‘ai-ai-ai’ de Gelson Domingos, antes de morrer, contesta o supremo magistrado: jornalismo é mais do que profissão. É forma de viver.”

A reportagem exibida no programa mostrou a opinião de diversos profissionais que têm experiência em coberturas policiais. Ernani Alves, repórter da Band que acompanhava Gelson na manhã do tiroteio, levantou a hipótese de o disparo ter sido direcionado ao cinegrafista.“Se eles fizeram isso, eles atiraram em toda a imprensa brasileira. Então, isso precisa ser esclarecido: se eles quiseram, mais uma vez, silenciar a imprensa brasileira, como no caso do Tim Lopes, ou se eles quiseram acertar o policial e o Gelson foi morto por uma fatalidade”, afirmou.

O fotógrafo Fernando Quevedo, de O Globo, que também participou da cobertura da operação policial na qual Gelson foi atingido, contou que um pressentimento impediu que entrasse na comunidade junto com a polícia. Foi ele o autor da última fotografia do cinegrafista com vida, na entrada da favela. “Parei e voltei. E dou graças a Deus de o Alexandre Bruno, fotógrafo do Dia, que estava também com a gente, não ter forçado nenhuma barra. Se ele tivesse entrado na favela, talvez eu tivesse sentido também a obrigação de ter entrado”, contou Quevedo. O fotógrafo explicou que a adrenalina do momento e a ânsia de querer registrar uma imagem exclusiva podem prejudicar a capacidade de avaliação do risco.

Quem define os limites?

O relações públicas da Polícia Militar, Frederico Caldas, anunciou que a corporação pretende levantar o debate sobre um conjunto de normas para a cobertura da mídia em confrontos. “É um momento importante para que a imprensa reflita sobre o seu papel. Nós sabemos muito bem que a palavra ‘limite’ tem uma conotação preocupante para a mídia, mas é preciso que nós tenhamos limites principalmente quando tratamos da vida de pessoas, de profissionais que estão ali. Nós não temos como controlar o trabalho da imprensa porque não nos cabe isso, autorizar ou não. Por regra, não temos autorizado que equipes acompanhem nossas operações, mas também não podemos evitar o trabalho da imprensa, que é fundamental para informar o cidadão”. Frederico Caldas sublinhou que a mídia deve pensar até que ponto vale a pena buscar a informação a qualquer custo.

Suzana Blass, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, ressaltou que a cobertura de conflitos urbanos não pode ser vista como natural. Além de equipamento adequado, os profissionais precisam passar por treinamento específico para trabalhar em confrontos. As empresas, na avaliação da presidente do sindicato, deveriam promover debates sobre o risco. “Será que o repórter cinematográfico tem o poder de dizer ‘não, até ali eu não vou’ se de repente o colega pega uma imagem muito melhor que a dele, ela é divulgada no vídeo e ele vai ser cobrado?”. Maurício Azêdo, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), também defendeu a adoção de medidas de proteção que diminuam os riscos em coberturas desta natureza.

O vice-presidente do Grupo Bandeirantes, Frederico Nogueira, disse que a cobertura da imprensa não pode ter limites. “A gente tem que ter todas as precauções na cobertura, mas o que a gente não pode perder é a indignação de um fato como este que aconteceu”. O representante da Band comentou que, sem a presença da imprensa nas comunidades, a população destes locais ficaria desprotegida. Em nota emitida no mesmo dia da morte do cinegrafista, a emissora garantiu que cumpre todas as normas de segurança, mas o advogado da família de Gelson acusa a Band de mandar o profissional para uma situação arriscada sem a proteção adequada e de induzi-lo a acreditar que o colete que usava resistia a tiros de fuzil.

Um outro olhar para a notícia

Paulo Garritano, repórter da TV Brasil, propôs uma mudança na forma de noticiar a violência urbana. “A maior das reportagens, a maior das imagens, não vale o menor risco. Isso tem que ser repensado. Nós temos o compromisso com a informação? Temos, e isso a gente não pode perder nunca. Agora, nós precisamos criar caminhos de contar essas histórias sem expor nossos profissionais”, disse. O jornalista questionou: “Valeu a pena o risco? Valeu a pena ele estar no local com o ângulo melhor do que todos os outros cinegrafistas? Valeu a pena ele conseguir fazer imagens dos traficantes?”.

Na avaliação do jornalista, é necessário discutir a pertinência de imagens e fotografias de confrontos porque, com a popularização das novas tecnologias, os próprios moradores das comunidades registram os fatos. “O melhor conteúdo é ter o tiroteio? É estar dentro da favela atrás do policial? Não sei se o melhor conteúdo é esse. Há uma competição de fazer a melhor imagem, de fazer a melhor foto. Quem garante que a melhor foto é essa? Uma história pode ser muito bem contada sem esse tipo de imagem, que hoje já não é novidade para ninguém”, disse. Em 2010, Garritano e Gelson Domingos receberam a menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos com o programa Caminhos da Reportagem sobre pistolagem.

Ana Claudia Guimarães, repórter do Globo, afirmou que convencer os fotógrafos a adotar uma postura mais cuidadosa em situações de risco é uma tarefa complicada. No dia a dia, segundo a jornalista, é necessário segurar os fotógrafos e apelar para o argumento de que eles precisam pensar em suas famílias. “É o ímpeto da imagem. Não adianta falar ‘nós temos que primar pela segurança’. Nós aprendemos tudo isso, a nos esconder atrás dos locais seguros, que o motor do carro é o lugar mais tranqüilo. Só que a imagem fala mais e eles querem fazer a imagem”, contou. A repórter sublinhou que a imprensa precisa, sim, relatar os fatos, mas deve refletir sobre até que ponto deve estar próxima aos policiais no momento do conflito. “Vale a pena ouvir que a chefia dos programas sensacionalistas cobra mostrar este confronto? Está todo mundo sentado lá e o colega que foi mostrar o confronto morreu. Será que vale a pena? Vale o risco? Eu acho que não”.

Exposição calculada

Para a repórter Lília Teles, da TV Globo, o limite do risco é o bom senso do profissional. Os jornalistas experientes, geralmente, conseguem perceber quando o momento pede cautela. Mas a jornalista acredita que na rua há momentos em que outros fatores entram em cena e colocam a imprensa em perigo, como enganos da própria polícia sobre a segurança da comunidade. Mariana Procópio, chefe de Redação da Bandnews FM, sublinhou que a presença da imprensa pode inibir abusos de autoridade e proteger a população de comunidades carentes. Sérgio Frias, repórter da Rede Record, disse que a imprensa está ciente do risco que corre; no entanto, é o momento de repensar as normas de segurança. “A perda do Gelson é um divisor de águas na cobertura da imprensa no Rio de Janeiro, nessa guerra urbana que a gente vive”.

Na avaliação do repórter cinematográfico Eusébio Gomes, da mesma emissora, a postura da imprensa precisa mudar radicalmente. “Eu acho que agora não tem mais que entrar em lugar nenhum. Tem que parar, pensar. Esperar a polícia chamar a gente e mostrar o que foi apreendido e a gente fazer a imagem, a matéria. Deste jeito que está, não dá. O Rio de Janeiro vive em guerra, nós não somos repórteres de guerra, não estamos preparados para isso, não usamos capacete, não usamos colete resistente a tiro de fuzil. A gente tem que parar com isso. Tem que acabar com esse negócio. Tem que fazer a matéria aonde dá para chegar e não se expor deste jeito”.

No debate ao vivo, Aziz Filho contou que desde a morte de Tim Lopes poucos avanços na questão da segurança dos profissionais de imprensa foram alcançados. Um deles é a adoção do colete à prova de balas. Aziz ponderou que, quando ocorrem tragédias como estas, duas tendências radicais de comportamento acabam esvaziando o debate. A primeira seria esperar uma resposta única para o problema, como a solução de a imprensa passar a não entrar mais em favelas – o que na visão do jornalista seria um absurdo porque limitaria a atuação da mídia – ou tentar cobrir todos os fatos a qualquer preço. “A outra tentação que prejudica muito o debate é tentar culpar, achar um assassino que não seja o bandido que atirou”, disse Aziz. Para o jornalista, a discussão deve ser mantida com bom senso e, sobretudo, em caráter permanente.

Cautela vs. audiência

“Os mais poéticos e ingênuos acreditam que Deus protege os jornalistas. Mas de alguma forma, acontece alguma coisa porque nessa guerra imensa, pela quantidade dos programas sensacionalistas e pelo descuido que a gente teve historicamente em vários momentos, poderíamos ter perdido várias pessoas”, avaliou Aziz. O gerente executivo de Jornalismo da TV Brasil no Rio de Janeiro disse que, nas discussões sobre os limites da atuação da imprensa, o sindicato deve tentar proteger os profissionais porque as empresas têm a tendência a buscar audiência. Aziz ponderou que, para um jornalista cobrir a violência urbana no Rio de Janeiro e incursões policiais, deveria ser tratado como um correspondente de guerra, mas as empresas rejeitam esta proposta porque o custo seria alto.

Antonio Rangel comentou que a violência no Rio de Janeiro é semelhante a uma situação de guerra, mas, na prática, policiais e repórteres não têm equipamentos de proteção adequados. Ele ressaltou que os jornalistas não estão preparados para operar em cenários de guerra: não passam por treinamento de segurança adequado, nem têm suporte no campo psicológico. “Você tem operações de guerra, embora feitas em perímetro urbano, porque o armamento usado é de guerra. Mas a proteção não é de guerra. Isto tinha que dar em tragédia. São inocentes que morrem. A nossa polícia morre como nenhuma outra no Brasil”, sublinhou Rangel. Para o sociólogo, não é a força policial quem deve determinar os limites da imprensa porque a população tem o direito de estar bem informada e o acompanhamento das operações pela mídia acaba fiscalizando a atuação da polícia.

Rangel explicou que, até recentemente, quem pautava a estratégia da polícia era a pressão da imprensa e da opinião pública. “É um absurdo. Você tem a prevalência de dois modelos dentro da polícia. Uma visão que se demonstrou desastrosa, que é uma visão militarista do enfrentamento do crime. E a outra visão é a da prevenção, na qual a maior expressão são as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Mesmo na implantação das UPPs, houve uma guerra sobre a atuação da polícia porque se queria fazer o que sempre se fez: invadir os morros porque a idéia era exterminar”, disse o sociólogo. Nesta disputa, prevaleceu a política de retomar um território dominado pelo tráfico sem causar mortes.

Solução em conjunto

A violência urbana do Rio de Janeiro, na visão do professor Eurico Figueiredo, não pode ser classificada como guerra, mas requer um treinamento específico dos profissionais para lidar com o risco. “O objetivo da polícia, antes de mais nada, é proteger o cidadão. Depois, matar o bandido. Em primeiro lugar, ela tem que saber quando atira, por que atira, para quem atira. Isso é um treinamento muito difícil”, explicou o coordenador do NEST. Para o professor, as forças policiais que atuam no Rio de Janeiro estão recebendo este treinamento, que poderia ser intensificado.

Eurico Figueiredo ressaltou que a liberdade da imprensa é intocável em uma sociedade democrática e sublinhou que os limites para a autuação dos jornalistas devem ser acertados em conjunto, não impostos apenas por um lado. “Esses limites são dados por uma negociação transparente, clara, entre os agentes envolvidos: a imprensa e os órgãos públicos responsáveis pela segurança. E envolve as próprias individualidades porque quem está lá [no confronto] não é a negociação, é o indivíduo de carne e osso, que precisa passar por um treinamento. É preciso que ele tenha também uma reflexão sobre a sua própria atividade. Alguém falou nos depoimentos que ele [Gelson Domingos] fez ótimas imagens. Ele poderia ter feito um furo fantástico. Ele viu o bandido do outro lado. Valeu a pena? Nada vale a vida humana”, ponderou Figueiredo.

No encerramento do programa, Dines homenageou o trabalho dos profissionais de imagem que arriscam a vida diariamente atrás das lentes em busca da notícia. “O ‘ai-ai-ai’ de Gelson Domingos antes de morrer talvez tenha sido o mais doloroso gemido já registrado ao vivo pela televisão. Quando neste Observatório se diz ‘você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito’, estamos sugerindo que você não esqueça jamais o sangue, o suor, as lágrimas de todos os que trazem o mundo e a vida até você”.

 

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Forma de viver

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 618, exibido em 8/11/2011

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

O tiro de fuzil que matou o repórter Gelson Domingos acertou a imprensa em cheio e enluta toda a sociedade brasileira. Hora de prantear, louvar, hora de parar, hora de pensar.

O sangue que ficou no asfalto da favela de Antares, Zona Oeste do Rio, é sangue nosso – dos que fazem televisão e veem televisão, dos que se indignam contra a violência e dos que são obrigados a conviver com ela por dever de ofício. Hora de parar, hora de pensar.

O ministro Gilmar Mendes declarou em voto no STF que jornalismo não é profissão. Ele vem sendo desmentido diariamente há dois mil anos. O ‘ai-ai-ai’ de Gelson Domingos, antes de morrer, contesta o supremo magistrado: jornalismo é mais do que profissão. É forma de viver.

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