Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > GZM E JB vs. GLOBO

Gilberto Scofield

10/02/2004 na edição 263

‘O juiz Roberto Fragale, da 33ª Vara do Trabalho no Rio, penhorou a marca Jornal do Brasil e deve leiloá-la para quitar uma dívida trabalhista de R$ 120 mil de um ex-funcionário referente a valores não pagos de FGTS, décimo-terceiro salário e indenizações.

Fragale decidiu pela penhora em 9 de dezembro de 2003, mas só anteontem a decisão foi publicada no Diário Oficial, convocando para se manifestarem o ex-funcionário e os representantes do Jornal do Brasil S/A – a família Nascimento Brito e Nelson Tanure, que arrendou a marca e foi considerado responsável solidário pelo juiz.

O Jornal do Brasil tinha até 14 de dezembro para embargar a penhora, o que não foi feito.

– Entramos com a ação em 2000 e agora garantimos o pagamento. Tenho mais 40 ações do mesmo teor e a decisão abre precedente para que todos os prejudicados consigam o mesmo – diz Leandro Rebello Apolinário, do escritório de advocacia Apolinário Rebello, advogado do ex-funcionário. Segundo uma fonte ligada ao jornal, existem hoje mais de 200 ações trabalhistas contra o JB.

Há três possíveis desdobramentos: o Jornal do Brasil paga a indenização e a penhora é suspensa; a marca vai a leilão e é comprada por Tanure; ou outra pessoa compra a marca, que não poderá ser mais usada por Tanure. Paulo Marinho, diretor do JB, disse que o jornal deve recorrer, mas Leandro Rebello afirma que não há recursos.’

 

Gazeta Mercantil

‘Organizações Globo, império em decomposição’, Editorial, copyright Gazeta Mercantil, 9/02/04

‘Em suas reuniões semanais, diretores das Organizações Globo têm consumido tempo, neurônios e cabelos na tentativa de encontrar saídas para o impasse teimosamente apontado por levantamentos promovidos pela própria empresa ou encomendados a institutos de pesquisas de opinião: por que a ampla maioria dos brasileiros demonstra tamanha antipatia pela marca famosa? Milhões de espectadores vêem a emissora de TV. Milhares de leitores compram jornais e revistas editados pela empresa. Outros tantos devem ouvir suas emissoras de rádio. Mas o povo não gosta da Globo. E vem reiterando nas pesquisas que não gosta, sobretudo por não acreditar no que a Globo diz. Em matéria de credibilidade jornalística, a empresa sofre de anemia crônica.

Tais pesquisas contêm detalhes tão relevantes quanto desalentadores para os encarregados de buscar soluções. Mostram, por exemplo, que os brasileiros não conseguem esquecer episódios desastrosos protagonizados pela Globo. Os mais vividos lembram a obscura gestação da TV nos anos 60, e o parto patrocinado pelo grupo americano Time Life, sem que houvesse explicações verossímeis para o acasalamento. Lembram que, nos anos 70, só jornais subservientes escaparam à censura imposta pela ditadura. Publicações como o Jornal do Brasil resistiram com altivez aos senhores da noite e sofreram as habituais agressões desferidas pelos donos do poder. Já O Globo cumpriu ordens obedientemente, às vezes com animação, e se tornou o jornal preferido do governo autoritário.

Também os menos jovens recordam que, nos anos 80, a empresa tentou matar no nascedouro a campanha pela restauração das eleições diretas para a Presidência da República. O comício de 25 de janeiro de 1984, considerado o marco inicial da campanha, foi apresentado no noticiário do Jornal Nacional como ‘parte das solenidades comemorativas do aniversário de São Paulo’. O grupo decidiu mudar de lado só depois de constatar a popularidade irreversível da palavra de ordem ‘Diretas Já’. A essa altura, veículos com o logotipo odiado eram atacados nas ruas por multidões enfurecidas. ‘O povo não é bobo: abaixo a Rede Globo’, bradavam os manifestantes. Hoje, em espertas campanhas publicitárias motivadas pelas pesquisas mencionadas no início deste editorial, a TV tenta reinventar a História e convencer os brasileiros de que não foi bem assim. É tarde. Além do mais, agora como antes, o povo não é bobo.

Em 6 de setembro de 1987, num discurso em Aracaju, o então deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva incluiu ‘o grupo de seu Roberto Marinho’ (na definição do orador) entre os grandes males da vida nacional. ‘A Rede Globo mente vinte e quatro horas por dia’, afirmou o atual presidente da República. A frase continha um erro: pausas impostas no meio da madrugada por trabalhos de manutenção impedem que a emissora funcione ininterruptamente. Mas a retaliação viria com a campanha de 1989, quando Lula disputou a Presidência da República com Fernando Collor.

O clímax da vingança se materializou na versão, editada sob instruções da cúpula da empresa, do último debate entre Lula e Collor. Essa manipulação televisiva, hoje célebre, catalogada em todas as antologias das grandes torpezas jornalísticas ocorridas no Brasil, aparece de modo sistemático na lista das explicações para a má imagem da Globo. Paradoxalmente, entre os motivos da antipatia recorrente também figura a vocação governista da empresa, acentuada pelo sistema de concessões de emissoras de TV e aguçada desmesuradamente por trapalhadas na condução dos negócios.

Os veículos do grupo têm sido a favor de todos os governos. Como apoiaram o regime militar, apóiam agora a administração de Lula, um homem que os diretores da Globo, a começar pelo fundador, sempre consideraram ‘limitado demais para exercer funções executivas importantes’. É um tipo de apoio lucrativo para ambas as partes. O governo tem ganhos políticos com o noticiário amistoso, indulgente, amigo. A empresa tem vantagens pecuniárias nada desprezíveis quando assume funções semelhantes à de uma Telebrás oficiosa.

Atropelando quaisquer ‘critérios técnicos’, os responsáveis pela distribuição das verbas publicitárias federais reservam às Organizações Globo fatias descaradamente superiores às dos concorrentes. E órgãos da área econômica federal abrem mais facilmente os cofres para empréstimos cuja premência é crescente. A Globo, insista-se, anda precisando de muito dinheiro, em quantias que se avultam e encurtam calendários. O grupo enfrenta um quadro evidente de insolvência econômico-financeira, desenhado pelos próprios balanços publicados periodicamente.

Um pedido de falência contra a empresa tramita na Corte de Nova York. Os credores estão perdendo a paciência. Quem apostou no sucesso genético começa a sentir muito medo. A trajetória das ações da Globopar configura um caso de naufrágio só comparável à aventura da TeleMontecarlo, o braço italiano da rede, amputado quando a gangrena ia longe. A Editora Globo é árvore que não dá frutos. Embora recorrendo à prática do dumping e a pressões quase criminosas contra os anunciantes, os jornais da Globo claudicam. O gigante envelhecido se apóia numa perna só: a TV Globo, ainda lucrativa, graças às novelas. Essa fonte dá sinais de esgotamento, e diminui a cada ano a chuva de verbas nas cabeceiras. Se tal rio secar, o império caminhará para o fim.

Distantes da simpatia dos brasileiros, afundados em dívidas, enredados na teia de incompetências que eles próprios forjaram, os diretores da Globo têm sucumbido, com freqüência, à tentação dos disparos insensatos. Isso talvez explique a insistência na publicação de ‘notícias’ e ‘reportagens’ supostamente prejudiciais ao Jornal do Brasil. Os textos são invariavelmente manchados pela falsidade e sublinhados pela mesquinhez. A melhor resposta está no comportamento do público e dos anunciantes. Enquanto os veículos da Editora JB ganham musculatura, as ramificações da Globo seguem definhando.

Desde que o mundo existe, em todos os setores da atividade humana, impérios nascem e morrem. Mas só os derradeiros ocupantes do trono, com o drama já em seu epílogo, percebem que governavam, havia tempos, um universo em estado de decomposição. Sobram sinais de que a Globo percorre esse roteiro tristonho.

A frase cunhada nos anos 80 por multidões de democratas brasileiros que se manifestavam nas ruas parecia apenas um grito de indignação contra a arrogância e a mentira. Era muito mais que isso. Era uma profecia.’

 

 

Jornal do Brasil

‘Império em decomposição’, Editorial, copyright Jornal do Brasil, 9/02/04

‘Em suas reuniões semanais, diretores das Organizações Globo têm consumido tempo, neurônios e cabelos na tentativa de encontrar saídas para o impasse teimosamente apontado por levantamentos promovidos pela própria empresa ou encomendados a institutos de pesquisas de opinião: por que a ampla maioria dos brasileiros demonstra tamanha antipatia pela marca famosa? Milhões de espectadores vêem a emissora de TV. Milhares de leitores compram jornais e revistas editados pela empresa. Outros tantos devem ouvir suas emissoras de rádio. Mas o povo não gosta da Globo. E vem reiterando nas pesquisas que não gosta sobretudo por não acreditar no que a Globo diz. Em matéria de credibilidade jornalística, a empresa sofre de anemia crônica.

Tais pesquisas contêm detalhes tão relevantes quanto desalentadores para os encarregados de buscar soluções. Mostram, por exemplo, que os brasileiros não conseguem esquecer episódios desastrosos protagonizados pela Globo. Os mais vividos lembram a obscura gestação da TV nos anos 60, e o parto patrocinado pelo grupo americano Time-Life, sem que houvesse explicações verossímeis para o acasalamento. Lembram que, nos anos 70, só jornais subservientes escaparam à censura imposta pela ditadura. Publicações como o Jornal do Brasil resistiram com altivez aos senhores da noite, e sofreram as habituais agressões desferidas pelos donos do poder. Já O Globo cumpriu ordens obedientemente, às vezes com animação, e se tornou o jornal preferido do governo autoritário.

Também os menos jovens recordam que, nos anos 80, a empresa tentou matar no nascedouro a campanha pela restauração das eleições diretas para a Presidência da República. O comício de 25 de janeiro de 1984, considerado o marco inicial da campanha, foi apresentado no noticiário do Jornal Nacional como ‘parte das solenidades comemorativas do aniversário de São Paulo’. O grupo decidiu mudar de lado só depois de constatar a popularidade irreversível da palavra de ordem ‘Diretas Já’. A essa altura, veículos com o logotipo odiado eram atacados nas ruas por multidões enfurecidas. ‘O povo não é bobo: abaixo a Rede Globo’, bradavam os manifestantes. Hoje, em espertas campanhas publicitárias motivadas pelas pesquisas mencionadas no início deste editorial, a TV tenta reinventar a História e convencer os brasileiros de que não foi bem assim. É tarde. Além do mais, agora como antes, o povo não é bobo.

Em 6 de setembro de 1987, num discurso em Aracaju, o então deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva incluiu ‘o grupo de seu Roberto Marinho’ (na definição do orador) entre os grandes males da vida nacional. ‘A Rede Globo mente vinte e quatro horas por dia’, afirmou o atual presidente da República. A frase continha um erro: pausas impostas no meio da madrugada por trabalhos de manutenção impedem que a emissora funcione ininterruptamente. Mas a retaliação viria com a campanha de 1989, quando Lula disputou a Presidência da República com Fernando Collor.

O clímax da vingança se materializou na versão, editada sob instruções da cúpula da empresa, do último debate entre Lula e Collor. Essa manipulação televisiva, hoje célebre, catalogada em todas as antologias das grandes torpezas jornalísticas ocorridas no Brasil, aparece de modo sistemático na lista das explicações para a má imagem da Globo. Paradoxalmente, entre os motivos da antipatia recorrente, também figura a vocação governista da empresa, acentuada pelo sistema de concessões de emissoras de TV e aguçada desmesuradamente por trapalhadas na condução dos negócios.

Os veículos do grupo têm sido a favor de todos os governos. Como apoiaram o regime militar, apóiam agora a administração de Lula, um homem que os diretores da Globo, a começar pelo fundador, sempre consideraram ‘limitado demais para exercer funções executivas importantes’. É um tipo de apoio lucrativo para ambas as partes. O governo tem ganhos políticos com o noticiário amistoso, indulgente, amigo. A empresa tem vantagens pecuniárias nada desprezíveis quando assume funções semelhantes à de uma Telebrás oficiosa.

Atropelando quaisquer ‘critérios técnicos’, os responsáveis pela distribuição das verbas publicitárias federais reservam às Organizações Globo fatias descaradamente superiores às dos concorrentes. E órgãos da área econômica federal abrem mais facilmente os cofres para empréstimos cuja premência é crescente. A Globo, insista-se, anda precisando de muito dinheiro, em quantias que se avultam e encurtam calendários. O grupo enfrenta um quadro evidente de insolvência econômico-financeira, desenhado pelos próprios balanços publicados periodicamente.

Um pedido de falência contra a empresa tramita na Corte de Nova York. Os credores estão perdendo a paciência. Quem apostou no sucesso genético começa a sentir muito medo. A trajetória das ações da Globopar configura um caso de naufrágio só comparável à aventura da TeleMontecarlo, o braço italiano da rede, amputado quando a gangrena ia longe. A Editora Globo é árvore que não dá frutos. Embora recorrendo à prática do dumping e a pressões quase criminosas contra os anunciantes, os jornais da Globo claudicam. O gigante envelhecido se apóia numa perna só: a TV Globo, ainda lucrativa, graças às novelas. Essa fonte dá sinais de esgotamento, e diminui a cada ano a chuva de verbas nas cabeceiras. Se tal rio secar, o Império caminhará para o fim.

Distantes da simpatia dos brasileiros, afundados em dívidas, enredados na teia de incompetências que eles próprios forjaram, os diretores da Globo têm sucumbido, com freqüência, à tentação dos disparos insensatos. Isso talvez explique a insistência na publicação de ‘notícias’ e ‘reportagens’ supostamente prejudiciais ao Jornal do Brasil. Os textos são invariavelmente manchados pela falsidade e sublinhados pela mesquinhez. A melhor resposta está no comportamento do público e dos anunciantes. Enquanto os veículos da Editora JB ganham musculatura, as ramificações da Globo seguem definhando.

Desde que o mundo existe, em todos os setores da atividade humana, impérios nascem e morrem. Mas só os derradeiros ocupantes do trono, com o drama já em seu epílogo, percebem que governavam, havia tempos, um universo em estado de decomposição. Sobram sinais de que a Globo percorre esse roteiro tristonho.

A frase cunhada nos anos 80, por multidões de democratas brasileiros que se manifestavam nas ruas, parecia apenas um grito de indignação contra a arrogância e a mentira. Era muito mais que isso. Era uma profecia.’

 

***

‘Nota de Repúdio’, copyright Jornal do Brasil, 8/02/04

‘O Jornal do Brasil registra e repudia, indignado, outra agressão praticada por um veículo das Organizações Globo contra todos os profissionais que aqui trabalham. A ofensa, desta vez, veio na forma de reportagem publicada na edição de ontem do matutino O Globo, assinada pelo repórter Gilberto Scofield e supostamente baseada numa decisão em primeira instância da Justiça do Trabalho. Esclarecemos que:

1. A reportagem distorce deliberadamente uma questão simples. Um ex-profissional do JB, dispensado por inépcia, vem tentando extorquir esta empresa com uma ação trabalhista cujo valor máximo não passará de R$ 40 mil, segundo cálculos de advogados especializados que merecem respeito. Fiel às instruções do escritório a serviço do profissional demitido, o repórter de O Globo, sempre empenhado na confecção de textos nocivos à imagem do Jornal do Brasil, elevou a quantia para R$ 120 mil.

2. O JB reafirma, desde sempre, que não cederá a tentativas de chantagem promovidas por advogados em busca da notoriedade fácil, assegurada por um tipo de jornalismo que garante espaço a qualquer charlatão. Tampouco negociará sob pressão, seja ela qual for, venha de onde vier. O JB pretende depositar a quantia em juízo e pedir a cassação da decisão, com a certeza de que obterá mais uma vitória judicial.

3. A quantia mencionada na reportagem, mesmo triplicada, é infinitamente inferior às que talvez expliquem o comportamento agressivo das Organizações Globo em relação ao JB. Já em situação de notória insolvência econômico-financeira, aquele grupo enfrenta no momento um pedido de falência compulsória requerida na Corte Federal de Nova York por um dos seus muitos credores. Valor da ação em curso nos Estados Unidos: US$ 120 milhões. Quantia, insista-se, extraordinariamente superior aos R$ 120 mil debitados ao JB na reportagem de O Globo.

4. Enquanto divulga inverdades, O Globo silencia sobre ocorrências como as que envolveram o indivíduo Marcelo Novaes, ator da TV Globo. No dia 29 de janeiro, esse elemento agrediu um fotógrafo do JB, que apenas cumpria tarefas profissionais e furtou equipamentos da vítima. Já foi aberto inquérito policial sobre o caso e vêm sendo examinadas as motivações do estranho comportamento do agressor.

5. Os itens acima mencionados resumem fatos que só contribuem para destruir a credibilidade do grupo fundado pelo digno empresário e jornalista Roberto Marinho. É também em respeito à sua memória que o JB publica estes esclarecimentos, destinados a seus leitores e aos do próprio O Globo.’

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