Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Guerra é ruim, mas sem repórter é pior – Parte 2

Por Paulo Velho de Azevedo Junior em 12/10/2009 na edição 559


6.6 O acidente


Para conhecer de perto a rotina dos soldados norte-americanos no front e acompanhar algumas de suas operações, José Hamilton se tornou um integrante da Companhia D (Delta), do 8o batalhão da 1a Divisão de Cavalaria Aeromóvel. Essa Companhia ficava alojada na Landing Zone Betty, que era a base norte-americana mais avançada na direção do Vietnã do Norte, localizada a cerca de 30 quilômetros da zona desmilitarizada, que separa um Vietnã do outro.


O dia 19 de março foi o quarto junto com a Companhia D e José Hamilton já estava decidido a voltar para Saigon, mas Shimamoto, seu fotógrafo, insistiu para que eles ficassem mais um dia. O motivo da insistência era justificado, já que no dia seguinte haveria duas operações bastante promissoras para fotografias. Pela manhã seria feita uma operação de reconhecimento e ‘limpeza’em uma aldeia da ‘Estrada sem Alegria’, que era sabidamente controlada pelos vietcongues. Na parte da tarde haveria um assalto aéreo sobre uma colina, no qual havia grande chance de ‘contato’ com o inimigo.


O fato de Shimamoto ainda não haver tirado nenhuma foto sua em ‘ação’ incomodava José Hamilton. Várias oportunidades tinham ocorrido, mas o fotógrafo sempre dizia que apareceria coisa melhor. Então, ainda no dia 19, o repórter mandou uma carta em tom de desabafo para a redação da revista Realidade em São Paulo, em que contava como estavam sendo os seus dias de ‘soldado’e terminava assim:


Para amanhã se prevê uma operação em aldeia… Para vir ao front contratei um fotógrafo japonês – Kêi Shimamoto -, indicado pelo Sr. Pelou, da Agência France Press de Saigon, como boa gente e bom profissional. Parece mesmo bom, só que o desgraçado, toda vez que peço para me fotografar com água pela cintura, ele diz No good! Acho que ele espera que uma bomba me mande para o cão, para só então achar uma boa foto (RIBEIRO, 2005, p. 15)!


No dia 20 de manhã, José Hamilton e Shima se atrasaram e quando chegaram ao campo de helicópteros a Companhia D já tinha partido. Para ‘sorte’ deles, conseguiram uma carona no helicóptero do coronel Frances, comandante da Divisão e que iria acompanhar o início da operação. Quando, às 8h45 começaram a sobrevoar o local onde os soldados estavam, perceberam que havia uma estranha movimentação entre eles. Logo descobriram o motivo: dois soldados que estavam ‘explorando’o terreno haviam detonado uma mina terrestre. Um tinha perdido os dois olhos e possivelmente ficaria com uma lesão cerebral, o outro tinha as duas pernas em frangalhos. Antes mesmo da operação começar a Companhia já contabilizava duas baixas.


Após um helicóptero ambulância ter resgatado os feridos, os soldados voltaram a marchar. O repórter e o fotógrafo, por orientação do comandante, caminhavam na posição mais segura do pelotão. José Hamilton era escoltado por Henry, um soldado de origem mexicana que tinha como missão mantê-lo protegido. ‘Eu seguia a mais ou menos 3 metros dele e pisava exatamente no lugar onde ele pisava, reforçando com a minha a sua pegada. Eu caminhava, pois, com segurança’ (RIBEIRO, 2005, p. 17).


Já eram 10h30 e a caminhada seguia tranquila.Os mercenários vietnamitas localizavam as minas, colocavam as placas de Danger e a Companhia marchava sem maiores percalços. José Hamilton comenta que o dia estava bonito, com céu azul, sol e uma leve brisa vinda do mar que deixava a temperatura bastante agradável. Mas, ‘quando tudo dá a sensação da mais completa paz, ouço uma explosão, seguida de gritos lancinantes entrecortados de choro. Foi na vanguarda, a uns 20 metros da minha posição’ (RIBEIRO, 2005, p. 19). Os soldados todos pararam em seus postos e ficaram em posição de fogo. Só se ouviam os gritos dos feridos. No entanto, não era ataque inimigo, e sim mais uma mina que tinha explodido.


Havia dois feridos e um deles estava morrendo. O pessoal do grupo em que José Hamilton estava começou a caminhar para perto do incidente, mas ele e seu soldado ‘protetor’ ficaram parados. Foi então que Henry sugeriu que eles também fossem ver os feridos, pois seria, segundo ele, uma oportunidade para tirar ótimas fotos. José Hamilton não gostou da idéia, mas o outro insistiu e eles acabaram indo.


Ele foi na frente, seguindo o mesmo caminho usado pelos enfermeiros. E eu fui atrás dele. Nem bem dei uns cinco passos quando o estrondo de uma explosão povoou inteiramente meus ouvidos. Um zumbido agudo e interminável brotava na minha cabeça. Uma nuvem negra de fumaça fez desaparecer tudo à roda e eu tive a impressão, nítida, de que a bomba explodira exatamente em cima do soldado Henry. Quando a fumaça se dissipou um pouco e eu ainda não via Henry, imaginei que ele tivesse sido projetado para longe e a essa hora já devia até estar morto. Ele apareceu na minha frente de repente, com o rosto transformado numa máscara de horror (RIBEIRO, 2005, p. 20).


José Hamilton ainda levou um tempo para entender o que tinha acontecido. Viu Shimamoto e perguntou como ele estava. O japonês se aproximou e tentou colocar um cigarro na boca do repórter, que não o aceitou. Foi então que ele começou a se dar conta do que estava acontecendo.


Sentia na boca um gosto ruim, como se tivesse engolido um punhado de terra, pólvora e sangue – hoje eu sei, era o gosto da guerra. Cuspia, cuspia, mas aquela gosma amarga permanecia na boca. Então senti um repuxão violento na perna esquerda e só aí tive consciência de que a coisa era comigo. A perna esquerda da calça tinha desaparecido e eu estava, naquele lado, só de cueca. O repuxão muscular aumentava e eu quase não me equilibrava sentado; rodopiava sobre mim mesmo em círculos e aos saltos. Olhei-me de novo: abaixo do joelho, na perna esquerda, só havia tiras de pele, banhadas de sangue, que repuxavam e se arregaçavam, fora do meu controle… Lembrei-me de partes de boi no matadouro quando, penduradas nos ganchos, continuam a tremer e a repuxar em movimentos elétricos. O seccionamento da perna fora no lugar onde terminava o cano da bota, essas botas compridas e resistentes que os soldados usam. A bota tinha saltado inteira, levando pé, canela, barriga da perna, osso, músculo, pele – nem sei se era a minha uma bota no chão, de pé, amarradinha, minando sangue (RIBEIRO, 2005, p. 20).


Shimamoto abraçou a cabeça de José Hamilton e chorando perguntava como aquilo podia ter acontecido. O repórter seguia com o gosto ruim na boca e ainda não sentia dor física, mas quando sentiu sangue correndo de sua testa entrou em desespero. Achou que tinha fraturado o crânio e que iria morrer. Passou a mão na cabeça e viu que não tinha fratura, no entanto o sangue que escorria em abundância de sua perna esquerda não lhe deixava ficar tranquilo.


Como os dois enfermeiros do pelotão ainda estavam cuidando dos feridos da mina anterior, Shimamoto e Henry ficaram dando ‘assistência moral’ ao repórter, já que mais do que isso não tinham condições de fazer. Apesar do esforço de seus companheiros, José Hamilton não conseguia pensar nem dizer outra coisa a não ser ‘vou morrer’. E o quadro se agravou quando o amargo da boca e o mal-estar aumentaram drasticamente, era a dor que havia chegado. ‘Começou aos pouquinhos e logo tomou conta de mim. Era asfixiante e total’ (RIBEIRO, 2005, p. 21).


Como os enfermeiros estavam tendo muito trabalho com os outros feridos (um deles havia perdido as duas pernas e os dois braços), o capitão Whitekind foi o primeiro que apareceu para ajudar. Sem equipamento médico algum, o capitão pegou um cinto e um graveto e improvisou um garrote para estancar o sangue. ‘Vi Shimamoto tomando distância para me fotografar, e tive raiva: o desgraçado disse que ia arranjar fotos dramáticas e arranjou mesmo’ (RIBEIRO, 2005, p. 22). Foi então que um dos enfermeiros, perdida a batalha para salvar o seu ferido, apareceu. Ele estava nervoso e custou até preparar a seringa de morfina para injetar no repórter. Mas finalmente conseguiu e injetou a dose de um golpe só na coxa direita de José Hamilton. A dor passou, no entanto o tal ‘gosto da guerra’ na boca ainda era o mesmo.


O helicóptero de resgate chegou e os feridos foram colocados dentro dele. José Hamilton sabia que dos três ele era o que estava em melhor estado. Um dos soldados estava morto, e o outro tinha perdido os dois braços e as duas pernas, mas tinha chance de sobreviver.


Foi até amena a viagem para o hospital. De bruços, eu não podia ver nem uma perna nem outra. O barulhinho do motor do helicóptero, o efeito da morfina e a brisa gostosa que me banhava o corpo criavam um efeito fantástico para aquilo tudo. Comecei a pensar que todas as idéias que me haviam passado pela cabeça, na Estrada sem Alegria, não correspondiam exatamente à verdade. Eu vi, de fato, uma bota com um pé dentro, minando sangue, mas quem garante que eram a minha bota e o meu pé? Fiz um reexame da situação. A perna direita estava lá, pois eu a percebera no contato com a maca. A esquerda também estava, ainda mais que eu sentia todos os dedos do pé esquerdo e até podia coçar um com os outros, e até roçá-los na outra perna. Os dois braços estavam intactos e a cabeça também; logo, aquilo não passava de um sonho ruim, um pesadelo besta. Quando tudo voltasse ao normal, eu havia de dar boas risadas por tão grande susto (RIBEIRO, 2005, p. 23).


No entanto, com a chegada ao hospital essa sensação agradável e esses pensamentos otimistas foram embora. O calor era muito forte e as dores pelo corpo voltaram. José Hamilton era acompanhado por um homem que falava sem parar. Era um padre, perguntando se ele queria se confessar. O repórter agradeceu, mas disse que não era católico. O homem insistiu, e então José Hamilton voltou a pensar que seu estado era crítico e que ele ia morrer.


O repórter acordou em um quarto, com o rosto limpo e barbeado, e o braço esquerdo enfaixado. Seu corpo estava coberto da cintura para baixo, e dois brasileiros estavam ao seu lado. Um deles era Rogério Corção, representante diplomático do Brasil no Vietnã e boa-praça, segundo o repórter. O outro era Luis Edgard de Andrade, jornalista carioca e amigo de José Hamilton. O jornalista pediu uma entrevista a José Hamilton, e perguntou o que ele achava de ter perdido a perna esquerda. A resposta veio em tom de ironia: ‘Quando eu tinha dez anos, andei quase um ano de muleta por causa de uma espécie de tuberculose óssea nessa perna. Nunca mais ela acertou o passo, e era até mais fina que a outra. Acho que ela já foi tarde…’ (RIBEIRO, 2005, p. 24).


6.7 A vida no hospital


Quando o helicóptero de resgate lhe deixou no 22o Hospital de Cirurgia, José Hamilton pensava que o incidente na ‘Estrada sem Alegria’ tinha sido apenas um pesadelo, um ‘grande susto’. No entanto, não demorou muito para ele ter a real noção do que de fato havia acontecido com o seu corpo e de que forma aquilo afetaria os seus estados físico e psicológico.


A subvalorização do que me tinha acontecido e mesmo a imprevisão dos dias que me esperavam – seriam os 15 dias mais dolorosos e infelizes da minha vida – iam ser-me explicadas algum tempo depois por um médico, ainda no Vietnã. Quando o corpo humano perde abruptamente uma de suas partes – disse ele – , as glândulas supra-renais, ‘mal-informadas’ do que aconteceu, registram o déficit orgânico, atribuem-no a alguma crise passageira e passam a trabalhar em regime de safra açucareira para compensar, com uma superprodução de seus hormônios, a engrenagem do corpo que está em deficiência. Essa produção excessiva de adrenalina, acrescida do efeito da morfina e de outros psicotrópicos usados para mascarar a dor, leva a um estado de falsa euforia, e dura até o momento em que as supra-renais, conformadas com a nova situação, desistem de compensar o déficit orgânico e voltam à sua produção normal. Aí, então, a parada é dura, pois mesmo a morfina não fará mais efeito como nos primeiros dias, além de atrapalhar o estômago e provocar vômitos e tontura. Entra a fase de depressão profunda, a fase em que a felicidade pode ser claramente definida: felicidade é a capacidade não sentir dor e de poder tomar duas colheres de sopa! (RIBEIRO, 2005, p. 24).


O 22o de Cirurgia era um hospital somente de primeiros socorros. Nele, o repórter foi submetido a uma operação cujo objetivo era apenas anti-séptico e de diagnóstico. No dia seguinte, 22 de março, é que José Hamilton seria transferido para o hospital da base de Nha Trang, onde o tratamento de verdade teria início. O fato de ter que passar por várias cirurgias não era motivo de preocupação, já que os cirurgiões que vão para o Vietnã ‘são recrutados entre os melhores médicos – civis – dos Estados Unidos’ (RIBEIRO, 2005, p. 25).


No dia 26 de março foi realizada a terceira operação. Seis dias depois do acidente e José Hamilton ainda não conseguia engolir mais do que alguns goles de leite por dia. O trinômio formado por: dor, náusea e morfina, continuava a lhe perseguir. Já no décimo dia de hospital, com o tratamento mostrando uma boa evolução e as dores diminuindo, a impossibilidade de comer continuava a ser um drama.


Logo fico sabendo a razão de tanto progresso no meu estado. A operação de ontem foi para suturar as feridas e para retirar as rodelas de ferro que faziam a tração na perna. Agora, com a lesão protegida, sem sangue na cama e sem o peso, tudo melhora muito. Mas continuo não conseguindo nem olhar para a bandeja de comida, a náusea persiste, insiste, resiste (RIBEIRO, 2005, p. 77).


Além das dores físicas e da falta de apetite que lhe incomodavam, José Hamilton também sofreu muito com a angústia e a monotonia nesses dias em que ficou preso a uma cama de hospital. ‘Estou frustrado, vencido, entregue à mais profunda amargura. Os piores pensamentos me vêm à mente – por que a bomba não pegou o Henry em vez de me pegar’ (RIBEIRO, 2005, p. 63). Se Henry era um soldado, que de repente até já tinha desgraçado algum vietcongue e que vai ver até merecia sofrer, por que o repórter e não ele? E Shimamoto, por que não ele? ‘Ele está há dois anos no Vietnã, vai ver que foi para lá em virtude de alguma desilusão, algum desengano, e esteja procurando uma forma de suicídio – por que então eu, e não ele? (Ribeiro, p. 64). E o próprio capitão Whitekind, por que não ele? ‘Será que o vietcongue se dá ao trabalho de fazer uma bomba para pegar justo um coitado dum jornalista brasileiro? O Whitekind é que devia ter ido pelos ares…’ (RIBEIRO, 2005, p. 64).


O capitão Whitekind explicou a José Hamilton que, antes dele, sete pessoas tinham passado no mesmo lugar. O fato de a mina ter estourado justo quando o repórter pisou nela, talvez se devesse ao fato de seu peso ser maior que o dos soldados.


Quando se dá conta da canalhice dos seus pensamentos, José Hamilton fica ainda mais angustiado. Não era apenas a sua perna que estava infectada, mas também a sua mente.


Caio na mais torturante amargura e pequenez, quando chega um gordo, homem dos seus 50 anos, uniforme de major, e quer puxar conversa comigo. Em inglês. Fico a ponto de mandá-lo à merda. Mas o homem é paciente, insiste, diz que há vários dias queria falar comigo mas não tinha tempo. Hoje tem, vamos falar, conversar à toa, xingar uns, elogiar outros, puxar angústia (RIBEIRO, 2005, p. 64).


O homem era padre católico, major capelão. O repórter não fica muito animado, mas o outro é jeitoso e persistente e acaba quebrando a resistência do interlocutor. O padre quer saber como José Hamilton está passando, se tem recebido notícias de casa, se o médico é simpático, como é a comida etc. ‘Resolvo abrir as baterias e começo a xingar – xingo o hospital, os enfermeiros, o vietcongue, as minas, a mim próprio, a solidão, o abandono, a guerra, o mundo todo’ (RIBEIRO, 2005, p. 64). Entusiasmado com o próprio desabafo, o repórter não se contém e começa a chorar sem parar. Depois de algum tempo, ele faz força para segurar o choro. O padre fala mais um pouco e vai embora prometendo voltar no dia seguinte para conversarem mais. ‘Mas é só o padre sair, puxo o lençol sobre a cabeça e, mergulhado na mais profunda tristeza, choro, choro alto, suspiro alto, não ligo para as lágrimas que descem pelo nariz. Choro até cansar, até me considerar parcialmente remido de tanta fraqueza e maldade’ (RIBEIRO, 2005, p. 64).


José Hamilton chegou a se perguntar se tinha valido a pena ter ido para o Vietnã. Afinal de contas, depois de todas as aventuras, facilidades e dificuldades que teve como correspondente de guerra, o saldo foi uma cama de hospital, cercado por gente estranha em um país estranho. ‘Apesar da tristeza toda de agora, ainda não consigo aceitar a idéia de estar arrependido. Não estou arrependido, não. Foi uma fatalidade, é só’ (RIBEIRO, 2005, p. 47).


A televisão do hospital, passando humorísticos idiotas e filmes de violência, não despertava o interesse de José Hamilton. O cigarro, além de não ter gosto, lhe provocava tontura. Desse modo, o repórter arranjou uma forma de vencer a monotonia que se enquadrava às suas circunstâncias: montar a seleção dos ‘Dez mais desgraçados do hospital’.


O seu ex-companheiro de Companhia D, cuja explosão na mina provocou o acidente do repórter (a bomba estourou em José Hamilton no momento em que estava indo fotografá-lo) era um forte candidato. ‘Sem as duas pernas e, dos braços, só com um pedaço do direito, ele está sempre coberto, estranhamente pequeno e resignado. Ainda não surpreendi nele um gesto, uma reclamação, nem mesmo uma lágrima nos olhos sempre abertos’ (RIBEIRO, 2005, p. 36).


Um marine norte-americano também tinha uma vaga entre os selecionados. ‘Com fratura de crânio, passa as 24 horas do dia amarrado pela cabeça sem poder se mexer. Só move os olhos’ (RIBEIRO, 2005, p. 36). Havia um outro norte-americano, cujo apelido era Robô. Ele passava o dia empurrando um carrinho, com tampa de vidro, onde seu sangue borbulhava. Sua barriga é conectada ao carrinho por um compartimento de plástico transparente, é um pulmão artificial. Um enfermeiro fica observando para ver se tudo está funcionando corretamente, e outro o acompanha com dois tubos de sonda. Segundo o repórter, o olhar do Robô não é o de um ser humano.


Mas a figura mais dramática do hospital é um montagnard, vietnamita das montanhas. Baixinho, os pijamas americanos do hospital lhe caem mal; lembra tragicamente um espantalho de arrozal. Uma vez por dia empurram-no pelo corredor, para fazer exercício: é um espetáculo macabro. Uma perna está mais comprida que outra e ele saltita perigosamente, ameaçando cair. Os braços estão escondidos sob uma volumosa bandagem e tem-se a impressão de que foram decepados pela metade. Não pode usar camisa. Da cintura para cima, inclusive a cabeça, sua pele é tostada e quebradiça. É vermelho da cor do tomate e não tem cabelos (RIBEIRO, 2005, p. 36-37).


O médico explica que o homem é mais uma vítima do napalm. E o curioso é que esse ‘boneco’, desgraçado como estava, sempre passava pela cama de José Hamilton saltitando e sorrindo.


Outro membro da ‘seleção’era o menino Van-Thanh, mascote do hospital. Ele tem apenas seis anos, sua perna está engessada e não pode se movimentar sozinho. Todos na enfermaria, médicos e feridos, fazem de tudo para o menino se sentir bem, brincar, rir. Ele tem um bom gênio, mas de vez em quando cai num choro que dura horas sem fim e ninguém consegue consolá-lo. Os seus pais e irmãos morreram na guerra.


Mas José Hamilton acaba desistindo da lista de desgraçados. ‘Como é que eu posso saber quem é que sofre mais? Tem dosagem a dor humana? Talvez o soldado que lança, por obrigação militar, a bomba de napalm sobre uma casa acabe sofrendo mais, do que as próprias vítimas da bomba’ (RIBEIRO, 2005, p. 37).


Mesmo estando em uma situação dolorosa e desconfortável, nem tudo era tragédia na vida de paciente do repórter. Havia no hospital três enfermeiras norte-americanas que lhe tratavam muito bem. A tenente Roy, segundo ele, boazinha, mas feinha, era a mais sensibilizada com a sua dificuldade para comer. Ela era a mais popular entre as enfermeiras. Natassarin era alta, loira, magra e imponente no seu uniforme militar. Apesar disso, tinha um rosto lindo de criança e um jeito de moça desprotegida e indefesa.


Mas a que José Hamilton mais se afeiçoou foi Mary. Menos exuberante que Natassarin, Mary também era bonita. Certo dia, com ciúmes por ela não ter ido a sua cama, o repórter pediu para um dos enfermeiros chamá-la. O rapaz não sabia de quem se tratava. Quando José Hamilton apontou para um dos cantos da enfermaria, onde supostamente a moça estava, o enfermeiro não conteve a gargalhada, pois ali se encontrava apenas o capitão Williams. O repórter ficou envergonhado. ‘Se eu fosse solteiro talvez até já estivesse, àquela altura, inteiramente apaixonado por Mary. E teria de admitir que, no Vietnã, acontecem mesmo coisas estranhas, como essa de cair de amores por um capitão do Exército americano’ (RIBEIRO, 2005, p. 78).


Mas não é apenas o carinho das enfermeiras que serve de alento para o repórter. A iniciativa do major-capelão de descobrir quem eram os médicos do hospital que falavam espanhol e francês, e de levá-los para conversar com José Hamilton, se mostrou muito útil. Além das visitas servirem para distraí-lo, alguns dos médicos lhe passavam dados interessantes sobre o funcionamento do serviço de saúde do Exército norte-americano. O Dr. Allende, que aparecia todo dia para conversar lhe contou: ‘Fora os médicos e enfermeiros de cada batalhão e cada companhia, há 16 hospitais americanos no Vietnã. Este em que estamos é médio, faz de duzentas a quatrocentas operações por mês. Há menores, e os maiores chegam a oitocentas intervenções mensais’ (RIBEIRO, 2005, p. 85).


No mesmo dia em que passou pela sua terceira intervenção cirúrgica, José Hamilton foi visitado pelo diplomata Corção. O visitante levou laranjas e contou que o pessoal da redação da revista Realidade já tinha mandado mais de dez telegramas de solidariedade e incentivo. Além disso, entregou para José Hamilton um curto telegrama que havia chegado a ele na hora em que ia saindo para o hospital. Era do pessoal da Folha de S. Paulo, que manifestava solidariedade ao colega que havia se transformado em ‘símbolo da imprensa brasileira’.


Esse telegrama, assim tão frio e, visto a distância, tão simples, fez mais para o meu estado do que os oito litros de sangue que tomei até agora. Deu-me certeza de que algumas pessoas, realmente, se interessam pela minha vida, lá no Brasil. Estes seis dias de solidão aqui no hospital estavam me levando a duvidar de muita coisa. Agora não; não estou abandonado, não estou só, não tenho razão para dúvida. Quero viver! Armo-me de coragem, peço papel e lápis e respondo ao telegrama, com uma dificuldade desgraçada para desenhar as palavras: ‘Nhá Trang, 31 de março de 1968. – Gil e corporação da FOLHA. Após cinco operações em 11 dias, quando eu não sabia se estava indo ou voltando da cirurgia toda vez que empurravam minha cama, houve um momento em que fiquei a refletir: se eu sair dessa, vale a pena continuar vivendo de jornalismo? Foi nesse momento, Gil, e por estranha confusão de correspondência, que recebi o telegrama de vocês – a única coisa que me chegou diretamente às mãos no hospital, desde a bomba. Não sabia, ainda, se poderia viver; sabia, porém, que se pudesse, viveria; valia a pena! Hoje me parece, Gil, às vésperas da definitiva operação na perna amputada (a outra macerou-se; o braço esquerdo tem duas grandes lesões; uma ou outra ferida pinta a barriga), que viverei. Sinto brotarem forças! Obrigado a vocês, obrigado a você, Gil Papá! José Hamilton’ (Ribeiro, 2005, p. 53-54).


José Hamilton aproveitou a bondade de Corção, e mandou telegramas para casa, para os amigos e para a revista. Pensou em mandar um telegrama para Badaúcha, sua filhinha de dois anos, mas se deu conta que ela ainda era muito nova para entender o seu significado. Ficou então imaginando o trabalho que o pessoal em casa estava passando para explicar para a menina porque o pai estava demorando tanto para ‘voltar do trabalho’.


No dia 31 de março, o cozinheiro do hospital foi pessoalmente levar o café de manhã para José Hamilton. O homem havia preparado, a pedido da enfermeira Roy, apenas ovos cozidos com sal, meia dúzia deles. O repórter consegue comer dois ovos, e isso lhe deixa bastante animado. ‘Peço depois um café preto e fumo em seguida o melhor cigarro desde que estou aqui. Que gostosura! Sinto que, finalmente, estou começando a viver de novo’ (RIBEIRO, 2005, p. 81). O cozinheiro promete levar mais ovos na hora do almoço. Depois desse grande sinal de melhora, o repórter ainda recebeu, nesse mesmo dia, a visita do médico. O doutor lhe disse que no dia seguinte um exame completo seria feito, e que se as lesões estivessem boas, em dois dias José Hamilton poderia pegar o avião para os Estados Unidos.


Na manhã seguinte o enfermeiro Bill, que já tinha se tornado amigo do repórter, chega e lhe coloca um pijama. Até então José Hamilton ficava sem roupas, apenas coberto por lençóis. Feito isso, Bill some e logo depois reaparece trazendo uma cadeira de rodas. O enfermeiro ajeita o paciente no carrinho e os dois saem a passear pela enfermaria. ‘Quero ver de perto, um a um, todos com quem troquei olhares e acenos esses dias todos. Como é emocionante voltar a poder movimentar-me! Sinto que, desta, já escapei’ (RIBEIRO, 2005, p. 83).


À tarde o médico chega para fazer o exame. O procedimento é doloroso e longo, e o resultado não é nada animador. O doutor diz que a área exposta ainda não estava toda recoberta pela pele, e que talvez fosse necessário fazer outra cirurgia no dia seguinte. O mundo caiu novamente para José Hamilton. ‘Outra cirurgia? Isso quer dizer mais uns dez dias pelo menos, e eu não vou resistir. Não agüento mais. Para coroar a desgraça, voltam as dores, vem com elas a morfina, e até a náusea volta…’ (RIBEIRO, 2005, p. 83). O dia que tinha começado tão bem, terminava desse jeito. Por ironia, tudo isso aconteceu em um primeiro de abril.


Mas a coisa não era tão dramática quanto estava parecendo ser. No dia 2 o médico cheira a perna e diz que o cheiro está bom. Se despede dizendo que no dia seguinte fariam um exame mais demorado. No dia 3, o Dr. Allende leva José Hamilton, de cadeira de rodas, para uma volta do lado de fora do hospital. No retorno do passeio, o ‘oficial de informações’ do hospital pergunta se o repórter não se importava de ser fotografado. José Hamilton concorda, e logo chega o fotógrafo. Ele queria que José Hamilton posasse com uma cara otimista, fazendo sinal de Ok e, de preferência, sorrindo. ‘Deixo o sorriso, nego o gesto e o soldado-fotógrafo faz lá a sua chapa, agradece e vai embora'(Ribeiro, p. 90).


O fotógrafo sai e o médico chega. Ele cheira a perna e começa a arrancar as bandagens e a gaze. Esse procedimento é feito de forma abrupta e sem muito cuidado, o que causa bastante dor e irrita profundamente José Hamilton. No fim, ele se dá conta de que aquilo faz parte da guerra e se conforma.


Tiradas as bandagens, o médico faz os testes de apalpação no coto. Terminado o processo, ele se vira para José Hamilton e sorrindo lhe comunica que sua passagem para o voo do dia seguinte está garantida.


Se eu não estivesse tão dolorido e com tanta desconfiança da minha magreza eu pulava da cama e saía saltitando que nem saci, para comemorar. Finalmente! Agora vou para os Estados Unidos e lá tudo tem se ser melhor, pois, de qualquer maneira, os EUA não são bobos de fazer guerra… em sua casa (RIBEIRO, 2005, p. 91).


Dois dias depois, após ter feito uma escala em Tóquio, José Hamilton chegou a Chicago. Na cidade norte-americana, ele finalizaria o seu tratamento e faria os procedimentos preparatórios para a colocação de uma perna mecânica. Mas não era só a parte clínica que havia melhorado. ‘Parte da minha família está aqui e a sensação de abandono que experimentei nos hospitais do Vietnã não me acompanha mais. Tenho muita confiança de que vou melhorar e de que vou poder continuar ganhando a vida com o meu trabalho’ (RIBEIRO, 2005, p. 97).


6.8 A participação norte-americana


José Hamilton ficou chocado ao descobrir que os Estados Unidos gastavam, por ano, na Guerra do Vietnã, 30 bilhões de dólares. Na época, final da década de 1960, esse valor representava mais de nove vezes o orçamento anual do Brasil e era suficiente para construir noventa cidades como Brasília. O repórter então se perguntou o que se conseguia fazer com toda essa fortuna no Vietnã: ‘Queimar crianças com napalm? Destruir pontes de bambu? Matar elefantes? Desfolhar florestas? Salvar o mundo livre das guerras odientas do satanás vermelho? Ampliar mercado para a General Motors e a Sears?’ (RIBEIRO, 2005, p. 52).


Após fazer alguns cálculos, José Hamilton percebeu que os norte-americanos não tinham chance de vencer o conflito. A conta era simples: havia 2 milhões e meio de soldados lutando ao lado dos EUA no Vietnã do Sul (esse número inclui o exército e as polícias do Vietnã do Sul, com 1,5 milhão de homens; os exércitos de Tailândia, Formosa, Coréia do Sul, Filipinas e Austrália, com 400 mil soldados ao todo; mais o contingente americano, que era formado por 600 mil homens), contra uma população adulta, masculina, de 4 milhões e meio de sul-vietnamitas.


Isto é, há mais de um soldado ‘aliado’ para cada dois vietnamitas desarmados, famintos, preocupados em arranjar comida para os filhos. Se nem assim, com essa relação fantástica e absurda de soldados para civis, os Estados Unidos ganharam ainda a guerra, é porque nunca mais vão ganha-la. Go home, rápido! (RIBEIRO, 2005, p. 51).


Certo dia, durante o período em que estava se recuperando no hospital, José Hamilton observava os outros feridos ao seu redor e pensava sobre a estupidez da guerra e da necessidade de terminar com ela o quanto antes possível. Começou então a lembrar de alguns absurdos cometidos pelos norte-americanos e que haviam sido divulgados.


Um jornalista australiano, chamado Wilfred Burchet, citava um ataque aéreo dos EUA, em uma região do Vietnã do Norte, no qual se despejou uma bomba para cada sete pessoas. Um historiador americano, Arthur Schlesinger Jr., relatou que, por mês, no Vietnã, os EUA lançavam mais tonelagem de explosivos do que despejaram mensalmente, durante a Segunda Guerra Mundial, em toda África e Europa. Neil Shechan, jornalista do The New York Times, estudou os bombardeios indiscriminados de aldeias no Vietnã e chegou à conclusão de que vários deles ocorriam por dois motivos: as autoridades do Vietnã do Sul os solicitavam com a intenção de ‘mostrar serviço’; os Estados Unidos tinham bombas e aviões demais e precisavam usá-los.


Certa vez, pilotos norte-americanos descobriram que em uma ilha próxima a Hanói havia uma bateria anti-aérea que volta e meia disparava contra eles. Foi realizado um bombardeio de tal proporção na ilha, que ela afundou submergiu por inteiro. Pessoas, animais, plantas, tudo o que estava em cima, foi para no fundo do oceano. ‘E todos gostam de citar, por aqui, as barbaridades e violência do vietcongue, quer contra americanos, quer contra sul-vietnamitas’ (RIBEIRO, 2005, p. 38).


Conversando com os soldados da Landing Zone Betty a respeito da guerra, José Hamilton descobriu a opinião de alguns deles sobre a participação norte-americana no conflito. Jeremias, que havia sido um grande combatente, mas que após ser atingido por um tiro se tornou ajudante de cozinha, usava uma simples frase para explicar a sua presença no Vietnã: ‘Prefiro brigar com os comunistas aqui do que esperar para lutar com eles no quintal da minha casa’ (apud RIBEIRO, 2005, p. 9). O atirador de helicóptero Carlson, achava que se os norte-americanos pudessem já teriam voltado para casa. A sua explicação para ainda não terem voltado, era que os EUA agora tinham que ir até o fim, já que não poderiam deixar pela metade as suas ‘tarefas mundiais’.


José Hamilton usa a própria história dos EUA para explicar a dificuldade que os norte-americanos estavam enfrentando para vencer os vietcongues:


Bertrand Russel, o extraordinário velhinho inglês, escreveu que a resistência do vietnamita à força armada da maior potência do mundo para conseguir sua libertação só tem um paralelo na História. Foi no século XVIII, quando um povo pobre fez guerra com a maior potência de então – a Inglaterra – e a venceu; foi o povo americano, na luta pela independência (RIBEIRO, 2005, p. 50).


6.9 As religiões vietnamitas


Do ano de sua ‘independência’ (1954) até o período em que José Hamilton esteve lá, em 1968, ‘o Vietnã do Sul já teve um governo marcadamente católico – o de Diem -, um outro secretamente católico, do general Khan, um terceiro indicado por uma seita religiosa (a seita Cao Dai), e nenhum governo que se declarasse efetivamente budista’ (RIBEIRO, 2005, p. 65).


Os católicos representam 10% da população do Vietnã, e durante a guerra eles atuaram ao lado dos norte-americanos. Essa ligação começou no período em que Ngo Dinh Diem, católico fervoroso, protegido e afilhado do cardeal Spellman, de Nova York, governava o país.


Já a posição política dos budistas, que representam cerca de 80% da população, não é homogênea e nem definida. Mas se analisarmos o funcionamento do budismo vietnamita, isso se explica. Cada pagode possui o seu venerável, seus monges, bonzos, fiéis e estudantes. E como entre os pagodes não há nenhuma ligação fundamental, frequentemente acontece de a orientação política de um ser totalmente oposta a de outro, ao passo que um terceiro pagode pode não ter nenhum interesse por política. Além do mais, um venerável é tão venerável quanto outro. Desse modo, se um venerável diz aos seus fiéis que os budistas devem combater os comunistas, nada impede que outro faça uma pregação dizendo que todos os estrangeiros devem ser expulsos do país. Essa variedade de posições das lideranças faz com que os budistas vietnamitas fiquem sem saber para que lado ir.


Quando, eventualmente, os veneráveis se unem – e isso pelo jeito só acontece por acaso -, então sua capacidade de impressionar o povo e de promover movimentos de massa é grande. Viu-se o poder do budismo no Vietnã pelo impacto que ele causou na luta contra Diem, quando se promoveu o sacrifício pelo fogo de muitos dos seus bonzos. A força de destruição foi grande, mas não houve correspondência de uma força política de construção suficientemente organizada para que pudesse, a partir da queda de Diem, construir um governo abertamente budista. Seu poderio político é, assim, difuso e aleatório, e é constantemente assediado pelos dois lados da guerra – a FLN e os EUA (RIBEIRO, 2005, p. 66).


Para o vietnamita, a idéia de religião é muito mais ligada ao culto aos antepassados, do que a uma linha de divindade única. José Hamilton visitou um pagode em Bien Hoa, subúrbio de Saigon, que ilustra bem a riqueza e o sincretismo da espiritualidade do povo. O deus do templo era um general, e os rituais praticados pelos fiéis misturavam cultos hindus e chineses extraídos de religiões que ao longo dos anos tiveram alguma influência sobre os vietnamitas


As seitas religiosas são outra tradição local. Elas nascem geralmente da cabeça de um visionário, um profeta, ou de um grupo de fiéis desgostosos com as opções espirituais existentes na praça. A principal característica dessas seitas, bastante enfraquecidas no período em que José Hamilton esteve no país, é que elas possuem exército próprio. Isso fez com que vários governos do Vietnã do Sul tivessem de travar duras batalhas armadas para dominá-las. As mais famosas são a dos Hoa-Hao e a dos Cao-Dai.


A Hoa-Hao é chamada assim por ter surgido na aldeia que leva o mesmo nome. ‘Seu criador foi um visionário impressionante, de grande poder de persuasão, e que dizia poder entender-se com os mortos; um espiritismo vietnamita. O apóstolo fundador da Hoa-Hao era conhecido como o ‘bonzo louco’’ (RIBEIRO, 2005, p. 70).


Já a seita Cao-Dai faz uma mix religioso, misturando elementos do confucionismo, do budismo e do culto aos antepassados. Para se ter idéia do tamanho dessa mistura, o escritor francês Victor Hugo é um dos santos da seita.


As seitas tiveram participação direta nos movimentos de resistência do país. ‘Logo após a independência do Vietnã, os exércitos dos Hoa-Hao e dos Cão-Dai estavam organizados e foi a violência do governo de Diem contra eles que iniciou a era de opressão no país, vindo em sua seqüência, logo depois, as guerrilhas vietcongues’ (RIBEIRO, 2005, p. 70).


6.10 As mulheres da guerra


A situação da mulher na sociedade vietnamita foi profundamente alterada pela Guerra do Vietnã. Muitas se envolveram diretamente com a Frente de Libertação Nacional e tiveram um papel fundamental dentro da estratégia de guerrilha vietcongue. Outras acabaram se rendendo ao dinheiro fácil dos soldados estrangeiros e se tornaram prostitutas.


Segundo Fernand Gigon, um escritor suíço citado por José Hamilton, o governo dos EUA mantinha um minucioso fichário que tinha listado todo o pessoal vietnamita que trabalhava para ele. No item que se referia às moças, a informação era a seguinte: a cada dez moças que trabalham para os norte-americanos, oito fazem programas à noite. A prostituição havia se tornado um negócio lucrativo. ‘Em Saigon, os únicos mercadores que concorrem com os agentes de contrabando e do furto de material americano são os gigolôs. Chegam a oferecer meninas – 50 dólares por uma virgem’ (RIBEIRO, 2005, p. 55).


O assédio às mulheres vietnamitas, famosas por sua beleza, vinha desde o tempo em que a guerra era contra os franceses. No entanto, os soldados da França não encaravam a situação da mesma forma que os norte-americanos. ‘Pão-duro por natureza, o francês queria o amor de graça e então, pelo menos, fazia romance e semeava ilusões. Um funcionário francês não se considerava em dia com a terra enquanto não pudesse circular com a sua petite tonquinoise‘ (RIBEIRO, 2005, p. 72). Além do mais, para os soldados a França e o Vietnã eram um só país, desse modo eles chegavam ao Vietnã certos de que poderiam passar o resto da vida ali.


Mas com os norte-americanos tudo mudou. O soldado ianque chega ao Vietnã sabendo que sua estada por lá será de um ano, e que a presença dos EUA no país é de caráter provisório. A mulher vietnamita e o soldado norte-americano não possuem nenhum ponto em comum. Idioma, costumes, gostos, tudo é diferente entre eles. ‘Pragmático, o americano não quer perder tempo com fazer a corte, iniciar romance, visitar a família. Ele quer uma noite de amor, tem bastante dinheiro para comprá-la, e isso é tudo’ (RIBEIRO, 2005, p. 72). Fora isso, o retrato da namorada ou da noiva que está lhe esperando em Los Angeles ou Chicago, está sempre por perto.


No seio da família tradicional do Vietnã, a mulher ocupa uma posição bastante secundária e obscura. As solteiras são mandadas pelo pai, e as casadas são mandadas pelo marido. Mas com a guerra, essa situação sofreu algumas alterações. Afora o caminho da prostituição, o conflito abriu novas perspectivas para as mulheres. De um lado, havia a possibilidade de conseguir empregos rendosos junto aos norte-americanos, e tudo que isso implicava. De outro, o chamado para se juntar à guerrilha vietcongue, que acenava com uma ilimitada participação da mulher na direção do país, o que mexeu com a cabeça da juventude feminina.


Um soldado sul-vietnamita contou para José Hamilton que, durante uma operação, havia travado uma luta corporal contra um guerrilheiro bastante feroz. Quando pôde ver o seu rosto levou um choque, pois seu adversário era uma linda moça. ‘A Frente de Libertação Nacional insiste sempre que as tarefas revolucionárias do povo vietnamita são as mesmas para os homens e para as mulheres. E que a revolução nunca há de completar sem a participação efetiva do elemento feminino’ (RIBEIRO, 2005, p. 73).


No entanto, mais do que na linha de frente, é no trabalho de retaguarda e de propaganda que a mulher vietcongue é fundamental. Seu trabalho envolvia tarefas como: produção de armadilhas, cavernas para esconder armas e alimentação, obstáculos na estrada e fossos; levar alimentos aos combatentes; produção de bombas caseiras. Nas ‘zonas libertadas’ as mulheres eram usadas para o trabalho de defesa das aldeias e em mais duas atividades: assistência médica e educação de adultos. A assistência médica funciona para os primeiros socorros, em caso de ataques com muito feridos, e em tempos de paz, a ‘especialista’ em medicina, que geralmente não é médica, distribui remédios comuns, que podem ser comprados em bares, quando tem, ou dá apenas uma assistência moral para a população. A educação de adultos implica em ensinar a contar e a ler, e o mais importante, a guerrear ‘contra o imperialismo e os seus fantoches’.


Outro papel exercido de forma genial pelas mulheres vietnamitas é o de fofoqueiras. Quando um rico proprietário de terras, ou um funcionário do governo aparecem mortos, normalmente se presume que tenham sido executados pelo vietcongue. Se o homem era benquisto pela aldeia, a tendência é que as pessoas se voltem contra o vietcongue. Aí é que começa o trabalho das mulheres. Devidamente informadas dos motivos pelos quais o homem foi julgado e condenado à morte, elas se dirigem aos locais de grande concentração feminina e começam a puxar assunto: ‘Vocês viram o Sr. Lin? Coitado, não? Mas desde que eu soube que ele tinha entregado aos americanos o seu próprio irmão, um mocinho que estava nas guerrilhas, eu já esperava isso: esse negócio de traição o vietcongue não perdoa mesmo…’ (RIBEIRO, 2005, p. 74). E logo chega outra guerrilheira para colocar mais lenha na fogueira. Como quem não quer nada ela comenta que o tal Sr. Lin recebia dinheiro dos norte-americanos para delatar os compatriotas que falavam mal dos Estados Unidos. E assim a coisa vai, até que no fim do dia todas as pessoas do mercado já estão convencidas de que o homem devia mesmo ter morrido.


Quando o exército vietcongue está na iminência de atacar a guarnição de alguma aldeia, as fofoqueiras também entram em ação. Se os vietcongues vão atacar com poucos recursos, e a batalha provavelmente será muito dura para eles, as mulheres dão um jeito de levar aos soldados sul-vietnamitas a informação de que a guerrilha está muito bem armada e que atacará com mais de mil homens. Agora, se os vietcongues estão realmente bem municiados, e com bastante guerrilheiros para atacar, as mulheres espalham o boato de que são apenas meia dúzia de meninos desnutridos, cuja arma mais potente é uma espingarda de matar passarinho.


‘O papel das fofoqueiras é deixar bem claro três coisas: o vietcongue é organizado, sabe de tudo e tem força para executar o que decidir; ele é implacável, mas é justo; atrás de cada um de seus atos existem mil razões; cuidado: ele não tolera traição’ (RIBEIRO, 2005, p. 74).


O vietcongue revolucionou o papel da mulher em tudo, menos em um aspecto, o moralismo. Nesse ponto, os costumes tradidionais do Vietnã foram mantidos. As mulheres precisam ter um nome e um passado limpos para poderem participar da organização feminina do vietcongue. As que tinham trabalhado como prostitutas, por exemplo, precisavam ser regeneradas para se tornarem combatentes. E qualquer guerrilheiro ou membro da Frente, que fosse acusado de ter menosprezado ou abusado moças ou mulheres, recebia uma severa punição. A Frente usava essa atitude moralista em sua propaganda, principalmente para difamar os soldados e líderes inimigos, que geraram muitos filhos de pais desconhecidos durante a guerra.


Um vietnamita, certo dia comentou com José Hamilton durante um almoço:




A mulher vietnamita não tem mais a o benefício da neutralidade. Tem de escolher um desses caminhos: de um lado, a vida dura com o vc, de outro a vida fácil com os americanos. E a mulher vietnamita tem tradição de bravura e, por certo, não há de escolher a vida fácil (RIBEIRO, 2005, p. 76).


6.11 A volta décadas depois


No ano de 1995, quase três décadas depois de ter ido ao Vietnã para cobrir a Guerra, José Hamilton voltou ao país do sudeste asiático. A Rede Globo de Televisão estava comemorando trinta anos, e para celebrar a data foi criado um programa chamado Contagem Regressiva. O programa seria transmitido todas as noites, durante uma semana, e sua última apresentação coincidiria com o dia do aniversário da emissora, 24 de abril.


A idéia básica era, a cada transmissão, abordar um tema que tivesse afetado a vida das pessoas durante aqueles trinta anos. ‘As discussões de pauta tinham confluído para que, no assunto ‘guerra’, a coisa mais importante do período teria sido o conflito do Vietnã, e que eu fosse para lá a fim – finalmente – de ver o país num contexto de paz’
(RIBEIRO, 2005, p. 112).


Como em 1995 José Hamilton fazia parte do quadro de repórteres da Globo (assim como ainda faz), ele pareceu ser a pessoa mais indicada para ir conferir no que tinha se tornado aquele pequeno país que tinha conseguido derrotar a maior potência do mundo. Foi para lá com a intenção de reencontrar amigos e conhecidos, rever locais e, é claro, retornar à ‘Laranja Doce’, que era como os vietnamitas chamavam a ‘Aldeia sem Alegria’. O repórter também queria ver como tinha resultado para o povo aquela tão espetacular vitória sobre os norte-americanos.


Mas se a expectativa da ida era grande, a decepção da chegada foi maior ainda:




Assim que descemos no conhecido Tan Son Nheet, o aeroporto de Saigon, o meu Vietnã começou a doer. Eu veria, ao longo da viagem, que essa visita iria doer mais que a primeira. Angústia, decepção, uma certa desesperança. Acabei passando vários dias sem dormir, a ponto de precisar de ajuda médica – remédio tarja preta. O Vietnã mudou muita cosia do fim da guerra para cá, de certa forma tirou a terra de baixo do pé de muita gente. Um esquema grotesco de ‘Reeducação do Povo'(um povo que lutou contra os americanos daquele jeito será que precisa ser mesmo reeducado?) virou o Vietnã de cabeça para baixo. Gente que vivia na cidade foi mandada para o campo; gente do sul seguiu para o norte; camponês de arroz passou a plantar café, ou biscatear de vila em vila. A população quase toda foi trocada de lugar (RIBEIRO, 2005, p. 115).


Ruas, bairros, vilas e cidades tiveram seus nomes trocados. Até mesmo Saigon, a famosa e charmosa capital, virou Cidade de Ho Chii Minh.O teatro, o pagode, a catedral e os hotéis, apesar de reformados continuavam lá. E como apesar de terem mudado de nome, as ruas estavam no mesmo lugar, José Hamilton conseguiu se localizar.


O povo dá a impressão de estar sempre comendo alguma coisa, e as ruas estão constantemente cheias, formigando. A maioria das pessoas anda a pé, mas também tem muita motoca, 2 milhões para uma população de 5 milhões de habitantes.


Desde o seu primeiro dia no país, José Hamilton saiu em busca das pessoas que tinha conhecido na sua primeira passagem por lá. Perguntou por seu guia, intérprete e amigo Nguyen, foi até a rua onde ele morava, fez de tudo, mas não adiantou, nem sinal do homem. Foi atrás do Sr. Binh, que tinha trabalhado na Embaixada Brasileira, e também do Sr. Fouquet, um escritor que havia organizado um almoço de domingo para que o repórter pudesse ouvir a opinião de várias pessoas sobre a guerra. Não encontrou nenhum deles.


José Hamilton decidiu então tomar uma medida mais drástica para rever seus amigos do tempo da guerra.


Com a foto na mão tanto de Nguyen quanto do grupo organizado pelo escritor, fui à tevê – emissora estatal, claro – e coloquei um anúncio pago. Aparecendo a foto, o texto lido por um locutor dizia que eu, jornalista brasileiro que havia estado em Saigon, 27 anos atrás, estava agora de volta ao país e queria encontra-me com essas pessoas, que conhecera na época. Dava o endereço do hotel e pedia que se comunicassem, pessoalmente, por telefone ou pelos meios que quisessem. Ninguém deu sinal (RIBEIRO, 2005, p. 117).


O anúncio foi ao ar várias vezes, mas mesmo assim ninguém apareceu. Um diplomata deu uma explicação para José Hamilton que fazia bastante sentido. As pessoas que mantiveram contato com estrangeiros durante a guerra, com certeza não ficaram muito bem situadas com a vitória dos comunistas. Então, havia três hipóteses: tinham saído do país, assim como fizeram milhões de pessoas; estavam presas, mortas ou sendo perseguidas pelo aparato policial; ainda estavam em Saigon, tinham visto o anúncio, mas temiam que fosse alguma artimanha da polícia política e por isso não apareciam.


Perdida a batalha do resgate afetivo, José Hamilton ainda tinha que resolver a parte profissional, real motivo da sua viagem. Mas nesse campo as coisas também não se mostraram fáceis. ‘Com aquela mexida toda que tinham dado no país, como encontrar a Aldeia sem Alegria que eu precisava agora filmar? Haviam manejado de um lugar para outro vilas, bairros, populações inteiras’ (RIBEIRO, 2005, p. 119).


A tarefa de encontrar a Aldeia sem Alegria foi de fato bastante árdua. Mesmo o nome vietnamita da aldeia, que era ‘Laranja Doce’, não existia mais. O lugar havia mudado de lugar, recebido outro nome, ou simplesmente desaparecido. A situação deixou José Hamilton angustiado. O oficial do exército, que servia de guia, e o intérprete oficial, que acompanhavam o repórter e seu câmera, batiam de porta em porta, perguntavam em tudo que era lugar, mas não adiantava. Parecia que eles estavam atrás de uma miragem, de uma fantasia.


Um funcionário de província, espécie de fiscal de prefeitura, sugeriu que eles fossem falar com o pessoal dos ‘MIA’. ‘A comissão dos MIA era um corpo militar americano que devidamente autorizado pelo governo do Vietnã escarafunchava o país atrás de antigos sinais de batalhas, para ver se encontrava indícios de soldados perdidos em ação’ (RIBEIRO, 2005, p. 120). MIA significa Missing in Action, algo como ‘perdido em ação’, em uma livre tradução. O fato é que o governo norte-americano não admite a idéia de que um membro do seu exército possa estar ‘perdido’em um país qualquer. A tese é que se ele ficou para trás é porque está preso, desertou ou morreu. Algum desses casos preciso ser provado, e enquanto isso não tiver ocorrido a comissão dos MIA não pode dar o seu serviço por terminado. Em 1995, mais de dois mil norte-americanos ainda estavam perdidos no Vietnã.


O oficial a quem eles pediram ajuda para localizar a Aldeia Sem Alegria, disse que naquela região haviam ocorrido mais de 2 mil ações como a descrita por José Hamilton. Desse modo, ele disse que poderia dar uma resposta exata para o repórter, mas para isso precisaria de meses de pesquisa. Mas o repórter não podia esperar todo esse tempo.


Tiveram que se consolar com informação vietnamita mesmo. Começaram então a procurar informações com guerrilheiros de pijama, antigos combatentes, enfim, qualquer pessoa mutilada, de muleta ou falando sozinha, que pudesse ter participado da guerra e soubesse indicar o que eles queriam saber. E de fato foi o que resolveu. ‘Um hominho, que depois reapareceu fardado de ‘coronel vietcongue’, com medalhas de latão no peito e nos ombros, deu a pista’ (RIBEIRO, 2005, p. 121). Usando como referência uma flor e algumas plantas que apareciam nas fotos da reportagem da revista Realidade que lhe foram mostradas, o homem identificou o local. O ‘coronel’ mesmo levou eles até lá.


E quando chegaram, encontraram pessoas que ainda lembravam das seguidas explosões, dos helicópteros, das vítimas norte-americanas e de toda a repercussão do episódio nas conversas da população das redondezas.


No local, até hoje, muitas minas, algumas delas descobertas pela chuva, pelo vento. E ali, visíveis, enferrujadas. Quantas não estarão ainda enterradas, esperando o pé desavisado de um camponês, de um caminhante solitário, de uma criança? Gente do local nos diz que as principais vítimas da explosão de minas são as crianças. Elas saem para brincar, para se aventurar, nos terrenos mais afastados, e acabam acionando o gatilho traiçoeiro. ‘Não passa uma semana sem uma criança ferida assim’ (RIBEIRO, 2005, p. 121).


Após ter feito essa viagem em 1995, conversado com gente que esteve por lá, e lido algum material a respeito do país, José Hamilton ficou com a idéia de que ‘o Vietnã é hoje um ser transgênico, um híbrido maldefinido, uma serpente de duas cabeças’ (RIBEIRO, 2005, p. 124).


De um lado, o país pobre, atrasado, quase miserável que o próprio general Ngyen Vo Giap definiu, em entrevista publicada pela Folha de S. Paulo, como um dos mais carentes do mundo. ‘De outro lado, em função de uma abertura econômica para o capital internacional, o Vietnã tem aparecido ultimamente como candidato a ser um novo ‘Tigre Asiático’, uma nova potência emergente do sudeste da Ásia’ (RIBEIRO, 2005, p. 124).


Em 1995, já se notavam sinais de pujança econômica, edifícios modernos, obras de infraestrutura e eficiência de alguns serviços na área de telecomunicações. Mas apesar da abertura econômica, o país é dirigido por um único partido, o Comunista, de uma forma bastante anacrônica. ‘O Vietnã é hoje uma ditadura primária, não sem emitir de vez em quando sinais de que está abrindo o olho para o futuro’ (RIBEIRO, 2005, p. 124).


Ao observarmos os trechos do livro que foram destacados neste capítulo, podemos perceber que tipo de apuração jornalística José Hamilton procurou fazer da guerra, e também que tipo de visão ele teve do conflito e de seus personagens.


O repórter se preocupou em vivenciar os mais diversos tipos de situações, que foram desde marchar sobre um campo minado, atravessar pântanos e rios com água pela cintura junto com o exército norte-americano, até almoçar com um grupo de vietnamitas para saber o que eles pensavam a respeito do conflito.


José Hamilton levanta temas que poderiam tranquilamente passar desapercebidos, não fosse ele um observador atento e um repórter preocupado com o lado humano do conflito. Assuntos como o aumento do preço do arroz durante o período do conflito e a sua direta influência no orçamento dos lares vietnamitas, assim como o abalo sofrido pela estrutura familiar dos nativos com o advento da guerra não escaparam ao seu faro apurado.


Os detalhes que ele conseguiu descobrir sobre os bastidores da guerrilha vietcongue, suas estruturas subterrâneas e o importante papel que a mulher tinha dentro da revolução que a Frente Nacional Libertadora tentava fazer, com certeza exigiram um grandioso esforço de reportagem. A cobertura feita por José Hamilton também exigiu um bocado de coragem. Não só para acompanhar o exército norte-americano em suas operações no front, mas também para aceitar o chá oferecido por um garoto vietnamita (mesmo depois que seu companheiro Nguyen lhe disse que oferecer chá não era um costume local) e depois ainda acompanhá-lo para encontrar o homem que havia mandado a bebida. Ele e Nguyen foram ao encontro sem saber que tipo de riscos corriam. Mas no fim tudo transcorreu com tranquilidade, apesar de Nguyen ter saído perplexo da conversa por ter convicção de que o homem com que eles haviam conversado era um vietcongue.


Em O Gosto da Guerra, José Hamilton não esconde a sua posição contrária a participação dos Estados Unidos na guerra do Vietnã. Ele faz questão de relatar todas as barbaridades e excessos cometidos pelo exército norte-americano durante o conflito e de dizer que considerava aquilo tudo uma grande estupidez. No entanto, o repórter não faz julgamentos morais dos soldados com quem conversou nem mesmo daqueles que haviam se tornado assassinos sanguinários. Afinal de contas, a culpa não era deles e sim da guerra.


Mas ao mesmo tempo em que criticava as atitudes do exército norte-americano com relação aos vietcongues e ao povo vietnamita, o repórter não se furtava de dizer que os correspondentes de guerra eram muito bem tratados pelo pessoal do Tio Sam. Além do mais, em várias passagens do livro José Hamilton se refere a soldados, médicos, oficiais, e enfermeiras norte-americanos com muito carinho.


No entanto, fica evidente que o repórter desenvolveu um grande sentimento de empatia com os vietnamitas. Segundo ele, tratava-se de ‘um grande povo e um país, apesar de tudo, cheio de charme e calor’ (RIBEIRO, 2005, p. 125). Tanto ele gostou do Vietnã, que quando do seu retorno, décadas depois, não conseguiu esconder o sentimento de frustração que lhe assolou ao ver o país tão modificado, para pior. Apesar de ter se deixado envolver pelas emoções em vários momentos, José Hamilton jamais ficou em cima do muro, suas posições eram sempre claras e transmitidas com transparência.


Nos trechos em que fala do seu período no hospital, muitas vezes José Hamilton se despe da faceta de repórter e expõe sem medo todos os seus medos, fraquezas, angustias e até mesmo seus pensamentos mais mesquinhos. Ele se pergunta por que aquilo foi acontecer logo com ele, e chega a questionar se alguns de seus companheiros não teriam merecido mais que ele uma desgraça como aquela.


Mas também havia os momento em que o sangue de jornalista falava mais alto e ele conseguia fazer pesquisa jornalística mesmo preso a uma cama. Exemplo disso ocorreu em uma de suas conversas com os médicos, que haviam sido arranjadas pelo padre que ficou seu amigo, para lhe ajudar a quebrar a monotonia. Em um desses bate papos um médico lhe explicou como funcionava o sistema de saúde do exército norte-americano na guerra.


Além de toda a apuração que conseguiu fazer com o seu trabalho de campo, José Hamilton também leu diversos autores para se inteirar não só a respeito do conflito, mas também da história e dos costumes vietnamitas.


Este capítulo teve a intenção de mostrar, através de trechos extraídos do livro, e de comentários a respeito da obra, o trabalho de apuração realizado por José Hamilton Ribeiro para escrever O Gosto da Guerra. Nos propusemos a mostrar todo o esforço realizado pelo repórter e a forma como isso se refletiu neste marcante e envolvente livro-reportagem.


7. Conclusão


Após ler e analisar O Gosto da Guerra, podemos perceber a importância do jornalismo não somente na cobertura das guerras, mas também na apuração e denúncia dos fatos cotidianos. Atualmente, a política, a cultura, os esportes, as religiões, ou seja, os assuntos que fazem parte do dia-dia das pessoas, estão se tornando cada vez mais complexos e diversificados. Desse modo, o papel da imprensa de informar, de orientar e ao mesmo tempo expor as mazelas que o sistema tenta esconder se torna além de imperioso, fundamental.


A forma como José Hamilton Ribeiro escreveu seu livro deveria servir de exemplo para todos os jornalistas não apenas pela coragem que o repórter teve, chegando a colocar a própria vida em risco, mas também pela maneira como ele apurou os fatos concernentes à guerra. José Hamilton usou como fonte todos aqueles que cruzaram o seu caminho e que tinham uma boa história para contar. Não importava se fosse um enfermeiro, um soldado, um general, um chefe de família vietnamita ou a responsável pela barbearia do hospital.


Além de ouvir histórias, o repórter também observou tudo que a sua visão alcançava. Os doentes que estavam na sua enfermaria, os soldados que estavam na sua Companhia, suas roupas, seus hábitos, sua forma de encarar a guerra. Até mesmo a forma dos vietnamitas encararem a religiosidade foi percebida e relatada por José Hamilton. Seguindo a melhor tradição do new journalism, tão em evidência na época em que o livro foi escrito, o repórter buscou descobrir e relatar não só o que estava na superfície, que podia ser visto a olho nu, mas também o que estava nas entrelinhas, subentendido, aquilo que somente alguém com vontade e capacidade para entrar na mente do interlocutor poderia perceber.


Pode-se dizer também que José Hamilton, assim como Gay Talese, foi um repórter serendipitoso. Isso porque, ele conseguiu extrair boas histórias e fazer grandes descobertas a partir do seu acidente com a mina terrestre. Já que, na nossa opinião, a vida no hospital acabou rendendo para José Hamilton as melhores páginas do seu livro. Algo inusitado, para não dizer desastroso, tornou o relato da guerra ainda mais humano e interessante. O repórter conseguiu uma aproximação com a realidade nua e crua do conflito, que talvez sem o acidente não fosse atingida. Ele conseguiu humanizar o relato de uma barbárie, sem ser sensacionalista ou escorregar para o sentimentalismo. Seus personagens eram seres humanos, com todas as suas qualidades, limitações e idiossincrasias. Até mesmo um soldado que a guerra havia tornado um assassino sanguinário merecia ser ouvido e compreendido. Mas apesar dessa complacência com os soldados e com seus dramas, José Hamilton não perdia uma oportunidade de criticar as atitudes do governo e do exército norte-americanos.


José Hamilton destaca, na segunda parte do livro, que a cobertura feita pela imprensa da guerra do Vietnã foi fundamental para colocar a opinião pública norte-americana, pela primeira vez na história, contra seu próprio governo. As denúncias feitas, principalmente pela televisão, minaram o apoio político que Washington tinha e isso acabou abalando o moral das tropas, ‘levando os EUA a amargarem a mais pública e humilhante derrota a que já foi submetida uma potência mundial’ (RIBEIRO, 2005, p. 106).


Vale ressaltar que essa foi a primeira guerra em que a televisão tinha condições técnicas para operar. Isso porque, as câmeras tinham se tornado mais leves e podiam ser operadas por equipes reduzidas. Além dessa parte técnica, a mídia teve uma rara e estranha liberdade para cobrir o conflito no Vietnã. O motivo para isso ter ocorrido é simples, por razões de formalismo diplomático internacional, a guerra não estava oficialmente nem inteiramente na mão dos norte-americanos. Desse modo, com o conflito ‘nas mãos’ dos vietnamitas, a imprensa norte-americana e mundial teve bastante autonomia e até auxilio logístico por parte do exército dos EUA para agir. ‘Pelo efeito que a cobertura, sobretudo a eletrônica, produziu na opinião pública do mundo inteiro – principalmente no ‘público interno’ dos EUA -, a Guerra do Vietnã é chamada de ‘Mídia War‘ (RIBEIRO, 2005, P. 108).


José Hamilton diz que ‘guerra é ruim, mas sem repórter é pior’, nós diríamos que essa afirmação não vale apenas para a guerra. O mundo sem repórter também seria um lugar pior. Justamente por isso, quanto mais repórteres, dispostos a sujar os sapatos, e em alguns casos, até mesmo colocar a própria vida em risco, existirem, melhor será para todos. A vida em sociedade será mais organizada, a atuação dos poderosos será mais transparente e o público ficará mais tranquilo sabendo que tem alguém observando por eles.


Referências


BELO, Eduardo. Livro-reportagem. São Paulo: Contexto, 2006.


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FONSECA JR., Wilson Correa da. Análise de Conteúdo. In: DUARTE, Jorge ; BARROS, Antonio (Orgs.). Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2006.


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Roteirista, produtor e diretor do curta-metragem O Bilhete, em fase de pré-produção

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