Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Há 20 anos, nascia o WWW

Por Riccardo Luna em 22/11/2011 na edição 669

“Não houve um momento 'eureka' na criação da Web, um momento preciso em que eu disse: está feita! Ao contrário, foi um percurso longo. Se eu tenho que indicar um início, até poderia ser 1980, quando eu escrevi um programa que se chamava Enquire: eu era um jovem físico e trabalhava no CERN de Genebra. Esse programa me servia para manter o controle do complexo de relações entre pessoas, ideias, projetos e computadores daquela extraordinária comunidade de cientistas. Era só de uso pessoal.

Depois, em 1989, eu escrevi um memorando aos meus chefes, um memorando histórico, mesmo que naquela época eu não pudesse saber disso. Eu propunha a criação de um espaço comum onde se pudesse colocar as informações a disposição de todos: eu o chamei de Web. A ideia era ter uma rede onde qualquer um pudesse facilmente ter acesso a qualquer informação, e onde acrescentar informações também fosse fácil. Em 1991, ela já funcionava entre os cientistas, e eu comecei a difundi-la ao restante do mundo. Passaram-se 20 anos e eu posso dizer que tivemos um certo sucesso…”

A reportagem é de Riccardo Luna, publicada no jornal La Repubblica, 14-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Happybirthday Web

Tim Berners-Lee tem 56 anos, nasceu em Londres, mas há muito tempo vive e leciona no MIT, em Boston. Ganhou o Millennium Prize, é considerada uma das 100 pessoas mais importantes do século passado, e a Rainha Isabel II o nomeou cavaleiro em 2004. Por isso, tornou-se Sir.

Mas o título mais importante lhe deu a História, com maiúsculo: ele é o criador da World Wide Web. Ele custa a acreditar que, para muitas pessoas, Internet e Web sejam sinônimos. “Há alguns dias, na Polônia, eu estava tentando explicar aos tradutores a diferença entre internet e web. Como eu não conseguia, perguntei: como vocês explicam o período que passa entre a invenção da Internet, há 40 anos, e o da Web, 20 anos depois? E eles me responderam: há 40 anos, tínhamos o comunismo e, portanto, para nós, os dois conceitos são sinônimos. Na Itália, vocês sabem a diferença?”

Para falar sobre o futuro da internet, da necessidade de que todos tenham acesso à rede e para soprar as primeiras 20 velas do WWW, sir Tim está hoje em Roma, onde irá abrir um congresso a ele dedicado: Happybirthday Web.

Eis a entrevista.

***

“A ideia é de uma rede a ser tecida”

A Wikipédia indica o nascimento da Web no dia 6 de agosto de 1991, ou seja, a entrada na rede do primeiro site: info.cern.ch. É uma data especial que devemos transmitir aos nossos filhos? Vocês o festejaram de alguma forma?

Tim Berners-Lee– Para dizer a verdade, não muito. No dia 6 de agosto de 1991, eu só mandei uma mensagem ao newsgroup alt.hypertext para apresentar a web ao restante do mundo. Mas ela já estava disponível dentro da comunidade do CERN. Para mim, ela já existia.

Muitos dizem: Berners-Lee foi muito bom, mas ele criou a web por acaso, enquanto tentava construir um sistema para a gestão das informações.

T.B.-L.– Absolutamente, não! De fato, eu logo o chamei de World Wide Web, a grande rede do mundo, embora muitos me consideravam um presunçoso. E os endereços dos sites, as URLs, eu queria chamá-las de Universal Resource Identifier. Mas esse nome foi rejeitado pela comunidade dos engenheiros. Eles me disseram: como você pode definir essa coisa de “universal”? E eu, eu era o novato nesse ambiente, cedi: ok, chamemo-lo de Uniform, eu disse, assim pelo menos não mudava de sigla.

Para defender a abertura da Web, muitas vezes se diz: é uma plataforma para a inovação. É difícil dizer isso a quem pensa que a internet só serve para enviar e-mails ou para atualizar o status no Facebook. Enquanto isso, é preciso dizer que, quando as pessoas enviam um e-mail ou estão em uma rede social, muitas vezes há um objetivo criativo. A ideia da web, aquilo que está por trás de tudo, é que, se uma pessoa tem uma boa metade de ideia, e a outra metade está na cabeça de outra pessoa, a web é o conector que permite que as duas metades do círculo se unam. A ideia é de uma rede a ser tecida.

“Eu escrevi um post [sobre Jobs]no meu blog”

É uma arma de construção em massa.

T.B.-L.– Bela definição. Essa é a inovação da Web. Nem todas as tecnologias trazem inovações. Uma tecnologia pode ser de “fundação” ou de “teto”. A primeiro é a base que irá suportar desenvolvimentos cada vez mais importantes. A outra não: é projetada para criar um valor imediato e, portanto, dinheiro para o seu fornecedor. A web é uma tecnologia “fundamental”.

No fronte oposto, estão sistemas como os adotados pela Apple e pelo Facebook?

T.B.-L.– Há uma batalha, ou melhor, uma tensão construtiva, entre a exigência de fazer dinheiro e a de inovar. Uma empresa pode ter a necessidade de controlar todo o sistema para fornecer bom desempenho e adquirir clientes e, assim, pagar bem seus próprios programadores. Mas se ela acaba sendo muito dominadora e fechada, limitando a liberdade das pessoas, vai perder mercado. Um jardim maravilhoso, mas fechado não pode competir com a beleza de uma selva selvagem e indômita.

O jardim da Apple perdeu o seu jardineiro. Qual foi a sua reação à notícia da morte de Steve Jobs?

T.B.-L.– Eu escrevi um post no meu blog. Uma vez, quase nos encontramos em uma reunião de desenvolvedores da NeXT, na França. Ele observou muitas coisas naquela sala, mas foi embora antes de poder ver a World Wide Web.

Internet-pointsem pequenas cidades

O NeXT era o visionário computador que Jobs criou quando foi demitido da Apple. E foi em um NeXT que você escreveu o código da Web.

T.B.-L.– É verdade, eu escrevi o projeto em um NeXT e foi incrivelmente fácil. Era um computador que vinha do futuro. Lembro-me do estupor quando ele chegou para mim e eu o desembrulhei em setembro de 1990. O e-mail já estava configurado e se abria automaticamente com uma mensagem de áudio de Jobs pessoalmente, que começava assim: “Não estamos mais falando de computadores pessoais, mas sim, de interpessoal computing, colaboração entre as pessoas.” Genial! Naqueles anos, quem tinha um computador estava muito frustrado. E Steve Jobs tinha entendido isso. Ele tinha entendido que os computadores deviam ser úteis, colaborar com o usuário e fazer aquilo que usuário esperava. E, depois, serem lineares, fáceis de usar e bonitos de ver. Hoje, damos isso por óbvio: além disso, o sistema operacional do Mac e do iPhone é baseado no NeXT…

Falemos da Itália: estamos muito atrás na difusão da Rede. O que estamos perdendo com isso?

T.B.-L.– Acima de tudo, penso que a ubiquidade da rede é mais importante do que a velocidade. A velocidade é importante se você quiser ver um vídeo em alta definição, mas a ubiquidade, mesmo com conexões mais lentas, significa que você pode receber e enviar o correio e fazer parte da economia digital. E depois: dando uma banda larga mínima a todos, pode-se transferir os pagamentos públicos online, economizando muito dinheiro. Enfim, penso que vocês deveriam fazer um grande esforço para preencher a divisão digital, para levar a rede até as áreas rurais e àqueles lugares onde há pessoas que simplesmente ainda não aprenderam a usar essa tecnologia. Isso também significa criar lugares públicos onde todos possam usufruir da rede: imagino internet-points nas pequenas cidades e nos vilarejos, onde seja possível ir pagar o imposto do carro online, ou procurar um trabalho, reencontrar os parentes que se perderam de vista há muito tempo, colocar o carro à venda, enfim, fazer aquelas coisas que as pessoas ainda não sabem fazer online.

“Como é gasto o dinheiro dos cidadãos”

A escolha que a Itália está fazendo parece o oposto: levar a banda ultralarga às grandes cidades e às áreas industriais e deixar os outros para trás.

T.B.-L.– Não é só uma questão de altruísmo. A questão é como tornar o país mais operacional e funcional. Trata-se de entender se um país é sério ou não. É um país sério aquele em que não se pode chegar simultaneamente a todas as pessoas, e as pessoas não são informadas imediatamente sobre aquilo que acontece, e não são capazes de responder às emergências? Não, não é um país para se investir.

O open government, ou seja, aquele conjunto de políticas que envolvem os cidadãos na administração através da transparência e de instrumentos de participação, pode contribuir para difundir o uso da Web?

T.B.-L.– Um governo digital é muito mais eficiente do que um governo baseado no papel. Por isso, quanto antes o país abater a exclusão digital, melhor. Mas o open government quer dizer chegar a envolver os cidadãos para obter feedback e talvez uma consultoria espontânea. É muito mais. Depois, há toda a questão dos open data

A que ponto chegou a campanha para liberar os dados públicos?

T.B.-L.– Os dados que o governo tem nos seus arquivos são um recurso precioso para melhorar as nossas vidas. Saber, por exemplo, se um certo trem está em funcionamento e está viajando, quais estradas têm buracos, onde se encontra o correio mais próximo, o número de crimes cometidos em uma determinada área do país, onde são mantidos os planos de emergência anti-inundações… Ter posse desse tipo de informações pode fazer com que se tomem melhores decisões. E depois há a transparência, que alguns colocam no primeiro lugar. Na Grã-Bretanha, está se tornando normal que os dados relativos aos gastos públicos sejam “abertos”. A web é o lugar onde todos podem verificar como é gasto o dinheiro dos cidadãos.

“Um dom de Deus”

Depois de 20 anos, a web se tornou aquilo que você tinha imaginado?

T.B.-L.– Estou muito contente com a quantidade incrível de coisas que aconteceram, mas infelizmente não vejo muitas pessoas que usam a web de forma eficaz para realizar novas ideias. A Internet nasceu como uma plataforma para trabalhar juntos, e, ao contrário, quase todos se limitam a usá-la para ler, e ponto final. Evidentemente, os instrumentos de colaboração que temos ainda não são adequados.

Você diz "ainda" porque está trabalhando em um projeto desse tipo?

T.B.-L.– Sim, sou um entusiasta para projetar, dentre outras coisas, instrumentos para a web semântica que se baseiem no conceito de dados conectados entre si. A web semântica se refere aos dados, enquanto os motores de busca trabalham com documentos hipertextuais. O desafio dos motores de busca foi de tentar criar uma estrutura onde não havia nenhuma estrutura, tentando incutir ordem e significado onde não havia nem ordem nem significado. Enquanto, com os dados, a ordem e o significado já existem. Quando se dispõe de dados em um arquivo, eles já estão bem ordenados e bem estruturados e têm um significado muito mais definido do que grande parte dos conteúdos presentes na web. Agora, finalmente, cada vez mais pessoas estão entendendo o valor dos linked open data. Assim será a nova web e será mais inteligente.

A web criou muitos ricos: você se lamenta por não ter enriquecido?

T.B.-L.– Não. Se alguém quer me dar um monte de dinheiro, eu não me importo. Mas eu não me incomodo pelo fato de as pessoas terem aberto atividades na web e terem se tornado ricas, ao contrário.

Mais de 2 bilhões de pessoas usam a web. Você percebe o apreço das pessoas pelo que você fez?

T.B.-L.– Sim, um apreço imenso. Mas também estou muito contente por não ser reconhecido na rua! Gostaria de dizer uma última coisa…

Sim.

T.B.-L.– Gostaria apenas de lembrar o site WebFoundation.org. Trata-se de uma nova fundação para combater a exclusão digital: há um verdadeiro abismo de oportunidades entre aqueles que têm Internet e utilizam a web de forma eficaz, e todos os outros. De fato, a conexão à rede está se tornando tão importante para a humanidade que já pensamos pensar no acesso à internet como um direito universal. O Prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo definiu a internet como um dom de Deus. Bonito, mas eu prefiro falar dela como de um direito humano.

***

[Riccardo Luna é jornalista do jornal La Repubblica]

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