Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ARMAZéM LITERáRIO > CORREIO BRAZILIENSE, 200 ANOS

Hipólito da Costa, libertário e sonhador

Por Sebastião Jorge em 25/03/2008 na edição 478

Hipólito da Costa é merecedor de todas as atenções, neste 2008, pela passagem do bicentenário da imprensa no Brasil. Isto, pela importância do pioneirismo da circulação do primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense ou Armazém Literário, em 31/6/1808. A iniciativa é merecedora de atenção pela fibra e a vontade de ajudar o país a seguir o seu rumo e encontrar o futuro.

Ao lançar o periódico, revela o ideário com o pensamento voltado para o dever do homem em sociedade. Escreve de Londres, fugindo da censura de Portugal, mas com ações voltadas para o seu país. Há duzentos anos, divisou um Brasil com justiça social e uma economia capaz de transformar-se num império. O valor do empreendimento lhe custou 14 anos de trabalho. Deu o receituário. Cumprido, por etapas, alcançamos posições históricas, jamais imaginadas. Este privilégio provocou grandes avanços sociais e políticos e nos conduziu à independência da metrópole.

Diz Hipólito no primeiro número, sem meias palavras: ‘O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela; e cada um deve, segundo as suas forças físicas, ou morais, administrar, em beneficio da mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte, ou a educação lhe prestou. O indivíduo, que abrange o bem geral de uma sociedade, vem a ser o membro mais distinto dela; as luzes, que ele espalha, tiram das trevas, ou ilusão, aqueles, que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia e do engano.’

Agindo como repórter

Preciso estender-me quanto ao que pensava o editor do jornal, com relação ao programa a cumprir, cujo conteúdo reafirma sua posição política? Uma coisa é certa: tornou-se um marco do jornalismo brasileiro. Tudo começou com ele. Devemos-lhe a aplicação do que se fez no século 19 nesse setor. Não tínhamos jornal e nem sabíamos fazê-lo.

Foi um mestre de muitas gerações espalhadas pelas províncias. Tinha uma vocação natural para o jornalismo. Implantou, talvez sem saber, as bases da imprensa moderna, com seus atributos – entre outros, ecletismo, universalismo, difusão coletiva etc. Comentava em profundidade os fatos ocorridos na Europa e nas Américas. Dava notícias as mais diversas sobre comércio, indústria, letras, artes, ciências, guerras. O título da seção ‘Miscelânea’ mostra a versatilidade do jornalista. O Correio chegava a Coimbra, Porto e Lisboa (Portugal), e no Brasil, a Porto Alegre, Fortaleza, Belém e outras províncias, como São Luís, segundo registro do nosso primeiro jornal, O Conciliador do Maranhão, de 1821.

Os escritos de Hipólito eram lidos com entusiasmo pela clareza da redação e rigor nos argumentos. Sabia explicar e convencer. Detinha um conhecimento enciclopédico e por tudo se interessava. Em missão oficial em nome do governo português, em 1799, viajou para os Estados Unidos para conhecer o funcionamento da máquina administrativa e outros aspectos relacionados àquela sociedade, com o compromisso de apresentar um relatório. Age como um repórter, sem conhecer a palavra.

Crença nas idéias

O volume de informações que conseguiu é impressionante. Interessou-se com entusiasmo, como adepto dos libertários e iluministas, pela liberdade de imprensa, igualdade e respeito pelos direitos civis, o funcionamento das leis, o sistema carcerário; conversou com especialistas em botânica, observou o respeito que mereciam as mulheres e a liberdade que tinham para se manifestar. Falou da situação dos negros e índios. Manteve encontro com o presidente daquele país, John Adams, e admirou a espontaneidade com que recebia as pessoas. Barbosa Lima Sobrinho, escrevendo a respeito da curiosidade de Hipólito, só percebida, em particular, nos grandes repórteres, se pronunciou:

‘O que mais me surpreende no Correio Braziliense é a extrema variedade de temas que o compõem e a extensão da cultura que nele revela Hipólito da Costa. Conhece e discute tudo, desde a questão do tráfico e da escravidão até a mudança da capital do Brasil. Mesmo em paralelo aos periódicos que surgem no país, é o melhor informado de todos eles, o que melhor conhece e discute os problemas brasileiros.’

O trabalho do ‘patrono da imprensa brasileira’ mereceu atenção de Alberto Dines, com esta opinião: ‘Não produz manchetes. Mas graças a ele o Brasil entra na era do jornalismo’. Isabel Lustosa: ‘Porque acreditava na força da palavra impressa, aventurou-se neste louco empreendimento de escrever do outro lado do Atlântico’. Como homenagem ao bicentenário da chegada do jornal ao Brasil, a Imprensa Oficial de São Paulo, associada a várias entidades acadêmicas e profissionais, publicou em edição fac-similar, uma coleção com trinta e um volumes que contém todo o material das páginas de O Correio Braziliense ou Armazém Literário.

A iniciativa reafirma a perenidade do papel e a crença de Hipólito nas idéias, como instrumento capaz de provocar grandes mudanças numa sociedade.

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