Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

ARMAZéM LITERáRIO > ALBERTO CAVALCANTI

Ilustre desconhecido, no Brasil

Por Mário Augusto Jakobskind em 01/03/2005 na edição 318

Há muito tempo as editorias de cultura estão em falta com um cidadão do mundo, de nacionalidade brasileira, que se insere na galeria dos mais importantes diretores de cinema do planeta. Trata-se de Alberto Cavalcanti, um carioca que fez cinema, do bom e do melhor, na França, na Inglaterra e em Israel; e, no Brasil, deu o pontapé inicial da Companhia de Cinema Vera Cruz, em São Bernardo do Campo (SP), em 4 de novembro de 1949.

Neste início de 2005, o jornalista Sérgio Caldieri conseguiu, finalmente, resgatar o cineasta esquecido pela mídia e pelo cinema brasileiro lançando o livro Alberto Cavalcanti, o cineasta do mundo, pela Editora Teatral. Além de bem escrito, a reportagem histórica de Caldieri conta, em detalhes, passagens importantes da vida do cineasta, reconhecido internacionalmente mas que ficou no ostracismo no Brasil por motivos inexplicáveis, talvez pelo fato de nunca ter se alinhado a alguma corrente cultural-política, apesar do seu engajamento na questão social.

É o caso de perguntar: como um cineasta como Cavalcanti, que em 1941, no auge da II Guerra Mundial, quando vivia na Inglaterra, fez uma sátira do ditador italiano Benito Mussolini com o filme Yellow Caesar, equiparado pela crítica a O grande ditador, de Charles Chaplin, ficou esquecido por aqui?

Caldieri lembra que o roteirista de Yellow Caesar, Michael Foot, acabou se tornando ministro de Estado na Inglaterra em 1977. Em qualquer livro de cinema escrito no Brasil, Chaplin pode ser encontrado com certa facilidade. Já Alberto Cavalcanti…

Documento social

Em Alberto Cavalcanti, o cineasta do mundo, um importante trabalho literário do gênero reportagem, publicado com incentivo da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura, Sérgio Caldieri apresenta passagens relevantes da vida desse cineasta carioca, como a sua aproximação com Bertolt Brecht. O próprio Cavalcanti conta em suas memórias, até hoje não editadas, e que Caldieri menciona no livro, o encontro que manteve com a mais importante figura do teatro mundial do século passado. O motivo foi à peça de Brecht Senhor Puntila e seu criado Matti, que Cavalcanti acabou adaptando para o cinema.

Em suas memórias ainda inéditas, depois de contar a passagem que culminaria com a adaptação da peça para o cinema, Cavalcanti diz que…

‘…nunca pude esquecer minha chegada à casa do poeta, na Chausseestrasse. As janelas do salão do primeiro andar estavam todas abertas. Helena Wiegel, a grande atriz alemã, última esposa do poeta, estava presente. Quando eu olhava em direção ao cemitério contíguo, Brecht tomou o meu braço e me levou para uma janela de onde podia mostrar-se o túmulo de Hegel. Hoje o túmulo do poeta se encontra justamente ao lado aquele grande filósofo’.

Num congresso de cinema realizado em La Sarras, na Suíça, Cavalcanti conheceu uma outra figura exponencial do mundo da cultura mundial, o cineasta russo Sergei Eisenstein. Numa época que a França estava voltada para o fascismo e as autoridades não queriam a permanência de Eisenstein no país, Cavalcanti organizou um manifesto pedindo apoio aos diretores franceses para que o cineasta russo ficasse na França. Todos se recusaram a assinar o manifesto que teve apenas duas adesões: de Jean Benoit Lévy e a do próprio Cavalcanti.

O também arquiteto Alberto Cavalcanti, formado na Suíça, que fez realizações importantes na época do cinema mudo, nos anos 1920, é o responsável por 126 filmes. Em 1926, ingressou no Olimpo dos grandes diretores, como conta Caldieri, ao filmar En Rade. Já consagrado, Cavalcanti confirmou o seu aguçado senso social ao dirigir Rien que les Heures, um filme que mostrava uma visão nada turística de Paris, considerado um marco do ‘início do realismo cinematográfico’.

A película apresentava a vida mundana da então badalada capital cultural do mundo, com os miseráveis, os pobres e a prostituição – que Cavalcanti observou se tratar de ‘um sutil documentário social, um documento social sobre a falta de trabalho, sobre a vida em lugares miseráveis’.

O trabalho, muito avançado e inovador para a época, incomodou os censores, que chegaram a cortar trechos do filme. Cavalcanti não fez por menos, enxertando em cada lacuna criada pela medida restritiva cartões que diziam ‘parte cortada pela censura’. O fato produziu grande efeito. Irritados, os censores acabaram liberando Rien que les Heures sem cortes.

Além de ser visto como o filme que possibilitou a entrada consagrada de Alberto Cavalcanti no cinema inglês, o ‘documento social’, conta Caldieri, exerceu notada influência tanto na obra do cineasta russo Dziga Vertov, em Kino Glatz, quanto na do alemão Walter Rutman, em Berlim, Sinfonia de uma cidade.

Leitura obrigatória

Cavalcanti, que ‘sempre procurou entender o povo, a cultura, o ambiente, pensar e sentir de acordo com o meio em que vivia, antes de lançar-se como diretor’, embora relegado a segundo plano no Brasil, dirigiu alguns filmes por aqui – um deles, a comédia Simão, o Caolho, nos anos 1950, teve boa aceitação popular.

O comentário mais significativo sobre a injustiça pelo não reconhecimento de Alberto Cavalcanti pela mídia e no mundo cinematográfico brasileiro fica por conta de Françoise Gilbert, responsável pelo arquivo e os objetos pessoais do cineasta, que morreu em l982 aos 85 anos.

A repórter Elza Martins, do Estado de S.Paulo, perguntou a Françoise sobre sua relação com Cavalcanti e teve de registrar que…

‘…para o Brasil não tenho nada a declarar. Ele foi um artista conhecido internacionalmente e não somos nós que devemos falar sobre o seu trabalho ou sobre a sua vida em Paris. Cabe a vocês, brasileiros, perguntarem o porquê de essa pessoa maravilhosa jamais ter sido conhecida em sua própria terra’.

É possível que se fosse informada que o jornalista Sérgio Caldirei, 23 anos após da morte de Alberto Cavalcanti, lançou um importante trabalho de resgate histórico dessa ‘pessoa maravilhosa’, Françoise respondesse com mais carinho a pergunta da repórter do Estadão.

Alberto Cavalcanti, o cineasta do mundo é leitura obrigatória para os cinéfilos e para os que quiserem conhecer uma reportagem histórica de peso. E, de certa forma, dá início ao processo de resgate, no país onde nasceu, de uma figura de relevo da cinematografia mundial.

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Jornalista

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