Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ARMAZéM LITERáRIO >

Imagens e marcas do tempo

Por José Aloise Bahia em 19/09/2006 na edição 399

Veja e leia – lembram-se de quando a revista Veja tinha esse nome? – no próximo parágrafo algumas informações sobre o autor do recém-lançado O mundo acabou! (Editora Globo, SP, 2006), como consta numa das orelhas verdes do livro:

“O jornalista e escritor belo-horizontino Alberto Villas um dia ganhou um concurso de contos do governo do estado do Paraná e abandonou de vez a vontade de ser médico. Passou a escrever e virou jornalista. Foi um dos criadores do Caderno 2 do Estadão e um dia foi parar na televisão: Bandeirantes, Manchete, SBT e Globo, mais precisamente no Fantástico. Viveu muitos anos na sua terra natal, pouco tempo na Brasília de JK, quase uma década em Paris. Desde 1980 mora em São Paulo e vive na ponte aérea.”

O vôo mais recente de Villas tem como aterrissagem as páginas de um livro. Ou melhor, uma coleção de memórias, formadas por pequenos textos leves e bem-humorados sobre produtos de consumo, modismos e costumes que marcaram gerações. Inclusive a do autor.

As ilustrações principais começam com Grande Hotel: a mágica revista do amor, passa pela vitrola, Rural Willys e termina com a zebrinha do Fantástico e o cobertor Parahyba. Eu duvido que você não tenha ouvido falar, usou ou leu algo sobre tais produtos em jornais e revistas brasileiras. Eles fazem parte das lembranças de muita gente grande, urbanos ou rurais, intelectuais, industriais, escritores, médicos, jornalistas, internautas, donas de casa, maridos, fazendeiros, faxineiras ou pedreiros.

Do contrário, se você for bem mais novo – estudante, na faixa dos 20/30 anos –, tiver curiosidade, experimente fazer o seguinte: pergunte a sua mãe, seu pai, aos tios mais velhos – se tiver avós, melhor ainda – se eles já viram um aparelho de televisão chamado Colorado RQ, ou usaram uma bomba de flit para matar baratas, ou andaram na boléia de um caminhão FNM, ou passearam montados numa bicicleta Monark pneu balão… Uma tentação: se eu continuar nesse ritmo, contarei o livro inteiro.

Carona na Vemaguete

É justamente esta uma das principais características do livro: contar pequenas histórias da família Villas nas décadas de 1950/60. Um túnel cheio de imagens e marcas do tempo. Alguém pode falar em desmedida nostalgia capitalista ou pensar outra coisa – na ditadura militar, por exemplo. Entretanto, os detalhes que se encerram é um mundo que tinha talco Johnson para adultos – inclusive para os homens –, bebia Crush, lambia pirulito de chocolate da Kibon, chupava drops Dulcora, freqüentava aulas de catecismo, vestia calças Far-West, calçava tênis Bamba, fumava Mistura Fina e usava pente Flamengo, xampu de ovo e Glostora nos cabelos.

O mundo tinha tudo isso, mas acabou. Ofertava, não tem mais. Vieram novos nomes de fantasia, novos produtos, mas até hoje ainda não conheço algo que substitua o famoso Peido Alemão: como o próprio diz, uma poderosa arma fétida para espantar os chatos de galocha – um outro tipo de calçado também em extinção. Com um leve sorriso e cheio de recordações – pois as ilustrações e os pequenos textos do livro são uma delícia –, abro na página 273 e dou de cara com uma manchete da revista Intervalo: “Erasmo e Vanderléia – tremendão ama ternurinha”. As surpresas não terminam por aí. Agora é a imagem de Wilson Simonal ao lado de um boneco esquisito: o Mug.

Pegando carona na Vemaguete vou revelar uma coisa aos leitores: a minha mãe sempre dava aos filhos colheradas e mais colheradas de Emulsão de Scott. Era a ladainha de sempre, a de uma jovem senhora na hora do almoço: “Se você não tomar Emulsão de Scott não vai crescer. Vai ficar raquítico e burro”. A gente ficava com a pulga atrás da orelha. Com temor de virar um gabiru, engolia aquele líquido viscoso e amargo – sem falar no cheiro – à base de óleo de fígado de bacalhau.

Homenagem aos caminhões

Virando a página – e olha que você lê o livro numa sentada –, uma constatação, obviedade mesmo, que deixa qualquer cidadão acima dos 40 meio amolado, pois nunca tinha parado para pensar sobre isso: os caminhões não são mais os mesmos. Atingiram os pára-choques. Ainda ontem passei pela BR-262, na periferia de Belo Horizonte, e não vi frases de efeito nos hábeis caminhões. Eis mais uma demarcação. Sinal dos tempos. Para quem gosta de amenidades e algo ligeiro, nos intervalos de leituras e literaturas mais pesadas, vale ler o livro pela delicadeza, descontração, certa nostalgia e um fio de humor, que faz levantar gargalhadas ao vento.

A seguir, uma homenagem aos caminhões, um pequeno texto de O mundo acabou!, memórias do jornalista Alberto Villas. Detalhe, se você tiver uma sogra por perto e no seu pé, tome cuidado. Não deixe o livro em cima da mesa, muito menos mostre essa pequena resenha. Pois ela pode sentir-se ofendida.

Frase de pára-choque de caminhão

“O amor é cego! Por isso vivo apalpando!” Esta vimos na estrada Belo Horizonte-Brasília, quando Brasília ainda era poeira vermelha e só. Ler frases de pára-choque de caminhão era nossa distração, para passar aquelas mais de doze horas dentro da Rural vermelha e branca. Lá no horizonte vinha um caminhão e meu pai diminuía a marcha para que pudéssemos ler. “Se me ver abraçado com mulher feia pode separar que é briga”, “Se gordura fosse físico, porco seria atleta”, “Beijo é igual ferro elétrico. Liga em cima e esquenta embaixo”. Não tinha caminhão sem frase no pára-choque. Mas as que mais sofriam eram as sogras, pobres coitadas. Perto de Paracatu, vimos dois caminhões, um atrás do outro. O da frente dizia: “Feliz foi Adão que não teve sogra nem caminhão”, e o de trás: “Não mando minha sogra pro inferno porque tenho dó do diabo”.

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Jornalista, escritor e ensaísta, autor de Pavios curtos (anomelivros, 2004) e Em linha direta (no prelo), Belo Horizonte

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