Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > SEGUNDA-FEIRA, 25/2

Imprensa critica TV Brasil

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 26/02/2008 na edição 474

Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008


TV BRASIL
Folha de S. Paulo


Vácuo de propósitos


‘HÁ UMA série de equívocos, seja nos pressupostos que lhe deram origem, seja no meio escolhido para a sua implantação, no projeto da nova TV estatal patrocinada pelo governo Lula. A iniciativa atropelou o escrutínio do Congresso e já está no ar desde dezembro, por força de uma medida provisória, cujo cerne acaba de ser aprovado pela Câmara.


O flagrante policial contra um grupo de petistas que tentava forjar um dossiê para atacar adversários, na véspera do primeiro turno de 2006, precipitou tudo. O Planalto absorveu a paranóia dos que enxergaram na cobertura do episódio uma armação midiática para derrotar a candidatura do presidente Lula. A nova TV seria a resposta ideal àquilo que o governismo considera o monolito antilulista da imprensa.


Diagnóstico errado não costuma inspirar boas terapêuticas. O agravante, no caso, é que o erro se associa ao interesse, que acomete todo governante, de anestesiar a crítica -de ver o noticiário transformado num panegírico de autopromoção.


É baixa a credibilidade de uma empreitada que, além de ter nascido do espasmo de um governo acuado e de ter sido imposta numa medida provisória, deixa intocada a estrutura das comunicações estatais no país, moldada pelo aparelhamento e pelo empreguismo -e irrelevante em termos de audiência.


Em vez de propor enxugamento e racionalização dessa vasta máquina que só fez crescer nos últimos anos (na primeira gestão petista, o número de rádios e TVs educativas subiu 26%), a iniciativa de Lula apenas lhe acrescenta mais um canal. A TV Brasil já nasce obesa, contando com 2.000 funcionários, reunião do quadro da Radiobrás com o da TVE do Rio de Janeiro.


Outro equívoco é o argumento de que o canal federal terá condições de praticar alguma forma inovadora de jornalismo. Os mais bem-sucedidos experimentos para modernizar o noticiário em veículos públicos buscaram copiar os melhores padrões da mídia privada. Mas a cópia ficou sempre pior que o original, por carência de recursos, financeiros e gerenciais. A opção de destinar o dinheiro para a produção de conteúdo educativo, artístico e cultural, segmento mal atendido pelos meios tradicionais, tem sido mais promissora.


É óbvio, por fim, que a instituição de um conselho curador composto por representantes da sociedade civil -da sociedade civil próxima ao petismo, entenda-se- não dá garantia nenhuma de que a nova TV vai se livrar do chapa-branquismo. Nem a BBC, com um sistema de controle muito mais enraizado na sociedade britânica, escapa de críticas por conduta parcial.


Falta, pois, a justificativa básica para a criação do novo canal estatal no Brasil: por que o contribuinte será obrigado a arcar com um canal de TV tão caro (R$ 500 milhões ao ano) e tão redundante com seus antecessores. Os senadores não deveriam aprovar a MP sem arrancar do governo explicações e concessões que preencham ao menos em parte esse vácuo de propósitos.’


 


LULA
Valdo Cruz


Mil faces


‘BRASÍLIA – Não é de hoje que o presidente Lula exercita seu lado teatral. Adora interpretar várias personagens ao mesmo tempo. Nos últimos dias, mostrou que está em forma na arte da ilusão.


Ato 1: em solenidade no Palácio do Planalto, Lula foi só elogios a Matilde Ribeiro. Disse que a ex-ministra da Igualdade Racial não cometeu nenhuma grande irregularidade, só erros administrativos.


Pois bem, esse é o Lula bonzinho. Aquele que adora passar a mão na cabeça de seus auxiliares flagrados em situações desabonadoras.


Não é o mesmo presidente que, nos bastidores, orientou sua equipe a divulgar que Matilde havia cometido falhas que não lhe deixavam outra saída senão pedir demissão do cargo.


Ato 2: Lula costuma dizer que defende a liberdade de imprensa, que é, inclusive, fruto dela. Só que o mesmo ator defendeu como natural a ação orquestrada de uma igreja contra a imprensa, destinada a intimidar jornalistas como Elvira Lobato. Sem falar que, reservadamente, costuma dizer coisas ainda piores sobre a mídia.


Ato 3: Lula está por aqui com a oposição. Mantém-se intransigente diante dos apelos de ceder aos tucanos a presidência da CPI dos Cartões Corporativos. Quer uma comissão totalmente dominada pelos parlamentares governistas.


Só que o petista adora o papel de quem está acima dessas briguinhas do Congresso, de quem não teme CPIs. Aí manda dizer que não vai interferir na disputa. Foi assim na CPI dos Correios. A mesma encenação se repete.


Interpretações como essas são recorrentes durante o mandato do petista. Ainda bem que seu melhor desempenho teatral está na economia. Nesse cenário, consegue ser mais fiel ao roteiro antes, durante e depois de abertas as cortinas.


Fora uma rata aqui, outra ali, no palco da economia Lula sempre veste o figurino do pragmático e conservador, rejeitando o ilusionismo. Saiu-se melhor. Nos outros papéis, deixa a desejar.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


O sucessor


‘Saiu até antes da hora no ‘El País Global’, meio do dia, ‘Raúl sucederá Fidel’. Depois ele foi ‘nomeado’ para Folha Online e ‘New York Times’, ‘confirmado’ para Globo Online e ‘Washington Post’, ‘escolhido’ para UOL etc. No ‘Miami Herald’, ele foi ‘eleito’.


Ato seguinte, Raúl fala em mudanças, mas diz que segue ‘consultando’ o irmão. Fidel, dias atrás, avisou que manteria as ‘reflexões’ no ‘Granma’ e encerrou: ‘Talvez escutem a minha voz. Serei cuidadoso’.


Hugo Chávez, em sua TV, pediu aplausos para Raúl e denunciou campanha para afastá-lo do novo líder. Mas, em contraste com o ‘El Universal’ de Caracas, sua Agência Bolivariana de Notícias escondeu o ‘novo presidente de Cuba’ no pé da home page, sem foto.


RAÚL E O GOLFE


No ‘Wall Street Journal’, capa de sábado, a história recente do golfe em Cuba. O esporte sumiu ‘depois de Che derrotar Fidel’ (esq.), certo dia de 1962. Agora, Raúl, apesar de ‘fã de briga de galo’, jamais de golfe, anuncia dez campos ‘para este esporte decididamente capitalista’. Ele quer os turistas americanos


‘BITCH IS THE NEW BLACK’


O respeitado ‘Observer’ destacou que, de colunistas do ‘NYT’ ao Politico.com e ao ‘Nightline’ da ABC, começou o ‘contra-ataque’ de ‘jornais e TV’ a Barack Obama.


O auge foi o retorno do ‘Saturday Night Live’, na NBC. Tina Fey, comediante e referência liberal, reapareceu no programa em defesa de Hillary Clinton, dizendo que ‘não é tarde’ e lançando slogan entre cômico e violento: ‘Bitch is the new black’, algo como ‘a vaca é o novo negro’.


CRISTINA VS. LULA


Sobraram ameaças, como antes com Néstor Kirchner, mas acabou o encontro de Cristina e Lula -e foi ela quem sofreu na cobertura, após a recusa do Brasil em ceder gás. Até o governista ‘Clarín’ destacou que ‘pode faltar gás no inverno’. E o ‘La Nación’ deu que não só Lula, mas Evo Morales ‘rechaçou’ sua idéia. Da aversão por entrevistas à ‘desinformação’ e quase tudo de sua personalidade, ela está sob fogo, em textos que a comparam com Lula.


Pela repercussão, salvou-se na cúpula o acordo nuclear.


O SUBMARINO


O ministro Nelson Jobim falou ao ‘Clarín’ de Eleonora Gosman, que afirmou: ‘Rivais militares antigos, Argentina e o Brasil acabam de romper a histórica relação de receio: acertaram a produção, juntos, de um submarino nuclear’. Com tecnologia francesa.


E O AVIÃO


Já o ‘La Nación’ noticiou as ‘negociações avançadas’ para a compra, pela Casa Rosada, de uma aeronave da Embraer, modelo Lineage 1000, para substituir o Tango 01, o avião presidencial. Cristina e seu marido ‘perderam confiança no Boeing’ americano.


NA TRILHA DO CONDOR


O ‘New York Times’ do novo correspondente Alexei Barrionuevo deu a longa reportagem ‘Itália segue a trilha dos seqüestros sul-americanos secretos’. Descrevendo as investigações como de ‘amplitude extraordinária’, afirma que elas acabaram envolvendo mais países na Operação Condor, nos anos 70 e 80, e ‘sugerem cumplicidade dos Estados Unidos nas ações muitas vezes mortais’.


Já o ex-correspondente Larry Rohter ressurgiu ontem no ‘NYT’, em reportagem sobre o turismo na Bahia.


GTA BOPE


O site Arena Turbo deu que o violento game ‘Grand Theft Auto’, em que o usuário pode viver um ladrão, ‘ganhou versão não-oficial baseada em ‘Tropa de Elite’. Vale para PC e Playstation 2


NÃO TEM FIM


Ainda ‘Tropa de Elite’. O francês ‘Le Monde’ deu, em título, que a premiação foi ‘controversa’ e ‘refletiu uma seleção confusa’. O atenuante de um Capitão Nascimento ‘personagem completo’, que até sofre, ‘bastou para o júri’ -mas não, pelo jeito, para o enviado Thomas Sotinel.


‘VERGONHA’


Já o inglês ‘Guardian’, em artigo de Conor Foley, deu o título ‘Brasileiros deviam ter vergonha do sucesso de um filme que desumaniza as vítimas da tortura policial’. Também só vê ‘personagem completo’ nos torturadores.’


 


RÚSSIA
Igor Gielow


Putin dispensa propaganda de sucessor


‘A uma semana da eleição para presidente da segunda potência nuclear do mundo, o ‘candidato’ mais visível nas ruas de Moscou é o apelo do governo de Vladimir Putin para que os eleitores compareçam às urnas no próximo domingo.


Placas, outdoors, inéditas propagandas dentro do metrô e até nos bilhetes para entrar nas estações, é tudo uniforme: ‘2 de março – Eleição presidencial – Federação Russa’, sobre a bandeira e o brasão russos.


Onde está Dmitri Medvedev, o escolhido por Putin para sucedê-lo e virtual presidente eleito, segundo pesquisas, analistas e adversários? Em um ou outro outdoor nas avenidas que circundam o centro moscovita, acompanhado por ainda menos freqüentes Vladimir Jirinovski (Partido Liberal Democrático) e Gennadi Ziuganov (o eterno líder do Partido Comunista pós-soviético).


‘Repare como Putin está sempre ao lado de Medvedev’, aponta a garçonete Misha, que trabalha numa espécie de cartão-postal da transição russa, a Starlight Diner -em sua filial, perto da praça Kalujskaia, é possível ver uma enorme estátua de Lênin de dentro de um típico restaurante americano.


Fato: Medvedev está sempre ao lado do mentor e, ao que tudo indica, futuro primeiro-ministro russo. A sinergia, digamos assim, é tão grande que, se não fosse pelo esquema de cores, seriam quase indistingüíveis os site das campanhas de Putin em 2004 (www.putin2004.ru) e do atual vice-primeiro-ministro (www.medvedev2008.ru).


Legitimação


As últimas pesquisas dão o candidato do partido pró-Kremlin Rússia Unida com algo por volta de 70% das intenções de voto, contra distantes 15% dos comunistas.


Por isso, a intensa campanha pelo comparecimento é vista como uma forma de o Kremlin legitimar a ‘unção’ do jovem Medvedev, um fã de rock pesado de 42 anos. A meta decantada por analistas em jornais é a de repetir o comparecimento da eleição parlamentar de dezembro passado, de 64%.


Como o voto não é obrigatório no país, há o temor de que uma baixa presença seja prejudicial ao possível novo presidente, que nunca foi eleito para nenhum cargo.


Medvedev tem tido encontros de campanha pelas regiões russas. Na capital, anteontem, a Folha esbarrou em duas pequenas marchas, uma feita por Jirinovski perto da estação Pushkinskaia, no centro da cidade, e outra de comunistas em torno da estátua do poeta revolucionário Vladimir Maiakovski, um quarteirão acima.


‘Voto no Ziuganov porque ele vai acabar com essa coisa de ricos andando como se fossem melhores que os outros’, disse uma eleitora quase arquetípica, Svletana Norodova, septuagenária e pensionista.


Na marcha do ultranacionalista Jirinovski, com a fugaz presença do próprio, alguns jovens falavam da questão de Kosovo. ‘Tínhamos que fazer algo’, afirmou


O reconhecimento da independência da ex-Província sérvia é um dos temas prediletos dos políticos russos, que não perdem uma chance para usar a retórica pan-eslava que não parece ter muito lugar no século 21, mas é tão popular quanto os discursos anti-Ocidente.


Ontem foi a vez da Chancelaria da Rússia. ‘O apoio a um lado albanês de Kosovo, indiferença ao destino de 100 mil sérvios que estão sendo na verdade enviados a um gueto no século 21, isso é puro cinismo’, disse uma nota, em referência à posição norte-americana.


O chanceler Serguei Lavrov, junto com Medvedev, chega hoje à Sérvia.’


 


CINEMA
Janaina Lage e Toni Sciarretta


Cinema ganha mais investidores


‘Colocar dinheiro em cinema deixou de atrair apenas patrocinadores e começa a chamar a atenção de investidores profissionais. O bom momento do cinema nacional e uma mudança na legislação, que permite maior dedução no imposto do dinheiro aplicado, deram visibilidade para fundos de investimento em cinema.


O que era visto quase como aplicação a fundo perdido, com expectativa de retorno zero, transformou-se em um negócio, que busca títulos de apelo de bilheteria, com potencial de mobilizar recursos e de dar retorno para o investidor.


O patrimônio dos quatro Funcines, os fundos desta categoria registrados na CVM, já soma R$ 32,671 milhões e pelo menos mais dois fundos estão em fase de formação.


Até o momento, os fundos disponíveis são voltados para a pessoa jurídica, mas o crescimento deste segmento resultará em fundos também para pessoa física. Hoje, várias corretoras viabilizam o investimento em cinema para o investidor pessoa física, mas por meio da compra de certificados de investimento, que funcionam como uma cota direta de um determinado filme.


Criados em 2001 pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) para estimular o investimento na cadeia do audiovisual, o investimento funciona como aplicações incentivadas. As empresas podem ter uma dedução fiscal correspondente a 100% do valor aplicado até o limite de 3% do Imposto de Renda a pagar. Para pessoa física, o percentual sobe para 6%.


‘Antes da nova lei, o total que podia ser restituído era de 68% do dinheiro aplicado. Hoje, a empresa aplica no Funcine, recebe a restituição total destes recursos e ainda leva uma cota do fundo de igual valor, que pode se valorizar’, diz o presidente da Ancine, Manoel Rangel.


O RB Cinema 1, da Rio Bravo, é um dos precursores desse tipo de aplicação. Antes de criar o fundo, a Rio Bravo investiu em filmes como ‘Olga’ e ‘Carandiru’. Hoje, o fundo investe em títulos como ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’, de Cao Hamburger, que foi selecionado para participar do Festival de Cinema de Berlim, ‘Sexo com Amor?’, de Wolf Maya, que está em cartaz e ‘Xuxa em Sonho de Menina’.


Não há receita para descobrir os filmes que vão cair no gosto do público. Segundo Gustavo Catão, analista de investimentos da Rio Bravo, a seleção leva em conta roteiro, elenco e diretor, entre outros fatores. A bilheteria é só uma das formas de se ganhar dinheiro. Os gestores negociam também vendas de DVDs, exibição na TV e no exterior. ‘Historicamente os filmes no Brasil não se pagam no cinema, precisam de outras janelas de exibição também.’


Alguns fundos estão em fase de captação de recursos. O mercado é pequeno, e o BNDES entra como um dos cotistas. O orçamento do banco para o setor é de R$ 25 milhões.


‘Se tivermos bons projetos, ainda podemos ampliar’, diz Luciane Gorgulho, chefe do departamento de Economia da Cultura do BNDES. O banco investiu em dois fundos. Segundo a Folha apurou, pedidos de dois fundos são analisados e outros três fizeram consultas.


De acordo com Bruno Wainer, da Downtown Filmes, os fundos são voltados para o cinema que busca resultado. ‘A natureza deste fundo é profissionalizar a relação entre investidores e a produção cinematográfica. É uma equação que só dá certo se o filme der retorno’, disse. No final do ano passado foi lançado o Funcine Lacan-Downtown Filmes, uma parceria com a distribuidora.


‘A idéia é permitir que uma distribuidora nacional possa concorrer com as internacionais com o melhor do cinema produzido no país.’ Wainer é o distribuidor de ‘Meu Nome Não é Johnny’, um dos maiores sucessos recentes nas telas.


Os fundos podem aplicar em outros segmentos da cadeia cinematográfica. Sidney Chameh, da DGF Investimentos, elabora um fundo com foco na locação de equipamentos. ‘Vamos investir na cadeia produtiva do cinema, em produtora, estúdio e equipamentos.’


Para Luiz Fernando Castello Branco, do Banco Fator, que tem um Funcine em fase de captação, há espaço para investimento em novas salas de cinema. ‘Apesar de ter crescido o número de salas, há espaço em cidades de médio porte.’


O modelo brasileiro tem semelhanças com o Soficas, fundo francês em cinema, no qual a aplicação é restituída. Segundo Thierry Perrone, que acompanhou o renascimento da indústria francesa, a aplicação deve chegar ao investidor pessoa física no Brasil. ‘O grande mercado é a classe média, mas para isso os fundos precisam emitir cotas com valor menor.’’


 


Sucesso de bilheteria, ‘Meu Nome não é Johnny’ teria rendido R$ 4,65 mi


‘Com 2 milhões de expectadores, um filme como ‘Meu Nome não é Johnny’, que narra a trajetória do músico João Guilherme Estrela até se tornar um dos maiores traficantes do Rio, poderia ter rendido aos cotistas R$ 4,65 milhões apenas com a bilheteria, segundo cálculos dos operadores do incipiente mercado de financiamento cinematográfico.


Poderia porque o filme saiu antes da mudança na regra de incentivo fiscal e captou recursos próprios.


Para Cláudio Maes, gerente de Registro da CVM, a maior dificuldade é regular um mercado ainda sem histórico de manifestações. Ele afirma que a CVM estuda mudanças para flexibilizar prazos de captação e destino de recursos. Isso porque entra dinheiro mais rápido do que os fundos conseguem investir. ‘Os projetos cinematográficos são de longo prazo. Nossa proposta é aumentar prazos para as necessidades da indústria de filmes.’’


 


Daniel Bergamasco


Irmãos Coen faturam filme, direção e roteiro adaptado


‘Com quatro estatuetas para seu ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ -melhor filme, direção, roteiro adaptado e ator coadjuvante (Javier Bardem)-, os irmãos Ethan e Joel Coen foram os grandes vitoriosos da 80ª edição do Oscar, realizada ontem à noite, em Los Angeles.


Recebendo o prêmio de direção das mãos de Martin Scorsese, premiado no ano passado por ‘Os Infiltrados’, os irmãos não aparentavam muita emoção. Ethan abriu o agradecimento dizendo ‘não ter muito a acrescentar ao que já disse antes’ -quando subiu para receber o Oscar de roteiro adaptado. Joel emendou afirmando que os dois fazem filmes ‘desde crianças’ e que o que fazem agora ‘não é tão diferente do que faziam quando jovens’.


A cerimônia foi marcada também pela festa dos intérpretes ‘estrangeiros’, com quatro europeus vencendo as categorias de atuação.


A inglesa Helen Mirren, vencedora como melhor atriz em 2007, entregou o prêmio de melhor ator ao seu compatriota Daniel Day-Lewis, em uma previsível vitória por sua interpretação de um pioneiro do petróleo em ‘Sangue Negro’.


‘É o mais perto que vou chegar de virar um cavaleiro’, disse Day-Lewis, que agradeceu à sua mulher, Rebecca Miller, e a seu filho, além do diretor Paul Thomas Anderson.


Igualmente esperado foi o Oscar de melhor ator coadjuvante para o espanhol Javier Bardem, por sua atuação como o assassino de ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’.


Depois de agradecer em inglês aos Coen e a seus colegas de elenco, Bardem passou a falar em espanhol, dedicando o prêmio à sua mãe, a atriz Pilar Bardem, que estava na platéia.


‘Mamãe, isto é para você, para nossos tios, para nossos avós que trouxeram dignidade para os comediantes da Espanha’, disse o primeiro ator espanhol a vencer o prêmio -ele já havia concorrido ao troféu em 2001, por ‘Antes do Anoitecer’.


Surpresas femininas


Já na premiação feminina, o tom foi de surpresa. A francesa Marion Cotillard levou o prêmio de melhor atriz por sua interpretação da personagem-título de ‘Piaf – Um Hino ao Amor’. A favorita na categoria era Julie Christie por ‘Longe Dela’.


Muito emocionada, Cotillard -a primeira francesa a ganhar o prêmio de melhor atriz- recebeu o troféu das mãos de Forest Whitaker (vencedor como melhor ator em 2007) e dedicou-o ao diretor Olivier Dahan.


‘Obrigada, vida, obrigada, amor. E é verdade que há alguns anjos nessa cidade’, disse, antes de sair chorando do palco, ao lado de Whitaker.


Foi o segundo prêmio de ‘Piaf’, que também teve a melhor maquiagem, para Didier Lavergne e Jan Archibald.


A outra surpresa foi a vitória da inglesa Tilda Swinton (‘Conduta de Risco’) como melhor atriz coadjuvante, batendo as mais cotadas Cate Blanchett (‘Não Estou Lá’) e Ruby Dee (‘O Gângster’).


Visivelmente espantada com sua vitória, a ruiva agradeceu a seu agente norte-americano e disse que lhe daria o troféu dourado (‘Pois não estaria aqui se não fosse por ele’).


Prêmio e política


De volta à ativa após a greve, os roteiristas trouxeram com eles todas as piadinhas características entre um e outro prêmio, com a apresentação do comediante Jon Stewart, que comandou a cerimônia pela segunda vez.


O apresentador abriu a festa fazendo referência à greve. ‘Vocês estão aqui! Mal posso acreditar que vocês estão aqui’, disse aos convidados.


A política também apareceria na apresentação do prêmio de melhor documentário de curta-metragem, apresentado por soldados americanos diretamente do Iraque. ‘Freeheld’, de Cynthia Wade e Vanessa Roth, foi o vencedor.


A guerra -no caso, a Segunda Guerra- também seria lembrada pelo vencedor do Oscar de filme estrangeiro, o austríaco ‘The Counterfeiters’, a história de um falsificador judeu que vai para um campo de concentração dos nazistas.


O segundo maior vencedor da noite foi ‘O Ultimato Bourne’, que ganhou em três categorias técnicas: edição e mixagem de som, além de montagem.


Com agências internacionais’


 


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‘Juno’ ganha três troféus em premiação dos independentes


‘No Spirit Awards, longa venceu por melhor atriz, roteiro e produção do ano


O filme ‘Juno’ levou três dos principais troféus do prêmio Spirit Awards, que elege em Hollywood, na véspera do Oscar, os melhores filmes independentes da temporada, de dentro ou fora dos EUA.


A comédia dramática sobre a garota de 16 anos que decide levar em frente a gravidez indesejada e doar o bebê para um casal venceu como filme do ano, melhor atriz para Ellen Page e roteirista estreante para a ex-stripper Diablo Cody.


Em conversa com a Folha e alguns outros jornalistas, Diablo Cody contou como estava se preparando para a cerimônia do Oscar, na qual era favorita para roteiro original: ‘Vou ter de lavar debaixo do braço’.


Apesar de contar com algumas estrelas do ‘mainstream’, o Spirit inclui na cédula apenas filmes orçados em até US$ 20 milhões (cerca de R$ 34 milhões), um valor modesto para os padrões hollywoodianos.


A festa é realizada sob uma tenda na praia de Santa Monica, em Los Angeles, e os atores tentam torná-la menos protocolar do que o Oscar. Houve ano em que a atriz Halle Berry chegou lá de bicicleta.


A lista dos concorrentes incluía celebridades como Angelina Jolie, indicada a melhor atriz por ‘O Preço da Coragem’, que sofreu uma traquinagem na transmissão do prêmio: a edição não parava de mostrá-la quando perdeu o troféu para Ellen Page e marejou os olhos à la Hillary Clinton perdendo a eleição.


O ator eleito o melhor do ano foi Philip Seymour Hoffman por ‘Família Savage’.


Cate Blanchett faturou o Spirit Awards como atriz coadjuvante, pela interpretação de Bob Dylan em ‘Não Estou Lá’. Grávida, não quis responder aos repórteres se espera menino ou menina. ‘Eu sei que é um bebê’, disse. Ao agradecer pela vitória, Blanchett prestou uma homenagem a Heath Ledger (morto em janeiro por overdose de remédios), que também atuou em ‘Não Estou Lá’.


Chiwetel Ejiofor foi o melhor ator coadjuvante por ‘Talk to Me’, e Julian Schnabel, o diretor por ‘O Escafandro e a Borboleta’. O irlandês ‘Once’ venceu como filme estrangeiro.’


 


Festival de Punta del Este premia o filme ‘Estômago’


‘O longa ‘Estômago’ ganhou dois prêmios no 11º Festival Internacional de Cinema de Punta del Este, no Uruguai. Dirigido por Marcos Jorge, ‘Estômago’ foi escolhido o melhor filme, e João Miguel venceu na categoria de melhor ator pela atuação em ‘Estômago’ e em ‘Mutum’, de Sandra Kogut.


O filme de Marcos Jorge, que marca sua estréia na direção de longas, conta a história de um funcionário de um bar que descobre ter dotes culinários.


Sobre a premiação, o diretor disse estar bastante contente. ‘Fiquei feliz que o júri tenha compreendido o filme’, afirmou. ‘Estômago’ também foi o grande vencedor do Festival do Rio, no ano passado.


‘Jogo de Cena’, dirigido por Eduardo Coutinho, foi premiado como melhor documentário pelo júri da seção PuntaDoc. Já ‘O Brilho de Meus Olhos’, de Allan Ribeiro, foi o vencedor do principal prêmio na categoria de curtas-metragens.


Outros vencedores foram a atriz Haydée Faverola, escolhida a melhor atriz pelo seu papel em ‘Postales de Leningrado’, dirigido por Mariana Rondón, e o uruguaio Rodrigo Plá, diretor de ‘La Zona’, eleito a revelação do festival.


Na seleção oficial, 17 filmes da Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Espanha, França, China, México e Venezuela competiram.


Ao longo do festival uruguaio, aproximadamente cem produções, entre longas, curtas e documentários, foram apresentadas.


Com agências internacionais’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Canais pagos exibem sexo e violência às 7h da manhã


‘Atenção senhores pais: aquele canal de TV paga a que toda a sua família tem acesso pode neste momento estar exibindo um filme com cenas fortes de sexo, violência e drogas.


Levantamento feito pela Folha revela que pelo menos 45 filmes impróprios para menores de 16 e 18 anos foram e/ou serão transmitidos entre 6h e 22h ao longo deste mês. Na TV aberta, títulos não recomendados para menores de 16 anos só podem ir ao ar após as 22h. A TV paga não é obrigada a cumprir essa norma, mas tem de informar a classificação.


O levantamento foi feito sobre a lista de 2.121 filmes do guia da Net neste mês.


Entre os 45 filmes inadequados antes das 22h, não há nenhum pornô. Quase todos são dramas, comédias e thrillers com forte conteúdo sexual ou violência. Descuidos como ‘Com o Pé na Estrada’, em que três rapazes ‘vivem hilárias situações com duas lindas caronistas’. Impróprio para menores de 18, passou no Telecine Premium às 6h35 do dia 18. É o caso também do nacional ‘Ódiquê’, com cenas de consumo de drogas, apresentado pelo Canal Brasil às 13h30 do dia 17.


Os canais Telecine (incluindo o Pipoca) lideram, com 37 títulos. O Canal Brasil teve três filmes impróprios entre 6h e 22h e o Cinemax, dois. Max Prime, Fox e FX tiveram um cada.


Em nota, a Rede Telecine informou que ‘segue todas as regulamentações para a TV por assinatura’ e que faz ‘avaliações internas com critério conservador’. ‘Isso acontece em especial com o Telecine Pipoca, que não é um canal infantil, mas tem um perfil de público mais jovem. O Telecine faz uma análise prévia para evitar que uma produção imprópria seja exibida em um horário diurno. Por estar em um pacote premium, não editamos nossos filmes e oferecemos ao assinante opções de horário. A Rede Telecine vai rever a classificação e horário de exibição dos filmes citados e lembra ainda que há opção de bloqueio de canais’.


Os canais Fox e FX informaram que os dois filmes foram ‘casos isolados’. Procurados, Canal Brasil, Cinemax e Max Prime não se manifestaram.


FORÇA LOIRA


A dublê de atriz Grazzi Massafera foi sondada pela Globo para cobrir a licença-maternidade de Maria Paula no ‘Casseta & Planeta’, a partir de maio.


PÉSSIMA NOTÍCIA


Por causa das eliminatórias do reality show ‘American Idol’, que rendem episódios de duas horas, o canal Sony só voltará a exibir ‘Ugly Betty’ em 12 de março, às 20h. Para o canal, é estratégia de programação. Para os fãs da série, é falta de respeito mesmo.


CIRCO NEWS


O SBT estuda ‘dotar’ o novo ‘Aqui Agora’ de uma platéia de universitários. Os estudantes participariam de debates sobre comportamento e carreiras. Unir jornalismo e auditório é um antigo sonho de Silvio Santos, dono da emissora.’


 


Programa destaca Amaral e Ruth Rocha


‘A edição de fevereiro do programa ‘Letra Livre’ destaca hoje a produção da escritora infanto-juvenil Ruth Rocha e da dramaturga e romancista Maria Adelaide Amaral.


Apresentado pelo crítico literário e colunista da Folha Manuel da Costa Pinto, o programa tem como foco o debate entre as convidadas e intervenções variadas: as de Costa Pinto, as do público -majoritariamente de estudantes de letras-, que participam da gravação em um auditório e a de especialistas, mediante registros pré-gravados.


Nada muito original, mas que, com a condução segura de Costa Pinto, aliada à boa presença de palco e ao espírito bem-humorado das duas convidadas, guarda certo interesse.


Rocha disse não temer um eventual prejuízo de gosto em crianças, adolescentes e jovens que lêem os livros da série ‘Harry Potter’. ‘É bom, eles lêem aqueles grandes volumes e nos inspiram [os autores tradicionais de obras infanto-juvenis] a escrever mais’, destaca ela. Para a autora, jovens vivem muito ‘de fases’ e, por isso, podem ser fãs de variados tipos de leitura. ‘Machado de Assis, por exemplo, é uma leitura de maturidade. Você vai entendê-lo só aos 40’, avalia.


Já Amaral foi mais questionada sobre a criação de minisséries históricas de TV, como ‘JK’, ‘A Casa das Sete Mulheres’ e ‘Os Maias’.


LETRA LIVRE


Quando: hoje, às 20h


Onde: Cultura’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008


UNIVERSAL
Carlos Alberto Di Franco


Agressão à imprensa e à democracia


‘Numa ação claramente orquestrada para intimidar jornalistas e empresas de comunicação, fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus desencadearam dezenas de processos por dano moral contra os jornais Folha de S.Paulo, O Globo, Extra e A Tarde.


O estopim da enxurrada judicial foram duas reportagens rigorosamente jornalísticas. Os jornais A Tarde (Bahia) e Extra (Rio de Janeiro) noticiaram a agressão a uma imagem de São Benedito por um seguidor da Igreja Universal. A Folha de S.Paulo, por sua vez, publicou em dezembro uma extensa e bem apurada matéria mostrando como o fundador da Universal, o ‘bispo’ Edir Macedo, usou o dinheiro do dízimo para montar um império empresarial.


Segundo a reportagem da jornalista Elvira Lobato, a Universal é a maior proprietária de concessões de TV do País: são 23 emissoras de TV e 40 emissoras de rádio registradas em nome de pastores. A Igreja arrenda 36 rádios que integram a Rede Aleluia. De acordo com o levantamento feito pela Folha, Edir Macedo é dono de 99% das ações da TV Capital, geradora da Rede Record em Brasília; 50% da TV Sociedade, de Belo Horizonte; 48% da TV Record do Rio; e de 30% da Record de São José do Rio Preto (São Paulo). O ‘bispo’, ademais, controla dois jornais diários, duas gráficas, quatro empresas de participações, uma agência de turismo, uma imobiliária, uma empresa de seguro de saúde e uma de taxi aéreo, a Alliance Jet.


Nos processos contra a Folha e a jornalista Elvira Lobato, fiéis e pastores da Universal pedem indenizações de R$ 1 mil a R$ 10 mil. Os valores são notavelmente modestos, sobretudo em se tratando de ações de dano moral. A fundamentação beira ao ridículo. Nas ações contra o Extra, por exemplo, os autores alegam que objetivo do jornal ao noticiar a agressão a uma imagem de um santo católico não foi informar, mas estimular a ‘ira’ dos católicos e criar um clima de ‘perseguição religiosa’, submetendo os fiéis da Universal ao ‘risco diário de sofrer agressões físicas e discriminações’.


A iniciativa da Igreja Universal do Reino de Deus de incentivar fiéis a moverem ações de indenização em juizados especiais, nas mais distantes cidades do País, contra jornais e jornalistas, revela uma clara tentativa de intimidação da imprensa e agride a liberdade de expressão e a própria democracia. Os jornais foram obrigados a contratar advogados em várias regiões do País. Além disso, como várias audiências foram marcadas no mesmo dia e em cidades distintas, algumas de acesso muito difícil, os diários foram submetidos a uma alucinante maratona judicial para defender suas empresas, seus funcionários e o elementar direito de informar. A TV Record, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, usou, recentemente, grande parte do programa Domingo Espetacular, no horário nobre, para atacar a imprensa e ameaçar o trabalho de repórteres.


O Judiciário, felizmente, já percebeu a má-fé dos reclamantes e a flagrante coordenação das ações de dano moral contra jornais e jornalistas. Os textos das ações são parecidos, com parágrafos idênticos, o que sugere, dizem os juízes, que houve ação orquestrada pela Igreja. No total, há 56 ações de fiéis da Universal contra a repórter Elvira Lobato e a Folha. Cinco delas já foram extintas. Houve dois casos em que, além de extinguir o processo, os juízes ainda condenaram os fiéis por usar o Poder Judiciário de forma indevida. Eles terão de pagar custas e despesas processuais, além de multa. Para o juiz Jayme Martins de Oliveira Neto, da 13ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, o juizado especial foi criado para ajudar o cidadão comum no acesso à Justiça. ‘Quando se verifica que o sistema passa a ser utilizado de maneira que foge a esses padrões, ou por má-fé ou porque os argumentos são repetitivos, idênticos em pontos distantes do País, o sistema passa a ser desvirtuado com evidente prejuízo para a defesa.’ Foi o que aconteceu. Rigorosamente.


O episódio, lamentável, pode ser a ocasião para um aprofundamento nos critérios de concessões de TVs no Brasil. A organização presidida pelo ‘bispo’ Edir Macedo, com seu braço financeiro no paraíso fiscal de Jersey, não tem sido um modelo de transparência. O suposto desvio do dízimo dos fiéis para suas empresas de comunicação deve ser rigorosamente apurado. As empresas de comunicação brasileiras têm donos conhecidos, pagam impostos e seguem critérios éticos na comercialização de seus espaços publicitários. Empresas de comunicação sérias são construídas com trabalho, ética e transparência.


A liberdade religiosa está na raiz da cultura brasileira. E deve ser preservada. Mas não pode servir de subterfúgio para ações comerciais e financeiras nebulosas ou ambíguas. A tentativa de censura, antidemocrática e inconstitucional, promovida pela Igreja Universal não visa a defesa da liberdade religiosa. O que se pretende, de fato, é impedir a circulação de informação incômoda aos interesses do grupo. O Brasil vive, de fato e de direito, num clima plenamente democrático. Mas sabemos, todos, o que supôs a longa travessia rumo à plenitude democrática.


A estratégia da Igreja Universal, cuja ponta do iceberg emergiu na recente cascata de ações contra a imprensa, é uma proposta contrária aos interesses da sociedade. É uma bofetada numa história pavimentada no respeito e na tolerância.


Tranqüilizou-se a opinião pública com a rápida e sábia decisão do Judiciário. Mas, ao mesmo tempo, espera que se promova a devida apuração sobre os negócios do empresário Edir Macedo.


Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco – Consultoria em Estratégia de Mídia. E-mail: difranco@ceu.org.br’


 


TV BRASIL
Luciana Nunes Leal


TV pública ainda mantém vícios de emissora oficial


‘Inaugurada em dezembro, com a promessa de autonomia em relação ao governo e isenção no tratamento de todos os assuntos, a TV Brasil, emissora pública criada por meio de uma medida provisória e agora em discussão no Congresso, ainda carrega vícios das televisões oficiais.


Na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), nome oficial do canal, a autopromoção de instituições estatais e a falta de regras para os anúncios institucionais ainda são problemas não resolvidos. Entre os pontos positivos, estão programas sobre música e cinema, além de reportagens mais aprofundadas que as das emissoras comerciais, além de enfoque didático. Além disso, não falta espaço para a oposição se manifestar.


O Mobilização Brasil, que vai ao ar de segunda a sábado, às 7h30, é o maior exemplo da confusão entre informação e propaganda. O espaço é pago pela Fundação Banco do Brasil e propõe mostrar ‘como a mobilização da comunidade resulta na solução de problemas sociais antigos’.


De fato, aponta ações bem-sucedidas que envolvem cooperativas e agricultura familiar, todas patrocinadas pela fundação. Além das atividades, no entanto, o programa dá destaque para representantes da patrocinadora, que comentam projetos financiados pelo banco.


MANDIOCA


Na última quarta-feira, o tema era ‘a cadeia produtiva da mandioca’, em Vitória da Conquista (BA) – administrada pelo PT – e arredores. No estúdio, um produtor rural e Emerson Pereira, representante da fundação, comentavam um projeto.


‘A fundação está imbuída no processo de se alinhar aos programas do governo federal de combate à fome e do programa Fome Zero’, disse Pereira. No início da entrevista, ele informou que, em 2003, ‘se repensou a atuação da Fundação Banco do Brasil’. Foi o primeiro ano do governo Lula.


A equipe do programa foi a Vitória da Conquista, onde ouviu, entre outros, o agricultor Juraci Silva Cordeiro. ‘Nunca antes na história tanta gente se envolveu na agricultura familiar’, disse Juraci, usando um bordão repetido à exaustão pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e abordando tema muito caro ao presidente, a agricultura familiar.


No dia seguinte, o tema do Mobilização era a apicultura no Vale do Jequitinhonha (MG). Dessa vez, foi entrevistado Jorge Luiz Bertoldi, do setor de Geração de Trabalho e Renda da fundação, além de dois funcionários do banco na cidade de Turmalina e apicultores beneficiados.


DIVERSIFICAÇÃO


Antes do programa sobre a mandioca, na quarta-feira, foi ao ar o semanal Universo Pesquisa, às 7 horas, patrocinado pela Universidade Regional de Blumenau (SC). Em um dos quadros, foi entrevistado o jornalista Aristheu Formiga, autor do livro Vende-se a Notícia, em que discute ‘a confusão entre notícia e publicidade’. Boa parte da entrevista foi dedicada às críticas do autor a uma empresa privada.


No noticiário da emissora, percebe-se o cuidado em dar espaço a representantes da oposição. Entre quarta e sexta, apareceram o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), e o líder do DEM na Câmara, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA). Entre os governistas, foram o líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), e os líderes do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS).


Na noite de quarta, o destaque foi para uma entrevista com a deputada petista Janete Pietá (SP), da Frente Parlamentar pela Defesa da Igualdade Racial. Já na quinta, um representante da Receita Federal deu informações sobre as novas regras de declaração do Imposto de Renda.


DEBATES


A diretora de jornalismo da TV Brasil, Helena Chagas, lembra que oposicionistas como o senador Heráclito Fortes (PI) e o deputado José Carlos Aleluia (BA), ambos do DEM, já participaram de debates na emissora. Ela conta que os programas jornalísticos terão cada vez menos reportagens de aparência oficial, como assinaturas de convênios.


‘Tive espaço na TV, não vou negar. E o entrevistador foi bastante equilibrado. Mas acredito que a TV Brasil não foi concebida como emissora pública, no sentido de não ter influência do governo nem do setor privado. É diferente das universidades públicas, que têm autonomia, elegem aqueles que vão comandar’, ressalta Aleluia.


A presidente da emissora, Tereza Cruvinel, rebate o comentário: ‘A TV busca pluralidade, isenção, equilíbrio e está imprimindo perfeitamente essa finalidade.’


Ainda na noite de quarta-feira, o jornal noturno exibiu reportagem sobre o fechamento de bibliotecas públicas municipais da cidade de São Paulo, cujo prefeito, Gilberto Kassab, é do DEM. Foi apresentado, ainda, um bem-sucedido projeto de leitura no bairro de Heliópolis, ‘enquanto a prefeitura decide fechar bibliotecas’.


Não houve espaço para resposta dos gestores municipais. Segundo Helena, a nota da prefeitura não chegou a tempo de entrar na edição de quarta-feira e foi divulgada no dia seguinte.


FRASES


José Carlos Aleluia


Deputado (DEM-BA)


‘Tive espaço na TV, não vou negar. E o entrevistador foi bastante equilibrado.


Mas acredito que a TV Brasil não foi concebida como emissora pública, no sentido de não ter influência do governo nem do setor privado. É diferente das universidades públicas, que têm autonomia’


Juraci Silva Cordeiro


Entrevistado da TV


‘Nunca antes na história tanta gente se envolveu na agricultura familiar’’


 


***


Medida provisória foi obstruída até pela base aliada


‘Rejeitada pelo DEM e pelo PSDB, a medida provisória que cria a TV Brasil produziu situações inusitadas na votação em plenário na Câmara. Na terça-feira passada, quando o texto-base foi aprovado, o governista PTB se aliou aos oposicionistas na obstrução, quando os deputados, embora presentes, não participaram e tentaram adiar a votação o máximo possível.


O líder do PTB, Jovair Arantes (GO), alegou que ‘o tema precisava ser mais discutido’. Na hora decisiva, porém, acabou votando a favor. A verdadeira motivação do partido não tinha relação com a TV pública. Os petebistas reivindicam a vice-liderança do governo na Câmara e resolveram demonstrar sua insatisfação.


Na quinta-feira, durante votação de emendas à MP, foi a vez de o PMDB promover obstrução, quando até DEM e PSDB tinham concordado em não usar esse recurso regimental. O objetivo era adiar a votação da emenda que transfere a sede da emissora do Rio para Brasília.


A emenda voltará ao plenário amanhã. A oposição tentará derrubar a criação da contribuição de fomento que vai garantir R$ 150 milhões à TV Brasil neste ano, além dos R$ 350 milhões que já estão no Orçamento. A contribuição equivale a 10% do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel).’


 


Tereza diz que emissora herdou programação


‘Presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o nome oficial da TV Brasil, a jornalista Tereza Cruvinel disse ao Estado que a empresa ‘herdou’ a grade de programação das TVs educativas, como a TVE do Rio, que passa por análise do conteúdo dos programas para verificar se estão dentro das diretrizes da nova emissora.


Hoje, o programa Mobilização Brasil será tema da primeira reunião do Comitê de Programação da TV, no Rio. ‘Se concluirmos que está em desacordo com a TV, vamos pedir o ajustamento ou tirar do ar’, adiantou Tereza.


De acordo com a jornalista, o Mobilização Brasil é fruto de contrato da TVE do Rio com a Fundação Banco do Brasil, com duração até maio deste ano. O programa é feito por uma produtora independente e a emissora só o transmite.


‘Claro que a responsabilidade de exibição é nossa. Herdamos uma grade de programação que precisamos renovar em todos os sentidos’, disse a presidente da EBC. Todos os programas passarão pelo crivo do Comitê de Programação.


ANUNCIANTES


Ao conselho curador da TV Brasil, Tereza levará outra preocupação: a necessidade de fixar normas claras para os anúncios chamados ‘veiculações graciosas’, em que os anunciantes não pagam pela divulgação de seus nomes.


Hoje, sem propaganda da iniciativa privada, a TV Brasil dedica intervalos à divulgação da própria emissora, de alguns ministérios, de campanhas da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de ONGs ambientais, como o WWF e o Greenpeace, e da Central Única das Favelas (Cufa), do Rio.


Tereza explicou ainda que, por enquanto, têm sido veiculados anúncios institucionais de ONGs e outras entidades que procuram a emissora e que estejam enquadradas nos temas de interesse público.


‘Eles não pagam nada. Atendemos quem demanda. Mas terá de ter uma norma e o mais correto é encaminhar ao conselho curador’, explicou a presidente da EBC.


Um tipo de inserção freqüente é a que traz espectadores defendendo emissoras públicas e dizendo o que esperam da TV Brasil: pluralidade e isenção.


CRÍTICO


Um desses personagens é o prefeito do Rio, Cesar Maia, do DEM, partido que critica com mais contundência a emissora e fez, na Câmara, o possível para adiar a votação da medida provisória que a cria.


‘Não há contradição. Na gravação eu disse que o Brasil precisa ter uma TV como a BBC e a TVE – Espanha. O DEM tem certeza de que o PT não fará isso. Nunca me nego a responder o que me perguntam, estando na frente do laptop, de gravador ou de câmera. E falei o que eu acho’, respondeu Maia, por e-mail, ao Estado.’


 


CUBA
Roberto Lameirinhas


Sucessão é ignorada na rua e na mídia


‘Com exceção do esquema de segurança reforçado nas ruas próximas do Palácio das Convenções, ao lado do Hotel Palco, no leste da cidade, nada em Havana indicava ontem que o processo de sucessão do líder Fidel Castro estava em marcha. Nenhum tipo de celebração popular pela eleição e posse da nova Legislatura estava previsto e as emissoras de TV seguiam com sua programação normal. A nota do jornal oficial Granma sobre a instalação da Assembléia não mereceu mais do que um texto de 20 linhas na primeira página – espaço menor ao dedicado à notícia da morte do ator brasileiro Rubens de Falco, publicada em um quarto da última página do tablóide.


A única alteração perceptível na rotina da cidade estava na praça em frente do edifício do Escritório de Interesses dos EUA, onde as 138 bandeiras negras – que servem para bloquear a visão do letreiro que, das janelas do prédio, enviam mensagens ao povo cubano – foram substituídas por bandeiras de Cuba.


Só depois de confirmada a indicação de Raúl Castro para a presidência do Conselho de Estado, a TV cubana passou a transmitir seu discurso.


‘Parece que as coisas que acontecem aqui causam mais comoção no restante do mundo do que em Cuba’, disse ao Estado o comerciante Silvio Rodríguez, que vende artesanato em Havana Velha, o centro histórico da capital. ‘Nós estamos tranqüilos. Sabemos que os deputados que elegemos para a Assembléia em janeiro estão nos representando e tomarão as decisões que nós mesmos tomaríamos.’


‘A sociedade cubana não está sujeita aos valores burgueses da sociedade de consumo, como em outros países’, afirma, em conversa com alguns colegas estrangeiros, o jornalista cubano Ricardo Martínez. ‘Uma eleição ou uma sessão legislativa aqui em Cuba é parte de um conjunto sóbrio de decisões políticas, e não um espetáculo de mídia.’’


 


PUBLICIDADE
Marili Ribeiro


Produtoras buscam novos formatos


‘Um movimento de expansão vem se acentuando entre as produtoras de filmes publicitários no último ano. O negócio cresce impulsionado pela busca, por parte dos anunciantes, de outros canais para a exposição de suas mensagens comerciais. Vídeos na internet, pequenos filmes em celulares ou circuitos internos de tevê, ou ainda produções mais sofisticadas, capazes de abrigar o chamado conteúdo patrocinado, ou brand entertainment – ferramenta de marketing similar ao velho merchandising -, ganham espaço no mercado da propaganda.


‘Os clientes não estão mais tão preocupados com os tradicionais anúncios de 30 segundos para a TV aberta. Acabamos de realizar cinco filmes para a Nokia, todos apenas para a internet’, diz Cao Quintas, produtor-executivo da Rede Latina Estúdio, uma produtora que, desde o ano passado, passou a atuar em parceria com empresas do ramo em outros países latino-americanos. ‘A maioria dos anunciantes está atrás de experiências inovadoras’, diz.


‘O aumento da demanda por conteúdo inserido dentro do contexto de uma história para atender ao mercado anunciante tem feito vários de nossos projetos saírem do papel mais rápido’, diz João Daniel Tikhomiroff , presidente do Grupo Mixer, uma das grandes produtoras de filmes do País.


Nos moldes do seriado Mothern, realizado com patrocínio e exibido na Globosat, a Mixer finaliza a negociação, também para TV paga, do seriado Os Descolados. ‘Mas já temos outra série sob encomenda e mais dois outros projetos nessa mesma linha para sair do forno ainda no primeiro semestre’, diz.


DUAS CABEÇAS


A intensificação dos negócios também faz surgir novas empresas e formatos de atuação fora do padrão habitual do mercado. Caso, por exemplo, da recém-criada Santo Forte Filmes, que estreou há seis meses colocando à disposição dos clientes uma dupla de diretores para produzir e filmar os comerciais.


‘Contratam dois pelo preço de um’, brinca o cineasta João Dornelas, que faz par com Pedro Pereira na empresa. ‘A grande vantagem desse formato é a somatória das características individuais enriquecendo o projeto final.’ Dornelas tem formação em cinema, enquanto Pereira acumula dez anos de experiência em agências de publicidade. A dupla estreou fazendo dois filmes para a campanha criada pela agência de publicidade Z+ para a empresa de produtos esportivos Penalty.


A filmagem com dupla de diretores começou a ficar conhecida no Brasil com a iniciativa dos profissionais da 300ml, do Rio – para manter o mistério, eles não revelam seus nomes. ‘Gramamos uns dois anos até impormos esse modelo’, diz um deles. ‘Nos preparamos para filmar dessa forma. Temos afinidades, o que facilita o trabalho’, acrescenta o outro.


A dupla trabalha para a premiada produtora nova-iorquina Hungry Man que, instalada no Rio, resolveu expandir para São Paulo, onde acaba de abrir um escritório. Os planos originais da empresa eram de tomar esse iniciativa somente em 2010, mas o aquecimento do setor antecipou a programação.


Essas novas práticas também já começam a chegar às agências de publicidade. Ulisses Zamboni, sócio-diretor de planejamento da agência Santa Clara, adota o sistema que chama de ‘co-criatividade’, onde o diretor da produtora é chamado a participar também da reunião que vai definir o roteiro do filme da campanha que estão desenvolvendo. ‘É um processo comum na europa’, diz. ‘Alavanca o resultado final, já que mais cabeças pensando para um mesmo fim podem tornar tudo mais rico.’’


 


CINEMA
Luiz Carlos Merten


Irmãos Coen levam quatro Oscars na festa dos 80 anos


‘E o Oscar de direção foi para… os irmãos Coen, por Onde os Fracos Não Têm Vez, que também venceu a estatueta principal. Até o anúncio final, foi o Oscar mais pulverizado dos últimos anos – faltando pouco mais de meia-hora para o fim da cerimônia de entrega das estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o campeão da noite era O Ultimato Bourne, de Paul Greengrass, com três prêmios técnicos (melhores efeitos sonoros, melhor mixagem de som e melhor montagem). Outros filmes com mais de um prêmio eram Piaf – Hino ao Amor, de Olivier Dahan, vencedor nas categorias de melhor atriz (Marion Cotillard) e maquiagem; e justamente Onde os Fracos Não Têm Vez, que ganhou os prêmios de melhor roteiro adaptado (para os Coens, a partir do romance de Cormac McCarthy) e ator coadjuvante (Javier Bardem).


A eles veio somar-se Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, que ganhou os Oscars de melhor ator (Daniel Day-Lewis) e fotografia. Haviam grandes perdedores – Desejo e Reparação, de Joe Wright, com apenas um prêmio, o de melhor partitura (para Dario Marianelli) e Sweeney Todd, o Demoníaco Barbeiro da Rua Fleet, de Tim Burton, que ganhou a estatueta de melhor direção artística. Faltavam, a esta altura, as frases mágicas – relativas às categorias de melhor direção e filme, a última a ser anunciada. Os Coens venceram por seu western de crime e horror, que virou o favorito dos críticos – mas que no ano passado havia concorrido e nada levado no Festival de Cannes.


Terminou sendo uma distribuição de prêmios inovadora. Melhor filme e direção para os norte-americanos e os quatro prêmios de interpretação para atores estrangeiros – mesmo que dois deles, os ingleses Daniel Day-Lewis e Tilda Swinton sejam figuras carimbadas de Hollywood. Os outros dois, que representam o cinema de língua não inglesa, a francesa Marion Cotillard e o espanhol Javier Bardem fizeram os agradecimentos mais emocionantes da noite. Ainda no tapete vermelho, a vencedora do prêmio de melhor atriz do ano passado, Helen Mirren – de A Rainha – , disse que o ano passado foi marcado por filmes fortes e grandes interpretações, mas que os homens estiveram melhores do que as mulheres. A própria vitória de Marion, por sua memorável criação como a ?môme? Piaf, desmentiu a afirmação da rainha. O Oscar de Piaf foi o primeiro de uma atriz francesa desde que Simone Signoret foi premiada por Almas em Leilão, de Jack Clayton, há quase 50 anos – mas o filme antigo era em língua inglesa. Foi um ano de muitas vitórias européias – a produção austríaca Os Falsários, de Stefan Ruzowitzky, que já havia sido premiada no Festival de Berlim de 2007, ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, apresentado por Penelope Cruz.


John Stewart, apresentador de um programa de entrevistas satírico na CNN, confirmou-se um âncora muito divertido e perspicaz. Suas piadas foram invariavelmente políticas. Ele lembrou que o Oscar, como está fazendo 80 anos, vira automaticamente um forte candidato à indicação republicana para a presidência dos EUA. Comentando a atuação de Julie Christie em Longe Dela, de Sarah Polley, Stewart foi sarcástico. Disse que o filme conta a história de uma mulher (vítima de Alzheimer) que esquece o próprio marido. Foi uma grande inspiração para Hillary Clinton – sua piada provocou ondas de riso na platéia. O ano foi grande, acrescentou o âncora, menos para os filmes sobre a Guerra do Iraque, que fracassaram na bilheteria. Precisamos lutar, disse ele, mas se você esperava ver John Stewart advogar pela retirada dos EUA do Iraque enganou-se. O que ele disse é que não podemos deixar o público vencer. Os filmes sobre o Iraque precisam de tela.


Sobrou até para Eddie Murphy. O vencedor, na noite de sábado, de três Framboesas de Ouro – como pior ator, pior ator coadjuvante e pior atriz coadjuvante, por Norbit – motivou outro comentário ferino de John Stewart. Ele achou legal que Norbit tivesse sido indicado (para melhor maquiagem) – afinal, a Academia de Hollywood nunca se lembra dos maus filmes. Mas Stewart brincou com sexo, também. Depois de observar que Cate Blanchett e Jessica Alba estão grávidas – mais tarde, ele acrescentou Nicole Kidman à lista -, acrescentou que a noite ainda era criança, Jack Nicholson estava na platéia e no fim da noite era bom fazer as contas de novo, para ver se não houve nenhum acréscimo. Brincadeiras à parte, a cerimônia já antecipou uma tendência logo no primeiro prêmio. O primeiro Oscar foi para os figurinos de Elizabeth – A Era de Ouro, de Alexandra Byrne – e a armadura de Cate Blanchett, na pele da lendária rainha inglesa, venceu o sexy vestido verde de Keira Knightley em Desejo e Reparação. O belo filme que Joe Wright adaptou do romance de Ewan McEwan configurava-se como foi – o grande perdedor da noite.


Ratatouille, de Brad Bird, foi a melhor animação do ano. Bardem, claro, o melhor ator coadjuvante – não havia outro, mas aquele penteado exótico, parecendo uma armadura, certamente contribuiu, e muito, para a estranheza do personagem que representa o mal sem justificativas no filme dos Coen. A melhor canção foi Slowly, de Glen Hansard e Marketa Irgova, do musical irlandês Once. O Oscar de efeitos visuais foi para A Bússola de Ouro. A Academia deve ter brincado conosco. Os efeitos de Transformers, de Michael Bay, outro indicado, dão de dez nos da Bússola. Duas categorias que o espectador brasileiro raramente tem condições de conferir – o melhor curta do ano foi Le Mozart des Pickpockets e o melhor curta de animação, Pedro e o Lobo. O Oscar de Tilda Swinton, o único de Conduta de Risco, de Tony Gilroy, consagra a trajetória da atriz em Hollywood. No começo de sua carreira, ela foi musa de diretores de vanguarda como Derek Jarman. Tilda faz hoje pequenos papéis de prestígio em filmes de grande orçamento (e que em geral precisam de uma atriz classuda para se legitimar).’


 


Luiz Carlos Merten


Juno fez a festa do ‘Espírito Independente’


‘E o Oscar independente foi para… Juno, de Jason Reitman. Se você é cinéfilo de carteirinha sabe que o Oscar independente chama-se Spirit e foi atribuído no sábado à noite, quase à mesma hora em que estavam sendo anunciados os vencedores da Framboesa de Ouro para os piores do cinema em 2007. Todas essas premiações ocorrem praticamente juntas, mas o Oscar termina por eclipsar as demais.


A festa de entrega do ?Espírito Independente? ocorreu na praia de Santa Mônica. Juno, a comédia teen que é recordista de público entre os indicados para o Oscar principal, venceu nas categorias de melhor filme, atriz (Ellen Page) e roteiro (Diablo Cody). Em seu discurso de agradecimento, Ellen disse que o Spirit ‘é muito especial para mim, mas na verdade tudo isso é culpa de Diablo, que escreveu um dos melhores roteiros que li na vida, com uma personagem adolescente como creio que nunca se viu antes.’


Diablo é pseudônimo de uma antiga dançarina de strip-tease que criou um blog, virou escritora e foi parar em Hollywood, consagrada de cara pelo êxito espetacular de Juno. O prêmio de direção não foi para Jason, filho do também cineasta Ivan Reitman. Foi atribuído a Julian Schnabel, por O Escafandro e a Borboleta, que também recebeu o prêmio para a melhor fotografia (Janusz Kaminski). Para lembrar Robert Altman, que morreu no final de 2006, a Associação Film Independent criou um prêmio em homenagem ao grande diretor que conseguiu resistir aos apelos comerciais de Hollywood, desenvolvendo uma obra autoral ao longo de décadas.


O diretor Todd Haynes e o elenco de I?m Not There – Christian Bale, Cate Blanchett, Richard Gere, Julianne Moore e Heath Ledger – foram os vencedores do primeiro Robert Altman Award, no Spirit. Até por ser ele um dos premiados, a Associação Film Independent prestou sua homenagem a Heath Ledger, que morreu em janeiro, após ingerir – tudo indica que por acidente – uma dose excessiva de calmantes e pílulas para dormir. Cate Blanchett não deixou por menos e disse que Ledger, australiano como ela, ‘era provavelmente o espírito independente mais belo de todos’.


O Spirit contemplou, como melhor documentário, Crazy Love, de Dan Kloves. Javier Bardem não concorria, e o ator coadjuvante vencedor foi Kasi Lemmons, por Talk to Me (estrelado por Don Cheaddle). O prêmio de ator foi para Philip Seymour Hoffman, por The Savages, que também ganhou o de roteiro. O melhor filme estrangeiro foi o musical Once, do irlandês John Carney. Para um prêmio que se pretende independente, não deixa de ser curioso assinalar que Angelina Jolie, estrela top de Hollywood, foi a dona da noite, atraindo todas as atenções para a sua gravidez.’


 


TELEVISÃO
Shaonny Takaiama


Brainers negocia com três emissoras


‘A produtora Brainers TV, nova empreitada do empresário e apresentador de O Aprendiz, Roberto Justus, e de seu sócio, o ex-diretor de Programação da Record Hélio Vargas, já negocia novos projetos com três emissoras da TV aberta. Lançada em outubro de 2007, a Brainers TV anunciou recentemente que produzirá um programa de variedades com apresentação de Milton Neves a ser exibido na grade da Band ainda este ano.


Hélio Vargas não dá detalhes sobre os projetos da Brainers que estão em negociação nem quais emissoras estão envolvidas, mas assegura que o interesse da produtora é se tornar, em breve, uma criadora de novos formatos, nos moldes das gigantes Fremantle Media (idealizadora de O Aprendiz e Ídolos) e Endemol (de Big Brother Brasil). ‘Um dos objetivos da Brainers será desenvolver formatos aqui e comercializá-los lá fora’, explica. ‘Esse troca-troca de formatos é uma tendência forte hoje em televisão.’


A Brainers aposta nas novas plataformas digitais de transmissão para vender conteúdo para as emissoras. ‘Se um cara é dono de um canal, com a TV digital, ele se tornará dono de quatro e vai precisar preencher espaço.’’


 


 


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