Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > ESTANTE

Imprensa em momento ruim da literatura

Por Pedro Eduardo Portilho de Nader em 26/08/2008 na edição 500

‘Talvez haja inclusive fanáticos da consciência, que prefiram a fé num nada seguro do que a probabilidade de uma realidade incerta […]. Mas isto é niilismo e sinal de desespero, de uma alma mortalmente fatigada, por mais valentes que pareçam os gestos de tal virtude’ (Friedrich Nietzsche, Para Além de Bem e Mal).

Logo após a participação do escritor de origem sul-africana John Maxwell Coetzee na Quinta Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no ano passado, escrevi um artigo, publicado neste Observatório, a respeito da maneira pela qual a imprensa habitualmente trata a obra do autor premiado com o Nobel literário em 2003 [ver ‘Incompreensão sem reparação em J.M. Coetzee‘].

A discussão abrangeu sobretudo Desonra, tido como seu livro principal, mas, para além do enredo do romance, os aspectos gerais apontados são extensivos, pelo menos, a parte considerável da sua obra.

Na ocasião, o artigo recebeu o comentário de um leitor discordando da crítica formulada sobre Coetzee. Agora, passado algum tempo depois de publicado seu mais recente trabalho (Diário de um Ano Ruim; o escritor já tinha apresentado uma seca leitura de partes desse livro precisamente na Flip do ano passado) e após a imprensa já ter se manifestado sobre esse romance, torna-se propício retomar aquela discussão, aprofundar o assunto e responder ao comentário recebido.

Inadequada e incompreensível

O romance mais recente de Coetzee é protagonizado por J.C., escritor – de origem sul-africana residente em Sidney, Austrália, como o próprio J. M. Coetzee – que está redigindo um livro em que o propósito é discorrer sobre tudo o que está errado no mundo. Assim, o personagem-escritor octogenário do romance trata aberta e diretamente dos temas que o assombraram durante sua vida e daqueles que o assombram ainda mais na velhice, marcada não apenas pelo declínio, mas pela decrepitude física.

Esse primeiro plano se subdivide em duas partes. A primeira apresenta os ensaios de J.C. constituídos pelas opiniões do personagem-escritor em forma de uma coletânea de ensaios sobre temas fortes – a existência do Estado, o terrorismo, a política contemporânea, o modo histérico como a sociedade lida com a pedofilia, o declínio da música erudita. Depois, seguem-se os ensaios das opiniões sobre temas chamados fracos – a fotografia, a sexualidade, o envelhecimento, a morte, música antes do declínio contemporâneo e literatura.

J. C. é fisicamente impossibilitado de digitar devido à doença de Parkinson. Em vez de contratar uma profissional para passar a limpo os ensaios que redige, ele prefere oferecer o trabalho para Anya, a jovem vizinha de origem filipina, que ele, não obstante sua doença e toda sua decrepitude, acha atraente: o primeiro aspecto que ele repara nela é a perfeição de seu derrière. Após a insistência do escritor, ela acaba aceitando o emprego, em grande parte devido à falta de outra coisa para fazer.

O segundo nível do romance de Coetzee é narrado por ele, enquanto o terceiro plano apresenta o ponto de vista da jovem sobre a bizarra relação com o escritor idoso e, em tudo, decrépito. No plano intermediário, ele descreve como se abala pela presença dela, ainda que a considere inadequada e estranhamente incompreensível. Por sua vez, ela relata como se delicia, ao passar pelo velho escritor, balançando suas nádegas provocadoramente. Apesar de sua incompreensão em relação a ela, J.C., num impulso, elabora um plano para atraí-la. A incompreensão não muda posteriormente.

Pensamentos superficiais e inconsistentes

Assim, os ensaios de opiniões são entrecortados pela narrativa referente ao encontro do idoso escritor com a jovem Anya. Formalmente, o livro de Coetzee alterna três níveis narrativos colocados em seqüência na mesma página, graficamente distinguidos por diferentes tamanhos de fonte e separadas por linhas pontilhadas. As opiniões ensaísticas são apresentadas em letras maiores no alto das páginas. O romance se compõe por três planos concomitantes que formam uma narrativa.

Então, enquanto o primeiro nível se desenvolve como uma antologia de opiniões, os outros dois planos transcorrem sobre a tensão sexual não-erótica entre o escritor decrépito e a jovem vulgar e cínica. O romance enfatiza as ansiedades, as paixões e os sofrimentos do escritor idoso, doente e decrépito.

Na seqüência do romance, é introduzido Allan, namorado de Anya. Primeiramente, J.C. o descreve como uma figura extremamente desagradável e agressiva que trabalha como consultor de investimentos no mundo financeiro. No plano mais baixo, os diálogos travados entre os dois jovens namorados mostram as opiniões cínicas desse financista.

No primeiro nível, as opiniões de J.C. nos ensaios sobre tudo são diretamente radicais, francamente esquisitas, num tom em geral bastante agressivo na primeira parte (sobre o mundo) e muito sombrio na segunda parte (mais concentrado sobre si mesmo). No plano intermediário, as pretensas reflexões de J.C. são deslocadas, descrevendo seus impulsos e seu descontrole: uma tentativa do octogenário doente de tentar refletir sobre o que nele é e permanece irrefletido. No nível mais baixo, os pensamentos de Anya são ostensivamente superficiais e inconsistentes, chegando às raias da tolice.

Mundo essencialmente decrépito

Os três personagens agem impulsivamente – sem nenhuma compreensão sobre os outros nem sobre si mesmos. Não há explicação razoável para seus comportamentos; nenhum deles controla minimamente seus impulsos. O conflito de gerações tão díspares e as diferenças de personalidades e de comportamentos despropositados mostram a impossibilidade de compreensão e de comunicabilidade. Cada personagem se mostra desconfortável com todos os demais e consigo mesmo. Tudo no romance parece causar uma sensação desconfortável; a leitura tem um efeito exasperador. Assim, o que se disse de relevante sobre os personagens de Desonra pode ser estendido sem ressalvas aos personagens do Diário.

A narrativa formalmente tão fragmentada de Diário… caracteriza, no nível da linguagem e do estilo, a fragmentação do mundo interior dos personagens. Enquanto em Desonra a aluna seduz o professor, não devido a alguma atração ou mesmo por algum interesse calculista, mas porque não tem outra coisa para fazer, no Diário de um Ano Ruim a jovem aceita trabalhar para o escritor octogenário por falta de outra coisa para fazer. Os personagens de Coetzee são totalmente desprovidos de compreensão.

Um leitor teve a generosidade de, discordando do meu artigo, fazer um comentário de forma ponderada:

‘Há quem pretenda mudar o mundo, conhecendo-lhe as mazelas. Há quem deseje que o mundo fique como está. Há quem pretenda acenar com esperanças, compensando os mil choques naturais com a possibilidade da redenção do sofrimento ao final. E há quem simplesmente resolve documentar o tempo de loucura em que vivemos para que, no futuro, alguém saiba que já se viveu desta forma. Neste particular, estou com Coetzee: documentar a loucura é o primeiro grande passo para que se saiba de onde se parte e para onde se vai.’

Concordo com o leitor: para Coetzee, o mundo é essencialmente decrépito, o tempo atual é de loucura. Volto ao comentário dele mais adiante.

Cultura e caráter

O artigo do ano passado não fez uma crítica absoluta da obra de Coetzee: contrapôs a ela as obras de Rusdhie, de McEwan, de Pamuk, de Oz e de Gardimer; outros escritores poderiam ser igualmente lembrados. Isso basta para mostrar que não fiz crítica a Coetzee pelo simples gosto de depreciá-lo.

Nesse sentido, cabe ressaltar, o propósito daquele texto anterior é fazer uma defesa (vigorosa e profunda, na medida em que lhe é possível) precisamente daqueles aspectos, contidos nas obras desses escritores, que contrastam claramente com o niilismo coetzeano. Ou seja, o que importa no artigo anterior (e que este texto procura reforçar) é relevar as possibilidades de tolerância, de compreensão, de comunicabilidade – e, antes, de conhecimento, de autocontrole e de atributos referentes à harmonia, e não à discórdia nem à autocomplacência.

Coetzee descreve uma sociedade totalmente fechada, com cada personagem fechado em si mesmo. Aqueles escritores supramencionados se esforçam por descrever um mundo em que tanto há o risco de fechamento quanto existe, também, a possibilidade de abertura.

Cabe aqui citar, mais uma vez, as palavras assinaladas pelo grande escritor inglês Somerset Maugham em seu Exame de Consciência:

‘O valor da cultura é o seu efeito sobre o caráter. De nada serve, a não ser que enobreça e fortaleça. A sua utilidade é para a vida. O seu alvo não é a beleza, mas a bondade.’

A força do juízo moral

Nesse sentido, o mérito da obra literária, hoje, não deve ser avaliado pelo pretenso caráter de testemunho, para o futuro, da ‘loucura’ constitutiva do tempo presente – de fato, é impossível garantir como os escritos contemporâneos serão compreendidos no futuro quando tomados como testemunhos sobre a época atual; certamente, o que se pode esperar é que as gerações futuras tenham a precaução de não tomar documentos de uma época como expressão plena da verdade sobre essa época; é desnecessário dizer, documento deve ser analisado, não tomado (e repetido) como verdade.

O préstimo da obra literária também não deve ser medido prioritariamente pela beleza dos aspectos formais (‘a linguagem seca e direta’, ‘o estilo distanciado’) que permeiam o enredo.

Sobretudo, é incorreta a afirmação, difundida na imprensa, de que a obra de Coetzee ‘relata mas não julga’ – como se a linguagem seca, o estilo distanciado e as palavras fortes marcassem a ausência de julgamentos na sua obra. Na verdade, é preciso fazer uma análise que seja capaz de inverter completamente essa consideração. Em Coetzee, a secura na linguagem, o distanciamento no estilo e a força nas palavras não denotam uma ausência de julgamentos; pelo contrário, decorrem de uma avaliação fortíssima que precede e envolve todo o enredo. Assim, qualquer digressão moral sobre algum personagem ou alguma ação atenuaria a força e o impacto do julgamento absoluto realizado preliminarmente sobre toda a realidade descrita no romance. Não há digressões morais parciais, não apenas porque qualquer digressão moral parcial é desnecessária e irrelevante diante do juízo absoluto, mas porque qualquer digressão parcial seria contraproducente, pois diluiria a força do juízo moral máximo.

Da perspectiva da perfeição

Relata sem julgar? Mas não se trata de ausência de juízos: personagens e ações não são, aqui e ali, eventualmente julgados porque toda a realidade é julgada – e, é claro, niilistamente condenada. A narrativa é enredada por um julgamento que se pretende formulado em termos de um absoluto (no artigo anterior, tratei da presença do absoluto da história em Desonra). Ao invés de assinalar que a narrativa não suscita juízos enunciados pelo escritor, convém ressaltar, inversamente, que é uma avaliação totalizante que suscita o relato e o enredo. Os aspectos estilísticos não denotam nem provocam a ausência de juízos; ao contrário, os julgamentos são tão fortes e definitivos, tão simultaneamente niilistas e totalizantes, que englobam todo o enredo e condicionam os caracteres formais. Os juízos do escritor aparecem tão abstratos precisamente porque são absolutos.

A obra de Coetzee não descreve sem julgar; ela interpreta e justifica, pretendendo fazer coincidir interpretação e justificativa. Coetzee não é um imoralista à maneira de Montaigne; é um essencialista que julga o mundo em que vivemos como um mundo intrinsecamente marcado pela decadência e o julga em termos de um outro mundo, idealizado. Em Coetzee, tanto o tempo atual – ‘de loucura’, para retomar a expressão usada por quem ‘está’ com Coetzee e não abre – quanto o período histórico precedente têm uma tendência inerente para a decadência. Cada personagem – todos fechados, decadentes, incapazes de compreensão – se justifica e à sua impulsividade num mundo marcado pela incomunicabilidade; como a narrativa pretensamente ‘não julga’, ela justifica esses personagens nesse mundo essencialmente insuportável.

Cabe lembrar que, em Desonra, a jovem sul-africana branca, de origem inglesa, é estuprada por sul-africanos negros: ela própria justifica o estupro como uma espécie de revanche da história. Tempos de decadência e, portanto, tempo de loucura: dessa forma, para Coetzee, em Desonra, não há diferença importante entre o período de apartheid na África do Sul e o tempo atual, pós-apartheid – ele não reconhece melhora. Coetzee ou não vê a existência de gradualismo entre o apartheid e o pós-apartheid ou não reconhece importância nesse gradualismo. Os fatos que evidenciam as melhoras (mas não a perfeição) são irrelevantes para ele: essencialista, ele julga da perspectiva da perfeição, do mundo perfeito, ideal, absoluto. O romance descreve a justificativa da jovem estuprada, ‘sem julgar’ a justificativa.

Degeneração intrínseca

Como todos os personagens são fechados cada um em si mesmo e não há nenhuma abertura no romance, a justificativa – que não é ‘julgada’ – é tida justificável e justificada. Ao descrever, a narrativa não apenas interpreta o enredo, não apenas descreve personagens e seu fechamento, mas os justifica. O romancista, sendo um essencialista historicista típico, aceita como moral o julgamento da história (o juízo que condiciona a justificativa do estupro mostra isso). Não existe, nisso, nada que remonte a Montaigne, mas há a atitude essencialista da qual Montaigne se distinguia. Em Coetzee, já que o mundo, a história e a realidade são injustos, não há injustiças menores, não há necessidade de julgamentos menores.

Num momento do Diário…, o escritor protagonista – abalado pelo mundo, pela história, pela realidade – declara que deveria revisar completamente suas opiniões e refugar as mais antigas (também as mais decrépitas), substituindo-as por novas. Os críticos admiradores de Coetzee puderam ver nisso uma humildade de tipo socrática. Desconsideraram que, logo na seqüência, o escritor questiona formalmente onde encontrar novas opiniões, sem fornecer nenhuma resposta para a pergunta formulada, mostrando que, no seu entender, não há para onde ir a fim de encontrar essas novas opiniões: assim, sem novas opiniões para substituir as velhas, ele deixa de revisar essas opiniões.

Tudo o que é velho é decadente, decrépito – seja o mundo, a história, o corpo físico, as opiniões do escritor; tudo o que existe, envelhecendo, degenera. Quanto mais velhas, mais as opiniões são decrépitas. Não há para onde ir nem para encontrar novas opiniões válidas nem para escapar desse mundo de decrepitudes. No mundo literário de Coetzee, a realidade e a história são tão forte e totalmente marcadas pela degeneração intrínseca, pelas incompreensões e pela ausência de conhecimento (de cada personagem em relação aos demais, mas também de si mesmo) que mesmo o personagem alter ego do romancista, admitindo ser preciso refugar suas velhas opiniões sobre tudo mas constatando a impossibilidade de novas opiniões (afinal, novas opiniões para quê, qual a vantagem de novas opiniões, se elas irão envelhecer, também degenerando?), acaba refugando a própria idéia de revisar suas idéias – então, paradoxo do Diário… de Coetzee: a única idéia efetivamente revisada e refugada é, precisamente, a nova idéia de que seria preciso revisar totalmente suas opiniões antigas.

Aguardando a barbárie

O niilismo é tão avassalador que o escritor termina por não compreender suas próprias opiniões e não há compreensão mesmo quanto à decisão de revisá-las. Até a aparentemente humilde decisão de revisar suas opiniões é tragada pelo niilismo – o niilismo condiciona a decisão de revisar as idéias, mas a decisão é imediatamente abortada devido à força extrema do niilismo. Suas opiniões, por mais radicais que sejam, são menos importantes para ele do que o radicalismo de sua formulação niilista, de modo que ele pode, sem nenhuma hesitação, abrir mão de suas opiniões radicais: ele prontamente admite revisá-las. No entanto, conclui imediatamente pela ausência de critério possível para efetivamente revisá-las.

Dessa maneira, as opiniões revisáveis não podem ser efetivamente revisadas. Suas próprias opiniões – velhas e decrépitas – não valem nada, mas não há algo pelo quê substituí-las; sem esse outro algo para colocar no lugar delas, ele permanece com as opiniões decrépitas. O mundo é tão essencialmente miserável, marcado por uma decrepitude que lhe é intrínseca, tudo no mundo é tão decrépito, que o escritor se obriga a permanecer com suas opiniões reconhecidamente decrépitas: não há escapatória, nenhum alento, da decrepitude do mundo. O escritor cancela, anula a importância de suas opiniões (‘deveria revisá-las’), mas por fim não suspende as próprias opiniões; suas opiniões, no final, não valem nada, mas ele fica com elas e não faz a revisão que instantes atrás achou necessário fazer: a conclusão assumida de Diário… é que o escritor prefere defender o nada (suas opiniões decrépitas, no seu próprio entender) do que nada defender.

É uma alma cansada e desesperada, para remeter ao aforisma de Nietzsche anteposto aqui como epígrafe. Já que, segundo sua própria formulação, o mundo é essencialmente decrépito, o escritor procura abraçar o niilismo da maneira mais radical que ele conseguir imaginar (Gabriel García Márquez, Jonathan Littell, entre outros, são meros aprendizes de niilista vistos de perto dessa declaração formulada no Diário… escrito por Coetzee). Para o escritor do Diário…, não havendo lugar para onde fugir a fim de escapar da barbárie, só resta esperá-la. Assim, no aguardo das bestas, ele se locupleta em seu niilismo.

Niilismo essencialista

Então, em Desonra o romancista deixa de fornecer ao leitor o que falta aos personagens totalmente imersos na ‘loucura’, nas incompreensões; na conclusão de Diário… o escritor, de opiniões tão fortes sobre a ‘loucura’ do tempo atual, acaba paralisado, esgotado e sem lucidez, incapaz de revisar suas idéias: a ‘loucura’ atual, o declínio físico, a decadência intelectual, tudo leva a concluir pela paralisia completa, remetendo assim ao nada.

A reserva desdenhosa do escritor a todo o mundo em que vivemos é correlata da supressão de sua personalidade autocontrolada. O escritor não é alguém que mantém seu autocontrole, que tem o governo de sua razão, enfim, não é alguém que, no controle da sua razão, critica a falta de razão (a ‘loucura’) do tempo atual. A conclusão do livro mais recente mostra que o escritor não tem, nunca teve, não pode ter, nem quer ter porque de nada adiantaria querer ter, esse autocontrole – ao cabo do Diário…, assume ser um niilista acabado. Se o escritor se depara com o imperativo de revisar suas opiniões e se descobre incapaz de fazer a revisão, isso significa que, num mundo todo louco, o escritor se encontra atingido mortalmente pela loucura (isto é, com a alma fatigada e desesperada ao extremo). Desse modo, Diário… termina levando o niilismo que condiciona toda a obra do romancista ao seu coroamento. O ponto de suma importância do novo livro está nessa declaração extrema. Tudo o que vem antes deságua nessa conclusão.

‘Eu devia revisar inteiramente minhas opiniões, isso é o que eu devia fazer. Devia refugar as mais velhas, as mais decrépitas, encontrar novas, modernas, para substituí-las. Mas onde se vai para encontrar opiniões novas?’ A declaração é o ápice e a síntese de todo o Diário… e de toda a obra precedente. Então, se, ao longo do livro, as opiniões expressas no nível ensaístico são ingênuas ou excessivamente fragmentadas e, ainda, que o conto sotoposto nos outros dois planos seja pouco imaginativo, nada disso importa diante da força dessa declaração. Ou, para dizer o mesmo de maneira contrária, a ingenuidade expressa no nível ensaístico e a falta de imaginatividade dos níveis fictícios reforçam o caráter niilista da declaração – declaração que é, afinal, o que dá o sentido niilista (ou a falta de sentido essencialista) à obra toda. A simplicidade das opiniões ensaísticas e a pouca criatividade do romance não constituem a fraqueza do livro mais recente, mas, numa perspectiva inversa, marcam a contundência do seu niilismo essencialista.

A força nas palavras

Uma boa pista para que não reste a menor dúvida sobre isso são as palavras do escritor J. C., alter ego de Coetzee, a respeito de Ivan Karamazov no ensaio de encerramento do diário:

‘Muito mais poderoso do que a substância do seu argumento, que não é forte, é o tom de angústia […] de uma alma incapaz de suportar os horrores deste mundo. […] Esse tom de angústia é verdadeiro? […] A resposta é perturbadora. A resposta é Sim.’

Desta maneira, ao tratar do livro de Dostoievski, Coetzee privilegia Ivan, alma que é totalmente angustiada diante das crueldades do mundo, sem fazer nenhuma consideração nem dar qualquer relevância a respeito do personagem principal do romance, Aliocha, apresentado pelo próprio Dostoievski como ‘meu herói’ e como ‘simplesmente um filantropo na dianteira do seu tempo’, enfim, expressão da sobriedade, da compreensão e do autocontrole.

O que escreve Coetzee sobre Ivan (apagando Aliocha completamente) vale para o próprio Diário… e seu autor: o que importa, nele e para ele, não é a força dos argumentos, não é a razão nos ensaios (ou no romance), mas o tom niilista, expressão de uma alma fatigada e em desespero diante do mundo decrépito. Em Os Irmãos Karamazov, Aliocha, o protagonista, assinala a temperança, a sensatez e a compreensão contrapostas à fúria destemperada e à revolta niilista de seus dois meio-irmãos mais velhos, desprovidos de autocontrole.

Enfim, no que se referem ao seu caráter niilista, as opiniões e o romance contidos no Diário… são plenamente compatíveis com a multiplicidade de incompreensões que pontuam Desonra, de modo que a ingenuidade e a falta de criatividade no Diário… não são motivos para que, quem considera Desonra formidável, se mostre decepcionado com o Diário. Criticar a falta de força dos argumentos que compõem os ensaios – bem como a pouca criatividade do romance – é simplesmente não entender nada do que é efetivamente importante em Coetzee: as opiniões dos ensaios não devem ser consideradas em si mesmas, mas pelo que elas nos esclarecem sobre a interpretação coetzeana. Apontar a ingenuidade dos ensaios e a falta de criatividade do romance é não entender a secura na linguagem, o distanciamento no estilo, a força nas palavras.

Sintoma do valor negativo

Mais ainda: não se encontra na obra de Coetzee a contraposição entre o racionalismo e as crueldades do mundo contemporâneo; o escritor não trata das dificuldades de convivência entre a cultura humanista e as ‘loucuras’ do tempo atual: sua obra é referente à supremacia, tida incontestável, do irracionalismo num mundo marcado pela decrepitude – onde uma jovem estuprada deve justificar o estupro conforme um absoluto histórico e de onde não há para onde ir a fim de encontrar algo que valha a pena. Ou seja, não há lugar nenhum possível para o racionalismo quando o escritor afirma que deveria abandonar suas idéias mas não as abandona porque não há lugar onde se possa encontrar a razão.

Coetzee não trata das loucuras no mundo contemporâneo, mas da loucura total que é a vida num mundo essencialmente decrépito. Tudo o que não é loucura não é relevante no mundo contemporâneo, não havendo lugar efetivo para o que não seja loucura (onde se poderia ir, pergunta o escritor, apontando a nulidade de se procurar, alhures e além da loucura, a razão). Certamente, nem o racionalismo nem a cultura humanista são lugares onde seja possível se refugiar das crueldades, da decrepitude, do irracionalismo. Para Coetzee, não há, neste mundo, lugar para o que não seja decrepitude, loucura e irracionalismo. Essa formulação não contrapõe, de um lado, a decrepitude, os horrores e as crueldades e, de outro lado, o racionalismo e a cultura humanista simplesmente porque não existe espaço para a razão. Não existem dificuldades de convivência porque não há convivência – há, apenas, um mundo de incompreensões e justificativas das incompreensões.

Essa formulação presente em Coetzee está próxima, mutatis mutandi, daqueles que, após assistirem os jornais televisivos, exclamam: ‘Só tem notícia ruim!’, ‘Não há nada bom!’, ‘É só ruindade’, como se os jornais televisivos fossem documentos puros do tempo presente (testemunhos da loucura deste tempo), deixando de se perguntarem precisamente sobre o valor do jornalismo que enfatiza, à beira do extremo, as notícias ruins para um público que considera noticiário completo e bom o que privilegia as notícias ruins. Em contrapartida, é possível pensar que uma documentação imparcial do tempo presente deve, não enfatizar apenas as loucuras de uma época que não é de total ‘loucura’, mas também abranger tudo aquilo que não são loucuras nesse tempo. O noticiário que ‘só tem notícia ruim’ não expressa a verdade sobre o mundo; expressa o seu próprio valor e é sintoma de seu valor negativo.

Mundo de loucuras e não-loucuras

Concordo com o comentário do leitor: as gerações futuras poderão tomar a obra do romancista como testemunho do niilismo existente na época atual – niilismo do próprio escritor e de seus admiradores atuais. A obra de Coetzee é sintoma de um aspecto do tempo presente. Se o mérito da cultura, como diz Maugham, se mede pelo efeito que ele provoca no caráter, o que dizer quanto ao préstimo da obra de Coetzee? Em tempo: sua obra não me provoca mal-estar ou sentimentos de angústia porque o niilismo não tem esse efeito sobre mim. A crítica que dirijo a ela simplesmente é referente à questão do valor da obra: não vejo valor no niilismo.

Entre, de um lado, a perplexidade angustiada de J.C. e as incompreensões dos personagens de Desonra e, de outro, a aceitação otimista e incontida do Dr. Pangloss – enquanto o Dr. Pangloss só olha a metade de baixo, todos os personagens de Coetzee (incluindo o escritor do diário) só vêem a parte de cima do copo –, sobra um espaço muito grande para a ponderação e a temperança.

Se os personagens criados por um escritor são dominados exclusivamente por impulsos possessivos e pela insensatez, incapazes de formar um sentido para si mesmos (como marcadamente ocorre em Desonra), cabe ao escritor fornecer ao leitor o que falta aos personagens – os impulsos criativos e a sensatez que se meçam por padrões de compreensão e autocontrole É esse aspecto o que distingue Rusdhie, Pamuk etc. de Coetzee; é, também, a questão da crítica formulada por Mario Vargas Llosa a As Benevolentes de Littell, sendo inadequada a perspectiva que considera esdrúxula a ponderação de Llosa: trata-se da questão mais importante da literatura contemporânea e que já está presente desde, pelo menos, Dostoievski, firme opositor do niilismo moderno (Dostoievski e Llosa são nomes que, como Maugham, podem, e devem, ser acrescentados àquela lista de escritores que inclui Rusdhie).

O mundo, a realidade, o tempo não são feitos apenas de loucuras, mas também de tudo o que não são loucuras, embora muitas histórias que se contam somente contem e contenham as loucuras. As obras daqueles autores acima mencionados – Rusdhie etc. – não se incluem entre os que simples e ingenuamente querem apontar esperanças para o futuro: o mundo literário de cada um deles indica que a realidade, o mundo, o passado e o presente também são feitos de não-loucuras.

Tom de angústia

A obra de Coetzee não descreve a verdade sobre de onde se parte e para onde se vai: ela evidencia que esse escritor prefere acreditar que se parte de um mundo essencialmente marcado pela decrepitude, indo-se para um mundo que permanece assim, sem se poder ir para nenhum outro lugar: ele se sente seguro em seu niilismo, cansado, angustiado e abalado demais. Em contraposição, a obra literária de Rusdhie (para lembrar apenas um), prefere enfrentar as incertezas do mundo.

Os admiradores de Coetzee debruçam-se sobre sua obra colocando a questão da verdade do relato: a questão que colocam é se ele descreve (documenta) de forma verdadeira o mundo. É preciso mudar essa perspectiva e colocar, diferentemente, a questão do valor. Concordo com o leitor: para Coetzee, o tempo atual é ‘de loucura’ (e o mundo é decrépito); mas isso é menos uma descrição do tempo atual e do mundo real do que uma descrição do mundo literário de Coetzee, marcado apenas pela angústia do criador desse mundo literário. Se se referissem ao seu criador, todos os personagens desse mundo literário diriam que Coetzee morreu como viveu: de alma abalada e mortalmente ferida; nesse mundo, todos os personagens foram feitos à imagem de seu criador.

O comentário do leitor, ano passado, dizia que documentar o mundo como Coetzee (pretensamente) faz é o primeiro passo para saber de onde se parte e para onde se vai: no livro mais recente, Coetzee responde claramente que, em seu mundo literário, não se vai a lugar diferente e que todos os passos levam a nada. Diário… é o livro mais recente, mas não é um novo livro em relação às obras anteriores: não há espaço para o novo em Coetzee.

O mundo literário de Dostoievski é feito de incompreensões (como Mitia, Ivan e, antes, o pai deles) tanto quanto de compreensões (como Aliocha, o protagonista). Ao ler Os Irmãos Karamazov, Coetzee só consegue ver a parte de cima do copo no mundo literário de Dostoievski, sem perceber o problema que existe em sua perspectiva. No mundo literário de Coetzee, Fiodor Karamazov só teve dois filhos. No universo coetziano, Aliocha não nasceu: não há lugar para personagens como Aliocha – ‘para onde se vai’, para onde se poderia ir a fim de encontrar personagens assim? O fatigado Coetzee responderia: para nenhum lugar. Corpo e alma de Coetzee são extenuados demais para que ele possa dar o primeiro passo a fim de, saindo de seu mundinho decrépito, encontrar os lugares onde estão os Aliochas. Nada referente a Aliocha tem qualquer relevância para ele. Coetzee se pergunta se o tom de angústia de Ivan é verdadeiro: ‘A resposta é Sim’. Ele é incapaz de perguntar se o tom de temperança, de sensatez e de compreensão de Aliocha é verdadeiro.

A utilidade da literatura

Então, a obra de Coetzee não deve ser tida como uma descrição (nem verdadeira, nem falsa) do mundo, muito menos ainda como uma descrição que não julga; é uma interpretação (ruim, de uma perspectiva que coloca a questão do valor de seu efeito): deve ser vista não como relatos que não julgam, mas como juízos de uma alma cansada e desesperada.

A questão que se deve colocar, para além de se ela descreve de maneira boa ou má (verdadeira ou falsa) o mundo de onde se parte, é sobre o valor com que ela interpreta o mundo, criando o seu mundo literário – se ela interpreta preferindo a segurança do nada (a segurança de seu mundinho) ou se ela aceita as incertezas que existem num mundo em que se distribuem tanto as loucuras quanto tudo o que não são loucuras. O tom de angústia de Ivan não é verdadeiro (nem falso): é, simplesmente, expressão da interpretação emocionalmente niilista que Ivan faz do mundo. O valor importante para definir a perspectiva da qual partir é aquele referente à compreensão (como eu nomeei no artigo do ano passado), à bondade (como no enunciado de Maugham), à temperança, à sensatez etc.

Quando, ao tratar da obra literária contemporânea, a imprensa não considera adequadamente esses aspectos (aqueles, afinal, que se referem à questão mais importante da literatura contemporânea), deixa de atentar qual é a utilidade da literatura, não atendendo ao valor ao qual ela própria deve se vincular.

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Historiador e doutor em filosofia pela FFLCH-USP; Campinas, SP

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