Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ARMAZéM LITERáRIO > PAUTAS QUENTES

Imprensa fez o que deveria fazer

Por Rolf Kuntz em 28/08/2007 na edição 448

Saiu a crise financeira, entraram os juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) e a diretoria da Anac nos espaços mais visíveis das primeiras páginas. Isso ocorreu não só porque amainou a turbulência nas bolsas, mas também porque as novas histórias eram muito mais saborosas. O grande furo da semana passada, jornalismo em estado puro, foi obra do fotógrafo Roberto Stuckert Filho, do Globo. Ele fotografou as mensagens trocadas via computador pelos ministros Carmen Lúcia Antunes Rocha e Ricardo Lewandowski, durante uma das sessões dedicadas ao mensalão. A outra grande história foi a demissão – desdobramento de uma história assustadora – da figura mais notória da Agência Nacional da Aviação Civil, Denise Abreu. No fim de semana, já se especulava se essa demissão seria o começo de uma reforma total na cúpula da agência.

Os dois episódios têm algo em comum: refletem, ambos, um estilo de governo, e por isso extravasam as dimensões política, administrativa ou até policial. Têm também uma dimensão econômica.

As fotos de Roberto Stuckert Filho captaram quatro informações principais: 1) uma troca de impressões sobre a sustentação do procurador-geral da República; 2) referências diretas e indiretas a intenções de voto de três ministros; 3) uma alusão a uma barganha, interpretada como relativa à substituição do ministro Sepúlveda Pertence, recém-aposentado; 4) um comentário sobre grupos concorrentes.

Exemplo de autocrítica

A mais interessante, politicamente, é a referência à barganha: ‘Isso só corrobora que houve uma troca’, escreveu o ministro Lewandowski, respondendo a uma observação da colega. ‘Isso quer dizer’, continuou, ‘que o resultado desse julgamento era realmente importante (…) Sabia que a coisa era importante, mas não que valia tanto.’ A suspeita de um vínculo entre o resultado do julgamento – abertura ou não de processos contra os acusados no caso do mensalão – repercutiu no Congresso. Líderes da oposição, e até de partidos aliados, prometeram analisar com lupa o nome indicado pelo presidente da República, porque a nomeação passa pelo crivo do Senado.

Mas não houve lupa, nem crivo estreito, nas sabatinas de outros indicados para o STF e para as agências encarregadas de regular os setores de infra-estrutura e de serviços de utilidade pública. As diretorias da Anac foram loteadas de acordo com interesses partidários e de grupos, a partir de indicações políticas. Os nomes foram aprovados sem uma avaliação efetiva, como foi reconhecido numa entrevista à CBN, recentemente, pelo senador Christovam Buarque, num raro e admirável exemplo de autocrítica.

O serviço necessário

O critério continua em vigor e tem sido aplicado de forma escancarada. Vale para a indicação de um novo nome para o STF. Valeu para a escolha do novo presidente de Furnas, para a recente nomeação de diretores da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil e valerá, provavelmente, para o preenchimento das diretorias do setor elétrico. O projeto de renovação da CPMF, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, vem tramitando na direção desejada pelo governo graças a negociações desse tipo. Tudo isso tem sido noticiado rotineiramente pelos grandes jornais, tanto nas páginas políticas quanto nas econômicas.

A decisão de onde publicar essas matérias é apenas uma questão de idiossincrasia. Não há, nesses casos, separação relevante entre fatos econômicos, políticos, administrativos e até criminais. O risco de apagão dentro de alguns anos, em conseqüência das trapalhadas do governo no setor elétrico, tem sido tratado principalmente como questão econômica, mas esse é apenas um de seus aspectos. As dificuldades com o Ibama e a nomeação do ex-prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde, para a presidência de Furnas, dão uma idéia mais clara da dimensão do problema.

O caso da Anac é semelhante, nos seus aspectos político, administrativo e econômico, e só se diferencia, desgraçadamente, pela dimensão trágica da crise no setor aéreo. O drama ainda não terminou, e ainda haverá, provavelmente, desdobramentos importantes na área judicial, quando se julgar a apresentação de um documento sem validade normativa a um tribunal. Desse episódio resultou a liberação do aeroporto de Congonhas para pousos nas condições observadas em 17 de julho, quando um Airbus da TAM varou a pista e se arrebentou contra um prédio do outro lado da avenida.

Cabe aos técnicos e à Justiça discutir se houve alguma conexão causal entre os dois fatos. Em seus aspectos políticos, administrativos e econômicos, o assunto é bastante claro. Os meios de comunicação, nesse caso, prestaram o serviço necessário.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/03/2009 itamar telles

    Somos alunos da uepa em salvaterra, mais queremos lutar por nossos direitos e termos reconhecimento enquanto estudadentes,vivemos num predio emprestados a 4 anos ou mais, coisa que começou errada o ideal seria primeiro haver o predio pra poder da conforto aos alunos que fossem ocupar, agora tem o terreno e uma verba ja estava disponivel mais por politiccagem e politiqueiros kicuinhas politicas esta sendo retratado o fato de tirarem a construção de salvaterra e levarem para breves ou outro municipio,queremos respeito a uepa deve permanecer em salvaterra amanhã dia aparti das 10 horas da manhã havera uma grande revolução para demostrar a revolta dos alunos da uepa.iremos tranca ruas queima peneus nas estradas queremos respeitio por favor nos apoiem………………..precisamos da voz alta de vcs ao nosso lado.

  2. Comentou em 29/08/2007 carlos cotrim

    A MESMA LUPA QUE A IMPRENSA USOU EM 64,PRA COLOCAR MILITARES NO PODER,
    OU DEPOISxxzxf,A MESMA LUPA QUE VOCES USARAM PRA COLOCAR COLLOR PRESIDENTE.
    ETA LUPA VAGABUNDA,SERVE PRA QUALQUER VAGABUNDO USAR.

  3. Comentou em 29/08/2007 Ricardo Camargo

    Pelo visto, criticar a tese de que a Imprensa pode exigir a um juiz que permita o acesso a o seu juízo antes do julgamento, quando isto é exatamente o que as leis processuais do país, para lhe resguardarem a imparcialidade, interditam que faça, sob pena de incidir em suspeição passa a ser, por uma incrível inversão de valores provocada pela partidarização da cobertura, defender a parcialidade, o autoritarismo e a censura. Não se pretenda argumentar com a publicidade dos julgamentos, no caso. Não remanescem no STF Ministros do tempo da argüição de relevância julgada secretamente, sem necessidade de fundamentação, que existiu de 1977 até 1988. E nenhum dos que criticaram a postura da imprensa defendeu o retrocesso a este estágio. A troca de idéias entre os Ministros, ainda mais diante de um processo com 51 volumes e mais de mil anexos – como esclareceu a Min. Ellen em sua fala publicada no sítio do STF – é algo que não pode ser execrado, mas também não pode fotografado por sobre o ombro – conduta que, mesmo num lugar público, como, por exemplo, um restaurante, chega a ser considerada como falta de educação, pelo menos, pelo referencial que recebi -. A imprensa fez, sim, tudo errado neste caso.

  4. Comentou em 24/05/2005 Ana Paula Saab

    Caros, dêem uma olha nisso: http://www.seresteros.com/sandino/

    Trata-se de um blog de um colega jornalista que ‘mexeu’ com interesses de quem ‘não tem interesse’ no referendo. Pelas discussões, percebe-se q não se trata simples cidadãos opininado sobre o desarmamento.

    Abraços a todos

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