Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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ARMAZéM LITERáRIO >

Imprensa, sim, e sem censura

Por Carlos Brickmann em 09/11/2010 na edição 615

São dias de boas notícias para a liberdade de imprensa:

1. A presidente eleita Dilma Rousseff fez um discurso de defesa explícita da liberdade de imprensa e prometeu zelar por ela;

2. Dois jornalistas de primeiro time, Eugênio Bucci e Ricardo Kotscho, ambos ligados ao presidente Lula, ambos ex-colaboradores de seu governo, tomaram posição aberta e firme em favor da liberdade de imprensa. Sua posição democrática já era conhecida, mas vale ressaltar a coragem de, no calor da eleição, declará-la publicamente;

3. Dois historiadores importantes, Carlos Fico e Jesse Jane Vieira, se rebelaram contra a política do Projeto Memórias Reveladas, cuja função deveria ser abrir e manter disponíveis os documentos da ditadura militar, mas que restringiu o acesso ao material alegando que as informações poderiam ser utilizadas na campanha eleitoral. Carlos Fico e Jesse Jane, num país em que agarrar-se aos cargos parece um comportamento natural, preferiram sair, para não compactuar com a política restritiva de informações.

4. Uma ativa organização de jornalistas, a Abraji, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, tomou posição aberta e militante em favor da abertura dos documentos e defendeu a promulgação de uma lei de acesso a informações públicas.

A declaração da presidente Dilma seria ainda melhor se, em vez de prometer zelar pela liberdade de imprensa, assumisse o espírito da Primeira Emenda da Constituição americana e se declarasse disposta a lutar contra qualquer interferência na liberdade de expressão. Mas o que disse já foi excelente – especialmente depois que o presidente Lula, em várias declarações, defendeu a liberdade de ‘divulgar informações corretas’ (e quem decidirá se as informações são corretas?), e parlamentares do PT, em movimento articulado, se mobilizaram em vários estados para criar comissões de controle da imprensa.

Bons ventos, enfim. E que, além de bons, podem anular os furacões que se formavam no horizonte.

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A posição de Eugênio Bucci, publicada originalmente no O Estado de S.Paulo, pode ser encontrada neste Observatório sob o título ‘Imprensa e Poder – que a liberdade seja mesmo irrestrita‘. Vale a pena.

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A entrevista de Ricardo Kotscho aos repórteres Juliana Iooty e Rafael Spuldar, publicada pela BBC Brasil há pouco mais de um mês, antes do primeiro turno, tem como ponto principal a constatação de que ‘o recente confronto entre o governo e a mídia tem efeitos nocivos para o Brasil (…) Criou-se um clima de beligerância que não é bom, não é bom para o governo, não é bom para o país, não é bom para a mídia’. Kotscho faz duras críticas ao comportamento da imprensa, critica também o presidente Lula por sair a público criticando os veículos de comunicação. Mesmo agora, mais de um mês depois de sua publicação, traz a análise de um jornalista que, em sua vasta biografia, esteve de maneira competente e séria nos dois lados do balcão. Clique aqui para ler a matéria.

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A Abraji, na crítica à censura imposta aos documentos da ditadura militar, merece também leitura mais atenta – veja aqui.

A tomada de posição de jornalistas, entidades e da presidente eleita é importante; mais importante, ainda, é a conjugação de suas manifestações, sempre no sentido de derrubar as ameaças à liberdade de informação. É correto discutir a propriedade cruzada dos meios de comunicação (deve-se permitir que a mesma empresa tenha TV, rádio e jornal na mesma região?), é correto discutir o cerceamento ao direito de resposta, é correto criar mecanismos que permitam, fora da lenta tramitação da Justiça, a rápida reação dos atingidos por reportagens. Nesses casos, quando a Justiça tarda já falhou. Mas que nem se discuta a limitação do direito de informar, nem sequer se as notícias são corretas ou não: o leitor, ouvinte, telespectador, internauta, o consumidor de informação em geral é perfeitamente capaz de trocar suas fontes de notícias, se estas se revelarem falhas.

Há alguns anos, a discussão que havia era sobre o mundo-cão na TV, muita gente exigindo censura para evitar que aquela sujeirada invadisse seus lares. Este colunista sempre teve uma posição muito clara: o botão de trocar de canal e o botão de desligar podem ser utilizados a qualquer momento. Não é preciso chamar nenhuma doutora Solange da Censura para desligar a TV por nós, nem para mudar de canal.

 

Sem concessões

Primeiro resultado da censura do Projeto Memórias Reveladas à divulgação de documentos da ditadura: Abraji e Transparência Brasil suspenderam a participação no seminário sobre Direito de Acesso que o órgão realiza dia 23/11, no Rio. ‘A recusa do Arquivo Nacional em franquear acesso a documentos de domínio público, aliada aos argumentos alegados para tal recusa, mostram que a instituição tem agido de forma incompatível com a própria motivação do seminário em questão’, disse Cláudio Weber Abramo, da Transparência, em carta ao diretor-geral do Arquivo Nacional, responsável pelo Projeto Memórias Reveladas.

A Transparência Brasil e a Abraji são pioneiras na luta pelo direito de saber. Ambas integram o Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas.

 

Boa, ministro

O ministro da Educação, Fernando Haddad, acabou com a besteirada daquele sub do sub do sub que queria censurar As Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato: foi gentil, abriu várias possibilidades ao Conselho Nacional de Censura (ops, de Educação), menos uma: a de aprovar a censura. ‘É incomum a quantidade de manifestações que recebemos de pessoas que não vêem nenhum prejuízo em que a obra continue sendo adotada nas escolas’, disse Haddad. E garantiu que o parecer do CNE, tão logo chegue às suas mãos, será devolvido. Sem aprovação do ministro, nenhuma decisão do conselho pode entrar em vigor.

 

Corrigindo!

Com relação à nota da semana passada – ‘Não valeria a pena, para os meios de comunicação, tentar ouvir o responsável pela má ideia? Ele ainda pode se arrepender. Pode até parar de babar na gravata e se convencer a trocar a dieta de capim, tão restrita, por pratos mais variados’ – o grande Sandro Vaia encaminha a correção, por uma questão de justiça: a Folha de S.Paulo o ouviu, sim. Registrado.

 

Uma história mal contada

O caso da demissão do jornalista Dawlton de Moura Borges do Diário do Nordeste, de Fortaleza, jornal pertencente à família do senador Tasso Jereissati, por ter publicado um caderno de seis páginas com o título ‘Revoluções Ontem e Hoje’, em 17 de outubro último, é uma das histórias mais esquisitas dos últimos tempos (ver, neste OI, ‘Verdade e ‘verdades’ sobre uma demissão‘). Este colunista não vai nem entrar na questão de liberdade de imprensa. Mas, depois de muitos e muitos anos de Redação, sabe direitinho que ninguém publica um caderno de seis páginas sem autorização de seus superiores. Isso simplesmente não existe. E, se os superiores aprovaram, o assunto trabalhista está esgotado: não há o que reclamar do editor.

Mais: um tema que o jornal considera tão importante que valha seis páginas não é acompanhado por ninguém da cúpula? Ninguém leu nada do que iria ser publicado? Então o problema não é do editor que foi demitido: é de seus chefes, que se omitiram na supervisão daquilo que seria publicado.

O resto é história da carochinha.

 

Paulistano de direito

O jornalista José Nêumanne Pinto, uma das maiores cabeças da imprensa brasileira, acaba de receber o título de Cidadão Paulistano – apenas referendando aquilo que ele já é faz tempo, por direito de conquista, e que acumula com o título natal de Cidadão de Uiraúna, a cidade paraibana onde nasceu (é conterrâneo da ex-prefeita paulistana Luiza Erundina). Nêumanne, depois de vitoriosa carreira em grandes veículos, como repórter, editor e assessor de imprensa, em São Paulo, Rio e Brasília, é hoje chefe dos editorialistas do Jornal da Tarde e comentarista político do SBT.

 

Livro 1

Zélio Alves Pinto comemora 50 anos de carreira com o livro Zélio, 50 anos de uma aventura visual, de Enock Sacramento, que será lançado em São Paulo, dia 16/11, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, SP). O livro é prefaciado pelo irmão de Zélio, Ziraldo. São 445 ilustrações, ótimas, em 180 páginas.

 

Livro 2

Este é para já: na quarta-feira (10/11), na Livraria da Vila, Shopping Cidade Jardim, SP, é lançado o livro Coração… é Emoção, do cardiologista Elias Knobel, diretor emérito do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein. No livro, uma equipe multidisciplinar mostra como a ansiedade, o rancor, a alegria e o amor influem na saúde cardíaca; e também o estilo de vida, os exercícios físicos, a atividade sexual. É livro para ter por perto, e consultar sempre.

 

Como é mesmo?

De um grande portal noticioso:

** ‘Ator teria levado meninas para festinha particular’

Como, teria? Se não levou, não há notícia. Se levou, não cabe o condicional (quer dizer, o ‘futuro do pretérito’). Se há dúvidas, publicar a notícia sem confirmá-la pode causar um prejuízo imenso à reputação do atingido.

Mas a reportagem inteira esclarece o caso: o ator Vin Diesel levou quatro moças para um quarto de hotel, cada uma lhe fez um strip-tease e recebeu US$ 200. As duas preferidas foram levadas ao hotel do ator, onde passaram a noite (o preço não foi divulgado).

Por que ‘teria’, se há até o depoimento das moças? Alguém deve saber.

 

Mundo, mundo

** ‘Harry Potter é culpado por extinção de corujas na Índia’

O fato de Harry Potter ser personagem de ficção não importa: segundo o ministro do Meio Ambiente da Índia, as crianças estão caçando corujas selvagens para tê-las em cativeiro, como animais de estimação, seguindo o exemplo do bruxinho da escritora J. K. Rowling, dono da coruja amestrada Edwiges.

Há também grande procura por corujas para rituais de magia negra. Esse tipo de caça atinge duramente as populações animais: quase extinguiu, por exemplo, o rinoceronte (seu chifre moído, dizia-se, tem poderes afrodisíacos). Mas é mais fácil lançar a culpa no bruxinho. Criança não reage, traficante de animais reage. E o bruxinho, como poderia reagir se ele nem mesmo é de verdade?

 

E eu com isso?

Ah, a vida dos famosos! Como conversar com o vizinho sem saber com quem a atriz da novela está casada na vida real, ou de quem se separou?

** ‘Lady Gaga ‘come’ cabeça de boneca’

** ‘Jaque Khury ataca atriz global pelo Twitter’

** ‘Matthew McConaughey vai à academia no dia de seu aniversário’

** ‘Sabrina Sato e Fê Paes Leme curtem show do Black Eyed Peas com roupa igual’

** ‘Lindsay Lohan compra camisola de leopardo em ‘folga’ de clínica’

** ‘Mulher só larga a cobra com ajuda dos bombeiros nos EUA’

** ‘Maria Flor sai de mercado cheia de sacolas’

** ‘Cidade grande atrai morcego sem teto’

 

O grande título

Comecemos por uma aula, que combina biologia, arqueologia, pesquisa:

** ‘Dedos grandes indicam que neandertais tinham vida sexual agitada’

Continuemos com um título notável – não apenas o título, mas também o magnífico texto. O segundo sentido fica por sua conta, cabeça maliciosa!

** ‘‘Jogadora do pepino’, Natália enfim relaxa e se dá nota 8’

‘Natalia é uma excelente jogadora, é a ‘jogadora do pepino’ como a gente brinca. Você coloca a bola alta para ela e ela vira de onde estiver. Foi o que aconteceu hoje. Procurei ela todas vezes que tava na rede com a Lo Bianco (levantadora), que era o bloqueio baixo delas. Eu jogava e ela foi com tudo, virou todas as bolas’, disse a levantadora Fabíola.

O grande título, o melhor de todos, também é esportivo:

** ‘Rubinho confia nas previsões de sua avó’

Então está tudo explicado.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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