Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Investidores sociais e o incentivo à leitura

Por Mônica Herculano em 28/09/2004 na edição 296

O Ministério da Cultura e a Fundação Biblioteca Nacional têm promovido uma série de encontros, em diversas regiões do país, como preparação para o Fórum Nacional da Leitura, que acontece em novembro. Nele, serão abordadas a instituição da Política Nacional do Livro e da Leitura, a regulamentação da Lei do Livro e a participação brasileira no Ano Ibero-Americano da Leitura, a ser comemorado em 2005.

Entre as ações propostas pelo governo federal para incentivar a leitura no país estão a abertura de novas bibliotecas, a distribuição de livros gratuitos e investimentos na formação de professores, bibliotecários e agentes mediadores de leitura voluntários. Enquanto isso, fundações, institutos e empresas já fazem sua parte, com programas de criação de novos espaços de leitura e projetos que incentivam essa prática entre crianças, jovens e adultos.

Os institutos Ecofuturo e Itaú Cultural, por exemplo, acabam de expandir suas atuações neste sentido. Em agosto, o Ecofuturo inaugurou a ’26º Biblioteca Comunitária Ler é Preciso’ e o Itaú Cultural lançou o programa ‘Crônica na Sala de Aula’. Ambos envolvem atividades que, mais do que incentivar a leitura, buscam ajudar na diminuição dos índices de analfabetismo funcional.

Christine Fontelles, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, afirma que é necessário ajudar a comunidade a construir um plano de ação que coloque a biblioteca à sua disposição e o livro no seu dia-a-dia. ‘A biblioteca deve ser um espaço estruturado em parceria com a comunidade e o poder público – a partir do entendimento do contexto e da demanda local –, atuar de forma cooperada com ações locais de promoção cultural e de leitura e oferecer apoio ao projeto político-pedagógico da escola’, explica.

Ela entende que as bibliotecas são espaços fundamentais para consulta de livros e demais materiais que são fonte de informação, como jornais e revistas, e não devem funcionar como depósito. ‘Elas devem ter um acervo variado e de qualidade, além de capacitar pessoas para atuarem como organizadores e promotores de leitura. O objetivo é formar leitores e usuários de bibliotecas. Com estes cuidados é possível criar condições adequadas para que sejam desenvolvidas as competências de ler e escrever.’

O Instituto Ecofuturo atende cerca de 9.000 pessoas por mês em suas bibliotecas comunitárias, que integram o ‘Programa Ler é Preciso’. O objetivo é preparar crianças e jovens para atuarem na sociedade do conhecimento, a partir do domínio crítico da linguagem e da competência de comunicar-se pela escrita. Para isso, a organização também promove concursos de redação, debates e palestras sobre questões que envolvem o livro e a literatura e uma rede interativa de intercâmbio cultural (Clube Ler é Preciso).

Renata Bittencourt, gerente do Núcleo de Ação Educativa do Instituto Itaú Cultural, lembra que o público atendido por programas como estes precisa ser seduzido a conhecer o que é trazido pelas palavras. Por isso, para o desenvolvimento do novo projeto da organização, foi escolhida a crônica. ‘A leveza e o humor deste gênero literário são fatores de aproximação, assim como a temática ligada a questões do cotidiano e da realidade do momento em que são escritas.’

O ‘Crônicas’ é um projeto de capacitação de professores que tem como objetivo potencializar a inserção do texto literário no ensino da língua portuguesa e contribuir para a formação de leitores. ‘Além dos cursos de formação, acreditamos que materiais de apoio ao educador são ferramentas importantes. Por meio destes instrumentos conseguimos ir além da formação de repertório, facilitando a introdução de novas possibilidades de trabalho com a leitura no contexto na sala de aula’, explica Renata.

Capacitação

Para Christine Fontelles, é essencial capacitar pessoas da comunidade – educadores e voluntários – como promotores de leitura. ‘Muitas vezes, a não intimidade com os espaços pode inibir a freqüência nas bibliotecas. Em Urbano Santos (MA), as crianças sequer sabiam o significado dessa palavra. Em Turmalina (MG), quando a biblioteca pública foi revitalizada e reinaugurada, muitas pessoas tiravam o sapato para entrar. Isso é o reflexo de um país onde a cultura é assunto de elite.’

América Marinho, Maria Alice Armelin e Zoraide Faustinone da Silva, do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), lembram que um orientador de leitura deve ser, antes de tudo, um bom leitor. ‘Para isso, precisa ter acesso a livros, jornais, revistas e outros materiais escritos de boa qualidade e ter oportunidade de trocar idéias e aprofundá-las com outros leitores. Precisa ser capaz de selecionar bons textos e apresentar a leitura a seus alunos de forma variada e interessante. Assim, a melhor forma de capacitá-lo é por meio de oficinas teórico-metodológicas, em que vivencie atividades de leitura e reflita sobre elas com seus pares’, explicam.

As três especialistas fazem assessoria técnica para a Fundação Volkswagen no Projeto Entre na Roda, que tem como objetivo promover e incentivar a leitura na escola e na comunidade, por meio da formação de professores, técnicos educacionais e voluntários. Para isso, são organizadas oficinas de leitura nas escolas e rodas de leitura na comunidade, que visam ampliar a reflexão e compreensão de textos.

‘O mais importante é que os aprendizes tenham oportunidade de interagir de forma prazerosa com os diferentes gêneros textuais que circulam na sociedade, discutindo-os e comentando-os, sob a orientação de um leitor mais experiente, seja ele professor ou não’, completam as técnicas do Cenpec. Elas afirmam que, na escola, o trabalho com textos literários de boa qualidade aguça a imaginação dos alunos e desperta o desejo de escrever.

O ‘Projeto Entre na Roda’ é desenvolvido em sete das 21 unidades do CEU (Centro Educacional Unificado) e em outras 35 escolas da rede municipal de ensino fundamental de São Paulo, beneficiando um total de 18 mil crianças. Em Taubaté, no interior paulista, 9.500 alunos de 50 escolas são beneficiados.

Albanisa Dummar Pontes, diretora executiva da Fundação Demócrito Rocha e conselheira do GIFE, defende que os pais também sejam leitores assíduos. ‘Assim, sutilmente, transmitirão aos filhos o prazer da leitura como um hábito saudável a partir de casa’, explica. Para ela, as bibliotecas precisam abrir nos finais de semana e feriados para contação de histórias e visitação pública. ‘Todos os espaços, associações de bairro, igrejas e praças são adequados às práticas socializantes de leitura. Portanto, devem ser aproveitados como tal.’

Além das publicações específicas lançadas pela organização, há dois anos, a Fundação Demócrito Rocha lançou o projeto ‘Eu Sou Cidadão – Amigos da Leitura’, em parceria com a Associação das Primeiras Damas dos Municípios do Estado do Ceará. Por meio dele, crianças e adolescentes são treinados para serem multiplicadores e incentivadores de atividades literárias.

Iniciativas

Criar bibliotecas itinerantes, promover intercâmbios com os espaços já existentes e doar livros para jovens empreendedores que queiram estimular a leitura local são outras boas estratégias de atuação, de acordo com Luciane Vania Ferreira, responsável pelo Centro de Estudos do Instituto Unibanco.

Ela afirma que a literatura promove um contato entre o imaginário e o real e oferece a possibilidade de concretizar idéias e disseminá-las. ‘Para isso, é necessário um projeto bem elaborado e um plano de ação focado não só no incentivo à leitura, mas também na vivência de leituras coletivas.’

O Centro de Estudos do Instituto Unibanco oferece a cerca de 3.000 crianças e adolescentes do Jardim Educandário, bairro de São Paulo, uma biblioteca com mais de 20 mil volumes, gibiteca, espaço para leitura, oficina de recuperação de livros e jogos de tabuleiros, além de desenvolver atividades e oficinas voltadas para incentivo à leitura (como a Hora do Conto) e complementação escolar (oficinas de informática).

Para Ana Maria de Marchi, responsável pela gestão operacional da Fundação Educar DPaschoal, os livros ganham nova dimensão quando são acompanhados por atividades escolares que engajem os alunos no processo de descoberta dos múltiplos mundos que a literatura proporciona. ‘Dentre estas atividades podemos citar os debates, as apresentações teatrais, a pesquisa histórica, as visitas aos locais onde a história se passa e mais uma infinidade de possibilidades’, explica.

Por isso, os temas tratados nas publicações criadas especificamente com o objetivo de incentivar o hábito da leitura devem seduzir o leitor por seu caráter lúdico e estimulante, transmitir um valor ético e convocar o leitor a uma atitude cidadã. ‘A leitura é a base da transferência de conhecimento, não só nos anos de formação, na escola, mas durante a vida toda. Quanto mais familiaridade com a leitura a criança tiver, maior facilidade de aprendizagem terá para o resto da vida’, afirma Ana.

Os projetos de incentivo à leitura desenvolvidos pela Fundação Educar buscam facilitar o acesso de crianças de baixa renda a uma literatura de qualidade. Já são mais de 80 títulos lançados, com temas que envolvem a prática da cidadania, e mais de 20 milhões de exemplares distribuídos em escolas, bibliotecas e outras instituições, em 16 estados brasileiros. O trabalho é feito em parceria com organismos públicos e empresas.

Na mesma linha de atuação, as fundações Cargill e Abrinq desenvolvem, respectivamente, o ‘Programa Fura-Bolo’ e o ‘Projeto Mudando a História’. No primeiro, em parceria com prefeituras e secretarias de educação de 16 cidades brasileiras, a Fundação Cargill auxilia na formação de leitores, com a distribuição de material pedagógico e livros produzidos especialmente para o programa, e capacita educadores. São 57 mil crianças (de 1ª à 4ª séries do ensino fundamental) e 2 mil educadores beneficiados.

Já o projeto da Fundação Abrinq é feito em parceria com International Youth Foundation e a Nokia. Nele, jovens de 15 a 25 anos são formados para atuarem como mediadores e multiplicadores de leitura em creches, escolas de educação infantil e instituições de atendimento direto à infância em situação de risco.

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Repórter do redeGIFE (http://www.gife.org.br/)

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