Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ARMAZéM LITERáRIO > GRANDE SERTÃO

Jagunços ainda mandam por aqui

Por Deonisio da Silva em 05/08/2008 na edição 497

No ano de 2008, o Brasil celebra o centenário do nascimento do seu escritor mais sagaz, o mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), que estreou com o livro de contos Sagarana, em 1946. O escritor tinha 38 anos, portanto. Sua obra-prima, contudo, é o romance Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956, à beira dos 50 anos de idade. O étimo latino da palavra sagax designa o faro do cachorro. Dá-se, então, que a pessoa sagaz cheira que algo não está bem, embora não possa ainda comprovar por meios que todos entendam o que acabou de perceber. Talvez tenha sido este um dos motivos de o escritor não ter sido compreendido por luminares da inteligência brasileira.

Nascido em Cordisburgo, que significa cidade do coração – cordis, em latim, genitivo de cor, coração; e burgo, do germânico burgs, pelo latim burgus, cidadezinha, povoado –, o escritor adiou por quatro anos a posse na Academia Brasileira de Letras, para a qual tinha sido derrotado em 1957, pois tinha o presságio de que morreria, temendo emoções que nele eram sempre exageradas. Olhem só outra palavrinha: presságio, do latim praesagium. Pre, antes. Presságio não é apenas saber antes, é ‘cheirar’ antes. É ter para acontecimentos futuros o faro que o cachorro tem para a caça, para o que procura.

Guimarães Rosa tinha este faro. De fato, faleceu três dias depois da posse, em 19 de novembro de 1967. Ele achava que ia morrer depois da posse e morreu de fato.

‘O verdadeiro viver’

O escritor era casado com a paranaense Aracy Moebius de Carvalho, que, aos cem anos, vive em São Paulo com o filho nascido de seu outro casamento. Ara, como o escritor a chamava, e a quem dedicou o Grande Sertão: Veredas, é a única brasileira que tem seu nome inscrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto, em Israel, por seu trabalho, apoiado pelo marido, então cônsul adjunto em Hamburgo, de providenciar vistos de entrada no Brasil a judeus perseguidos pelo nazismo.

Sempre li Guimarães Rosa e passei este gosto a meus alunos de Letras. Comprei outro exemplar de Grande Sertão: Veredas porque o anterior estava tão riscado e anotado que já não fazia mais o que gosto de fazer: ler como se fosse a primeira vez, fazer outra leitura.

Eis um dos trechos marcados:

‘Sempre sei, realmente. Só o que quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado tem. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso da doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel…’

Livros fundamentais

Quando o escritor e professor paraibano Rinaldo de Fernandes me convidou a integrar o grupo de escritores que ele reuniu para escrever as Quartas Histórias (Rio, Editora Garamond, 2006), inspiradas em Guimarães Rosa, escolhi o trecho do Grande Sertão: Veredas em que o personagem Zé Bebelo é julgado pelos outros jagunços, depois de romper com o bando e ser recapturado.

Escrevi naquela hora, daquele modo, porque olhava ao redor e me parecia que novos tipos de jagunços tinham chegado ao poder no Brasil, no atacado e no varejo, pois em muitos lugares que eu freqüentava, eram os jagunços que mandavam.

A literatura poderia iluminar muito a vida de todos, mas infelizmente nosso povo vive longe dos livros fundamentais de nossas letras e quem vai às livrarias logo dá de cara com livros sem importância alguma. Os outros é preciso procurar, descobrir ou, como é o caso de Grande Sertão: Veredas, redescobrir.

******

Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século); www.deonisio.com.br

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