Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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ARMAZéM LITERáRIO >

Joaquim Vieira

27/10/2009 na edição 561

‘Qualquer período eleitoral, acirrando a disputa política, coloca os nervos à flor da pele, e os media são então alvo de todas atenções, escrutinando-se desvios editoriais, apoios encapotados, campanhas subliminares ou simples erros jornalísticos.

O leitor John Pallister escreveu ao provedor queixando-se do título que o PUBLICO.PT colocou online às 20h00 de 27 de Setembro, dia das legislativas: ‘Incomoda-me que uma notícia sobre projecções dos resultados das eleições tenha um título que não só não inclui a palavra ‘projecções’ como sugere que está a relatar um facto: ‘PS vence sem maioria absoluta’. É apenas uma questão de honestidade intelectual os factos serem apresentados como factos e o resto como não factos’.

Note-se que o parágrafo inicial da notícia em causa dizia o seguinte: ‘O Partido Socialista venceu as eleições legislativas, embora sem conseguir a maioria absoluta, revelam as projecções apresentadas pelos vários canais de televisão’.

O provedor já em tempos analisou nesta coluna o problema das projecções eleitorais transformadas pelos jornalistas em matéria de facto, afirmando que os órgãos de informação deviam ter a consciência do risco que assumem e da probabilidade de falhanço em que incorrem (como provam clamorosamente alguns episódios históricos, nem todos antigos). Quando as previsões acertam, todos são felizes, mas quando erram é uma tragédia grega.

No caso em apreço, contudo, o provedor entende que as projecções àquela hora difundidas por três diferentes estações de TV com base em estudos de três diferentes institutos de sondagens, convergindo todas no mesmo sentido quando à questão essencial, não deixavam margem para dúvidas não só acerca do partido vencedor do escrutínio, tal a distância que o separava do segundo mais votado, mas também sobre a sua perda da maioria absoluta. Aliás, o texto começava logo por esclarecer que se falava com base nas projecções acabadas de divulgar, citando a fonte da notícia e salvaguardando qualquer remoto imprevisto. No caso, portanto, o risco estava devidamente ponderado e valia a pena corrê-lo.

No dia 27, as únicas dúvidas que as projecções suscitavam diziam respeito aos partidos que ficariam classificados nos três lugares abaixo, mas sobre isso o PUBLICO.PT limitou-se, avisadamente, a reproduzir os diversos números anunciados nas televisões (que aliás não eram unânimes na ordenação das forças políticas). Nada a objectar, por conseguinte.

Saltando para as autárquicas, um dos seus episódios mais bizarros foi o apoio desapoiado (ou vice-versa) do comunista Carvalho da Silva, secretário-geral da CGTP, à candidatura do socialista António Costa à presidência do município lisboeta, através de um intencional encontro ocasional (ou vice-versa) ocorrido no Chiado. Pelas implicações que a saudação teve nas hostes à esquerda, o PÚBLICO dedicou-lhe na edição de 9 de Outubro (pág. 10) um texto assinado pelas jornalistas Leonete Botelho e Maria Lopes sob o título ‘Carvalho da Silva dá passo de afastamento do PCP’, o que motivou de António Rodrigues, responsável do Gabinete de Imprensa dos comunistas, uma carta de ‘protesto e (…) indignação face a esta grosseira e descarada manipulação até porque se trata também de um atropelo ao chamado Livro de Estilo do PÚBLICO’.

E qual seria a gravidade do caso? Explica António Rodrigues: ‘Não querendo abordar outros aspectos de uma peça especulativa com contornos e objectivos definidos, não podemos deixar passar em claro a manipulação que é feita da intervenção do secretário-geral do PCP num almoço-convívio da CDU realizado em Benavente. Afirma-se na peça que, ‘coincidência ou não, Jerónimo de Sousa escolheu a ética na política para tema do seu discurso à hora do almoço, pouco depois de se saber do encontro Carvalho/Costa’. Ora acontece que a ética política não foi o tema central da intervenção de Jerónimo de Sousa, coisa que nenhum jornalista do PÚBLICO teve a possibilidade de registar pois não estiveram presentes na referida iniciativa, bem como não há nenhum texto ou peça elaborada pelos diversos jornalistas presentes que faça ou induza a tal leitura. Face à presença no almoço de uma delegação de militantes e activistas do PCP e da CDU de Salvaterra de Magos, o secretário-geral do PCP fez referência às questões da ética na política mas a propósito de factos passados e conhecidos no relacionamento entre a CDU e a presidente da Câmara de Salvaterra. Aliás, a referida alusão foi de tal modo clara e inequívoca que, no final da iniciativa, os jornalistas presentes (…) questionaram Jerónimo de Sousa exactamente nesse sentido. É no mínimo surpreendente que, não tendo estado presente na referida iniciativa, qualquer jornalista se permita analisar e comentar uma intervenção que não ouviu, deturpando o seu conteúdo e o contexto em que foi feita’.

O provedor solicitou uma reacção a Leonete Botelho e Maria Lopes, que replicaram:

‘A peça (…) refere-se a uma análise, tal como está identificada no topo da página (…) e no âmbito do que está descrito no Livro de Estilo: um género jornalístico diferente da notícia, em que a ênfase é colocada na interpretação dos factos (…). O objectivo da análise jornalística é procurar explicar o significado de factos noticiados, fornecendo aos leitores elementos de background e opiniões de fontes que ajudem a compreender o contexto dos acontecimentos.

(…) Os factos ocorrem em plena campanha eleitoral para as autárquicas, a meio da manhã, e nesse mesmo dia o secretário-geral do PCP participou num almoço em Benavente onde discorreu sobre a ética na política, referindo-se especificamente ao caso da Câmara de Salvaterra de Magos, que já nas anteriores autárquicas tinha sido conquistada pelo Bloco de Esquerda com uma candidata que já fora presidente da mesma autarquia pelo PCP. Acontece que estes factos ocorrem em Benavente, e não em Salvaterra de Magos. Acresce que, logo nesse dia, ao contrário do que fazia nos outros dias da campanha para as autárquicas, Jerónimo de Sousa recusou-se a fazer comentários aos jornalistas ao final da manhã (…). A sua primeira intervenção política após ter conhecimento do encontro Carcalho da Silva/António Costa é esse discurso. Durante as campanhas eleitorais, a regra do discurso dos protagonistas políticos é haver uma estrutura-tipo que vão repetindo em todos os comícios e intervenções, na qual introduzem temas de actualidade ou adaptações consoante o local onde se encontram. Jerónimo de Sousa não é excepção. (…) O facto de abordar uma questão diferente permite dizer que a ética na política foi o tema novo do seu discurso nesse dia. E, não se encontrando em Salvaterra de Magos, é perfeitamente legítimo pensar que não terá sido coincidência fazê-lo num dia como aquele.

Não se compreende a questão da ausência de jornalistas do PÚBLICO nesse almoço, levantada pelo PCP como impeditiva de se escrever sobre ele. Seria uma grave limitação à liberdade de imprensa e uma entorse a todo o sistema de comunicação a nível mundial impedir um órgão de comunicação de noticiar factos a que não assistiu. Não haveria aldeia global se assim fosse. Além disso, o PÚBLICO ouviu três pessoas – entre jornalistas e assistência – que transmitiram a imagem de que a equipa dirigente do PCP sentia grande desconforto com o episódio da manhã (…).

Considerando insultuosas várias passagens da carta de António Rodrigues, seria importante que o queixoso não deixasse acusações no ar e especificasse o significado da afirmação de que [o artigo] se trata de ‘uma peça especulativa com contornos e objectivos definidos’.’

Salientando que o texto em questão, como de resto António Rodrigues reconheceu, é anunciado como ‘análise’, o provedor considera correcta a interpretação que as duas jornalistas fazem do Livro de Estilo do PÚBLICO e legítima a especulação que desenvolvem no seu trabalho, de acordo aliás com a argumentação que agora apresentam.’

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