Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Jornais brasileiros ganham sua maior biografia

Por Leão Serva em 30/06/2015 na edição 857

selo_rev_jorn_espmQuando assistimos ao que parece a realização da profecia sobre a morte dos jornais, começa a ser publicada sua maior biografia. Acaba de sair o primeiro volume de A História dos Jornais no Brasil – Da Era Colonial à Regência (1500-1840), de Matías M. Molina. Em breve a Companhia das Letras deve publicar mais dois tomos, sobre os jornais do Rio de Janeiro (segundo) e de São Paulo (terceiro), de meados do século 19 até o presente. Assim, ficará completa a “Primeira Etapa”. A “Segunda Etapa” deverá tratar dos demais Estados e de jornais segmentados.

Ao longo da carreira no jornalismo econômico, Molina sempre se dedicou à história dos jornais. Por isso, a obra nasceu “naturalmente”, como conta na entrevista a seguir. Seu texto tem clareza e frescor, que ajudam o leitor a enfrentar 530 páginas e ter vontade de mergulhar em mais mil.

O autor não discute o futuro do jornalismo. Logo no início do livro, explica que preferiu não abraçar o papel de oráculo, voltando-se para o passado.

Uma novidade apresentada pelo livro é crucial: contrariamente ao que consagrou a historiografia, Molina aponta a ausência de um diploma legal que proibisse a imprensa no Brasil. Isso impõe uma interrogação sobre o período entre o descobrimento e a chegada da corte ao Rio, em 1808: por que não foram publicados jornais durante a Colônia?

Quando nasceu a ideia deste livro? Ele parece ser o livro de uma vida toda.

Matías M. Molina – Quando escrevi o livro anterior, Os Melhores Jornais do Mundo (Globo, 2008), disse que a próxima obra seria sobre os jornais latino-americanos, pois tinha publicado uma série de artigos no Valor Econômico. Depois pretendia escrever sobre os jornais brasileiros. Por sugestão de Augusto Rodrigues, da CPFL, que me deu uma ajuda inicial, inverti a ordem. Sempre me interessei pela imprensa, do Brasil e do exterior, tanto sua história como a situação atual. Escrever o livro foi uma coisa natural. Tenho centenas de livros, revistas, ensaios, recortes acumulados durante décadas. Esse material me ajudou nos livros que escrevi e estou escrevendo.

Quantos anos o trabalho consumiu?

M.M.M. – Foram vários. Mas só durante um período me dediquei à obra em tempo integral.

Sobre a ausência de livros e jornais brasileiros, o fato de não encontrar uma lei não parece ser sinal de que não houve proibição, mas que ela se deu de forma diferente. Qual é a sua convicção dessa questão?

M.M.M. – Como escrevi, não foi encontrada nenhuma proibição à instalação de tipografias no Brasil. Não quer dizer que não houve, mas ninguém encontrou. Assim que Lisboa teve notícias de que funcionava um prelo no Brasil, do editor português António Isidoro da Fonseca, imediatamente mandou que fosse enviado de volta a Lisboa. Acho que Portugal não tinha interesse na instalação de uma indústria gráfica na colônia, assim como proibiu qualquer tentativa de industrialização. Mas o fato concreto é que não foi encontrado nenhum documento real proibindo a instalação de tipografias. A questão é bastante complexa: em todas as outras colônias portuguesas, os jesuítas instalaram prelos para a catequese dos indígenas. Por que não no Brasil? Ninguém tem a resposta.

Quando saem os outros volumes da “Primeira Etapa” de seu livro?

M.M.M. – O segundo volume, sobre os jornais do Rio, e o terceiro, de São Paulo, estão quase prontos. Faltam só algumas entrevistas e concluir o último capítulo. A data de publicação depende da editora. Eu gostaria que o segundo saísse neste ano e o terceiro, no próximo.

A “Segunda Etapa” está em que fase de criação?

M.M.M. – Já adiantei algum material. Quando iniciei a obra sobre os jornais brasileiros abri bastante o leque e pesquisei e escrevi um extenso rascunho sobre alguns jornais de Pernambuco e da Bahia. Fiz uma viagem a Curitiba e pesquisei sobre a imprensa paranaense. Ao perceber que a obra ficaria maior do que imaginava, decidi concentrar-me nos primeiros tempos da imprensa e nos jornais do Rio e São Paulo. Só depois cuidarei da segunda etapa.

Qual a missão de uma história dos jornais em um tempo que parece ser de morte da imprensa?

M.M.M. – Eu não sei se os jornais vão sobreviver ou não. Eu me concentrei em pesquisar e escrever sobre seu passado e seu presente, não seu futuro.

O livro não trata disso, mas qual é o destino dos jornais, na sua opinião? Encontram um novo espaço? Qual?

M.M.M. – Antecipar a morte dos jornais é arriscado, assim como é arriscado dizer que vão sobreviver. Talvez consigam adaptar-se ao mundo digital; talvez possam ter uma circulação mista. Não sei. O que pretendo fazer é observar a sua luta para sobreviver.

***

Leão Serva é jornalista

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