Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > SEXTA-FEIRA, 16/11

Jornais criticam defesa de Lula à Venezuela

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 16/11/2007 na edição 459

Leia abaixo a seleção de sexta-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 16 de novembro de 2007


LULA E CHÁVEZ


O Estado de S. Paulo


A defesa que assusta


‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é um homem culto, mas tem dado demonstrações de possuir uma inteligência privilegiada que lhe permite aprender ‘de ouvido’ aquilo que não aprendeu na escola. Aborda qualquer assunto que um presidente é obrigado a abordar, sem ‘fazer feio’, diante de qualquer platéia, sabendo até como transformar em pitoresca a linguagem só sua que é conseqüência da falta de domínio do vernáculo.


Por isso, é assustadora a defesa que ele faz da ‘democracia na Venezuela’, como se acreditasse realmente que democracia é a sistemática dilapidação das instituições, práticas e valores democráticos que o coronel venezuelano espera completar no próximo dia 2 de dezembro, realizando, finalmente, o sonho que não conseguiu realizar em 1992, por meio de um golpe militar. E, se Lula sabe que democracia não é isso, pode-se deduzir que ele só não tentará imitar Chávez se achar que são escassas as condições objetivas para tal no Brasil – o que não nos parece o caso do País deste momento, euforizado pela descoberta da jazida de Tupi.


O susto aumenta quando declara não ver diferença entre o projeto chavista de se perpetuar no poder e os governantes europeus que chegaram a ficar uma década ou mais no poder, uma vez que não se pode acreditar que é a desinformação que o faz equiparar as trevas à luz – ‘não tem nada de distinto’, fulminou -, e que ele pense efetivamente que a perpetuação de Chávez no governo venezuelano é tão legítima como as sucessivas reeleições de Margareth Thatcher, na Grã-Bretanha; Helmut Kohl, na Alemanha; Felipe González, na Espanha; e François Mitterrand, na França, a quem citou. Não é crível que Lula tenha feito essa comparação com o único objetivo de defender a fidelidade à democracia do coronel golpista.


Os jornalistas que o entrevistavam objetaram que, exceto Mitterrand, os demais se elegeram e se reelegeram no marco do parlamentarismo, que também prevê a queda dos governos de turno a qualquer momento, se o Legislativo negar aos seus dirigentes o voto de confiança. A objeção – à qual Lula retrucou que ‘o que importa não é o regime, é o exercício do poder’ – é procedente, mas a questão essencial é outra. Todos os nomes mencionados foram invariavelmente escolhidos em pleitos livres, limpos e competitivos, isto é, cujos resultados poderiam ter sido aqueles ou outros, e, no exercício do poder, preservaram a democracia. Afirmar que o mesmo se aplica ao chavismo, não podendo, como dissemos, ser rematada ignorância, só pode ser demonstração acabada da intenção de seguir o exemplo de Chávez pelo menos no que diz respeito à ‘prorrogação’ da sua permanência no poder. Reconhecemos que Lula é inteligente demais para aspirar a poderes ditatoriais.


Mas ele não facilita a vida de quem prefere acreditar nas suas juras de que não pensa em 3º mandato. São dele estas palavras: ‘Eu acho que na democracia é assim: a gente submete aquilo que a gente acredita ao povo e o povo decide e a gente acata o resultado.’ Isso é apenas plebiscitismo, a relação direta do líder com a massa, que atropela o que a ordem democrática tem de essencial – a representação parlamentar pluripartidária. Assim é a democracia de Hugo Chávez – e quem o diz é o seu ex-ministro da Defesa general Raúl Baduel. Em abril de 2002, ele acabou com o golpe de opereta contra o chefe. Em julho deste ano, Baduel deixou o governo para denunciar como ‘golpe de Estado’ a reforma constitucional a ser submetida a referendo popular.


Na realidade, não houve qualquer provocação para Lula falar sobre a ‘democracia’ chavista. O que os jornalistas queriam saber é o que ele pensava sobre o incidente em que o protoditador foi repreendido pelo rei da Espanha, Juan Carlos I.


O fato, como se sabe, ocorreu na sessão de encerramento, a que o presidente brasileiro não compareceu, da Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile, no último fim de semana. A ausência talvez explique a sua reconstituição equivocada do episódio. O rei mandou Chávez calar a boca não porque ele chamou José Maria Aznar de ‘fascista’, mas porque não parava de interromper grosseiramente os protestos do presidente José Luís Zapatero contra o insulto. Mas, se nada lhe foi perguntado sobre o regime venezuelano, por que Lula haveria de sair em sua defesa? Não é para assustar?’


 


VENEZUELA
Ricardo Freire


O rei e eu


‘O Brasil é um país afortunado. Olha que sorte a nossa: nunca na história deste País houve um presidente falastrão como Hugo Chávez. Digo isso por experiência própria.


A única vez que fui à Venezuela, em 2003, precisei passar uma noite em Caracas. Fiquei num hotel perto do aeroporto, porque pegaria um teco-teco de manhã cedinho para o arquipélago de Los Roques. Depois do jantar, liguei a TV. Estava passando ‘El Clon’. Dublada e com trilha sonora modificada, era muito difícil imaginar que aquela novela um dia tivesse sido brasileira. Não era uma questão de trama, nem de diálogos, nem de iluminação. Era o rímel, mesmo. Só uma novela mexicana ou colombiana ou venezuelana gasta tanto rímel quanto ‘O Clone’.


De repente interromperam a novela para uma transmissão em rede nacional. Entrou um videotape, sem cortes, de um trecho de uma cúpula latino-americana em Assunção. O programa começava no momento em que Hugo Chávez tomou a palavra, para nunca mais largar.


Durante trinta e cinco minutos, contados no relógio, fui submetido à mesma tortura que o coronel infligiu a seus colegas presidentes. Meia hora de Hugo Chávez jogando para a torcida, pensando em encher lingüiça da sua rede nacional à noite, enquanto aborrecia altas autoridades com papo furado. De vez em quando a câmera enquadrava o presidente Lula e eu me compadecia de sua vontade de bocejar.


Demorou, mas Gloria Perez foi vingada. Calhou de eu estar de novo fora de casa. Domingo passado, a TV do meu quarto de hotel estava ligada na CNN em espanhol, quando falam do incidente entre o rei de Espanha e o presidente da Venezuela na cúpula ibero-americana de Santiago do Chile. Irritado pelo fato de Chávez, que já tinha se pronunciado, não deixar o presidente espanhol Zapatero falar, o rei Juan Carlos não se conteve e lascou: ‘Por que no te callas?’


Vocês não estão entendendo. Isso é muito maior do que um bate-boca entre autoridades. Naquele momento, o rei de Espanha cunhou o primeiro grande slogan do século 21. Por que não te calas? Enfim, um grito de protesto útil contra políticos de todo o espectro ideológico! De Bush a Kim Jong Il, não há político que não mereça um ‘Por que não te calas?’ – pelo menos de vez em quando.


Precisamos fazer camisetas, imprimir cartazes, compor um jingle, fundar uma ONG. Por que não se calou? Não se calou por quê?


Rei! Rei! Rei! Juan Carlos é nosso rei!


Ricardo Freire é turista profissional. Blog: viajenaviagem.wordpress.com’


 


LITERATURA
Humberto Maia Junior e Valéria França


A nova onda em SP: feiras para trocar livros


‘Até o começo do próximo mês, o paulistano terá espaço garantido para trocar livros e experiências literárias com outros leitores. Três feiras especiais, organizadas pela Secretaria Municipal da Cultura, oferecerão, além das tradicionais palestras de escritores e narrações de histórias, a oportunidade que os fãs de livros esperavam e que já virou mania em outros lugares do mundo. No domingo, o evento será no Parque do Carmo; no dia 25, no Parque da Luz; e, em 2 de dezembro, é a vez do Ibirapuera.


A idéia é que as feiras funcionem como ponto de encontro para que as trocas aconteçam sem intermediários, ou seja, diretamente pelos donos dos livros. Funciona assim: os exemplares são dispostos em quatro mesas. As três primeiras recebem respectivamente literatura clássica, juvenil e gibis. Tudo que não se enquadra nessas categorias acaba na quarta mesa. ‘Os livros serão deixados em cima da mesa e podem ser pegos por qualquer um. O local será útil para quem teve um livro rejeitado ou sente timidez em negociar’, explica o secretário adjunto, José Roberto Sabek, lembrando que trocar livro é uma prática antiga. ‘Em Bogotá isso é feito, assim como em outras cidades do Brasil.’


MANIA


A idéia pode não ser nova, mas em alguns países virou mania. Isso explica o sucesso do site BookCrossing.com, criado em 2001 pelo americano Ron Hornbaker para incentivar a leitura. O internauta registra um livro de sua estante no site, cola uma etiqueta e deixa o exemplar num lugar público, como uma praça. Hoje o site tem 9 mil usuários cadastrados. A maioria dos livros está em língua estrangeira. Cerca de 14 mil foram colocados por usuários dos Estados Unidos. Já os brasileiros ainda estão em minoria – são apenas 56 no site.


‘Trocar livros é sempre uma iniciativa interessante. Entra-se em contato com outros assuntos e permite que as pessoas aumentem seu círculo de amizade’, diz, entusiasmado, o editor Pedro Paulo de Sena Madureira, que já chegou a ter uma biblioteca particular de 4 mil exemplares e hoje ficou com apenas mil na prateleira. ‘Livro não pode ficar parado na estante. Tem de ser passado para frente. É uma forma de estimular a leitura.’


A feira também abre oportunidade a leitores sem dinheiro para gastar nas livrarias. Filho de pais analfabetos, o músico Gilberto Gonçalves da Silva, de 51 anos, artisticamente conhecido como Zulu Arrebatá, criou o hábito de leitura tarde, aos 35 anos. ‘Não tinha incentivo da família nem da escola’, conta. Mas hoje é um freqüentador assíduo de feiras de livros.


Na semana passada, Gilberto participou de uma feira de livros no Clube da Comunidade Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, na zona leste, bairro onde mora. ‘O dinheiro que eu ganho é para sobreviver’, diz o músico, que atualmente está lendo De Getúlio a Castelo, de Thomas Skidmore. ‘Reuni alguns exemplares e fui lá ver no que dava.’ Para participar, valia levar qualquer tipo de livro. ‘Só não podia livro em mau estado de conservação’, explica Maria Alice Setúbal, presidente da Fundação Tide Setúbal.


PRAZER


Há mais de 40 anos no mercado de livros, Madureira dá uma dica a quem ainda não lê com freqüência: ‘É preciso ler de tudo para descobrir o próprio gosto literário. Daí, para virar um leitor voraz, é um passo’, diz. ‘Ninguém pode esquecer que ler é um prazer e, se não for assim, não tem a menor graça.’


PROGRAME-SE


FEIRA NO PARQUE DO CARMO


Domingo, na Avenida Afonso de Sampaio e Souza, 951, Itaquera


Tel.: 6748-0010


PARQUE DA LUZ


Dia 25, na Praça da Luz, no centro


Tel.: 3032-3727


PARQUE DO IBIRAPUERA


Dia 2 de dezembro, na Avenida Pedro Álvares Cabral, Ibirapuera


Tel.: 5549-9688


Mais informações:


Secretaria Municipal da Cultura


Tel.: 3334-0001′


 


CINEMA


Flávia Guerra


Coppola: ‘Sou como um bom vinho’


‘‘Quando eu era jovem fazia filme de velho. Hoje, que sou velho, faço filmes de jovens. Posso me dar ao luxo de fazer o que quero, sem me preocupar com a indústria do cinema, se vai ter lucro ou não. Não preciso provar nada.’


O velho em questão é Francis Ford Coppola. O filme: Youth Without Youth, o primeiro da carreira do diretor de O Poderoso Chefão em dez anos. Desde o fracasso de O Homem Que Fazia Chover, Coppola se manteve longe do cinema para cuidar de sua vinícola. Só resolveu sair da toca, a Villa Rutheford, no Napa Valley, norte de São Francisco, para rodar seu novo longa, que em português poderia se chamar Uma Outra Juventude, nome que o filme ganhou na Itália. ‘O filme fala muito sobre mim. Estava há anos sem conseguir filmar, colocando minha capacidade à prova, sem conseguir terminar o roteiro de um outro filme que persigo há anos, Megalopolis, quando, finalmente, surgiu Youth Without Youth. E eu disse: Este filme sim eu consigo fazer. Filmar é responder a uma questão interior. A resposta acaba sendo o próprio filme. Sinto-me renovado.’


É esta juventude sem ser jovem, esta outra e novíssima fase de sua carreira, que Coppola celebrou em outubro, em Roma, durante a segunda edição do Festival Internacional que a capital italiana realizou e onde o diretor americano (nascido em Detroit mas de origem italiana) mostrou pela primeira vez seu novo longa. ‘Posso dizer que rejuvenesci com este filme. Hoje eu sou um diretor mais pessoal. Filmo o que gosto. Não faço mais parte da indústria do entretenimento porque esta não permite que se corra riscos. E sem risco, não há arte. Não há vida’, completa o diretor, em uma alusão a Dominic Matei (Tim Roth), protagonista de seu filme, um professor e estudioso de línguas romeno que, em plena 2.ª Guerra, é atingido por um raio e sofre uma estranha mutação. Matei rejuvenesce 30 anos e passa a ter poderes especiais, que lhe dão uma supraconsciência do mundo.


Sean Penn, mesmo que sem querer, também passou rápido e rasteiro pelo tapete vermelho do Festival de Roma para reafirmar as palavras de Coppola. ‘Hoje, não se correm mais riscos. Todos estamos muito acostumados ao conforto. Esta acomodação atinge principalmente os jovens, cada vez mais dependentes do sistema já estabelecido’, declarou o bad boy mais engajado do cinema mundial. ‘Se você não se rebela, nunca vai saber o que é ser jovem. É preciso coragem para correr os riscos e amadurecer. E não estou falando só da juventude cronológica’, declarou o ator ao Estado, quando questionado sobre sua vontade de contar uma história para jovens, cada vez mais intelectualmente subestimado pelo cinemão a qual Coppola se refere. ‘Queria ajudar os jovens a saírem destas vidas confortáveis. É preciso se expor e buscar o que se sonha. Sentir o coração bater mais veloz.’


Coppola levou décadas para sentir esse efeito. De fato, expor-se às críticas mais ferrenhas foi exatamente o que fez em Youth Without Youth. ‘Por mim, não exibiria em nenhum grande festival. Estão todos iguais. Só trouxe a Roma porque é novo e me traz novos ares’, alfinetou o diretor que desembarcou na capital italiana com toda a família.


Coppola se inspirou no conto do romeno Mircea Eliade, especialista em história da religião, para chegar ao tema da essência da fruição do tempo. ‘Foi uma amiga, Wendy Doniger, que ensina mitologia e hinduísmo na Universidade de Chicago, quem me sugeriu os textos de Eliade’, conta. ‘Estava empacado no roteiro de Megalopolis, que explora os conceitos filosóficos de tempo e consciência, e Wendy me apresentou à obra de Eliade. Foi, como no filme, levar um raio na cabeça.’


Penn também se inspirou em um livro para basear seu quarto trabalho na direção: Into the Wild, de John Krakauer. O romance narra a história real de um garoto americano de 22 anos que rompe com todos os seus laços para se lançar a uma viagem ao Alaska em busca, de, como sugere o título, o mundo selvagem.


Nem tão jovens assim (Coppola tem 68 ano e Penn, 47), ambos esbanjam vitalidade. ‘Espero que todos vocês comprem meus vinhos. Assim, terei dinheiro para fazer mais filmes’, brincou Coppola quando questionado se pretendia levar sua produção de vinhos para a América do Sul.


O diretor, que tem uma casa na Argentina e já esteve procurando terreno em Santa Catarina, está cada vez mais, digamos, ampliando seu leque de atuação. ‘Adoro a América do Sul. Tenho projetos lá sim. Por enquanto prefiro não falar deles. Quando chegar a hora, vou contar’, respondeu ao Estado, quando questionado sobre a compra do terreno e sobre sua participação no filme Chatô, de Guilherme Fontes.


O diretor contou que comprou um antigo Palazzo na cidade italiana de Bernalda, na região da Basilicata. ‘Quero construir um hotel e uma escola de cinema e música. Estar cada vez mais próximo dos jovens. Estou velho, mas, como o vinho, melhoro com o tempo’, brincou.


Há quem discorde. Youth Without Youth teve recepção morna em Roma. Encantou, mas não arrebatou. ‘Nenhum dos meus filmes teve acolhida calorosa quando visto pela primeira vez. É para ser revisto, porque, usando de novo o vinho, melhora com o tempo’, rebateu o diretor, que, mesmo depois de ter perdido quase todo o roteiro, e o acervo de uma vida, quando sua casa em Buenos Aires foi roubada há dois meses, começa a rodar em breve na Argentina um novo filme: Tetro. ‘Sigo em frente. Para o filme certo, sempre se encontra a juventude. Hoje me vejo como diretor diletante. Um homem da minha idade devia jogar golfe e não fazer cinema.’’


 


‘Hoje, ter sensibilidade é visto como fraqueza’


‘Sean Penn apareceu de óculos escuros no encontro com jornalistas, logo após a primeira exibição de seu filme no festival de Roma. ‘Ontem tomei vinho demais. Este festival é um perigo! Estou numa ressaca sem tamanho’, explicou, arrancando risos de uma platéia que tentava entender se o ar blasé do enfant terrible de Hollywood era antipatia ou dor de cabeça. ‘Estou feliz. Levei dez anos para realizar este filme.’


Penn faz a pose que lhe deu fama. Poucos sorrisos, mas muita vontade de falar de um tema que o persegue, de fato, há anos. ‘Li o livro de uma só vez. Antes de dormir. Na manhã seguinte, acordei e pensei: ‘Tenho de comprar os direitos agora.’ Era uma história forte demais para se esquecer’, contou o diretor sobre seu novo filme, Into the Wild , baseado no livro homônimo de Jon Krakauer (lançado no Brasil como Na Natureza Selvagem).


O livro conta a história real do jovem Christopher McCandles (Emile Hirsch), jovem americano de 22 anos que, em 1992, após se formar no segundo grau, parte em busca de experiências extremas no Alasca, um mundo selvagem, puro e revelador. Ele doa tudo que tem, despoja-se de todos os luxos, deixa seu carro pelo caminho e parte em busca de uma jornada sem volta. ‘Ele transformou minha vida também. Passaram-se dez anos desde a primeira vez que eu li até o dia em que comecei a escrever o roteiro, mas, não precisei reler uma linha. A história ainda estava fresca na memória’, conta Penn, para quem a saga de McCandles serve de inspiração para uma geração cada vez mais acomodada com o conforto que a sociedade moderna proporciona. ‘A experiência foi tão forte que precisei percorrer os mesmos caminhos de McCandless, conhecer as pessoas que ele conheceu, passar um tempo com a família dele para entender que jovem ele foi.’


Mas sua escolha não foi extrema? ‘Sim. Queria que meu filme ajudasse os jovens a entenderem que não é preciso partir em direção à morte para descobrir-se na vida; que, ou você vai lá fora buscar o que precisa ou vai tornar-se mais um parasita da sociedade. Precisamos romper com o sistema vigente e enxergar o mundo sob nova perspectiva que não a apregoada pelos que estão no comando’, respondeu ele ao Estado. É por isso que você se engaja cada vez mais na política e já visitou países como a Venezuela e conheceu Hugo Chávez? ‘Sim. Porque acredito que outro mundo é possível. Não vou ficar fazendo campanha, mas esta sociedade, este sistema que nos é imposto não tem feito muito de bom por nós.’


Vivemos em uma sociedade cada vez mais hipócrita, acredita ele. ‘Não acho que McCandle tenha sido um visionário naif nem um cara perfeito. Ele tinha sensibilidade. Hoje isso é visto como ser fraco. Não quero que meus filhos sejam criados com esses valores. É preciso coragem para ser autêntico. Cada um deve mudar a si. E isso não é fácil.’ A julgar pela decisão do júri de Roma, formado por jovens de países europeus, que deu a Into the Wild o prêmio de melhor filme da Seção Première, Penn não está semeando no deserto.


A repórter viajou a convite da organização do festival de Roma’


 


TELEVISÃO
Julia Contier


Novas séries à vista


‘Depois de impulsionar a audiência com a transmissão de Heroes, Psych, Monk, Dr. House, CSI: Miami e CSI Las Vegas, a Record anuncia um novo pacote de séries para 2008.


Segundo o departamento de Cinema da emissora, estão previstas quatro séries inéditas para o próximo ano e também a segunda temporada de Heroes.


CSI: NY, da Alliance Atlantis, exibida pelo canal AXN, deve ser a primeira a ser transmitida. Enquanto Life, Lipstick Jungle e Bionic Woman, da Universal, devem estrear um pouco depois. As novas séries deverão dividir espaço com as já exibidas atualmente.


Bionic Woman conta a jornada de Jamie Sommers, que tem de seguir sua nova vida após um acidente de carro como a Mulher Biônica. No policial Life, o detetive Charlie Crews desvenda diversos casos graças a uma maior percepção que desenvolveu na prisão.


Lipstick Jungle é um drama que narra a história de três amigas superpoderosas. Em CSI: NY, o detetive Mac Taylor e sua parceira, a detetive Stella Bonasera, comandam a equipe CSI na cidade de Nova York.’


 


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 16 de novembro de 2007


VENEZUELA
Clóvis Rossi


Vale para Chávez, vale para Lula


‘SÃO PAULO – Depois que Luiz Inácio Lula da Silva decretou que era ‘bravata’ tudo o que passou a vida dizendo quando estava na oposição, o bom senso recomenda que se tomem com pinças todas as suas declarações. Podem ser desclassificadas depois, ao sabor das conveniências. É o que acaba de ocorrer com a sua tese -de resto correta- de que é ‘brincar com a democracia’ a tentativa de seus bajuladores no PT de forçar um terceiro mandato.


Todas as declarações que Lula fez anteontem a propósito dos esforços de seu amigo Hugo Chávez para perpetuar-se no poder servem, à perfeição, para o próprio Lula.


Se ninguém reclamou de que François Mitterrand, por exemplo, ficou 14 anos na Presidência da França, por que deveria reclamar se Luiz Inácio Lula da Silva ficar 12 anos na Presidência do Brasil (ou 16 ou 20 ou até morrer)?


Claro que o argumento parte de uma premissa falsa. Mitterrand não mudou as regras do jogo com ele em andamento para permanecer 14 anos no Eliseu. A regra era um mandato de sete anos com direito à reeleição. Ponto.


Se também ninguém reclamou por Felipe González ter ficado 14 anos como presidente do governo espanhol, ninguém deveria reclamar se Lula ficar um pouco mais ou um pouco menos, certo?


De novo, a premissa é falsa. A regra do jogo na Espanha é o parlamentarismo que pressupõe, sim, reeleições indefinidas, mas com a hipótese de um voto de desconfiança derrubar o governante até no primeiro ano, sem qualquer trauma, o que não acontece no regime presidencialista.


Ao contrário do que diz Lula, o problema não é ‘a continuidade’. É, entre tantos outros, mudar a regra do jogo depois de ter jurado defendê-la. Mas, como se viu desde que renegou todas as ‘bravatas’ de oposicionista, desdizer o que disse não é problema para Lula.’


 


Folha de S. Paulo


Jornal ‘El País’ relata apoio de Lula a Chávez


‘A defesa de Hugo Chávez feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi notícia no ‘El País’, o diário mais importante da Espanha, e em jornais venezuelanos e do México.


O ‘El País’ reproduziu ontem texto da agência Efe: ‘Lula sublinha que Chávez é democrata e minimiza bate-boca’. A manchete do jornal relatou as ameaças feitas por Chávez contra as empresas espanholas na Venezuela, conseqüência da discussão com o rei Juan Carlos.


O ‘El Universal’, da Venezuela, afirmou: ‘Lula defende presidente de críticas a reforma’, sobre as medidas que Chávez pretende implantar, como a reeleição ilimitada. Outro diário do país, o ‘El Nacional’, preferiu ‘Lula apóia comportamento de Chávez na cúpula’.


No México, o jornal ‘El Universal’ se saiu com uma interpretação: ‘A polêmica entre Madrid e Caracas cria divisão na AL’. Segundo o veículo, Lula está com Chávez.


A revista inglesa ‘The Economist’ publicou texto sobre o bate-boca, mas não citou Lula. Ao brasileiro coube destaque pela descoberta do campo de petróleo de Tupi.’


 


Barbara Gancia


Por qué no te callas, Lula?


‘JÁ DIZIA O REI Faruk do Egito, nos anos 50, que chegaria o dia em que só cinco monarcas manteriam seus tronos e sua dignidade. São eles, os quatro reis do baralho e a rainha da Inglaterra.


Nesta semana, deu o que falar o bate-boca entre o rei da Espanha, Juan Carlos, e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Pois eu pergunto: alguém ousaria imaginar Elizabeth 2ª, em alguma reunião entre membros do Commonwealth, ordenando aos primeiros-ministros australiano ou canadense que fechassem a matraca? ‘I don’t think so’, ‘no lo creo’, nem pensar.


Confrontada com uma saia justa do tamanho da que Hugo Chávez aprontou para cima do rei espanhol, seria bem mais plausível conceber que Elizabeth se levantasse da poltrona, oferecesse aquele seu aceno clássico, o ‘royal wave’, e se retirasse, muda, do recinto.


Mas Juan Carlos, que é tratado por ‘Juanito’ pelos amigos (entre os quais figuram um punhado de ex-franquistas que o ajudaram a fazer fortuna), não possui a mesma pompa e circunstância da rainha. Conhecido por andar de moto pelas ruas de Madri e Mallorca em velocidades acima das permitidas e por sua atração por mulheres ‘guapas’, o rei espanhol é bem mais acessível aos súditos do que Elizabeth. Diz-se no meio da Fórmula 1 que, neste ano, ele se desentendeu com Fernando Alonso, de quem tinha se tornado amigo do peito, porque o asturiano não teria retornado os telefonemas do monarca.


Mas, gregário ou não, foi Juan Carlos quem organizou a Cúpula Ibero-Americana, e foi o governo espanhol quem anunciou, nesta semana, no Chile, a formação de um fundo de água potável que irá beneficiar países latino-americanos carentes. Foi também o governo espanhol, respaldado pelo rei e na mesma cúpula do bate-boca, que aprovou a ‘portabilidade’ da aposentadoria, dando direito aos membros da Comunidade Ibero-Americana de ir gozar da aposentadoria em qualquer cidade espanhola, como nos explicou o expert em questões ibéricas e latino-americanas, Clóvis Rossi, na edição de ontem da Folha.


Se esse foi o tipo de assunto tratado no encontro, diga-me, ó, nobre leitor: faz sentido o sr. Chávez dispor dos holofotes da cúpula para lembrar da exploração, há 500 anos, dos colonizadores espanhóis? Faz sentido ele se queixar de José María Aznar ao seu sucessor e adversário político, José Luis Rodríguez Zapatero? Claro que não. O comportamento de Chávez, mais uma vez, não passou de fanfarronice, de franca grosseria e de palhaçada oportunista.


E o que faz o presidente Lula, quando perguntado sobre o bate-boca? Em vez de dizer algo na linha do ‘Eu não estava presente e não meto o bedelho em querelas alheias’, ele resolve sair em defesa da ‘democracia venezuelana’ -sim, aquela que é movida a plebiscitos e que tenta reescrever a história nos livros escolares-, e fazer pouco do rei, dando até a entender que Juan Carlos não deveria estar ali presente. Isso, sem contar a comparação sem pé nem cabeça, beirando o desonesto, entre parlamentarismo e presidencialismo, feita para justificar a permanência de seu amigo no poder.


Com suas afirmações, Lula não estará nos dizendo que sua concepção de democracia é a mesma de Chávez?’


 


Fabiano Maisonnave


Campanha na TV reflete polarização na Venezuela


‘Na propaganda chavista, a oposição é um diabo que termina espancado. Na oposicionista, o governo venezuelano confisca um pequeno açougue sem justificativa. Em meio a protestos e episódios de violência, a campanha do referendo sobre a reforma constitucional proposta pelo presidente Hugo Chávez arrancou na televisão com imagens caricaturais e desinformação sobre as propostas de modificação de 69 dos 350 artigos da atual Carta.


Segundo a assessoria do CNE (Conselho Nacional Eleitoral) informou à Folha ontem à tarde, os dois filmes tiveram a veiculação proibida ontem.


No vídeo oposicionista intitulado ‘Carnicería’, um suposto funcionário do governo chega a um pequeno comércio e pergunta: ‘Camarada, o senhor é o dono desse açougue?’. Diante da resposta afirmativa, continua: ‘Bom, a partir de agora, segundo o artigo 115, seu negócio passa a ser propriedade do Estado. A lei é a lei, irmão’.


Não é assim. Pela proposta de Chávez, estão assegurados ‘os atributos de uso, gozo e disposição’ da propriedade privada, embora a nova redação preveja mais poderes para o Estado decretar a desapropriação por ‘utilidade pública ou interesse social’.


Na propangada do ‘sim’, um diabo aparece com a música-tema da emissora oposicionista Globovisión no fundo. Nervoso, diz: ‘Se há votação, volto a perder, volto a perder’. Depois de pensar um pouco, diz: ‘Una guarimba [confusão]! Isso é o que me está faltando!’.


Em seguida corre até um estudante e diz, enquanto entrega uma placa de madeira com os dizeres ‘Não’: ‘Deixe seus livrinhos e arme uma confusão! Go, baby, go, baby! Ponha fogo, que o machuquem no meu lugar’. Em seguida, com um revólver na mão, diz: ‘E, se der certo, vou dar um golpezinho’.


Em resposta, o diabo é espancado pelo estudante, que quebra o cartaz em sua cabeça. ‘Busque outro para bucha de canhão, ‘mister diablo’. E agora vamos votar ‘sim’.’


A Globovisión entrou com um recurso contra a propaganda, alegando que incita ataques contra e emissora, como o ocorrido em meados do ano, quando um grupo chavista pichou os muros de sua sede.


A polarização impediu que os debates previstos pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) entre os dois lados acontecessem. A campanha governista se recusou a participar. O referendo sobre a reforma constitucional -que propõe a reeleição ilimitada para presidente -será em 2 de dezembro.


NA INTERNET – Propaganda do ‘sim’ – www.youtube.com/watch?v=GzUHWZeTrLE – e propaganda do ‘não’ – www.youtube.com/watch?v=-MAA-wxuNiE’


 


DOWNLOAD
Nelson Motta


Letras, números e dígitos


‘RIO DE JANEIRO – Na era digital, as transferências de arquivos têm sido o inferno e o purgatório para a indústria da música e do cinema, mas podem ser um paraíso para os livros.


Meus editores vão ficar de cabelos em pé, mas, por mim, colocava o texto completo de meu novo livro na internet, um mês depois do lançamento, sem medo de ser feliz.


Discuti o assunto com uma grande autoridade, se não em letras, mas em números, o velho amigo Paulo Coelho. Ele me disse que ia oferecer os cinco primeiros capítulos de seu novo livro on-line. E mais, que adoraria se um hacker colocasse o texto completo na internet: isso só beneficiaria a promoção e as vendas do seu livro. Não é preciso ser mago ou profeta para chegar a essa conclusão, basta ser craque em marketing. Fizemos algumas projeções das possíveis conseqüências dessa liberação dos livros:


Os avarentos vocacionais ou os manés viciados em boca-livre, que poderiam comprar o livro, mas preferem ler de graça, teriam castigo cruel: ler 400 páginas em uma telinha, ou pior, imprimir o tijolaço pode levar horas e custar até mais, em tempo e material, do que o livro. Sem capa, sem fotos, só o texto cru.


Mas, para quem quer muito ler o livro e não tem R$ 40 para pagar por ele, como a grande maioria dos brasileiros, seus problemas acabaram: não dá para levar para a cama ou para a poltrona, mas ler na tela do computador é melhor do que não ler nada.


Nenhum escritor se incomoda se um grupo se junta para imprimir o livro e o roda de mão em mão, não para ganhar dinheiro, mas para dividir o prazer da leitura, criando o ‘boca a boca’ que vai ajudar o livro a vender nas livrarias, bancas de jornais, supermercados …


Mais do que vender livros, a maior alegria do escritor é ser lido.’


 


TV DIGITAL
Kennedy Alencar


Conversor para TV digital a R$ 750 é caro, afirma Lula


‘Em encontro anteontem com empresários que foram levar o convite para o lançamento da TV digital no país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com contrariedade quando lhe disseram que o conversor para captar o novo sinal custaria para o consumidor aproximadamente R$ 750.


Lula disse que era muito caro e afirmou que o governo tomaria medidas, sem especificar quais, na hipótese de o conversor custar mais do que R$ 250.


‘Não se pode achacar o povo’, disse Lula, segundo relato à Folha de duas pessoas que estavam na reunião que contou com empresários do ramo de TV e integrantes da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão).


No encontro, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, chegou a dizer que, no mundo, o custo de um conversor desse tipo gira em torno de US$ 100 -na cotação de hoje, algo entre R$ 170 e R$ 180. O preço máximo de R$ 250 seria mais do que suficiente para que os empresários tivessem lucro, avaliaram Lula e ministros que estiveram na reunião.


Hoje, a grande maioria dos aparelhos de TV no Brasil não está preparada para receber o sinal digital. A data marcada para o início da transmissão digital no Brasil é 2 de dezembro -pouco mais de duas semanas. Para que as TVs em uso recebam o sinal, será preciso um conversor. Esse aparelho receberá o sinal digital e o transformará em analógico.


A escolha do padrão japonês de TV digital e o início dessas operações foram ‘vendidas’ pelo governo e os empresários como uma evolução tecnológica que beneficiaria o espectador. A qualidade do sinal é superior. No entanto Lula ficou preocupado com a estimativa de custo do conversor que lhe foi apresentada na reunião de anteontem à tarde, que aconteceu no Palácio do Planalto.


Empresários argumentaram que, no início da produção, não teriam escala para lucrar e que o custo necessariamente seria maior, com queda no futuro. O presidente e ministros argumentaram que, mesmo que no início das vendas houvesse pouco lucro ou até prejuízo, os empresários ganhariam no médio e longo prazos porque a TV é, de longe, o meio de comunicação de massa mais importante do país.


Na visão de Lula, um custo elevado teria impacto político negativo na população. As vendas de TV cresceram nos últimos anos -mesmo consumidores de baixa renda têm mais de um aparelho em casa. Depois do encontro, o presidente chegou a dizer que R$ 750 são suficientes para comprar aparelhos de TV grandes, de 20 ou mais polegadas.


Na reunião, Lula se mostrou disposto a dialogar com os empresários. Já foram adotados incentivos à produção de bens para a tecnologia de sinal de TV digital, como redução de impostos e financiamento.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


TV Brasil improvisa para estrear em 2/12


‘A TV Brasil, a TV pública de Lula, estreará no próximo dia 2 com uma programação improvisada, com uma única novidade, um telejornal. Dificilmente haverá sinal em São Paulo, maior mercado do país. Até a logomarca será provisória.


Os transmissores que serão instalados em São Paulo não tinham saído dos EUA até anteontem. Foi montada ‘uma força tarefa’ para que comecem a funcionar até o dia 2. Mas isso só ocorrerá se chegarem ao país no máximo até sexta.


A TV Brasil pediu à fabricante que os equipamentos sejam enviados de avião. Caso seja instalado a tempo, o transmissor analógico funcionará com apenas um dos seis módulos (o que reduz a potência). Já o digital será um aparelho provisório, de baixa potência. O definitivo, 18 vezes mais forte, só deve chegar em janeiro. Além disso, os estúdios de São Paulo só ficarão prontos em março.


Os jornalistas correm para estrear no dia 3 o noturno ‘Repórter Brasil’. ‘Ainda não é o noticiário que queremos. Estamos fazendo um cenário de transição. O definitivo só fica pronto em março, quando a en tra a programação para valer’, diz a diretora Helena Chagas.


Até lá, a grade praticamente só terá programas da TVE e TV Nacional. Orlando Senna, diretor-geral, diz que isso faz parte ‘da filosofia’ da emissora. ‘Faremos um chamamento para o diálogo com a sociedade para construir a grade’, diz.


MUDANÇA Primeira baixa na equipe montada por Paulo Markun, novo presidente da TV Cultura.


Coordenador do núcleo de jornalismo, Paulo Roberto Leandro pediu demissão anteontem. Oficialmente, saiu para ‘atender a projetos pessoais e profissionais’. Na verdade, estava sendo pressionado porque não atendeu às expectativas de Markun. O jornalista Pola Galé assumiu interinamente.


CAIU A FICHA A Record desistiu de exibir um musical com Fábio Jr. no mesmo dia e horário do tradi cional especial de Roberto Carlos, na Globo, em 19 de dezembro. A transmissão foi agendada para 24 de dezembro. A Record também terá uma ‘sitcom’ com Tom Cavalcante e convidados, prevista para ir ao ar no dia 20.


VISUAL Marília Gabriela gravará no Rio quatro edições de seu programa de entrevistas no GNT.


Normalmente, os programas são feitos em São Paulo. A mudança não tem nada a ver com o fato de Gabi estar em ‘Duas Caras’, gravada no Rio. É só para ter o mar como cenário. Os especiais irão ao ar em janeiro.


CONCORRÊNCIA Veja a que ponto chegou a disputa entre Record e Globo: a primeira está fazendo festa porque emplacou quatro reportagens no Prêmio Embratel, categoria telejornal nacional. A Globo só conseguiu uma.


PARTICIPAÇÃO O diretor Roberto Talma vai dar as caras no especial de fim de ano ‘Guerra e Paz’ (Globo). Interpretará o chefão do personagem de Marcos Pasquim.’


 


Lucas Neves


‘Friday Night…’ volta em busca de técnico


‘Uma das boas surpresas da temporada passada, ‘Friday Night Lights’ volta a ter episódios inéditos exibidos por aqui hoje. Entre a primeira e a segunda safra, a história de um time de futebol americano do Texas (e dos personagens que orbitam em torno dele, como técnico, jogadores e líderes de torcida) foi apontada pela Associação dos Críticos de TV dos EUA como melhor estréia de 2006/07 e recebeu o Emmy de elenco em série dramática.


Baseado no filme homônimo de 2004 (lançado no Brasil como ‘Tudo pela Vitória’), o seriado acompanha o dia-a-dia dos Dillon Panthers, promissora equipe escolar comandada pelo técnico Eric Taylor. É ele que apazigua os conflitos internos, administra as vaidades e trata a indisciplina dos atletas com rédea curta, sem se dar conta dos efeitos de sua hiperdedicação à profissão sobre sua vida doméstica (ele é casado e tem uma filha).


No início da segunda temporada, Taylor passa adiante o bastão dos Panthers para tentar a sorte num time universitário, o brutamontes abobalhado Landry e a bela Tyra acertam as contas com o homem que a estuprou, e Jason, preso a uma cadeira de rodas, testa tratamentos para recuperar os movimentos. Se você é fã da série, curta enquanto é tempo: com audiência anêmica, é possível que ela não veja a luz do terceiro ano.


FRIDAY NIGHT LIGHTS


Quando: hoje, às 22h


Onde: Sony’


 


MÚSICA
Sérgio Dávila


‘Voltamos porque Sting é o rei da dor, adora sofrer’


‘O Police só se reuniu depois de duas décadas porque Sting é o ‘rei da dor’, adora sofrer. Tocar junto é um sacrifício. As fãs envelheceram. Mas Stewart Copeland, 55, está feliz. Mais feliz do que quando fundou a banda que ajudaria a mudar o pop mundial, de 1977 a 1984.


‘A diferença é que agora continuamos brigando o tempo todo, mas ao menos sabemos o motivo: a única coisa sobre a qual discutimos é a música’, disse o baterista, por telefone, à Folha. Os dois, mais o guitarrista Andy Summers, se apresentam em 8/12 no mesmo Maracanã em que tocaram para poucos e bons em 1982 -agora em show quase esgotado.


Todas as suas reclamações são irônicas e bem-humoradas -menos quando fala de George W. Bush, a quem chama de ‘criminoso’. Leia a seguir.


FOLHA – Eu vi o show de reestréia do Police em Los Angeles, em junho. O que mudou?


STEWART COPELAND – Melhorou. Demoramos para enxergar uns aos outros de novo, depois de tanto tempo longe. Nos anos 80, conquistamos o mundo depois de estarmos juntos por cinco ou seis anos. Agora, tivemos de nos tornar um grupo de qualidade internacional em cinco ou seis meses. Nem isso, cinco ou seis semanas. Fizemos a primeira parte da turnê, nos EUA, ficamos parados por uma semana, digerindo, e voltamos dez vezes melhores na Europa.


FOLHA – Qual a diferença entre o público de agora e o dos anos 80? Não só a idade, muita coisa aconteceu entre o fim e a volta da banda: vocês pularam da geração vinil para a do iPod sem passar pela do CD…


COPELAND – Nada disso afeta a música nem a experiência do show. Afeta o negócio ao redor, que passou por uma grande devastação em todos os setores, menos no de shows. Mas esqueça tudo isso. Quando éramos uma banda de jovens, a maioria do público era composta por meninas de 16 anos desmaiando e sendo carregadas por médicos. Agora, são homens de 45 anos chorando. E aquelas garotas de 16 anos têm 45 -e ainda estão bonitas, pelo menos a maioria [risos]!


FOLHA – E mudou a dinâmica na estrada?


COPELAND – Antes era simples. Tocávamos em estádios e para grandes públicos, mas vivíamos de maneira simples, a tecnologia era mais básica. Agora, é mais sofisticado, a maneira como as bandas operam evoluiu. É difícil explicar. Resumindo, é muito mais confortável agora. Quando tínhamos 25 anos e estávamos no topo do mundo, eu ficava ansioso o tempo todo, não era feliz, estava nervoso, com raiva, alguma coisa estava errada. Agora, estou feliz. Sting e Andy são duas das pessoas mais legais do mundo, estamos fazendo uma música incrível, o público está enlouquecendo, o que mais podemos pedir? Agora entendemos esse privilégio.


FOLHA – Você já respondeu a essa pergunta milhares de vezes, mas mesmo assim: por que voltar?


COPELAND – Não sei. Porque o Sting é o ‘rei da dor’ [‘King of Pain’, nome de um dos sucessos da banda], adora sofrer. Acho que, depois de seu disco de alaúde [‘Songs from the Labyrinth’, de 2006], ele chegou a um ponto em que não conseguia pensar em nada mais doloroso que me telefonar [risos]. Tentou chicote, ser acorrentado, fazer greve de fome… Toda manhã, a mulher dele, Trudie, o atingia com uma pistola elétrica. Nada mais funcionava, então ele chamou o Stu…


FOLHA – A rotina de grupo continua a mesma?


COPELAND – A diferença é que agora continuamos brigando o tempo todo, mas pelo menos sabemos o motivo: a única coisa sobre a qual discutimos é a música. Pessoalmente, nós nos amamos, somos muito próximos. Mas, quando se trata de música, entendemos que somos quase opostos e também entendemos que os opostos se atraem, e um muda o outro. E dizemos: ‘Meu Deus, por que tenho de tocar com esse cara?’. Mas esses são os caras com quem tocamos, e funciona, e o público age como juiz. Tocarmos juntos não é fácil, mas o efeito no público torna uma coisa boa, excitante, mostra a importância disso. É como falei: Sting gosta de sofrer e adora o fato de eu ser um grande incômodo logo ali, atrás dele [risos].


FOLHA – Você é filho de um ex-agente da CIA, passou parte da infância e da adolescência no Oriente Médio. Qual sua opinião sobre o estado das coisas nos EUA hoje?


COPELAND – Estou feliz com o fato de que tudo isso vai acabar logo. O pesadelo vai acabar em breve, espero. Em mais ou menos um ano e meio, vamos nos livrar desse presidente, que é um desastre, um criminoso. E espero que ele seja julgado e colocado na cadeia por seus crimes, não só contra os EUA, mas contra o resto do mundo.’


 


Thiago Ney


A música nos blogs


‘OS BLOGS de MP3 estão matando a música independente? Essa é uma discussão quente que, como quase tudo o que envolve internet e pop, polariza opiniões.


A questão foi abordada por Johnatan Galkin, norte-americano que ajuda James Murphy (do LCD Soundsystem) a tocar o selo DFA, em entrevista à revista britânica ‘Plan B’. O assunto repercutiu no ‘Guardian’ (o texto pode ser encontrado em blogs.guardian.co.uk/music/2007/11/04-week).


O argumento de Galkin é mais ou menos o seguinte: quem antes comprava um single, ou mesmo um disco, hoje se contenta em ouvir as faixas num blog de MP3. ‘Os blogs de MP3 diminuíram sensivelmente nossas vendas. Eles não existiam quando lançamos o single de ‘House of Jealous Lovers’ e conseguimos vender rapidamente 20 mil cópias. Hoje há milhares de blogs e a gente vende, em média, de 2.000 a 5.000 cópias’, diz Galkin.


E ele culpa especialmente o agregador Hype Machine (hypem. com), que facilitou a busca de músicas em blogs de MP3. (Se você não conhece: ao digitar o nome de uma canção no Hype Machine, o site busca o arquivo em MP3 dessa canção em milhares de blogs cadastrados.) Outros selos e gravadoras independentes de tamanho médio alimentam essa discussão, e vão de encontro aos blogs.


O ataque aos blogs de MP3 é menos agressivo do que, por exemplo, aos sites de torrent. Porque, normalmente, quem faz um blog de MP3 faz porque ama tal música e quer mostrá-la para os outros.


O que acho dessa briga? Que Galkin e os demais selos estão olhando na direção errada. Porque muitos desses blogs de MP3 colocam as faixas por um período de tempo limitado. Uma semana, um mês. Depois, o link sai do ar.


E porque ‘House of Jealous Lovers’ vendeu bem não porque não existiam blogs de MP3 (a música, na época, inundava sites como Soulseek e Kazaa…). ‘House of Jealous…’ vendeu bem porque era uma faixa que soprava novos ares, que consolidava o disco-punk como gênero do momento.


E porque, quando essa música foi lançada, o mercado de vinil na dance music era muito mais forte do que é hoje.


Se os fãs estão comprando isso não é culpa dos blogs de MP3, mas de um modelo de negócio que ainda não soube como tratar com propriedade a música digital.’


 


LEMBRANÇAS
Carlos Heitor Cony


Um dia para não esquecer


‘2. ago.2000 (quarta-feira) – Teria de acontecer. Ontem, estava na Academia, ouvindo a palestra do Celso Furtado sobre Eça de Queiroz, a segunda da série que iniciei na semana passada, quando um funcionário me entregou o bilhete: Beth, minha secretária, pedia que ligasse com urgência para ela. No celular, recebi a notícia: oficiais de Justiça estavam lacrando todo o edifício 804 da Manchete, inclusive a minha sala, que é no 11º andar.


Na véspera, o Jaquito me telefonara, pedindo que fosse conversar com ele. Cheguei atrasado e encontrei-o reunido com o grupo da casa. Ele nos comunicou que pedira autofalência, não tinha como tocar a concordata. Queria preservar um mínimo de patrimônio para garantir o pagamento das dívidas trabalhistas.


Que cada um de nós pensasse na própria família, nos filhos, e fosse à luta. Ele se comoveu, disse que saía da empresa, após 47 anos de trabalho, sem nada, pois tudo o que tinha era da empresa e seria somado à massa falida. Deu a palavra ao Caruso. Como advogado da firma, ele informou que dentro de três dias, na sexta-feira, o prédio seria lacrado.


Aconteceu algum imprevisto no processamento cartorial e ontem, três dias antes, na parte da tarde, um oficial de Justiça colocou na porta principal do prédio o papelzinho assinado pelo juiz da Vara de Falências e Concordatas. Era o fim.


Mal acabou a palestra na ABL fui para a Manchete, onde encontrei um clima de tragédia, grupos espalhados pelas calçadas, gente saindo com sacolas cheias de objetos pessoais, a maioria chorando.


Consegui subir com Edílson, os elevadores estavam parados, as luzes desligadas. Na minha sala, antiga sala do Juscelino e do dr. Albert Sabin, que a ocuparam durante anos, havia seguranças, o oficial de Justiça me esperando e a Beth completamente alucinada. Um lampião mal dava para iluminar o hall de entrada, impossível retirar minhas coisas pessoais.


Descemos no escuro, o oficial de Justiça muito gentil, tratando-me com o máximo de consideração. Iluminou com a sua lanterna a minha descida até o térreo. Na rua, a repórter de ‘O Dia’ tentou uma entrevista, mas desconversei, dizendo que eu estava ali dando uma força à Beth.


Ajudei-a a levar seus livros e cadernos (ela está terminando o curso de jornalismo na Hélio Alonso). Em casa havia um recado da produção da Globo pedindo uma crônica para o programa da Ana Maria Braga de amanhã. Fui dormir tarde e, como sempre me acontece, deixei para mais tarde pensar em tudo.


Hoje, fui ao Conselho de Cultura e depois passei pela Manchete, onde assinei uma proposta para me sindicalizar e deixando-a com o Alvimar. Devido as minhas relações com a empresa, não penso em entrar na Justiça individualmente, mas em grupo. Pretendo fazer parte dos credores da massa falida, com a esperança de, daqui a cinco anos, mais ou menos, me habilitar a receber senão tudo, pelo menos alguma coisa do meu fundo de garantia. Não tenho a menor idéia do quanto e, sobretudo, do quando receber.


Comi uma pizza na lanchonete ao lado, esperei pelo síndico que presidirá a autofalência e marcara uma reunião conosco, mas ele não apareceu. Vim para casa e fui entrevistado para o Canal Futura, pela filha do Zé Rubem, Bia Corrêa do Lago, bonita e inteligente.


A casa ficou agitada: Beth, Flávia, uma equipe de cinco pessoas da TV, as duas meninas (Sacha e Natália), além de Edílson, Marcos, Rosa e Érika. O pessoal saiu daqui às 6 horas da tarde, pedi que Beth tirasse xerox da minha carteira profissional. E estou fazendo este registro.


Deveria falar sobre o clima de tragédia e pena que presenciei. Eu próprio me sinto amortecido, sem acreditar que tudo aquilo acabou.


Penso que remeti as impressões todas para a caverna mais funda da memória, mais cedo ou mais tarde conseguirei articular alguma coisa, expressando meu espanto, minha tristeza.


A decepção de ver um mundo colorido, alegre e despreocupado, depois de uma ruína gradual e dolorosa que já dura dois anos, fechar-se como um túmulo que sepulta fantasmas, alguns mortos (Adolpho, JK, Justino, Magalhães Jr.) e outros ainda vivos, nós todos. Sinto em cima de mim o gosto de terra e o cheiro de flores apodrecendo.’


 


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