Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > AMAZÔNIA SANGRADA

Jornalismo até as últimas conseqüências

Por Lúcio Flávio Pinto em 20/01/2009 na edição 521

Colocarei na rua um terceiro livro em menos de um mês. Depois de Memória do Cotidiano, o primeiro volume que reproduz a seção do Jornal Pessoal sobre o passado recente de Belém e do Pará, e A Agressão, documentando a reação local, nacional e internacional à violência que sofri quatro anos atrás, cometida por Ronaldo Maiorana, um dos donos do grupo Liberal, lançarei Amazônia Sangrada (De FHC a Lula). O livro, com 370 páginas, chegará às bancas e livrarias no início da semana, mas pretende ser uma das vozes amazônicas durante o Fórum Social Mundial, na semana seguinte. Espero que meus leitores levem em consideração as razões de mais este lançamento, conforme a apresentação do livro, que a seguir transcrevo. (L.F.P.)

Este é um livro explícito de jornalismo assumido até as suas últimas conseqüências, ciente das suas deficiências, comprometido com todas as suas possibilidades. Convido meu leitor a submeter este jornalismo ao teste de consistência mais rigoroso. Claro que meu convite só será aceito se o leitor se interessar pelo que aqui está escrito. Se houver a motivação, resultante de uma combinação de fatores (a clareza do texto, o tema da narrativa, o encadeamento dos fatos, a fruição argumentativa), mesmo que o leitor não concorde com as idéias aqui apresentadas, é muito provável que consiga relacionar o conteúdo da narrativa à sua própria vida. Assim poderá tirar dela uma contribuição para sua ação, e, com melhores ferramentas intelectuais, ultrapassar o conhecimento e a percepção do autor dos textos aqui reproduzidos. Se assim ocorrer, a função e a missão do jornalismo estarão realizadas: colocar as pessoas diante da realidade. Cada um, encontrando seu lugar, que trate de pôr em prática sua vontade. Esta é a melhor herança da polis dos pais do nosso modo político de ser, os gregos antigos.

Este livro é uma seleção de artigos que enviei para um dos melhores sites de jornalismo que conheço, o @mericasreporter.net, criado em 2003 por um grupo de jornalistas, liderados por Roberto Müller, dono de um exuberante currículo na imprensa brasileira. Minha ligação com o site se estabeleceu através de um dos integrantes do grupo, José Casado, um dos vários capixabas que moram no meu coração, em lugar amplo e cativo, a quem dedico esta obra mínima. Mandei para Casado artigos destinados ao meu Jornal Pessoal, quinzenário que edito em Belém há mais de 21 anos, adaptados para qualquer tipo de leitor, de todo país e do exterior.

Quatro dias atrás, limpando meu latifundiário correio eletrônico, me dei conta de que as dezenas de artigos constituíam um razoável roteiro do que aconteceu na Amazônia e no mundo a ela conectado, entre 2004 e 2008, o período de abrangência dos textos. Eu podia reescrever esse material, fundir suas partes ou organizá-lo por assuntos. Preferi manter a sucessão cronológica, mesmo à custa de alguma repetição ou incongruência. Minha intenção é mostrar como o significado dos acontecimentos isolados se aclara, como fatos de aparência desconexos se ligam e – também – como é árduo conseguir saber o que está acontecendo diante dos nossos olhos, sem que muitas vezes os consigamos sequer ver (dentre outros motivos, porque a percepção da realidade concreta – conforme o fecundo conceito-matriz de Marx – exige o uso das lentes da ciência na Amazônia).

Diálogo, polêmica, avanço

Como informação continua a ser poder, e é cada vez mais poder, ela não é oferecida ‘de grátis’ na rede mundial de computadores. Às vezes chega-se a ela tateando pelo sempre problemático método de ensaio e erro, ou tendo que pôr abaixo uma montanha de press-releases, afastando balões de ensaio ou tangenciando dogmas e mitos. É muito fácil e cômodo, de posse de uma teoria explicativa, passar a aplicá-la a torto e a direito sobre toda e qualquer realidade, que mais se induz do que se deduz, sem qualquer forma efetiva de aproximação dialética, que não seja a retórica ou formal, por isso mesmo mecânica.

A Amazônia é a vítima do imperialismo e o produto do colonialismo. Sob essa sentença, tudo mais se ajusta e está entendido. Tenho a pretensão de mostrar neste livro que não é bem assim. E ainda que fosse assim, há um caminho a percorrer entre o zero e o infinito, do estabelecimento do imperialismo ou o colonialismo na jungle à sua saída ou expulsão, sabe-se lá quanto tempo depois (se ‘depois’ moral positiva houver). Nesse interregno, milhões de pessoas terão que viver cada dia e enfrentar todos os seus desafios, para os quais freqüentemente precisam mobilizar todo seu saber e talento. E acreditar que com seu uso irão melhorar de vida.

Mas qual vida se, a pretexto de realizar o grandioso fim último da história, a ignoramos até lá, em sua concretude e especificidade, na soma de labores e suores que a constitui. Há amazonólogos às pencas espalhados pelo país e o mundo inteiro porque o esquema explicativo já está pronto. Basta aquecê-lo no microondas do saber e servi-lo. Enquanto isso, batalhas e mais batalhas deixarão de ser enfrentadas por falta de informações sobre a complexidade dos processos e a intrincada rede de conexões internacionais, que emerge nas rústicas e (só na aparência) provincianas paisagens amazônicas.

O dia a dia dos empreendimentos de ocupação, que é o nome verdadeiro dos ‘grandes projetos’, é muito complexo mesmo. Nenhuma de suas engrenagens funciona ao acaso ou isolada, embora sempre sujeitas ao erro e ao fracasso, já que mesmo o grande capital não é onisciente. Às vezes um sopro no meio da mata tem como origem um vendaval lá fora. Sobretudo nos setores produtivos mais internacionalizados, como a geração de energia, a mineração e a extração florestal, a complexidade desafia as mentes mais sagazes e as capacidades intelectuais mais bem articuladas ou organizadas. A porta do entendimento desses processos é lacrada e só se abre com acesso a um código sofisticado.

Espero que o leitor partilhe a sensação que tive ao reler todo material e selecionar os artigos que podem ter o mesmo significado das pedrinhas para o João e a Maria daquela lenda inevitável das nossas infâncias. Um leitor muito mais exigente talvez reaja mostrando que no lugar das pedrinhas eu semeei miolo de pão, que um pássaro faminto tratou de engolir, desfazendo o caminho de volta dos dois irmãos perdidos na mata. Neste caso, o leitor fará a gentileza de me alertar e contribuir para que eu busque as pedrinhas devidas, se de tal tarefa puder me desincumbir. É assim que se dialoga, se polemiza e se avança. Juntos, muito melhor do que sozinhos.

Brumas artificiais

A Amazônia precisa com urgência dessa relação – digamos assim – heurística ou gnoseológica. Não pode ser tratada apenas à base de caldo de galinha ou sanduíche natureba do cardápio das trivialidades auto-suficientes, das sentenças refratárias à elucidação, do triunfalismo salvífico dos profetas do vazio dos donos das tábuas da lei. Nem pode também ser deixada à sanha dos seus colonizadores, seja o madeireiro rude, que põe abaixo enormes árvores centenárias sem um ai de inteligência ou sensibilidade, como a multinacional planetária, que derrama glacê colorido e vistoso sobre suas vilanias.

Precisa haver uma base material comum a todos, os que põem em prática o modelo atual de integração ou ocupação, à base da pilhagem, e os que perseguem uma forma alternativa, sob utopias ainda vagas como o desenvolvimento sustentado. Essa base comum são os fatos, as informações e, por fim, a ciência. Não os penduricalhos da internet ou a louçania dos press-releases, mas aqueles dados que emergem ou são filtrados dos documentos e dos próprios atos que materializam as filosofias e os programas e projetos.

Quem não torcer o nariz nem fechar o volume à mera menção da expressão malsã, o jornalismo, poderá encontrar aqui informações que não verá em nenhuma outra publicação. Talvez se defronte com uma forma original de interpretar essas informações clandestinas, que são desconhecidas, manipuladas ou permanecem escondidas em caixas-fortes corporativas ou nos cofres embutidos na parede floreada de uma elite que despreza a participação coletiva. Ao chegar a algumas dessas informações, depois de uma penosa e demorada investigação (esta, a razão de ser de todo e qualquer jornalismo), tomei um choque, seguido de outro abalo ao juntá-las a outros nós soltos ou a peças de intrincados quebra-cabeças, muitos dos quais ainda não consegui montar (mas não desisti do trabalho).

Só para dar um exemplo. Durante muito tempo fiquei intrigado: por que a maior empresa privada brasileira, a Vale do Rio Doce, a segunda maior mineradora do mundo, a maior corporação do continente, a principal fornecedora de dólares para o Brasil (à custa da exaustão de riquezas naturais do Pará), sabotou e sufocou sua empresa internacional de navegação, das melhores do mundo, a Docenave? Por que esse estrangulamento aconteceu depois que a estatal foi privatizada, em 1997? Por que tal destino se deu, apesar de perdas de bilhões de dólares para as contas nacionais?

Tenho algum orgulho profissional de dizer que o distinto leitor não encontrará a resposta em nenhum lugar do mundo cibernético. Ela está aqui esboçada. E é muitíssimo importante. Tão essencial que o principal personagem deste livro é a CVRD, conforme continuo a tratá-la. É uma resistência simbólica, que não me deixa acatar o novo nome de fantasia da empresa, simplesmente Vale. Talvez para sepultar de vez uma história terrível, ainda tão recente, mas já envolta por brumas artificiais, fabricadas pela máquina de relações públicas, marketing e jornalismo domesticado da corporação.

Livro-relâmpago

Talvez algum leitor não se ligue na seqüência dos números que aqui aparecem, preferindo passar por cima deles para pousar seu raciocínio em conceitos e diktats absolutos, que dão a certeza de um catecismo secular. Peço a este leitor que se permita seguir a trilha dos números conforme o rito interpretativo que a eles se atém até estar convencido da verdade ou, pelo contrário, se sentir provocado a procurá-la em outro lugar, em rumo próprio. É sedutora a tentação de subir num palanque ou numa banca de debates e proclamar conclusões sobre a Amazônia.

Depois de mais de quatro décadas nesse circuito, já não reajo com a bonomia de antes ao decálogo dos iniciantes. Exijo que apresentem tempo de serviço dedicado à ‘causa’. Se não são gênios, nada poderão dizer de enfático sobre a Amazônia se não tiverem anos de peregrinação por estradas pedregosas, como as que se apresentam disfarçadas de balanços, atas, estudos de viabilidade e projetos, ou se exibem como esfinges em solos, subsolos e sobressolos, se me permitem um dedinho mínimo de Guimarães Rosa ao tucupi. Ou na pobreza dos marginalizados, na violência dos desassistidos e numa algaravia de criminalidades, das que são praticadas com um revólver 38 às que são urdidas nos livros dos cartórios de imóveis, onde um simples golpe de mão transfere do patrimônio público para a propriedade de particulares imensas extensões de terras, do tamanho de países.

A Amazônia, como a arte, é resultante de 99% de transpiração. Seria até mais, se Picasso cunhasse a frase nestes trópicos úmidos, suados e sofridos fotografados por Lévy-Strauss, intérprete da nossa melancolia, doce e imobilizadora.

Ao fazer a releitura dos artigos, me veio o pecado da luxúria combinado com a hipérbole da pretensão: será que estes textos não podem servir de fio condutor da voz amazônica, a ser transmitida a auditórios mais amplos, como o que se reunirá no Fórum Social Mundial, em Belém, neste janeiro da fundação da cidade do presépio do salvador (sempre aguardado, nunca chegado)? Embalado pelo impulso, organizei este livro-relâmpago e o entrego ao leitor, na esperança de que ele possa ajudar a iluminar o horizonte, mesmo que seja pelo tempo instantâneo de um relâmpago, de um raio de jornalismo, que tem o céu como horizonte. E limite. Um céu que todos os dias desaba sobre nossas desprotegidas cabeças.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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