Segunda-feira, 04 de Maio de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 848

ARMAZéM LITERáRIO > DIÁRIO CARIOCA

Jornalismo, ousadia e bom-humor

Por Ana Arruda Callado em 10/02/2004 na edição 263

Era o ano de 1964. Tinha havido o golpe, o governo era militar, mas ainda se respirava. Achei ótimo, portanto, quando Zuenir Ventura me transmitiu o convite para chefiar a reportagem do Diário Carioca. O diretor de redação, chamado pelo proprietário, Horácio de Carvalho, para tentar devolver ao jornal o brilho que tivera na década de 50, era Prudente de Morais Neto, o Doutor Prudente.

Achei ótimo é pouco. Fiquei exultante. O time era de primeira, com Zuenir na chefia de redação, Milton Coelho da Graça na do copidesque e Amílcar de Castro na diagramação – ninguém falava, naquele tempo, em programação visual; era diagramação, sim, o que fazia o grande artista plástico mineiro lá na redação da Avenida Rio Branco, para os lados da Praça Mauá. E eu ia ser a primeira mulher chefe de reportagem em um jornal diário, importante.

Houve uma campanha publicitária sobre a renovação do jornal, dei entrevistas até para a televisão. Na verdade, desconfio que o convite havia sido mais uma jogada de marketing do que um reconhecimento aos meus talentos profissionais.

É verdade que eu já havia tido uma experiência muito boa como repórter, no Jornal do Brasil, de 58 a 62, ganhando prêmios e coisa e tal, e depois, na Tribuna da Imprensa, além de ter passado pela seção internacional do Correio da Manhã. Mas chefiar era diferente. Para a mentalidade da época nas redações, chefe de reportagem devia ser homem e, de preferência, do gênero sargentão.

No Diário Carioca havia um grupo de repórteres antigos que, por isso, não gostaram muito das novidades. O próprio secretário da redação, Deodato Maia, que eu não conhecia ainda, mas era uma figura respeitadíssima, hoje referida por todos os que passaram no jornal, achou que era um pouco demais uma mulher, e ainda por cima jovem (eu estava então com 27 anos) ali no meio daqueles rapazes todos, mandando. Quando ele chegava, já no fim da tarde, eu estremecia. Mas tinha que fingir que nem estava ali. Deodato caprichava nos palavrões, aos berros, passando várias vezes pela mesa onde eu trabalhava. E o pior é que nem sempre eu conseguia esconder o rubor. Era chefe de reportagem de um jornal, na década de 60, e ainda ficava vermelha ao ouvir um palavrão! E Deodato, mestre no assunto, se divertia.

Tive que demitir um repórter que simplesmente não cumpriu a pauta e se recusou a me explicar por quê. Foi horrível, mas acho que o clima melhorou para mim depois disso. E claro que havia o grupo que me dava apoio, como as chefias e alguns repórteres novos contratados. Além disso, já antecipando meu trabalho com professora de jornalismo, me dava muito bem com os estagiários, um grupo ótimo – tinha até Sônia Nolasco, que depois fez bela carreira de jornalista e escritora.

O jornal era ousado e bem-humorado. Às vezes o doutor Prudente tinha que puxar o freio. Como na vez em que eu fui visitar um amigo, Cosme Alves Neto, preso no Alto da Boa Vista, e na carceragem conheci o cabo Anselmo, então considerado um herói revolucionário, e que também estava lá internado. Conversei encantada com aquele jovem com olhar sonhador, que me pediu para lhe levar, na visita seguinte, um livro de Kafka. Queria saber como era essa história de kafkiano que ele ouvia ali dos presos intelectuais. Não levei o livro pedido, mas levei outro, mais leve, e ele acabou me entregando o diário que fazia desde garoto, quando morava em Sergipe.

Fui para a redação na segunda-feira, com aquele precioso ‘troféu’ na mão, e mostrei a Zuenir. Na hora, ele disse: ‘Vamos publicar, em capítulos!’. Mas, pouco depois, chamado à realidade por doutor Prudente, me procurou para dizer: ‘É, ele tem razão. Não dá. O Anselmo é o inimigo número um da hierarquia militar’. Mais tarde, para meu espanto e desgosto de todos nós que o admirávamos, descobriu-se que o cabo Anselmo era um traidor da causa pela qual dizia lutar. Até hoje penso nisso não só como um dos episódios trágicos daqueles tempos em que pensávamos que a ditadura não ia durar muito como em uma bruta falha minha como repórter. Não vi a fraqueza e a maldade por trás do olhar do rapaz desejoso de conhecer Kafka.

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(*) Jornalista e escritora

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