Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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José não disse nada. Saramago diz tudo

Por Deonisio da Silva em 20/10/2009 na edição 560

Ainda não li o novo livro de José Saramago. Como uma multidão de leitores que ele tem no Brasil, fui impedido de o ler antes ou simultaneamente às resenhas que dele se fazem.

É um tremendo desrespeito ao público, pois é o leitor que sustenta a obra de um escritor, não o resenhista ou o crítico. Esta tríade – autor, obra, leitor – é que faz o processo literário. Mais uma vez, com Caim (Companhia das Letras), aconteceu a aberração. A mídia submeteu-se a caprichos da editora e adotou uma estranha estratégia: comenta o livro antes que ele chegue às livrarias.

Não sei quais os benefícios de tal iniciativa, mas a chateação é bem conhecida. Naturalmente, não faz isso com filmes, peças de teatro, músicas etc. Mas, em se tratando de livros, há uma nociva disputa de quem vai dar primeiro. É nociva para os leitores, para o público. Vários jornais e revistas não vão dar uma linha sequer a um livro que foi comentado em primeira mão por um concorrente antes que chegasse às livrarias. A conversa não foi clara e o trato não foi justo.

Assim, enquanto não leio o novo livro de José Saramago, comento outros aspectos, igualmente importantes, que cercam seu lançamento, como as imperdíveis entrevistas que seu autor dá.

Fala em profusão

Sobre o mito de Caim, em 16 de janeiro de 2002 escrevi aqui: ‘Caim matou o irmão Abel e com uma única pedrada dizimou uma quarta parte da raça humana. O nosso primeiro e mais emblemático assassino é também, visto de um mirante estatístico, o maior genocida de todos os tempos. De todos os tempos e em todos os sentidos, pois inclui também os imemoriais tempos lendários, religiosos e míticos.’

Tenho evitado escrever sobre a obra do único Prêmio Nobel que as literaturas de língua portuguesa conquistaram até hoje. Nem bem leio um novo livro de José Saramago, recomendo-o imediatamente. E atualmente posso fazer isso a mais de 200 mil alunos da Estácio – mais de 100 mil apenas no Rio de Janeiro – espalhados por 16 estados do Brasil onde a instituição mantém cursos superiores.

Fico tão embascado após a leitura de seus livros que não me saem resenhas, saem panegíricos. Com exceção de A Jangada de Pedra, para mim um livro menor e sem a criatividade que marca sua narrativa, todos os outros romances me fascinam e encantam. Uns mais do que os outros, é claro. Quando me perguntam qual o melhor romance de José Saramago, respondo sem pestanejar: Levantado do Chão. Mas isso são gostos e, gostando ou não leitores ou críticos, cada livro segue seu caminho. E Caim seguirá o dele.

José Saramago não apenas escreve bastante: ele fala em profusão. E naturalmente, corajoso como é, divide os que o ouvem e o lêem. Ao contrário de São José, que não diz uma única palavra em toda a historiografia católica, temos um José nada contido, que fala também por muitos outros josés, incluindo o seu santo onomástico.

‘Só peço respeito’

Em entrevista a Mànya Millen (O Globo, 17/10/09), ele disse: ‘Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade’. Trata-se de um tremendo equívoco histórico do nosso Prêmio Nobel. É verdade que todas elas perpetraram atos dos quais a Humanidade tem muito que se envergonhar. Mas, ficando apenas no Antigo Testamento, no Gênesis, onde ele foi buscar Caim, lembremos como a ética avançou com os Dez Mandamentos. E, pulando para o Novo Testamento, lembremos como Jesus, herdeiro do Antigo Testamento e dileto filho do judaísmo, ao preferir o novo mandamento – ‘amai-vos uns aos outros como eu vos amei’ – criou um novo e insuperável paradigma para a convivência com o próximo.

José Saramago, a propósito da verdadeira campanha em curso no mundo para desacreditar as religiões, que inclui o endosso de personalidades como os cientistas Richard Dwakins e Cristopher Hirtchens, diz entretanto: ‘Por mim, não o faria. É praticamente impossível convencer alguém a virar as costas às suas crenças. Limito-me a escrever o que penso do assunto e deixo aos leitores a inteira liberdade de fazer o que entendam. O único que peço para mim é respeito.’

Livro fundamental

Na mesma página, o jornalista e escritor espanhol Juan Arias, com formação em filosofia, teologia e línguas semíticas, correspondente de El País por catorze anos no Vaticano, ao resenhar Caim, diz: ‘O homem e apenas o homem é, definitivamente, o deus de Saramago – o homem vítima dos poderes tirânicos, o homem humilhado pela religião, o homem escravo de seus mitos, começando pelo mito de Caim e Abel que Saramago converte num jogo literário’.

E Saramago encerra a entrevista a O Globo com estas palavras: ‘Considero este livro fundamental, quer na minha bibliografia, quer na minha vida’.

Eis mais um bom motivo para ler seu novo romance.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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