Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ARMAZéM LITERáRIO > PÚBLICO

José Queirós

27/07/2010 na edição 600

Regresso ao tema do ‘jornalismo veloz’, objecto de uma crónica anterior, para defender a necessidade de um melhor equilíbrio entre os valores que devem orientar o trabalho noticioso produzido para a plataforma do PÚBLICO na Internet. E insistir na ideia de que a pressa em publicar uma informação que se considera importante (objectivo do jornalismo em geral) não pode atropelar os procedimentos de validação que garantam a sua veracidade e consistência (condição do jornalismo sério).

Veja-se o caso da notícia difundida na última quarta-feira pelo Público Online, sob o título — que se veio a verificar não ser verdadeiro —’Especialistas recomendam que FDA retire Avastin do mercado dos Estados Unidos’ (a FDA é a autoridade da qual depende a aprovação oficial dos medicamentos naquele país).

Para além do seu relevo científico e económico, as informações sobre potencialidades e perigos dos medicamentos mexem com as esperanças e angústias de muita gente. Por maioria de razão no caso do Avastin, que, segundo notícias recentes, é hoje o fármaco mais vendido no mundo para o tratamento do cancro. Um jornal consciente da sua responsabilidade para com os leitores não pode dispensar o esforço de certificação deste tipo de informações, deve transmiti-las com exactidão e fornecer os dados de contexto que permitam compreender o seu alcance e relevância. Tanto na edição em papel como na Internet.

Cabe aqui observar que a boa contextualização das notícias encontra nas edições on line tanto uma dificuldade, pela velocidade própria do meio, como uma vantagem, pela ausência de limites de espaço e por ser um suporte que permite a contínua actualização e desenvolvimento das informações publicadas. Creio que é uma potencialidade que deverá ser mais explorada, à medida que o emagrecimento das edições em papel leva a que muitas notícias relevantes surjam apenas na plataforma on line. Como foi o caso desta.

Voltemos a ela. Foi publicada com a assinatura conjunta da Lusa e do PÚBLICO — o que, segundo a explicação de um responsável editorial, acontece quando um despacho da agência noticiosa ‘é revisto e alterado ou sofre acrescentos’ na redacção do jornal, mas essas alterações ou acrescentos não são suficientemente relevantes para justificarem a assinatura individual do jornalista que trabalhou sobre o despacho. É um procedimento defensável, mas que, em caso de erros na notícia, não permite ao leitor distinguir com clareza a sua origem. O que pode ser útil na análise de um caso, embora seja irrelevante no plano da responsabilidade editorial. Um despacho de agência divulgado pelo jornal — em papel ou on line — passa a ser uma notícia do PÚBLICO.

O texto em questão tinha cinco parágrafos. O primeiro repetia o que se afirmava no título, o segundo informava que os especialistas citados consideravam que o Avastin não melhorara a situação clínica de mulheres que sofriam de cancro da mama, e o terceiro dizia que a FDA aprovara o fármaco com base em testes anteriores, agora contraditados por um novo estudo. No quarto lia-se que ‘o medicamento também se utiliza para combater o cancro do cólon, do pulmão, do rim e do cérebro’ (e aqui, como veremos, deveria ter soado uma campainha de alarme). O último recordava que, em Portugal, o Infarmed concluíra não haver ‘vantagens adicionais’ no uso do Avastin por ‘doentes com cancro da mama com metástases’, acrescentando que este fármaco ‘também era utilizado em contexto oftalmológico’, e ‘ficou conhecido aquando da troca de medicamentos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que deixou seis doentes cegos’.

Foi isto que se pôde ler no Público Online a partir das 08h36 do passado dia 21, suscitando a reclamação do leitor José Paulo Andrade, do Porto, que me reenviou o comentário que ele próprio colocara no sítio do Público logo às 09h47 do mesmo dia. Passo a citar: ‘O título está incorrecto e concluiu erradamente que é aconselhada a retirada do Avastin do mercado. O que está em causa é uma indicação específica apenas para o cancro da mama. Segundo o painel de peritos esta indicação é que deve ser abandonada por não trazer benefícios. Outro pormenor incorrecto: utiliza o passado relativamente ao uso oftalmológico. Na realidade ainda é utilizado em todo o mundo.’

E daí partia para uma apreciação severa, mas compreensível, e comum em casos semelhantes: ‘Mais uma notícia que induz os leitores em erro. Como estou ao corrente destas situações sei reconhecer os erros factuais (vários) na notícia. Fico preocupado pois não conseguirei detectar erros noutras áreas especializadas que não domino. Como confiar num jornal de referência assim?’.

Durante o dia, surgiram outras reacções na área de comentários do Público Online, criticando o teor da notícia e, num dos casos, o modo como o Avastin fora associado ao caso do Hospital de Santa Maria, argumentando que foi a troca deste por outro medicamento, e não o seu uso, que esteve na origem dos ‘problemas oftalmológicos’ ali ocorridos.

A notícia do PÚBLICO sobre a recomendação feita à FDA não citava, como fonte intermédia, qualquer meio de comunicação norte-americano. Seguindo uma pista deixada pelo leitor que me escreveu, consultei a peça dedicada a este assunto, na véspera, pelo New York Times. É um texto de alguma dimensão, escrito com clareza, e em que a informação é devidamente contextualizada. Lendo-o, descobrem-se outras imprecisões e omissões da notícia portuguesa e torna-se imediatamente óbvio que não existiu qualquer recomendação para retirar o Avastin do mercado norte-americano, nem isso irá suceder, devido aos resultados positivos deste fármaco no tratamento de diversos tipos de tumores cancerígenos. O que os testes mais recentes sugerem, e que a FDA irá agora ponderar, é que o medicamento não trará benefícios para as doentes nos casos de ‘cancro da mama em estado avançado’ — o que é o mesmo que já dissera o Infarmed em Portugal. Nos EUA, uma revogação da indicação oficial para esse uso específico nem sequer impedirá os médicos de o prescreverem mesmo a doentes com cancro da mama, mas poderá fazer com que, nesses casos, as seguradoras se mostrem ‘relutantes em pagar’.

Na sequência da reclamação de José Paulo Andrade, a notícia do Público Online foi corrigida às 08h38 de quinta-feira, 22/7. Foram alteradas algumas palavras no texto e o título passou a ser ‘Especialistas recomendam que FDA proíba Avastin no tratamento do cancro da mama’. Apesar de o verbo ‘proibir’ não ser aqui o mais adequado, a nova versão passou a respeitar, no essencial, a verdade dos factos.

‘Graças a este reparo do leitor, a quem agradecemos’, a correcção foi feita por iniciativa das jornalistas Ana Machado, da equipa do Público Online, e Romana Borja Santos, por quem passara o despacho da Lusa, e que entretanto fez as diligências necessárias para confirmar os erros apontados.

Em conclusão:

* O PÚBLICO, como já se sabia, tem nos seus leitores um capital inestimável para a correcção de erros. E proceder a essa correcção é indispensável para merecer a sua confiança.

* A edição on line potencia a intervenção dos leitores, que podem alertar de imediato para um erro detectado. Esse mecanismo correctivo só funcionará, porém, se os comentários forem lidos, o que não terá acontecido neste caso. Seria útil criar uma rotina que permitisse registar, e encaminhar para os autores das notícias ou os editores as intervenções que alertam para alegados erros factuais.

* Sem prejuízo da verificação dos factos, as correcções devem ser feitas com celeridade. Neste caso, um título falso esteve em linha durante 24 horas (e dois minutos). Foi certamente lido, e tido por verdadeiro, por muitas pessoas que não leram a posterior versão corrigida. Se o alerta do leitor tivesse sido conhecido mais cedo, sobraria até tempo de pesquisa para publicar, na edição em papel, uma informação sem erros e mais completa.

* A bem da transparência e do rigor, as alterações de fundo em notícias publicadas on line deveriam ser assinaladas e explicadas. A menção ‘notícia corrigida’ é necessária, mas nem sempre é suficiente.

* Uma maior sensibilidade para a importância de confirmar ou aprofundar, em certos casos, as informações distribuídas pelas agências noticiosas ajudaria a evitar erros.

* Novidades respeitantes às terapias contra o cancro interessarão a muitos leitores da edição em papel, que nada leram nestes dias sobre o Avastin. Depois da confusão criada, seria interessante que o jornal voltasse ao tema. Com menos pressa e mais profundidade.

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