Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > ESTUDOS DE JORNALISMO

Kucinski analisa o colapso da razão ética

08/02/2005 na edição 315

[do release da editora]

As rápidas transformações e o vazio ético do jornalismo contemporâneo são temas centrais do livro Jornalismo na era virtual – Ensaios sobre o colapso da razão ética, do jornalista Bernardo Kucinski. Professor de jornalismo na ECA-USP, Kucinski atuou em numerosos veículos de comunicação no Brasil e no exterior. É autor de diversos livros, entre os quais Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa (Edusp) e A síndrome da antena parabólica: ética e jornalismo (Editora Fundação Perseu Abramo). Desde 2003 é assessor especial da Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica da Presidência da República.

Sob a ótica da ética profissional, o autor examina temas como direito à saúde, internet, economia virtual, corrupção, paradoxos do jornalismo neoliberal, jornalismo econômico, mentira e imaginação.

Para Bernardo Kucinski, o fim da separação entre jornalismo e assessoria de imprensa, a concentração da produção e da propriedade na área de comunicação e, principalmente, a mentalidade individualista do novo profissional, cada vez mais distante da concepção idealista da profissão, são apontadas como principais causas do colapso da razão ética.

No momento em que a discussão sobre um código de regulamentação para a prática jornalística ocupa um importante espaço no debate nacional, o livro aponta como desafio a construção de um código ético diante de um jornalismo novo, marcado pela hegemonia neoliberal. O autor afirma que a escola tem papel fundamental nesta construção. Segundo Kucinski, somente na escola o jovem pode adquirir conhecimento sistemático sobre ética e moral para se posicionar no debate.

Em sua apresentação ao livro de Kucinski, o professor Venício A. de Lima afirma que num país em que estudos sobre a prática jornalística são escassos e o material que se tem é geralmente autobiográfico, o livro do Bernardo Kucinski se destaca pela abrangência dos temas, a seriedade e a profundidade com que são tratados. [Abaixo, a íntegra do Prefácio]

***
Prefácio

Venício A. de Lima

(Pesquisador-sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política)

Faz tempo circula nos meios profissionais ligados à comunicação uma piadinha de mau gosto que conta mais ou menos o seguinte: ‘Se o indivíduo não dá certo na vida, vai ser jornalista. Se não sabe nem escrever nem fotografar, vai ser chefe. E se não sabe ser chefe, vai ser professor de jornalismo’. Aparentemente essa é uma versão menos elegante do mote ‘quem sabe faz, quem não sabe ensina’, velho conhecido daqueles que fizeram a opção pela vida acadêmica e usado como forma de desqualificação, sobretudo por uns poucos profissionais autodidatas e pioneiros, muitos ainda resistentes às novas exigências de formação profissional em nível universitário.

Pois bem. Aqui temos um livro, escrito por um jornalista profissional, que desmente tanto a piadinha como o mote. Bernardo Kucinski, graduado originalmente em Física, é alguém que faz e ensina jornalismo por opção e com competência. E é exatamente por ter uma larga experiência profissional associada à reflexão e à pesquisa – exigidas pela docência – que ele pode nos oferecer uma coletânea como Jornalismo na era virtual: Ensaios sobre o colapso da razão ética.

Apesar de o jornalismo, como área de atuação profissional, estar merecendo cada vez mais a atenção dos estudiosos, a literatura específica no Brasil ainda é bastante deficiente. Primeiro, porque muitos livros são depoimentos, em geral autobiográficos e autolaudatórios, referidos apenas à experiência de seus autores. Padecem de distanciamento crítico ou de reflexão teórica generalizável. Segundo, outros tantos livros constituem uma colagem articulada de análises e opiniões de estudos realizados em contextos diferentes do nosso e, por isso mesmo, com pouca ou nenhuma ressonância no concreto profissional dos jornalistas brasileiros de formação e história distintas. Além disso, não são muitos os textos de autores brasileiros que discutem o dia-a-dia dos jornalistas referido à questão da ética profissional. A presente coletânea supera todas essas deficiências.

Reconstrução da ética

A questão principal que permeia os nove ensaios escritos entre 1998 e 2004 aqui reunidos em três partes – a ética, a práxis e o discurso –, é a perplexidade do autor diante da acelerada transformação do jornalismo brasileiro – tanto o impresso como o eletrônico – no rumo do chamado ‘jornalismo de mercado’ e do ‘vazio ético’.

Kucinski parte do que denomina uma concepção idealista de ética, isto é, a ética formada ‘pelo imperativo categórico da verdade’. Neste imperativo ‘o jornalismo existe para socializar as verdades de interesse público, para tornar público o que grupos de interesse ou poderosos tentam manter como coisa privada’.

O fim da demarcação entre jornalismo e assessoria de imprensa; a fusão mercadológica entre notícia, entretenimento e consumo; a concentração da propriedade na indústria de comunicações; a crescente manipulação da informação por grupos de interesse e, principalmente, a mentalidade que celebra o individualismo e o sucesso pessoal seriam as causas imediatas da atual crise ética ou do ‘colapso da razão ética’. Esta crise ou colapso leva a uma prática profissional cada vez mais distante do antigo ideal de compromisso do jornalista com o interesse público, referência hoje cinicamente chamada de ‘jornalismo romântico’.

Para o autor, na contemporaneidade, é mais difícil a aceitação de um código de ética porque ele contraria os valores dominantes do individualismo. Desta forma, o grande desafio é reconstruir uma ética jornalística dentro da nova hegemonia. Como isso pode ser feito?

‘Profissionalização’ sui generis

Para Kucinski, a universidade teria papel fundamental. É nela que se pode desenvolver no jovem o saber e o conhecimento. ‘É na escola – e apenas na escola – que o aluno pode obter o aporte de conhecimento sobre as teorias da ética e da moral necessárias para o seu posicionamento específico no debate ético’. O jovem que emergir desse processo ‘vai estabelecer com o mercado um conflito ético feito de confrontos com editores autoritários e proprietários de mentalidades oligárquicas’.

Por outro lado, o autor chama a atenção para o fato de que

‘nosso principal problema ético hoje não é de natureza moral, mas sim política. Isso significa que a luta por uma nova ética é também, e acima de tudo, uma luta política. Está condicionada por algumas leis da política, tais como estar balizada por interesses sociais concretos e desenvolver-se por meio de etapas e objetivos táticos e estratégicos bem definidos, e estar articulada às demais lutas políticas do momento’.

No Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, não se pode fazer a mesma distinção de fases ou ciclos identificados pela supremacia de uma ou outra opção por determinado tipo de jornalismo no correr do século XX. Por exemplo: ‘responsabilidade social’ ou ‘profissionalismo’? Entre nós, pelo menos o jornalismo republicano é fortemente marcado pelos interesses do aparelho de Estado ou de grupos empresarias privados, ou de ambos. A exceção é o jornalismo caracterizado pelo ideal ético de compromisso com a verdade e dedicação ao interesse público. Na verdade, nosso jornalismo – dependente direta ou indiretamente dos recursos públicos e dos interesses políticos – constrói sua história imbricado na formação do Estado brasileiro.

Uma inflexão que contribui para o quadro a que chegamos hoje é, sem dúvida, a instituição da obrigatoriedade do diploma como condição para o exercício profissional de jornalista em 1969. A obrigatoriedade coincide com a acelerada expansão do ensino privado de terceiro grau e dá origem a uma proliferação descontrolada de cursos de comunicação que colocam milhares de novos jornalistas no mercado de trabalho a cada ano. Estes novos jornalistas – que ainda estão substituindo aqueles formados diretamente nas redações – passam por um processo de ‘profissionalização’ sui generis na medida em que, como é sabido, há um divórcio entre as ‘teorias’ da comunicação ensinadas nos cursos e a prática profissional. Além disso, não se dá, na maioria desses cursos, a ênfase que deveria merecer a discussão sobre as diferentes teorias do próprio jornalismo ou sobre sua vinculação com os sistemas ideológicos de nosso tempo.

Corrupção e denúncia

Dessa forma, o novo jornalista sai dos cursos legalmente ‘habilitado’ para o exercício profissional, mas – apesar da confiança que Kucinski deposita na universidade – ainda despreparado para exercer a crítica e propor alternativas ao ethos e à ética profissional dominantes. Está aí, creio, uma das razões do ‘colapso da razão ética’. Outras razões podem ser encontradas nas mudanças no próprio jornalismo decorrentes não só da hegemonia de um pensamento único neoliberal, mas também da introdução de novas tecnologias de comunicação, em particular do jornalismo on line, que a rede mundial de computadores tornou possível no final do século passado.

É esse o contexto dentro do qual os ensaios deste livro são elaborados e é a ele que as reflexões nos remetem, sempre permeadas pela questão da ética profissional. Direito à saúde, corrupção, internet, economia virtual, paradoxos do jornalismo neoliberal, jornalismo econômico, mentira e imaginação são alguns temas desenvolvidos. Destaco dois deles: a corrupção e a internet.

Pesquisa realizada pela Transparência Internacional, divulgada em dezembro de 2004, revela que, numa escala de 1 a 5, em que a nota mais baixa indica lisura e a mais alta muita corrupção, os brasileiros entrevistados atribuíram à imprensa 3,6. Kucinski nos adverte sobre uma característica única que torna ‘a corrupção […] uma prática sedutora na indústria de comunicação’, isto é, o ‘fato de se combinar nessa indústria o poder de influenciar politicamente a opinião pública com o poder econômico’. Em Jornalismo na era virtual, a corrupção é tratada criticamente não só como objeto da denúncia jornalística (o denuncismo, o jornalismo de dossiê), mas também como prática sindical, profissional e empresarial no jornalismo brasileiro.

Referência obrigatória

Com relação à internet, o autor se posiciona claramente ao afirmar com segurança que ‘dizer que a internet e o computador criaram uma nova forma de exclusão – a exclusão digital – é como dizer que, ao inventar a impressão com tipos móveis, Gutenberg criou o analfabeto’. Ora, todos sabemos que, pelos dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2003, apenas 15,3% dos domicílios têm microcomputador e só 11,4 % têm acesso à internet. Além disso, pesquisa da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) divulgada em maio de 2004 revela a situação dos professores do ensino fundamental e médio no Brasil: mais da metade dos cerca de 5 mil professores entrevistados em 26 estados e no Distrito Federal não tem computador em casa (53,9%), não navega na internet (58,4%) e sequer usa o correio eletrônico (59,6%). Dessa forma, por mais que a internet possa vir a ser, como afirma Kucinski, ‘um mecanismo de libertação, uma reviravolta nos caminhos até então seguidos pelo capitalismo e uma nova demonstração de que no capitalismo tudo o que é sólido desmancha no ar’, certamente ainda temos um longo, longo caminho a percorrer.

Por fim, gostaria de chamar a atenção do leitor para o ensaio ‘O declínio e a morte do jornalismo como vocação’. Vale a pena ler e reler este texto. Retomando as reflexões sobre a profissão do jornalista, contidas no ensaio clássico de Max Weber sobre ‘A política como vocação’, Kucinski faz uma pungente defesa do jornalista por vocação em oposição ao jornalista por diploma. O velho e o novo profissional. Aquele comprometido com a ética da verdade, este com o sucesso profissional e o mercado. E faz isso ao lamentar a quase ausência na grande imprensa da notícia da morte de um exemplo pleno de jornalista por vocação, Jair Borin, jornalista e professor, falecido em abril de 2003.

Nestes tempos em que a institucionalização de um Código de Ética para jornalistas profissionais volta à discussão, não há dúvida de que este Jornalismo na era virtual: Ensaios sobre o colapso da razão ética de Bernardo Kucinski ocupará um lugar de destaque na literatura brasileira sobre jornalismo e, em particular, sobre ética jornalística. Este livro vai se somar aos vários outros já publicados pelo autor e que se constituíram em referência obrigatória para todos aqueles que estudam ou se interessam pelas questões ligadas ao jornalismo.

Brasília, DF, verão de 2004/05.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/04/2005 Roberta Araújo

    Concordo com visão de Kucinski quando diz que “ O jovem que emergir desse processo ‘vai estabelecer com o mercado um conflito ético feito de confrontos com editores autoritários e proprietários de mentalidades oligárquicas’, porque sou estudante do 3º período de jornalismo de uma faculdade com o conceito ‘A’, e posso afirmar que a ética é um tema sempre abordado no curso. Estudei sobre ética e neoliberalismo no segundo grau também. (Digamos que eu tenha uma boa bagagem sobre o assunto.) No entanto, acho que isso não garante que eu me torne uma profissional com responsabilidade ética, justamente por causa deste jornalismo de mercado. Não adianta a minha vontade de fazer um jornalismo sensato, se o que me é exigido nas redações são matérias do tipo “Brithey Sperars está grávida”, ou outras absurdas, manipuladas por grupos de interesse. Creio que as faculdades estejam fazendo a sua parte. Talvez esse tema deva ser trabalhado nos jornais, com matérias realmente relevantes, de forma a educar o gosto de seus consumidores, porque a mídia está aguçando o interesse do público para as futilidades.

  2. Comentou em 15/04/2005 Roberta Araújo

    Concordo com visão de Kucinski quando diz que “ O jovem que emergir desse processo ‘vai estabelecer com o mercado um conflito ético feito de confrontos com editores autoritários e proprietários de mentalidades oligárquicas’, porque sou estudante do 3º período de jornalismo de uma faculdade com o conceito ‘A’, e posso afirmar que a ética é um tema sempre abordado no curso. Estudei sobre ética e neoliberalismo no segundo grau também. (Digamos que eu tenha uma boa bagagem sobre o assunto.) No entanto, acho que isso não garante que eu me torne uma profissional com responsabilidade ética, justamente por causa deste jornalismo de mercado. Não adianta a minha vontade de fazer um jornalismo sensato, se o que me é exigido nas redações são matérias do tipo “Brithey Sperars está grávida”, ou outras absurdas, manipuladas por grupos de interesse. Creio que as faculdades estejam fazendo a sua parte. Talvez esse tema deva ser trabalhado nos jornais, com matérias realmente relevantes, de forma a educar o gosto de seus consumidores, porque a mídia está aguçando o interesse do público para as futilidades.

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