Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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ARMAZéM LITERáRIO >

La Fallaci, eternamente polêmica

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 28/11/2006 na edição 409

Poucos profissionais do jornalismo tiveram personalidade mais controvertida que Oriana Fallaci. Era uma excelente cozinheira, fazia almôndegas famosas e doces finos, colecionava livros raros, era capaz de presentear uma preciosa edição de Don Quixote a seu assistente; profunda conhecedora de champanhes oferecia com prazer aos seus convidados sem medir a quantidade, fumante incansável, comprava sempre quarenta pacotes por vez (cada um com dez maços) de sua marca preferida. Como se não bastasse também era uma bordadeira paciente que confeccionava tapetes sublimes.

No outro lado da moeda vamos encontrar u’a mulher que em vez de falar gritava, berrava, praguejava, vociferava, insultava, xingava; não pedia, se apossava daquilo que estivesse precisando, arrancava, puxava, empurrava, chutava. Quem estava com ela se comovia, divertia, apaixonava, se sentia privilegiado, mas também emudecia, se espantava, chorava, fugia, sentindo-se um lixo. As senhoras que enfrentam as filas nas lojas que ela ultrapassava imperiosa regiam a sua maneira: não sabendo de quem se tratava, a ignoravam, riam condescendentes ou a perseguiam protestando, não aceitando sua violência e seu desespero.

Passados pouco mais de dois meses de sua morte, será laçado um livro sobre ela. Não se trata de um cansativo cigarrear de informações esquálidas e afobadas. Terá por título Gli occhi di Oriana (os olhos de Oriana), escrito por aquele que foi seu jovem assistente em Nova York. Sandro Cechi conta como foi estar a seu lado, mesmo por poucos meses (de dezembro de 2004 a maio de 2005). Ele tem 33 anos, veio da Sardenha, formou-se em Milão e era pago pela Editora Rizzoli, que publica os trabalhos de Oriana.

O livro tem a capa ocupada pelo olho esquerdo da escritora, numa expressão que mistura dor e perda, mas o título revela o narcisismo do autor. Os olhos a que se refere o título são os dele e conta o porquê: ‘Quando alguém perguntava à Fallaci se o jovem que a conduzia, submersa em seu casaco de visons cor de mel, aos hospitais e às lojas de artigos finos era seu neto, ela respondia bruscamente – ‘No, he is my eyes’ (não, ele é meus olhos).

Inimigos

Os dias que Sechi passou com Fallaci foram intensos, trágicos, vividos com uma senhora anciã, invadida pelo câncer, quase cega, sofredora, pregada em solidão orgulhosa e raivosa sob o peso das lembranças gloriosas, das mágicas experiências de seus encontros excepcionais: tudo esfumado na punição da idade, da doença, dos outros que se afastaram dela, abandonando-a a debater-se no vazio entre o rancor e o terror.

Afeiçoou-se pelo assistente, a quem chamava carinhosamente de Sandrino; chegou a convidá-lo para morar em sua casa, mas ele assustado recusou. A rotina de Sandro, além de abrir as diversas portas que davam acesso à casa, pois ela tinha medo de ser atacada por um ‘killer’ árabe, era levar-lhe todas a manhãs Corriere della Sera e la Repubblica, depois assistir na televisão ao Tg1 (telejornal italiano), quando Falacci soltava todas suas invectivas e maldades: os médicos italianos eram todos açougueiros; Silvio Berlusconi (ex-presidente do Conselho de Ministros) era uma ‘mortadela’ – ‘Que não se atreva a vir ver-me. Não lhe abro a porta’, completava.

Ao saber que seria escolhida senadora vitalícia, ficou fora de si e aos berros disse que jamais aceitaria algo de Carlo Azeglio Ciampi (ex-presidente da República): ‘Aquele lá é meu inimigo’. Sobre os homossexuais: ‘Têm cérebro pequeno, são estúpidos e fofoqueiros’. A opinião politicamente incorreta sobre os negros: ‘São estúpidos, é uma questão de DNA’. Também não escapavam os jornalistas: ‘Odeio-os, são umas bestas’. As jornalistas que ousavam chamá-la de colega eram ‘vacas vagabundas’.

Rancor e vingança

Escrevia quase todos os dias cartas insultando os editores do Corriere, pois recusaram-se a publicar aquilo que ela pensava ser um furo: ‘Al-Qaida está adotando todos os órfãos do tsunami para transformá-los em terroristas’. Mas com o papa a coisa mudava, dizia ela de Ratzinger: ‘É meu amigo, é um dos poucos homens inteligentes que conheço. É um revolucionário que odeia a esquerda como eu’. Exultou quando o fizeram papa: ‘Ele é o líder do Ocidente, me converto como uma prostituta se ele me curar’. Vale dizer que Falacci era atéia convicta.

Gélida, desapiedada, independente, ávida, sentia que ninguém mais a procurava nos Estados Unidos – ou no mundo onde brilhou. Da Itália somente jornalistas impacientes que precisavam de alguma coisa. Sobre os parentes dizia: ‘Lembre-se que os familiares com freqüência são acérrimos inimigos’.

Com Sandro, inicialmente aflorou seu latente espírito materno, que terminou quando foi contrariada. Da mesma forma que abandonou Alekos Pangulis, o homem de sua vida, pois tivera a ousadia de pedir-lhe que lhe lavasse um par de meias, Sandro também foi vítima. Simplesmente a desobedeceu, segundo ela, traiu-a, tornou-se um de seus tantos inimigos desprezíveis, merecendo somente rancor e vingança. O que de tão sério teria ousado Sandro Sechi? Deixou-a por alguns dias para ir ver a mãe que morria num hospital da Sardenha. Para Oriana Fallaci, certamente, a mãe de Sandro nada mais era que u‘a mãe que morria, absolutamente normal. Ela não, não podia ser deixada, pois em sua megalomania Sandro abandonara o próprio onipotente, onipresente e onisciente Deus.

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Jornalista

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