Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > POLÍTICA CULTURAL

Lei Rouanet e outros babados

Por Deonisio da Silva em 08/06/2004 na edição 280

I

O maestro Júlio Medaglia, em ‘Salvem a Lei Rouanet!’, um texto gentil, mas firme, deu o brado de alerta na página 2 do Estado de S.Paulo (7/6/04):

‘Quando o atual governo federal foi instalado, boa parte da classe artística se sentiu aliviada com a nomeação do grande músico Gilberto Gil para a pasta da Cultura, inclusive pelo fato de ele ter sido um bem-sucedido administrador de empresas antes de disparar sua criativa carreira. Para perplexidade desta comunidade, porém, vemos nascer agora em seu ministério o desejo de redução dos benefícios fiscais destinados à produção cultural, aos quais o empresário tem direito, caso venha a fazer investimento na área’.

No Orçamento da União, em 2003, a indústria de transformação obteve 6,3 bilhões de reais em benefícios fiscais, ou 26,56% da partilha. A área comercial e de serviços ficou com 4,7 bilhões de reais (19,65%). À saúde couberam 2,1 bilhões de reias (8,82%). A agricultura deu mordidinha de 684,5 milhões de reais (2,86%). A educação ficou com 633,9 milhões de reais (2,65%). A cultura, com 357,1 milhões de reais (1,49%), ficou em último lugar nesta classificação, obtida em estudo do produtor cultural Paulo Pélico, que serviu de base às reflexões do maestro.

Em sociedade, tudo se sabe, já dizia Ibrahim Sued, colunista social e saco de pancadas da turma de O Pasquim em memoráveis pelejas jornalísticas num momento glorioso de nossa imprensa. Ressuscitado nos novos tempos, mudou O Pasquim ou mudamos nós, porque a crítica irreverente cedeu lugar a um brado do tipo ‘vamos lá que agora vai’. Mas será que vai? Por enquanto, por mais otimistas que sejamos, o que podemos dizer é semelhante ao que declarou um entrevistado desconcertado e inseguro diante da pergunta de um repórter da televisão que lhe perguntara de chofre nos saudosos tempos do primeiro Plano Cruzado: ‘Parece que agora a situação está piorando menos’.

II

Infelizmente o Brasil não pode disfarçar. O país juntou-se às celebrações da invasão da Normandia e libertação da França do jugo nazista, mas uma nova onda de anti-semitismo, que nestes tristes trópicos é cíclica, ameaça voltar. A foto de Vicent Kessler, da Reuters, reproduzida na Folha de S.Paulo (7/6/04, pág.A8), que mostra o premiê alemão Gerhard Schröder abraçando o presidente francês Jacques Chirac, tem um travo esquisito: com um olho fechado e outro cravado no rosto do francês, o flagrante não endossa a tese de arrependimento ou humilde atitude de emenda. Ao contrário, o semblante tornou-se ameaçador. Tomara que o olho do fotógrafo esteja enganado!

Afinal, a imagem contradiz a manchete: ‘Schröder oferece mea-culpa da Alemanha’. Quem inventou o verbo ‘oferecer’ para a expressão latina tem um entendimento de culpa que escapa ao signatário. Afinal, a metáfora de arrependimento provém do ato de contrição, rezado no confessionário antes de o confitente pedir perdão ao confessor pelos pecados cometidos e lembrados naquela hora grave de perfeitos esclarecimentos entre quem confessa e quem absolve. Por que foi evitado o verbo ‘pedir’, mais simples e mais claro?

III

Revelação de jornalista. Guardemos este nome: Reinaldo José Lopes. Na Superinteressante escrevendo sobre Tróia; na edição extra de Aventuras na História: para viajar no tempo, escrevendo sobre o dia D, 6 de junho de 1944, quando o desembarque de 175 mil soldados das forças aliadas na Normandia marcou o começo do fim de Hitler. Nos dois textos, evidência inconteste de que o jornalismo brasileiro, de vez em quando, apesar de todas os atrapalhos impostos nas universidades, revela talentos ali também. Com incômoda freqüência, os autores dos melhores textos de nossa imprensa não passaram pelos cursos de jornalismo. Há exceções. Saudemos esta.

Por que ele escreve bem? Nos dois casos, brilhou o pesquisador capaz de ler, resumir e oferecer aos leitores um texto ágil, que, sem perder a qualidade do conteúdo, pode ser lido de outro modo, despertando o leitor interessado em eventuais aprofundamentos para bibliografias específicas, indicadas no corpo dos artigos.

IV

Nada contra a eleição de Antonio Carlos Secchin, poeta e professor da UFRJ, para a Academia Brasileira de Letras. Ao contrário, ele é jovem (tem 52 anos e na ABL o número deve valer alocação do eleito na ala infanto-juvenil) e poeta dos bons. Saudemos a renovação. Mas com um porém. A ABL precisa aumentar a quota. Se ‘um é pouco, dois é bom, três é demais’, como diz o samba de Heckel Tavares, o número cabalístico de 40 precisa ser revisto. Há vários poetas da estatura intelectual do eleito. E como a ABL é referência internacional, como explicaremos que Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant’Anna não tenham assentos ali? E Mário Quintana e Hilda Hist? Não tiveram por quê? Pela obra, faziam jus. Talvez a irreverência, no segundo caso, e o alheamento diante de liturgias e solenidades no primeiro, não sejam bem acolhidos naquela Casa, onde os espíritos mais aplainados encontram outeiros e colinas afastados de seu caminho.

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