Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Leia, ouça, divulgue o Diário Oficial

Por Carlos Brickmann em 10/02/2009 na edição 524

Diário Oficial? TV Brasil? Rádio Nacional? Agência Nacional? Radiobrás? TV Senado, TV Câmara, TV Assembléia, TV Justiça? TV Cultura? Café com o Presidente? A Voz do Brasil? Redes estaduais e nacionais de TV e rádio com o presidente, com os ministros, com governadores, com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral? Verbas de publicidade do Executivo e das estatais? Tevês e rádios concedidos a políticos amigos? Informativo na internet?

Tudo isso é pouco: o esquema oficial de propaganda quer mais. A próxima idéia é dar a jornais populares – responsáveis por algo como 50% da circulação no país – material de divulgação do governo, entrevistas com Lula, a coluna’O Presidente Responde’. Tudo de graça, tudo bem-feitinho, tudo de primeira. O custo não importa: quem paga é você.

É claro que a preocupação exclusiva das autoridades é ampliar o nível de informação da sociedade. A implantação da colunas em jornais populares no ano anterior às eleições é pura coincidência, não é? Também, tem eleição a toda hora!

O fato é que há uma tentativa visível de reduzir o número de fontes de informação, fazendo com que as autoridades ocupem cada vez mais espaço. Por enquanto, a tentativa tem falhado: as emissoras oficiais não conseguem competir com as comerciais, seus programas não dão audiência, as redes nacionais são encaradas como uma chateação, um obstáculo ao divertimento da família. Mas as autoridades insistem: e se os jornais populares, enfrentando a crise, acharem mais barato publicar aquilo que o governo manda e, por economia, decidirem esquecer parte da reportagem e da pluralidade de opiniões?

 

Calcule

Veja uma empresa como o SBT, Sistema Brasileiro de Televisão. Com Sílvio Santos, Gugu Liberato, Chávez (o engraçado), a menina Maysa, Hebe e outras atrações, em segundo ou terceiro na disputa pela audiência, vez por outra a rede entra no vermelho e faz cortes drásticos nas despesas. Volte-se agora para as tevês chapa-branca: não têm atrações, não têm audiência, o Chávez que têm é aquele sem graça. Mas ninguém se preocupa com os custos: afinal de contas, quem paga não são eles. E como podem levar informação plural ao público, se são pagas pelo governo, se seus dirigentes são nomeados pelo governo?

 

Revide

Orlando Kissner, um dos mais conhecidos repórteres fotográficos do Paraná, cobria os trabalhos da Assembléia Legislativa quando o governador do estado, Roberto Requião, resolveu fazer uma daquelas brincadeiras que o notabilizaram: disse que o jornalista era parecido com o retrato falado de um assassino e estuprador de Caiobá. Ah, como é duro não se dar ao respeito (ou, citando Sarney, de novo na crista da onda, não manter a liturgia do cargo)! Kissner, olhando firme para o governador, disse-lhe algo a respeito de um tomate cru, ou coisa parecida. Requião insistiu: disse que Kissner era grosso e insistiu na piada. Kissner bateu duro: ‘Sua mãe é que é parecida’. Requião foi embora.

Kissner está errado: a mãe de Roberto Requião certamente não tem nada a ver com o comportamento do filho. Mãe nenhuma educaria o filho desse jeito.

 

Por que o silêncio? 1

A suspeita não veio de qualquer um: foi lançada por escrito, e assinada, por José Dirceu de Oliveira e Silva, um dos cardeais do PT, antigo homem-forte do governo Lula. Dirceu disse que considerava estranha a venda de parte do Banco Votorantim ao Banco do Brasil, e que, se fosse um bom negócio, os bancos privados também teriam se candidatado à compra.

E os meios de comunicação, passadas já algumas semanas, continuam se comportando como se nada houvesse acontecido. Não, ninguém quer que assumam as suspeitas de Dirceu. Mas poderiam ouvir o presidente do Banco do Brasil sobre o negócio, levando a eles as dúvidas de um companheiro de partido do presidente Lula. Poderiam, mesmo em off, consultar dirigentes de grandes bancos nacionais e internacionais, para saber por que não se interessaram pelo negócio. Mas fez-se o silêncio. Parece que aquela história, de que em boca fechada não entra mosca, é mais verdadeira do que possamos imaginar.

 

Por que o silêncio? 2

Este colunista deve ter prestado pouca atenção às notícias: não é possível que, tanto tempo já passado, não tenha saído ainda o resultado da investigação sobre a cratera do metrô de São Paulo (e é claro que, se o resultado continuasse ignorado, os meios de comunicação estariam fazendo um tremendo escarcéu). Morreu gente, houve prejuízos grandes, e não é admissível que não se saiba sequer por que aquilo aconteceu. Não dá nem para falar em herança maldita, coisas desse tipo: a obra foi contratada num governo tucano, o buraco se abriu no governo tucano seguinte. De qualquer forma, a tendência oficial sempre é, nas palavras imortais do então ministro Rubens Ricúpero, mostrar o que é bom e esconder o que é ruim. Mas a tendência da imprensa tem de ser oposta: a de, como o governo, mostrar o que é bom, mas também o que não presta.

 

Ação e reação

O leitor Saulo Tavares, de Fortaleza, está com uma dúvida: como fica a relação do leitor com os blogs, quando se trata de liberdade de imprensa e direito de resposta? Segundo conta, os editores de um blog da capital cearense o bloquearam, porque contestava suas informações, comentários e análises.

O problema, Tavares, é que há muita gente que se considera jornalista na hora de criticar e de obter apoio quando é processada; mas não se comporta de acordo com os princípios da profissão, que incluem o direito de resposta. Os moderadores do blog têm como missão evitar excessos, ofensas, agressões verbais; às vezes, extrapolam e passam a cortar quaisquer manifestações contrárias ao pensamento ali dominante.

Sempre se pode recorrer à Justiça para conseguir um direito de resposta, mas sai caro e demora. Mas sempre é possível recorrer ao provedor, ao Sindicato dos Jornalistas, a outros blogs, mostrando que naquela coluna há tendência autoritária. E esperar que o tempo passe, para filtrar naturalmente quem tem o que dizer e quem só pensa em difamar e insultar.

Mas nós, jornalistas, não podemos ficar passivos: este é um bom tema para ser debatido nos congressos, seminários e reuniões. Como resolver o problema?

 

Como…

De um portal noticioso importante, ligado a um grande jornal, no noticiário sobre ensino superior:

**‘Privadas concentram vagas ociosas’

Parece que as vagas são abundantes.

 

…é…

Também de um grande portal noticioso:

**‘300 casais urinam-se através do casamento comunitário’

Apenas uma troquinha de letra – que confusão!

 

…mesmo?

De uma coluna noticiosa das mais importantes, informando que o blog de Ricardo Kotscho passaria a ter controle prévio dos comentários recebidos:

**‘Blog do Kotoscho passa a ter moderação prévia’

Há muitos anos, num grande jornal, havia uma desproporcional quantidade de chefes mancos. Um deles brincava, dizendo que só tinha contratado o Kotscho porque achava que não era nome, era apelido. E o Kotoscho, seria contratado?

 

E eu com isso?

José Aníbal é líder ou não, considerando-se que um terço da bancada tucana não o tolera? E o homem do castelo, que não o declarou no imposto de renda, fica ou não fica na chefia da comissão que cuida do decoro parlamentar?

Não se preocupe: como cansou de garantir o Fórum Social Mundial, aquele das 600 mil camisinhas, um outro mundo é possível. Neste outro mundo…

**‘Homens suspeitam de mulheres com queixo largo, diz estudo’

**‘Maurício Mattar pode estar com novo amor’

**‘Ladrão usa frango congelado para invadir café’

**‘Justin Timberlake ganha festa surpresa da namorada Jessica Biel’

**‘Ticiane Pinheiro está grávida de uma menina’

 

O grande título

Há dois grandes exemplares, coisa de primeira linha. O primeiro se refere às atividades do novo presidente da Câmara dos Deputados:

**‘Temer disse que vai elaborar um calendário que preveja, com antecedência, as votações’

Preveja com antecedência. Deve ser complicado: no Brasil, diz o professor Delfim Netto, é difícil até fazer previsões sobre o passado.

E o outro é profundo, traz as mais complexas deduções e conotações:

**‘`Dentro de mim há um gay que quer sair´, diz Victoria Beckham’

Como diria Oswaldo Brandão, lendário técnico de futebol, bola que sobe sempre desce. E só dá para sair depois de entrar.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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