Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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ARMAZéM LITERáRIO >

Leitores sem redenção

Por Marcia Caetano em 11/07/2006 na edição 389

Parece que o suplemento Prosa & Verso, do jornal O Globo, está aderindo a um certo ‘movimento’ que eu vejo nascer na imprensa ultimamente. O JB Barra (caderno de bairro do JB) já lançou o manifesto em coluna semanal fixa de crítica de cinema sob a seguinte definição: ‘Crítica para quem não gosta de críticos’. Nela, pessoas sem qualquer aparato intelectual para avaliar uma obra cinematográfica ganham um bom espaço para expressar uma opinião pessoal sobre os filmes em cartaz. Acho que o Prosa & Verso, ao publicar o texto de Ezequiel Neves sobre o livro em questão, poderia também assumir: ‘Resenha para quem não gosta de resenhas’. Mas, se o leitor de um suplemento chamado Prosa & Verso não gosta de literatura, meu Deus, então realmente estamos perdidos. Volto à resenha de Ezequiel Neves, o ‘compositor e produtor musical’ escalado para a tarefa:

1) Logo de início, no primeiro parágrafo, dirigindo-se diretamente ao leitor, ele já enumera as qualidades do texto: ‘Um estupro’, ‘contos máximos’, ‘mundo de trevas e fumaças abrasadoras’. Mas, e o texto? Ele quantifica: ‘Alguns (contos) de 30 páginas’.

2) Depois, ele muda de assunto e parte para analisar o autor. Ele é ‘diabólico’, seu estilo é ‘meticuloso’. Sua homossexualidade e alcoolismo não assumidos se transmutam nos fantasmas descritos nos contos (aqui, pelo menos, ele expressa um esboço de análise da obra, mas pára nesta frase mesmo).

3) Novamente, muda de assunto. Fala da época em que os contos foram escritos, fazendo paralelos com a carreira do autor (‘Se suas peças não fossem encenadas, ele conseguia sobreviver só escrevendo um conto por ano’ – aliás, aqui a grafia da frase deixou-me em dúvida: ele de fato sobrevivia com um conto por ano ou não? Isso é uma hipótese ou uma afirmação?), sem mencionar qualquer referência ao conteúdo dos textos dos contos, ou mesmo ao conteúdo de outras obras de Williams.

4) Finalmente, ele entra nos contos. Faz uma resenha de alguns (que me fez saudosamente recordar o meu curso primário, quando a professora de literatura nos solicitava que escrevêssemos um resumo do livro na prova final, só para mostrar que de fato o havíamos lido) e volta a dirigir-se ao leitor, exaltando as qualidades da obra. ‘O livro é genial, um terremoto atrás do outro. Nem pense em redenção. Você está na terra, não há remédio’.

Aqui, pelo menos, eu fiquei aliviada. O autor da resenha, tal qual um visionário cósmico, conseguiu prever exatamente como eu me sentiria ao ler o seu texto e me fez o favor de resumir meus sentimentos da maneira mais precisa possível. E sou forçada a concluir, como Ezequiel Neves, que, para nós, leitores tristes do Prosa & Verso, não há redenção.

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Jornalista e mestre em Literatura, Rio de Janeiro

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