Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Leitura aos bits

Por Carla Peralva em 10/08/2010 na edição 602

O livro digital é como o gás encanado. O produto é idêntico ao que chega pelo botijão – mas você só precisa abrir o registro para usá-lo. A comparação é de Zeca Fonseca, autor que publicou eletronicamente seu primeiro livro, O Adorador, e só depois recorreu ao papel para divulgar sua obra. Para ele, os e-books vieram para difundir todo o conhecimento criado pelas pessoas, mas de forma mais rápida.

Mike Shatzkin, fundador e CEO da The Idea Logical Company, que presta serviços de consultoria sobre toda a cadeia produtiva do livro, acredita em uma mudança de hábitos dos leitores e prevê que os livros digitais superarão em poucas décadas, em quantidade e em preferência, seus primos impressos. Ele falará sobre o futuro do livro no Fórum Internacional do Livro Digital, evento a ser apresentado nos dois dias anteriores ao início da Bienal do Livro de São Paulo (que acontece entre os dias 12 e 22 no Anhembi).

Só nos EUA, o mercado editorial eletrônico mais que duplica a cada ano. A Amazon, por exemplo, já experimenta os efeitos dessa migração: em um ano, a venda dos mais de 630 mil títulos de e-books representaram um crescimento de 200%, superando a de livros de papel. [N. do E.: A venda de e-books superou em volume apenas um segmento dos livros de papel, o dos lançamentos em capa dura.]

Risco de pirataria

Pessimistas preveem o fim das editoras, mas a maioria dos especialistas acha que esse é o momento certo para elas se reinventarem. O americano Mark Coker aposta em um modelo de publicação digital baseado na autonomia dos autores e na interatividade entre leitores. Em 2009, criou a plataforma Smashwords, que hoje já conta com mais de 6.500 autores profissionais e centenas de independentes.

Funciona assim: o autor formata seu livro de acordo com um manual disponível no site e sobe o arquivo de Word no Smashwords. O site converte-o para o formato certo dos livros digitais e disponibiliza nas maiores lojas de e-books, como Kindle Store, iBooks, Sony Reader Store e Barnes & Noble. Quem determina o preço é o próprio autor, que fica com 85% da receita gerada pelas vendas (menos as taxas cobradas pelo serviço de pagamento online), contra o máximo de 25% pagos pelas grandes editoras americanas.

Esse é um modelo em que autores independentes têm mais facilidade para lançar seus livros no mercado, sem que precisem passar pelo crivo das editoras. Coker diz que não considera justo um editor julgar a obra de alguém e decidir quanto ela vale levando em conta seu potencial de venda. Para ele, o autor deve ter o direito de decidir como seu livro será oferecido aos leitores. ‘Todos têm o direito de publicar um livro, de fazer parte da literatura’, diz.

O risco da pirataria é superestimado, segundo Coker. Sim, no ambiente digital é mais fácil copiar livros e deixar de pagar direitos autorais. Mas o criador do Smashwords crê que os leitores estão dispostos a pagar para ler eletronicamente e que travar um arquivo – como faz a maioria das revendedoras de e-books, com o DRM – é tratar o leitor como um criminoso.

Impressão sob demanda

Ao contrário dos usuários exclusivos de computadores, que estão habituados a adquirir conteúdo gratuitamente, quem usa smartphones e e-readers já está acostumado a pagar pequenas quantias por aplicativos, por exemplo. Pensando nisso, distribuidores de e-books focam prioritariamente na leitura em tablets para rentabilizar seus negócios. Os irmãos Luciana e Duda Ernanny começaram a Gato Sabido, primeira e-bookstore brasileira com o propósito de vender de tudo: de best-sellers a edições que não são mais encontradas em papel e obras inéditas de autores independentes. Para incentivar a compra de livros digitais, que ainda engatinha no Brasil, importam e comercializam o Cool-er, leitor digital que usa a tecnologia de tinta eletrônica, similar a do Kindle.

O Smashwords pretende chegar em breve ao Brasil. Com uma parceria fechada com a editora Singular Digital, todo o conteúdo lá disponível será vendido nos canais brasileiros, e as obras de autores nacionais serão comercializadas nas lojas estrangeiras que abastecem os e-readers de todo o mundo. Até o fim do ano, diz Newton Neto, diretor-executivo da Singular, o Smashwords deve ser trazido completamente traduzido para o País.

Outra aposta da Singular é o livro sob demanda, que permite a impressão rentável de pequenas tiragens. Esse modelo provou ser bem sucedido com a Amazon, que já tem mais de 85% de seus livros vendidos dessa forma. Para Neto, grandes tiragens não fazem mais sentido para a maioria dos livros, pois geram um gasto desnecessário de impressão e armazenamento – além do risco de encalhe. Além disso, dificultam que os leitores encontrem essas obras quando suas edições estão esgotadas, mas ainda não há demanda suficiente para que se imprima outra. Segundo ele, a expansão do mercado de livros digitais nos Estados Unidos foi precedida, do ponto de vista das editoras, pelo modelo de impressão sob demanda, que tornou a experiência de compra mais proveitosa para o leitor e capitalizou os arquivos digitalizados das obras.

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‘Todo mundo lerá em telas’

Carla Peralva entrevista Mike Shatzkin

Os livros impressos perderão espaço para os digitais?

Mike Shatzkin – Sim. Devemos nos perguntar: em que medida a venda de um livro digital significa que um impresso não foi vendido? Ou, em que medida um e-book vendido representa um novo consumidor? Acredito mais na primeira opção: há uma substituição de vendas. Daqui a 20 ou 30 anos, acho que todo mundo lerá em telas. Em cinco anos, metade dos livros serão digitais. Em dez, 75%.

Então, acredita que a popularização dos e-books não vai criar novos leitores?

M. S. – Eu acho que, em grande parte, o mercado de leitores digitais é o mesmo que compra livros tradicionais. As pessoas estão mudando seus hábitos. Elas costumavam ler em papel e, agora, estão descobrindo que preferem ler em um Kindle, ou em um iPad. Talvez porque o e-reader já está com elas todo o tempo e não seja necessário carregar um livro também. Muitas compram um iPad por muitas razões e descobrem que podem ler livros neles. Pode ser que não lessem livros antes e passem a ler e-books. Haverá um crescimento no número de leitores e isso fará o mercado crescer, mas só um pouco.

Autores vão passar a escrever pensando especificamente em publicações digitais?

M. S. – Isso já está acontecendo. Primeiro, porque você pode publicar um e-book sem investir dinheiro. Além disso, há pessoas criando coisas que só podem ser feitas eletronicamente. Uma mulher do Reino Unido está fazendo um romance em que um casal só se fala por Skype. E, em partes da história, você assiste ao vídeo dessas conversas. Nós veremos cada vez mais experimentações desse tipo, mas não acredito isso vá substituir ou enfraquecer o romance tradicional.

Se as pessoas podem publicar e-books sozinhas, como ficam as editoras?

M. S. – As editoras deveriam estar preocupadas com sua sobrevivência. Elas existem porque colocar palavras em um pacote apresentável que pode ser vendido para um consumidor requeria dinheiro, organização e perícia. Quando isso não é mais necessário, seu modelo de negócio está comprometido.

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O formato muda a linguagem

O filósofo canadense Marshall McLuhan dizia que ‘o meio é a mensagem’, referindo-se ao poder que o meio de comunicação tem de determinar o entendimento de um conteúdo. Se pudesse ser questionado sobre o futuro da literatura no mundo digital, ele com certeza apostaria na transformação da percepção da palavra escrita pelos leitores.

Com os livros digitais, escritores e editoras têm novas possibilidades em vista. Tudo que antes era restrito pelo papel e pela tinta agora é possível: interatividade, links com informações adicionais, trechos escritos substituídos por vídeos, infográficos e ate funções sociais.

Autores e publicadores já perceberam o potencial que os e-books possuem, e estão explorando as novas linguagens que podem integrar lançamentos e reedições de clássicos.

Em 2009, a startup Vook foi pioneira nesse processo e lançou aplicativos para leitura em celulares e na internet. Mas, com a chegada do iPad, a integração de mídias fica muito mais fácil e começa a ser levada a sério.

Em parceria com a editora Nova Fronteira, a Singular Digital irá lançar uma versão eletrônica do livro 1808, de Laurentino Gomes, que narra a vinda da família real portuguesa para o Brasil. O e-book será lançado na Bienal do Livro, que começa no próximo dia 12, e conta com fotos, vídeos e recursos multimídia que fizeram parte da pesquisa do autor – como o quadro Coroação de Dom Pedro I (acima), de Debret. Newton Neto, diretor-executivo da Singular, crê que as editoras que estão entrando no mercado eletrônico precisam investir em novos formatos e sair do digital estático.

Mike Shatzkin, consultor especializado na cadeia produtiva do livro, diz que várias experimentações desse tipo serão feitas nos próximos anos e ganharão entusiastas. Um risco para a literatura tradicional? Não, apenas mais um jeito de contar histórias.

Mark Coker, da editora digital Smashwords, também acha que os romances estão a salvo. Para ele, os recursos multimídias fazem mais sentido em livros não ficcionais, que trazem informações que podem ser enriquecidas por vídeos e fotos. Mas, a literatura ficcional, diz ele, pede um momento introspectivo, de imersão, em que as imagens são criadas na cabeça do leitor, guiado apenas pelas palavras. (Carla Peralva)

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