Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > LIVROS 2009

Leituras e releituras de grandes obras

Por José Aloise Bahia em 12/01/2010 na edição 572

Freud: a conquista do proibido, de Renato Mezan, Ateliê Editora, São Paulo, SP, 2003, 164 pp., R$ 25,00; Poesia Eletrônica: negociações com os processos digitais, de Jorge Luiz Antonio, Fapesp, Itu, SP; Editora Veredas & Cenários, Belo Horizonte, MG, 2008, 200 pp., R$ 30,00; O guesa, de Joaquim de Sousa Andrade, Editora Demônio Negro, São Paulo, SP, 2009, 382 pp., R$ 75,00; Como deixei de ser Deus, de Pedro Maciel, Topbooks Editora, Rio de Janeiro, RJ, 2009, 150 pp., R$ 29,00; A Grande feira: uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea, de Luciano Trigo, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, 240 pp. + 16 de Encarte Colorido, R$ 34,90; Reduchamp, de Augusto de Campos e Julio Plaza, Editora Demônio Negro, São Paulo, SP, 2009, 70 pp., R$ 40,00; Kafka e a marca do corvo, de Jeanette Rozsas, Geração Editorial, São Paulo, SP, 2009, 186 pp., R$ 26,00; Kiryrí Rendáua Toribóca Opé: Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck, de Ronaldo Werneck, Editora Arte Paubrasil, São Paulo, SP, 2009, 450 pp., R$ 69,90; Calúnia: Elisa Lynch e a Guerra do Paraguai, de Michael Lillis e Ronan Fanning, tradução do inglês por Marisa Paro, tradução do espanhol de Declaração – Protesto que faz Elisa A. Lynch, por Silvana Cobucci Leite, Editora Terceiro Nome, São Paulo, SP, 2009, 312 pp., R$ 48,00; Nina, roteiro de Cristina Judar e Arte de Bruno Auriema, Editora Estação Liberdade, São Paulo, SP, 2009, 80 pp., R$ 35,00; Euclidianos e Conselheiristas: um quarteto de notáveis, org. Walnice Nogueira Galvão, Editora Terceiro Nome, São Paulo, SP, 2009, 120 pp., R$ 29,00; Tribo do Mouse: histórias, dicas e truques do mundo corporativo, de João Paulo Reginatto, Juarez Poletto Junior e Ulisses Ponticelli Giorgi, Editora Fábrica de Livros, Porto Alegre, RS, 2009, 224 pp., R$ 34,00.

Setenta anos após a sua morte, relembrada em 23 de setembro de 2009, Freud (1856-1939) continua sendo uma referência básica na História Universal. Escrevendo a seu amigo e confidente, o médico alemão Wilhem Fliess (1858-1928), entre 1887 e 1902 (período em que Freud fez as suas descobertas fundamentais. As cartas foram resgatadas – pagas – pela princesa grega Maria Bonaparte, grande amiga, admiradora de Freud e defensora da psicanálise. Ela ajudou também na retirada da família de Freud, durante a ocupação nazista em Viena, Áustria), observa: ‘Não sou um médico, nem um cientista. No fundo, sou um conquistador, com todas as características deste tipo de pessoa’. Alguns leitores podem levantar a eterna lebre: o que ele conquistou? De que maneira? Com certeza, muitos sabem parte da primeira questão: o proibido, a sexualidade, o reprimido e o inconsciente. Uma resposta mais consistente, suplementar e de qualidade para as duas perguntas é a leitura do renovado Freud: a conquista do proibido (Renato Mezan, Ateliê Editora, São Paulo, SP, 2003, 164 Páginas, R$ 25,00), boa fonte de esclarecimentos.

Com informações biográficas, o professor titular da PUC/SP, pesquisador, escritor e também psicanalista Renato Mezan escreveu um breve estudo ricamente sustentado por interpretações e referências bibliográficas que vai de Gunnar Brandel, Cornelius Castoriadis, Ernest Jones, Jacque Lacan, Maurice Merleau-Ponty, até Conrad Stein, entre outros. Numa linguagem acessível e rica em detalhes, o exemplar cativa qualquer tipo de leitor, desde o mais humilde ao mais letrado. Um encanto radical para quem quer aumentar o conhecimento sobre este polêmico senhor Sigismund Schlomo Freud, que desafiou o pensamento Ocidental e ajudou a desvendar a humanidade.

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Não é qualquer livro que tem na orelha esquerda Omar Khouri, e na outra Lucio Agra! Ou seria o contrário? Tanto faz, pois os dois são profundos conhecedores da temática. E, para completar o cenário, prefácio de E. M. de Melo e Castro e Christopher T. Funkhouser da New Jersey Institute of Tecnology, Newark, NJ, EUA. Melo e Castro deixa a sua mensagem objetiva, clara e importante: ‘Para o leitor e utilizador inventivo das tecnologias, este é um dos maiores interesses deste livro, mas igualmente o Glossário, a Cronologia, a Bibliografia e a Antologia de poemas e textos teóricos que constituem os Anexos incluídos no CD-Rom complementar, contêm informação preciosa e difícil de conseguir assim sistematizada: A poesia eletrônica, em suas diferentes fases, é composta por uma linguagem tecno-artística-poética e é sob este viés que ela pode ser lida e apreciada. (…) Ela existe no espaço simbólico do computador (internet e rede), tendo como forma de comunicação poética os meios eletrônicos-digitais que se vinculam a esses componentes. De um modo geral, ela só existe nesse meio e só se expressa, em sua plenitude, por meio dele’. Num dos grandes lançamentos do segundo semestre de 2009, Poesia Eletrônica: negociações com os processos digitais (Jorge Luiz Antonio, Fapesp, Itu, SP; Editora Veredas & Cenários, Belo Horizonte, MG, 2008, 200 Páginas, R$ 30,00) repercute uma das melhores pesquisas contemporâneas dos últimos tempos, reunindo literatura, crítica literária, teoria da literatura e ensaios sobre as interfaces da poesia, arte, ciência e tecnologia. E muito mais: poesia eletrônica, tecnopoesia e as relações da poesia com o computador, arquivos eletrônicos, programas, internet, rede, texto eletrônico, hipertexto e hipermídia. Não esquecendo outro fato, já apontado anteriormente por Melo e Castro: o livro vem com CD-rom, acrescentando uma leitura multimídia, o que é certamente enriquecedor. O enfoque central do livro reside em analisar, estabelecer relações reflexivas com as distintas produções poéticas e experimentos que negociam com os processos digitais. O conjunto de exemplos estudados permite chegar a uma rica tipologia, que não encerra o assunto. Pelo contrário, a cibercultura é uma fonte inesgotável para novas releituras, enfoques ou leituras particularizadas.

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Edição especial para colecionadores do escritor maranhense, que merece lugar de destaque nas melhores estantes. Leitura obrigatória com a ortografia da época, realçando a estética oitocentista. O guesa (Joaquim de Sousa Andrade, Editora Demônio Negro, São Paulo, SP, 2009, 382 Páginas, R$ 75,00), poema-exílio, errante, revela um estrangeiro em sua própria língua – o autor escreveu partes do livro nos Estados Unidos. Lirismo desconcertante, construção, tensão, resoluções e rupturas proto-modernistas. Descida aos infernos, no qual foi preciso quase 100 anos para que a poesia de Sousândrade (1832-1902), que estudou na Sorbonne de Paris, França, fosse relida, compreendida, ruminada e assimilada com o seu estilo híbrido e repleto de neologismos. Dividido em 13 cantos em sua grafia multilinguar, incorporando os índios da Amazônia, Adão, Eva, Evangelhos e os animais sagrados da Terra, em diálogo com o mito de Bochica, do qual Sousândrade foi recolher nos estudos do notável lingüista alemão Wilhelm von Humboldt (1767-1835). A alegoria do poeta maranhense, na pregnância do estilo fragmentado, assume a condição de persona do índio peregrino, embaralhando na linguagem imagens da natureza, sentimentos poéticos e reflexões sociais. Como bem observa Augusto de Campos na apresentação do livro: ‘Toma o partido dos povos aborígenes da América e dos africanos escravizados contra a opressão e o domínio dos colonialistas. Vivendo no Brasil imperial, preconiza o modelo político republicano, que associa utopicamente ao sistema comunitário dos Incas’. Ou ainda na análise de Ana Carolina Cernicchiaro, no Anuário de Literatura (Florianópolis, SC, 2007) é ‘um périplo de dissonâncias, de ruptura, de desvio, enfim de combate com a língua dentro da própria língua’. O relançamento da Demônio Negro, um primor de produção artesanal, possui a notável característica de respeitar o teor original da obra, publicada pela primeira vez em 1871 nos Estados Unidos da América. E tornar mais próximo aos leitores contemporâneos o principal livro de Sousândrade, após o resgate do autor na década de 1960 pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos.

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Esta ficção, com certeza, não é deste mundo. Com elogios de Luis Fernando Verissimo, Antonio Cicero, Moacir Scliar, críticos e outros escritores, Como deixei de ser Deus (Pedro Maciel, Topbooks Editora, Rio de Janeiro, RJ, 2009, 150 Páginas, R$ 29,00) representa a imaginação fértil de uma linguagem original até o reino da sublimação. Mudanças de estados físicos e Desvio para o vermelho. Um livro necessário com capa de Cildo Meireles. O exercício de sua reflexão é seduzido por metáforas – que dissolvem uma cultura marcadamente saturada –, aforismos, epigramas, polissemias, intertextualidades, fragmentos concisos e aleatórios, numerados de forma descontínua. Metamorfoses. E o mais importante: nutre o desejo do leitor para ir além. Pois, pode ser lido num estalar de dedos do início ao fim. Ou, uma leitura que reinventa o romance, obra aberta, podemos escolher qualquer página e perceber calmamente uma narrativa que desagrega os mitos e os cânones; dar um stop para sentir os prolongamentos líricos e perturbadores. Que leva o espectador a pensar e indagar que personagem é este (o do livro e o próprio leitor) que desconstrói o tempo e o espaço em meio às alusões literárias, bíblicas, psicológicas e filosóficas. Não conclui nada e nem deve. Conceitual. Por isso uma obra aberta em expansão aos olhos dos mais atentos. É intencional a atitude do escritor ao alinhavar os fragmentos, no qual a intercomunicação se completa. Esta atitude instala a multiplicidade de interpretações e a ampliação dos significados. ‘Meu Deus, por que me abandonastes? (…) no fundo do lago, um náufrago‘, perfazendo o diálogo sibilante com o romance anterior (A hora dos náufragos), mais comportado em sua proposta inicial da tetralogia. O que nos resta além da emoção é uma instigante cosmologia irônica, não existindo até o momento algo similar na língua portuguesa da atualidade.

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Na era da incerteza, a arte contemporânea multiplica-se em autênticas controvérsias. Revela, em seus deslocamentos/desdobramentos, uma falsa consciência do vazio e a primazia da inefabilidade. Sobre o império do discurso e do não discurso acerca da percepção, o tom sombrio da linguagem e seus impasses, descortinam-se numa crise profunda. Todavia, plena em vinculações do artista com o complexo mercantil tutelado por várias instituições do mercado. A Grande feira: uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea (Luciano Trigo, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 2009, 240 Páginas + 16 de Encarte Colorido, R$ 34,90) define-se como uma resistência ao declínio e vertigens em que se transformou a arte do nosso tempo. Reconhece e compreende as banalidades da diluição e os efeitos de uma estética equivocada de determinados setores artísticos (a maioria) e suas produções de baixa qualidade. Com argumentações diferenciadas pelo olhar crítico – Duchamp deve estar vendo tudo lá de cima de camarote, fumando um charuto e jogando xadrez (com uma mulher, é claro!) –, o autor reúne um conjunto de ensaios, artigos e comentários publicados na imprensa e na internet em defesa da verdadeira arte contemporânea. A arte não conformista, criativa, não corrompida na sua totalidade, que desafia os sofismas e rompe as fronteiras da imaginação. Vale observar, refletir em estado de um pequeno choque elétrico, ou tonteira de passagem, o trecho do livro: ‘Até o projeto moderno, uma obra de arte era autônoma em relação à sua exposição, isto é, uma pintura de Matisse ou Picasso, mesmo que jamais fosse exposta, continuaria sendo uma obra de arte. Ou seja, o local onde a obra era exposta não interferia diretamente no seu significado. Ora, o mesmo não se dá com a arte contemporânea, na qual o objeto artístico não pode mais existir sem sua exposição. Uma estante de vidro e aço com pílulas coloridas de Damien Hirst só se torna obra de arte quando é designada como tal pelo sistema da arte, exposta e comercializada por um preço exorbitante; antes disso, será apenas uma estante com pílulas coloridas’.

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Parceria da pesada! Ou melhor, um trio peso-pesado: Augusto de Campos, Marcel Duchamp e Julio Plaza. Reduchamp (Augusto de Campos e Julio Plaza, Editora Demônio Negro, São Paulo, SP, 2009, 70 Páginas, R$ 40,00), com certeza, um dos melhores (re)lançamentos do ano, haja vista que a primeira edição, 1976, esgotada há tempos, não está disponível nem mesmo nos melhores sebos da praça. Muito menos on-line. Duchamp numa reação em cadeia. Atualíssimo! Deslocamentos/desdobramentos e profanações sagradas (um oxímoro, a figura de linguagem predileta do Affonso. Sim, Affonso Romano de Sant´Anna!) neste encontro que produziu Poemóbiles (1974, reeditada em 1985) e Caixa preta (1975). Augusto na poesia & Julio nas imagens em preto e branco. Trabalho primoroso, poema ensaio, prosa porosa, iconogramas em preto em branco, tendo no centro do exemplar uma boca escancarada cheia de dentes: Enigma. E ao final um furo na página em branco. Do outro lado… Cabe ao leitor produzir os sentidos na sua imaginação fértil e correlacionar o que ainda não cessou: ‘o poeta é um designer da linguagem’. Não poderia terminar este breve texto com uma pequena passagem, acompanhada de reticências: ‘Dados os dados/ duchamp nos dá/ uma opção estratégica/ aparente viável/ ante o bloqueio massacrante/ do dilúvio informativo/ a ação na raiz das coisas/ sem suportes apriorísticos:/ um livro ou um vidro/ uma capa ou um corpo/ um postal ou um disco/um dado ou um vaso/ um xeque ou um cheque/ ou o silêncio…’

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Determinados livros possuem características imaginativas e singulares, são dinâmicos. Refazem ou confirmam, de modo criativo, os acontecimentos históricos dos seus personagens principais. Ou ainda, de maneira aguda, podem ‘ser o machado para o mar enregelado que temos dentro de nós’. É o caso de Kafka e a marca do corvo (Jeanette Rozsas, Geração Editorial, São Paulo, SP, 2009, 186 Páginas, R$ 26,00). Detalhe que não pode passar batido: a palavra kafka em tcheco quer dizer corvo. A autora levou três anos em pesquisas e viagens ao exterior, para escrever a primeira biografia romanceada de Franz Kafka (1883-1924). Um romance cativante! O interessante são os diálogos metamorfoseados na construção dos trechos, extraídos dos próprios livros, diários e cartas do gênio de Praga, histórica e muito antiga, a cidade das torres, capital da atual República Tcheca, banhada pelo rio Vltava. Observa-se também, pelos agradecimentos da escritora, a presença iluminada do paulista Modesto Carone, ganhador do Jabuti 1999 com o romance Resumo de Ana (Cia. das Letras, São Paulo, SP, 1998), ex-professor de literatura da Universidade de Viena (Áustria), Unicamp e USP, um dos maiores estudiosos, conhecedores da vida e grande tradutor da obra de Kafka. No mesmo nível, não podemos esquecer, uma raridade nos melhores sebos, o sempre útil Kafka: vida e obra (Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, 1979, 5ª edição) do pensador, pesquisador, filósofo e escritor fluminense Leandro Konder. O exemplar é uma narrativa simples, cronológica, não se limitando a descrever o conhecido, mas incorpora à história a chama da obsessão irreal da liberdade, moderna, na qual autor e obra se confundem, pontuada pela ‘intensa e meticulosa pesquisa que alicerça toda a construção’, como bem observa Nelson de Oliveira, numa das orelhas. Maior que a morte, o mito de Kafka continua vivo no discurso onisciente e triunfante, magistral no exemplar da escritora, diretora da União Brasileira de Escritores (UBE), ricamente ilustrado com imagens da época e obras consultadas, no final da publicação. Veja a resenha no Observatório da Imprensa.

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Ensaio, crítica, trajetória e imagens primorosas, obra híbrida e luxuosa, universo instigante sobre um dos mais importantes cineastas brasileiros de todos os tempos. Outro grande lançamento do ano! Patrocinada pela Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, CEMIG, Filmes de Minas e o governo do Estado de Minas Gerais, Kiryrí Rendáua Toribóca Opé: Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck (Ronaldo Werneck, Editora Arte Paubrasil, São Paulo, SP, 2009, 450 Páginas, R$ 69,90), significa uma película repleta de depoimentos consistentes, entrevistas, fotografias em preto e branco, citações e diálogos; enfim, uma pesquisa excelente na qual aparecem Glauber Rocha, Paulo Emílio Salles Gomes, Sheila Schvarzman, dentre outros atores, diretores e estudiosos. Mais os comentários do autor, que conviveu, a partir da década de 1970, com o ilustre amigo nas suas idas e vinda (pois vivia e trabalhava no Rio de Janeiro) a Volta Grande e Cataguases, MG, terra natal de Ronaldo Werneck, e onde foi criado Humberto Mauro (1897-1983). Um grande presente: o resgate de Humberto Mauro em seqüências/capítulos magistrais configura a afirmação constante do cinema brasileiro, pois o livro além dos múltiplos enfoques apresentados, esclarece acontecimentos relevantes para os cinéfilos, pesquisadores, historiadores e os espectadores mais novos, sobre a importância do cineasta mineiro para a formação da cultura nacional. Um detalhe interessante no título é a expressão ‘Kyrurí Rendáua Toribóca Opé‘, que na língua tupi-guarani significa ‘lugar de calma e sossego no Rancho Alegre’, estampada na entrada do sítio de Humberto Mauro em Volta Grande, MG, sua terra natal. Vale relembrar a resposta do cineasta à pergunta ‘Que conselho você daria aos cineastas brasileiros?’, numa entrevista feita por Miguel Perreira (Revista Manchete, 03/02/1973): ‘Que procurem avançar cada vez mais, descobrindo sempre uma forma nova de contar a história. Mas mensagem não se deve dar. Também estou precisando de conselhos para poder planejar melhor o que vou fazer no futuro. Não acho que seja necessário falar só de coisas brasileiras, mas é muito melhor tocar em assuntos nossos. A arte brasileira é motivo brasileiro universalizado. Desde que você faça a verdadeira arte, ela será universal.’

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Sem dúvida alguma, um dos fatos históricos decisivos para o Brasil e a América do Sul foi a Guerra do Paraguai. Fato ainda pouco comentado, estudado e refletido com pertinência pelos cidadãos tupiniquins. Em Calúnia: Elisa Lynch e a Guerra do Paraguai (Michael Lillis e Ronan Fanning, Tradução do Inglês por Marisa Paro, Tradução do Espanhol de Declaração – Protesto que faz Elisa A. Lynch – por Silvana Cobucci Leite, Editora Terceiro Nome, São Paulo, SP, 2009, 312 Páginas, R$ 48,00) temos uma boa oportunidade para rever de forma lúcida este acontecimento. A figura central é uma mulher (Elisa Lynch), amante irlandesa do ditador Solano López, brilhantemente resgatada pelos escritores e historiadores também irlandeses Michael Lillis e Ronan Fanning, que garimparam os arquivos da Irlanda, Inglaterra, França, Argentina, Paraguai e Brasil. Interessante observar que o livro além de ser uma aula de historia é uma narrativa complexa que tem algumas semelhanças com romances de detetive. Entre as reflexões de Elisa Lynch, aproximando-se dos procedimentos literários de Proust, Olgária Matos tece o comentário elucidativo: ‘Calúnia oferece três planos simultâneos de interesse cultural: a pesquisa histórica que o inscreve nas competências da análise documental e o estabelecimento dos critérios de validades; a reconstituição do imaginário de uma época em meio às Guerras de Independência e a constituição das políticas de centralização autoritárias; o gênero literário e seu destaque entre as biografias históricas. Além de reabrir o passado, amplia os horizontes, não para contar a `história do vencido´, mas refletir sobre as injunções que tornaram possível, de ambos os lados, a barbárie. O livro não prescinde da consideração do papel das paixões nas decisões políticas, afastando-se da noção de uma objetividade assegurada pelo sentido único dos eventos políticos’. Outro bom lançamento de 2009, que merece ser evidenciado nas universidades nacionais, pois é uma excelente obra e deve servir de subsídio tanto para as futuras pesquisas da graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Contando, é claro, com a colaboração do exercito brasileiro, para que abra os arquivos da Guerra do Paraguai, inexplicavelmente não acessíveis até hoje.

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Projeto realizado com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Programa de Ação Cultural 2008, que descreve a evolução e crises existenciais de uma inquieta personagem urbana. Situações melodramáticas, antiquário, estética e desenhos pops, roupas descoladas, show de rock, lembranças da infância, pesquisas na internet e a solidão nada amigável. Uma História em Quadrinhos sensível, expressionista, criativa e bela, retomando de certa forma a explosão de personagens femininas, muito comum neste gênero, na década de 1990. Em Nina (Roteiro de Cristina Judar e Arte de Bruno Auriema, Editora Estação Liberdade, São Paulo, SP, 2009, 80 Páginas, R$ 35,00) – uma jovem moradora de uma metrópole, que curte punk e Beethoven –, observamos um álbum ricamente ilustrado, combinações de múltiplas cores vivas com os tons pastéis e escuros, acompanhadas de argumentos consistentes. O enredo apresenta a redescoberta de um universo fascinante a partir de um antiquário. Uma missão com a História. Entre delírios e a realidade, Nina encontra três personagens aparentemente sem qualquer relação com a sua vida e o mundo em que vive. Um frustrado músico de jazz da década de 1950, um soldado inglês da Segunda Guerra Mundial (década de 1940) e um jovem hippie da década de 1960, imerso em seus sonhos. Interessante observar o diálogo da personagem contemporânea com os outros personagens de três décadas consecutivas. A grande jornada é justamente correlacionar estas diferentes realidades e perceber o real encontro de distintas gerações. A salvação, já falava um nobre poeta do interior do Estado de Minas Gerais, é sair da toca e se deslocar pelo mundo do tempo. Ano após ano, década após década, como têm acontecido com os comportamentos e atuações das personagens femininas nas HQ: acompanham as mudanças sociais e históricas. No caso de Nina, na sua juventude, levar uma vida mais solta, sem resposta pra tudo. E aprender que uma vida sem tantas respostas prontas, fazendo as perguntas que realmente importam, é bem mais interessante, saudável e inteligente.

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‘Quem lê Euclides da Cunha, desde o primeiro momento vê que há dois Brasis: um inclemente, e outro das inclemências’. As palavras de Antonio Houaiss são de uma atualidade medonha, aplicáveis para caracterizar vários setores, instituições, fundações, etc. e comportamentos pessoais e públicos da vida nacional. Quem se interessa pela história e pelos rumos da cultura brasileira têm que ler este debate com alguns dos mais brilhantes estudiosos da obra de Euclides da Cunha e da Guerra de Canudos, presentes em Euclidianos e Conselheiristas: um quarteto de notáveis (Organização de Walnice Nogueira Galvão, Editora Terceiro Nome, São Paulo, SP, 2009, 120 Páginas, R$ 29,00). O livro não deixa de ser também uma homenagem, pois todos os quatro estão falecidos, e se apresentam numa transcrição da célebre mesa-redonda reunida na Editora Ática em 1986, em São Paulo, com a participação de Antonio Houaiss, Franklin de Oliveira, José Calasans e Oswaldo Galotti. Também as presenças importantes dos debatedores José Carlos Garbuglio, Valentim Facioli e Walnice Nogueira Galvão. Uma mesa rica e polêmica, na qual é fundamental ressaltar duas opiniões essenciais, impressões sobre a complexidade do beato Antonio Conselheiro e do escritor e repórter jornalístico Euclides da Cunha. José Calasans: ‘À margem da Igreja. A Igreja deu-lhe apoio antes que os proprietários se lançassem contra ele, e foi a própria Igreja quem deflagrou o processo. Um ou outro padre o apoiava, mas a Igreja se julgava prejudicada. Avalio o Conselheiro como uma grande figura de líder da comunidade sertaneja: um homem que construiu três cidades – uma foi destruída –, mais duas dezenas de igrejas, açudes e cemitérios. Eu costumo dizer que ele foi a Sudene do sertão brasileiro (risadas), no século passado, que fazia uma diferença para os sertanejos (todo mundo fala junto). A minha opinião, independente dessa minha atitude de… conselheirista, é esta.’ Na outra ponta, Oswaldo Galotti dá a sua versão sobre a opinião que Euclides da Cunha tinha sobre Antonio Conselheiro: ‘… Homem singular. Extraordinário senso moral deprimido. Ditador humilde. (…) Gnóstico bronco. (…). Neurótico vulgar. Um doido. Psicose progressiva. Franco delírio sistematizado. Paranóico em fase persecutória.’ Este livro é outro grande lançamento de 2009, que merece uma leitura atenta e singular. Imperdível! Que ajuda e muito, a compreender, algumas passagens malditas sobre o que foi a carnificina chamada Canudos.

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Você já parou para pensar na relação das garrafas pets com o mercado americano? O refluxo no Brasil foi às tubaínas (refrigerantes populares), que começaram a usar as pets, barateando o preço final do produto. Isso tornou uma pedra no sapato dos lucros da Coca-Cola, não só aqui, também pelo mundo afora. Esta informação e muito mais encontramos em a Tribo do Mouse: histórias, dicas e truques do mundo corporativo (João Paulo Reginatto, Juarez Poletto Junior e Ulisses Ponticelli Giorgi, Editora Fábrica de Livros, Porto Alegre, RS, 2009, 224 Páginas, R$ 34,00), um conjunto de crônicas bem humoradas e surpreendentes. Nada de formalismos e formulismos, pelo contrário, pois a editora publica o livro com duas capas distintas, deixando para o leitor a escolha que mais lhe agrada. Um fato audacioso! A tribo formada por Jack, Reggie e Zambol usa uma linguagem bem coloquial, semelhante as que observamos na internet. O referencial é o cotidiano das empresas, relatados com ironias em situações e comportamentos inusitados nos locais de trabalho. O trio divide a obra em três partes: Quem somos, O que nos move e Para onde vamos. Três ‘fusos horários’ diferentes, com direito a um presente da editora ao final do livro, poema de Bruna Lombardi (Input – Throughput – Output/ cibernose). Em Quem somos, temos histórias de escritório e testemunhos que levam ao autoconhecimento como projeto ético. O foco muda em O que nos move. A pergunta essencial desta seção gira em torno do seguinte: o que nos faz levantar pela manhã? O trio limita o escopo da pergunta ao mundo corporativo, o horário comercial das 8h às 18h e suas conseqüências básicas. Finalmente, no último capítulo Para onde vamos, a reflexão gira em torno de tentativas e mudanças. Mudanças de mentalidades, direções e sentidos sobre a maneira de viver e valorizar o trabalho. Já que o livro é fruto de um blog, não é um livro de auto-ajuda (pode ter certeza deste fato), a Tribo do Mouse deixa o seguinte recado: ‘Ser nerd é: 1) Conseguir falar sobre qualquer assunto. Sendo nerd, você lê muito e tem muita facilidade em discutir qualquer tópico que seja. Afinal, nerd tem inteligência acima da média, senão não seria nerd, seria somente esquisito; 2) Adorar Lost, ainda que saiba que iria morrer de tédio na ilha, sem um notebook com internet rápida e 3) Ser a única pessoa segurando um livro, na beira da Praia do Rosa, em Santa Catarina’.

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Jornalista, escritor, pesquisador e ensaísta, Belo Horizonte, MG

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