Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ARMAZéM LITERáRIO >

Lições de reportagem em forma de livro

Por Deonisio da Silva em 06/09/2005 na edição 345

‘Você não passa de uma coisa investigativa’, diz Joel Silveira a Geneton Moraes Neto nas ‘orelhas’ de Dossiê Brasília: os segredos dos presidentes. Autoridade não falta ao jornalista Joel Silveira, definido por Assis Chateaubriand como ‘a víbora’. Silveira conheceu pessoalmente dez presidentes! Ninguém mais indicado, pois, para apresentar o trabalho investigativo que Geneton fez junto aos presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, cobrindo mais de uma década de nossa vida política.

Geneton faz neste livro o que melhor sabe fazer na vida: reportagem. Diz mais Joel Silveira em sua sabedoria: ‘Se eu tivesse autoridade suficiente, proibiria Geneton – um grande repórter – de ficar sentado na redação. A proibição seria extensiva a todos os repórteres’.

O livro traz o texto integral das entrevistas que gravou para o Fantástico, da Rede Globo, com quatro ex-presidentes da República. O repórter tira leite de pedra. Revela os bastidores do exercício do poder imperial de um presidente no Brasil. Um dia nossa Constituição haverá de rever este papel: não temos presidentes; temos imperadores republicanos. Numa comparação com Dom Pedro II, eles saem ganhando de longe. Se Dom Pedro II tivesse 20 mil cargos para nomear apaniguados pelo Brasil afora, a monarquia não teria soçobrado. Ou demoraria um pouco mais.

A República brasileira viveu crises bem mais agudas do que a de 1889 sem que os presidentes do período tivessem que ser depostos ou banidos. O exemplo mais claro corre nos dias de hoje: forças ingentes tudo fazem para evitar que o presidente Lula seja deposto, mesmo à luz de evidências de corrupção que, estivesse o PT na oposição, derrubariam até o Santo Padre!

Devoto da santa

As bombas espocam por todas as páginas. ‘Itamar Franco não é um homem de caráter’, diz o presidente Fernando Collor de Mello de seu vice, antes de citar o ditado: ‘Vice? Não tê-lo, não sê-lo e, de preferência, não vê-lo’. O advérbio de negação foi dispensado de atrair os pronomes para (d)efeito de estilo. ‘Itamar é uma negativa de que há vida inteligente na Terra’, acrescenta Collor.

Num dos diálogos com Margareth Thatcher, depois de propor um deságio de 30% na dívida externa, ouve da Dama de Ferro que não entende a proposta. Collor pensou: ‘Meu inglês não deve ser tão eficiente’. A senhora Thatcher diz: ‘Deixe-me ver se entendi corretamente. O senhor quer dizer que, por exemplo, o senhor deve 100, mas, em vez de pagar 100, quer pagar 70. É isso?’. Respondi: ‘É exatamente isso’. Ela rejeita a proposta e diz: ‘Se o senhor deve 100, o senhor tem de pagar 100! Podemos discutir como o senhor vai pagar, mas dever 100 e querer pagar 70, negativo! Comigo o senhor não conta!’ (pág. 92-93). É um dos melhores momentos do livro.

Quando confiscou a poupança dos brasileiros, Fernando Collor de Mello, que pagará a vida inteira pelo gesto nefando, inspirado por sua ministra Zélia Cardoso de Melo, não contou com uma oposição tão firme. Ninguém no Brasil teve poder e audácia semelhante à da senhora Thatcher para evitar o confisco. E os jornalistas das editoriais de Economia, principalmente na televisão, em sua maioria se limitaram a explicar o funcionamento das medidas, como se fossem auxiliares dos ministérios do Planejamento e da Fazenda.

O presidente José Sarney, da Academia Brasileira de Letras, revela que já escreveu 700 páginas de suas memórias. E que o título do primeiro volume será Testamento para Roseana. Como se sabe, os políticos brasileiros parecem patriarcas de casas dinásticas. Pai presidente, filha governadora, filho deputado etc. E declara sem meias palavras um desapreço pelas biografias de Getúlio Vargas: ‘As biografias de Getúlio Vargas não são boas’ (pág. 59).

Já o presidente Itamar Franco, depois de elogiar o senador Fernando Henrique Cardoso, desce a lenha no presidente Fernando Henrique Cardoso, pondo em destaque que foi o primeiro presidente a fazer FHC ministro. E dele diz: ‘Fernando mudou muito dos tempos de Senado e de presidente da República’, ‘pensa que inventou a democracia’ (pág. 163). E revela ser devoto de Santa Teresinha, a quem credita o ‘desvirtuamento’, pois deixou uma carreira técnica (ele é engenheiro de formação) e foi para a política.

Desdobramentos indispensáveis

De FHC, mostrando decerto sem querer como as coisas mudam, Geneton ouve que ao deixar o governo, depois de passar a faixa a Lula, guardou a frase do novo inquilino do Palácio do Planalto: ‘Você deixa aqui um amigo’ (pág. 204). Imaginemos que não fossem amigos! Ou chumbo trocado não dói?

De todo modo, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso revelam ter planos estratégicos para o Brasil. Fernando Collor de Mello e Itamar Franco expõem uma visão esquisita do Estado, como se as grandes questões pudessem ser resolvidas sem uma visão estratégica, à base de acordos, maiorias etc. O que, aliás, Lula tenta fazer agora, com os resultados que todos conhecemos: perto da corrupção de seu governo, o mar de lama de Getúlio Vargas era uma pocinha ali perto do Palácio do Catete, decorrente de um aguaceiro serôdio.

Livro imperdível. Não é oportunista, é oportuno. É bom ensejar aos presidentes entrevistados, todos ainda vivos, que agora comentem os desdobramentos do que cada um deles acha do Brasil e dos outros que exerceram o mesmo poder. Com a palavra, pois, os repórteres, os editores. É livro que merece desdobramentos indispensáveis na imprensa. Nunca os comentários, que também compõem a vida de um livro, foram tão indispensáveis.

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