Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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Literatura do esquecimento

Por Teócrito Abritta em 29/09/2009 na edição 557

Quando reunia material para escrever um artigo sobre História brasileira, consultei, entre várias outras obras, os livros Introdução à Arqueologia Brasileira, de Angyone Costa, e a série Índios do Brasil, de Cândido Rondon. O livro de Angyone Costa foi publicado originalmente em 1934, sendo reeditado pela última vez em 1980. Os livros de Rondon, publicados pelo Conselho Nacional de Proteção aos Índios, do Ministério da Agricultura, com o primeiro volume editado em 1946 e o segundo e terceiro volumes em 1953. Estas obras registram um fabuloso acervo da arqueologia e antropologia brasileira, com muitos exemplos perdidos para sempre, como as belíssimas fotos de membros de diversas tribos indígenas por este Brasil afora, as imagens da nossa natureza ainda intocada e das construções e inscrições rupestres. Infelizmente, estes livros sumiram do mercado editorial. Alguns não são encontrados nem em sebos e tornaram-se obras raras e objeto de colecionadores.

Se olharmos outras áreas das ciências humanas, podemos constatar inúmeros e lamentáveis desaparecimentos. Onde estão Hélio Vianna, Nelson Werneck Sodré, Álvaro Vieira Pinto, Otto Maria Carpeaux ou mesmo o jornalista Paulo de Castro? Passando para o terreno literário, sentimos falta, por exemplo, de João Alphonsus e Aníbal Machado com o seu fabuloso romance João Ternura. Por onde andará Corpo Vivo, de Adonias Filho, ou Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto?

Uma linguagem encantadora

Portanto, podemos falar verdadeiramente de uma literatura do esquecimento. Nas ciências humanas, o mais grave é que muitas dessas obras sequer são citadas. Entendemos que uma publicação seja condicionada por interesses editoriais e mercadológicos, mas acredito que junto à ‘literatura do esquecimento’ existam também muitos preconceitos ideológicos, culturais e científicos. Hoje, os estudos humanísticos são feitos basicamente em centros universitários, baseados em documentos originais e pretendendo chegar à formulação de modelos teóricos, tal qual nas ciências físicas. Mas esquecer obras que registraram detalhadamente o nosso passado seria como estudar botânica sem consultar registros e desenhos acumulados desde séculos passados.

Se autores que já tiveram projeção nacional são esquecidos, o que não falar de trabalhos produzidos fora dos grandes centros urbanos, alguns por escritores já falecidos há muito tempo?

Em 2008, comemorou-se o centenário de nascimento de dois escritores que há muitas décadas atrás participaram, na outrora pequenina Cataguases, da revista literária Verde. O inédito é que eram jovens mal saídos dos bancos escolares e que conseguiram sensibilizar os meios literários da época. O centenário de nascimento do primeiro desses escritores foi comemorado com o lançamento em Belo Horizonte do livro Um Homem Plural: a Vida de Oswaldo Abritta, de autoria de seu filho, também escritor. Nesta obra foi reunida a produção mais significativa de Oswaldo, desde poesias, ensaios, crônicas, artigos jornalísticos e até mesmo laudos e relatórios administrativos e jurídicos escritos em uma encantadora linguagem literária.

O prefeito corrupto

Um texto impressionante desta publicação é o chamado ‘Caso Carandaí’, que é o pedido de demissão do juiz Oswaldo Abritta de seu cargo, escrevendo nas alegações finais:

‘… Nada tendo de meu, senão encargos de família, tenho, entretanto, sabido preservar meu nome.’

Oswaldo Abritta (1908-1948) exerceu as funções de juiz de Direito em Carandaí, Minas Gerais, durante quatro anos, e em 1944, ao tomar conhecimento de que tinha sido nomeado para o cargo de juiz em outro município devido a ingerências do prefeito local, preferiu demitir-se acusando em detalhes todas as excrescências políticas da época que tentavam impedir a aplicação isenta da justiça. Durante muito tempo já vinha exercendo funções judicantes em sua própria residência, com seus parcos recursos, já que o Fórum de Carandaí estava totalmente em ruínas, com todo o material de trabalho desviado pelo prefeito.

Enquanto hoje em dia assistimos, pasmos, a um presidente do Congresso Nacional assaltar a cantina da Casa Legislativa e ainda ser elogiado pelo presidente da República, nessa cidade mineira o prefeito assaltava o cofrinho da igreja e, como um bruxo, preparava um purgante misturado com fezes e urina para ser receitado aos seus desafetos políticos. Como hoje acontece na Petrobras, em Furnas e na administração pública, naquele tempo o senhor prefeito nomeava professoras analfabetas, controlava inquéritos policiais, falcatruava na distribuição de combustível nas épocas de racionamento e metia-se até na banda de música local.

O Caso Carandaí é um belo registro da luta de um juiz armado simplesmente com sua caneta contra a corrupção e a violência. É um grande exemplo para a nossa História.

As mulheres de Corinto

Outro escritor que teve o seu centenário de nascimento comemorado neste ano foi Guilhermino César (1908-1993), que participou da mesma revista Verde aos 19 anos, para depois percorrer longa trajetória de poeta, historiador, professor e crítico literário, tendo se transferido para Porto Alegre, onde passou a maior parte da vida. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul comemorou o centenário de seu nascimento com um encontro de historiadores e literatos e com a publicação de antologia comemorativa, artigos sobre sua obra.

Guilhermino César era amigo do meu pai. Uma história interessante que lembrei é de quando ele vinha ao Rio e eu o levava de carro para visitar seus amigos. Eu gostava de visitar o Marques Rebelo e outros que não me lembro. Em julho de 1966, quando Guilhermino foi visitar o então governador do estado da Guanabara, Negrão de Lima, que tinha sido embaixador do Brasil em Portugal na época em que ele era professor visitante em Coimbra, falei que esperaria no carro, já que tinha sérias restrições políticas a este governador. Não é que Guilhermino falou tudo para o Negrão de Lima que, de repente, apareceu do lado do carro. Tive que desligar o rádio fazendo minhas críticas cara a cara para o governador, em pé, na calçada em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Guilhermino achou sensacional e me elogiou muito, mas me pareceu que o governador não gostou nem um pouco. Não sei se a amizade entre eles terminou nesse dia. Com certeza nunca mais foi a mesma.

Para terminar, uma piadinha, só que literária. Guilhermino César acabava de dar uma palestra na qual falou, entre outros temas, sobre ‘as mulheres de Corinto’ e o papel da mulher na literatura. Foi procurado pelo funcionário que servia cafezinho, dizendo-lhe:

‘Professor, a minha mulher é de Corinto e é fogo! Eu só não sabia que as mulheres nascidas em Corinto eram tão importantes.’

‘Será porque Corinto está no centro geográfico de Minas Gerais?’, respondeu Guilhermino.

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Físico e escritor, Rio de Janeiro, RJ

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