Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > CRISE DO LIVRO

Livrarias lutam para sobreviver

Por Gustavo Chacra em 08/03/2011 na edição 632

As duas maiores livrarias dos Estados Unidos lutam para sobreviver. A Borders decretou concordata na semana passada, fechou 200 de suas lojas, demitiu um terço dos funcionários e está em estado terminal. A concorrente Barnes&Noble também corre o risco de seguir o mesmo caminho.

O consumo de livros nos EUA se dá principalmente por meio da internet, com o crescimento na venda das versões virtuais das publicações, enquanto as impressas perdem mercado, especialmente nas lojas. Já há quem enxergue um futuro próximo no qual as livrarias desaparecerão de muitas cidades americanas. Até Nova York vê as suas lojas de livros fecharem as portas.

No início de janeiro, um funcionário da Barnes&Noble anunciou pelo alto falante o fim da filial do Lincoln Center. ‘Obrigado a todos os clientes pelos últimos 15 anos. São oito horas e esta Barnes&Noble está fechando para sempre’, afirmou, em meio a vaias dos clientes. Na semana passada, foi a vez da Borders. Entre as 200 megastores com as atividades encerradas, estão a da sede, em Ann Harbor (Michigan), e quatro de suas filiais em Manhattan.

Ao anunciar a concordata, o presidente da Borders, Mike Edwards, afirmou que sua empresa ‘não tem os recursos financeiros para se manter como um competidor viável’. As dívidas, estimadas em US$ 1,29 bilhão, superam o patrimônio desta rede de livrarias fundada em 1971.

Na rival Barnes&Noble do Lincoln Center, clientes lamentavam o fechamento, que foi encarado como um funeral. ‘Vinha aqui todos os dias ver os lançamentos, ler as revistas. Mas devo admitir que não comprava mais livros’, disse um músico do bairro que visitava a loja todos os dias. Era comum ver a loja lotada e as filas curtas. Um vendedor de livros usados a um quarteirão de distância ironizava que seus negócios andavam ‘melhor’ do que o da gigantesca vizinha, com seus quatro andares de estantes.

Como se estivesse parafraseando o livro Crônica de uma Morte Anunciada, que, para alguns, representa o destino da Borders e da própria Barnes&Noble, o porteiro de um prédio no Upper West Side comentou com o Estado ‘que hoje é o dia em que a livraria será fechada’.

Consumidores levaram câmeras e ficaram até o último minuto para registrar o fim de uma livraria que era um dos símbolos do Upper West Side, um dos bairros mais intelectualizados de Nova York. Seria como se a Livraria Cultura fechasse para os moradores dos Jardins, ou a Livraria da Vila para os da Vila Madalena. Durante anos, era comum aos habitantes do bairro saírem de um dos cinemas da região para comprar um livro na Barnes&Noble. Ou então para passar o tempo antes de ir à Ópera, à Filarmônica ou ao Ballet, no Lincoln Center.

O cenário é parecido com o das lojas de CD e das locadoras de vídeo. Em cidades como Nova York existe o temor de que a Barnes&Noble e a Borders cedam lugar às farmácias e lojas de departamento, como ocorreu com a Virgin e a Blockbuster. Inclusive, no lugar da Barnes&Noble do Lincoln Center, será aberta uma Century 21, que vende roupas a preços baixos. O irônico é que as mega livrarias foram, no passado, consideradas culpadas pelo fechamento de outras menores. O filme You’ve got mail (Mensagem para você, em português), com Meg Ryan, registrou justamente o momento em que as gigantes Barnes&Noble e Borders levavam à falência pequenas livrarias.

Motivos

Quatro fatores contribuem para o enfraquecimento das livrarias nos EUA. O primeiro deles é a difusão de e-readers como o Kindle e o iPad. Segundo a Amazon, são vendidos 115 livros virtuais para cada 110 impressos – a empresa não divulga os valores brutos, apenas a relação entre os dois.

Segundo a Association of American Publishers, que reúne as principais editoras dos EUA, a venda de livros virtuais para e-readers cresceu 164,8% (em valores anualizados) em dezembro de 2010, quando comparado ao mesmo mês no ano anterior, e já representa mais de 8,34% do mercado de livros –, mais do que o dobro em relação a 2009. Em 2002, era apenas 0,05% do total. A tendência, segundo a entidade, é de um crescimento maior com a proliferação de computadores, tablets e e-readers mais avançados. Já o faturamento com livros físicos teve seu pior resultado desde 2004 – levando em conta que os EUA estavam em recessão em 2008 e 2009.

O segundo fator que tem afetado as livrarias é a venda de livros impressos pela internet. Em vez de ir até uma loja comprar um título, consumidores passaram a encomendá-los nos sites como o da Amazon e da própria Barnes&Noble. Lamentando e admitindo essa tendência, o escritor e crítico literário Scott Eyman afirmou que ‘nunca foi difícil comprar um livro que já queríamos, e agora está ainda mais fácil e mais barato. Mas será cada vez mais complicado comprar um livro que não sabíamos que queríamos até nos depararmos com ele. E esta sempre foi a função da livraria, que te permitia descobri-los.’

A entrada de hipermercados como o Wall Mart no mercado de livros também foi um duro golpe na Barnes&Noble e na Borders, e seria o terceiro fator responsável pelo fim das livrarias. Com foco em best sellers e vendas por meio da internet, o gigante varejista tem conseguido roubar o mercado não apenas das livrarias como também da própria Amazon. O quarto e último responsável pela má situação das livrarias é a administração.

***

Empresas foram lentas na busca pela tecnologia

O fim das grandes livrarias americanas era uma tendência natural com o aumento da encomenda de livros pela internet e também da venda das versões virtuais para e-readers. O problema, segundo analistas, é que as gigantes do setor, especialmente a Borders, não se adaptaram para estes novos tempos e viram a Amazon dominar o mercado.

Muitos consumidores ainda veem os títulos dos livros que querem ler em filiais da Barnes&Noble e da Borders e, em vez de comprá-los, esperam para voltar para a casa, entrar no computador e encomendar pela internet uma versão impressa ou baixar diretamente em algum e-readers – os preços das versões virtuais costumam ser menores do que os dos livros impressos.

Em vez de criar a sua própria loja virtual quando o mercado começou a surgir há mais de uma década, a Borders, em 2002, decidiu terceirizar para a Amazon a área de encomendas, entrando no setor em 2008, quando já era tarde. O e-reader da Borders denominado Kobe não é conhecido de muitos leitores, que se referem ao aparelho como ‘kindle da Borders’ – kindle é o nome do e-reader da Amazon.

Analistas acreditam que a Barnes&Noble pode ser favorecida no curto prazo pelo fechamento das filiais da Borders, que em muitos casos ficavam próximas uma das outras. Mas a empresa também permanece atrás no mercado e-readers, apesar de seu Nook ter mais mercado do que o Kobe. Nas lojas ainda aberta da empresa, o espaço dedicado à venda do aparelho tem ganho cada vez mais destaque.

Independentemente de sobreviver ou não, o mais provável é que a Barnes&Noble precise se transformar em ‘uma editora virtual’, segundo escreveu o especialista no mercado de tecnologia Michael Wolf. E, cada vez mais, atue como a Amazon na venda de livros. (Gustavo Chacra)

Correspondente do Estado de S.Paulo em Nova York

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