Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Livro traz artigos escritos no primeiro semestre de 1964

Por Alessandra Duarte em 28/04/2015 na edição 848

Sindicatos no Rio levavam “faixas abertas em disposições finais”, enquanto em BH soldados “gastaram quatro horas para restabelecer a ordem” em manifestações. E, em vários centros urbanos, a classe média tinha o “coração assustado”. Não são episódios recentes da vida brasileira, mas trechos de “1964: o último ato”, livro do jornalista Wilson Figueiredo que será lançado na próxima segunda-feira, pela Gryphus. Organizada por Vanuza Braga, a obra traz artigos escritos por Figueiredo ao longo do 1º semestre do ano em que a ditadura se instalou no Brasil.

“1964” tem três partes. A primeira mostra os últimos dias de março até abril como uma progressão de acontecimentos – um diário das ruas e gabinetes, espécie de cobertura em tempo real das ações e reações que desembocaram no golpe.

Dia 13 de março foi o comício no Rio “que começaria a deslocar o peso das decisões políticas para a praça pública”, o Comício da Central de Jango. Na sucessão de fatos, estava guardada para o dia 19 a primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em SP.

Dia 21, o PSD lançou JK candidato na disputa ainda esperada para 65. De Londres, o “Times” profetizava: Jango “levou a cabo um atrevido movimento para a esquerda, devendo agora produzir-se um golpe de direita, segundo a tradição latino-americana”.

A profecia começou a se cumprir com a inflexão do campo político para o da indisciplina militar. Dia 24, o ministro da Marinha mandou prender dirigentes da Associação de Marinheiros e Fuzileiros por se reunirem no Sindicato dos Bancários. “Foi a politização dos marinheiros que inaugurou a crise”. À frente dos rebeldes, “o cabo José Anselmo”.

Dia 31. “A mercadoria do dia eram boatos”. Em MG, ela já tinha sido trocada pela ação militar. Nota de Jango dizia que o levante fracassaria. “Apenas o Partido Comunista sentiu o que estava por acontecer”: com antecedência, apontara que a radicalização levaria à união de centro e direita e ao “deslocamento da classe média”.

A 2ª e 3ª partes de “1964” – artigos escritos antes e depois do período do golpe – avaliam as razões para o ato entre os dias 31 e 1º ter se consolidado num regime. Primeiro, “o homem da rua começava a julgar-se com direito a discutir a política externa” – e o Congresso entrava “em ocaso”. Já JK demorou a oferecer uma “ponte de legalidade” a Jango.

E as esquerdas estavam divididas demais, além de parte ser inexperiente. “Souberam motivar setores da massa popular, mas foram incapazes de organizá-las”. Como “a política é incompatível com o vácuo”, o vazio foi ocupado – pela “direita assumida e presumida”.

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Alessandra Duarte, do Globo

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