Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ARMAZéM LITERáRIO > JORNALISMO E LITERATURA

Machado de Assis e Lima Barreto, críticos da imprensa

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 01/12/2009 na edição 566

Partiremos, neste estudo, da hipótese de que Machado de Assis (1839-1908) e Lima Barreto (1881-1922), na condição de homens de letras e de imprensa, contribuíram para a formação e consolidação do jornalismo brasileiro, como pioneiros na tarefa de criticar a mídia. Machado teve uma atuação destacada na grande imprensa, enquanto Lima fez história principalmente na mídia alternativa.

Entre 1859 e 1900, Machado alinhavou, em suas crônicas, vários comentários a respeito do fazer jornalístico, adotando um projeto crítico de cunho irônico e analítico para destacar e avaliar as virtudes e os vícios da imprensa. Já Lima Barreto, que atuou como jornalista entre 1902 e 1922, escolheu, em seus textos, uma perspectiva satírica e militante para denunciar a falácia contida no discurso mítico de elevação moral da imprensa, que prometia ser um veículo público de contra-poder e a favor da democracia. Segundo a avaliação barretiana, muitos jornais de sua época funcionavam apenas como meros ‘diários oficiais’, atuando na condição de braços estratégicos e operacionais da ideologia dominante orquestrada pelos ‘donos do poder’. Nesse sentido, além de algumas crônicas, Lima Barreto dedica seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de 1909, a diagnosticar os males da imprensa brasileira a partir da denúncia crítica dos deslizes morais que levavam os jornalistas a comentarem abusos de poder, ferindo, assim, a ética.

Com trajetórias jornalísticas e estilos expressivos bem distintos, Machado e Lima comungavam de princípios semelhantes quando o assunto era propor caminhos para o aperfeiçoamento epistemológico e ético da imprensa e de seus profissionais, frente à responsabilidade da mídia em fornecer informações e opiniões que deveriam ser amplamente difundidas para a formação qualitativa do patrimônio cultural coletivo. Essa tendência libertária, que utopicamente vai justificar o poder da imprensa, conduzirá Machado e Lima a pautarem seus trabalhos jornalísticos e literários em prol da educação dos seus leitores.

Ainda jovem, Machado vai se tornar um dos maiores propagandistas em favor da liberdade de imprensa que, para ele, se tornaria a expressão mais visível da liberdade de expressão, devido à representatividade coletiva que os jornais perseguiam como meta. No artigo ‘O jornal e o livro’, publicado no Correio Mercantil, de 10 e 12 de janeiro de 1859, Machado considera euforicamente o jornal como ‘a verdadeira forma da república do pensamento’, ‘a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos’ e ‘a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções’ (1997, p. 945). Tal defesa entusiasmada do jornalismo se deve, a nosso ver, pelo fato de o cronista, a partir de um viés liberal, acreditar que o fortalecimento da imprensa naquela altura poderia oxigenar o ambiente cultural brasileiro que ainda estava refém do regime escravizador, da censura ideológica e do analfabetismo.

Tradição autoritária

Em ‘A reforma pelo jornal’, publicada em O Espelho, de 23/10/1859, Machado chega ao ápice da defesa do jornal, considerando-o detentor de uma aura especial capaz de viabilizar o poder reformador da palavra, com mais agilidade e alcance público do que o livro e a tribuna política. Para ele, a imprensa seria, por excelência, o veículo propagador da discussão, sendo esta uma prática fundamental para a formação consistente da opinião pública. Com a exposição ampliada do saber produzido na sociedade, a partir do jornal, o país poderia experimentar uma pioneira democratização do poder. Nesse aspecto, cabe destacar o sentido dado por Machado de Assis ao termo ‘discussão’:

E o que é a discussão?

A sentença de morte de todo o status quo, de todos os falsos princípios dominantes. Desde que uma coisa é trazida à discussão, não tem legitimidade evidente, e nesse caso o choque da argumentação é uma probabilidade de queda.

Ora, a discussão, que é a feição mais especial, o cunho mais vivo do jornal, é o que não convém exatamente à organização desigual e sinuosa da sociedade (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 963-964).

A construção de um ideal de jornalismo empenhado em formular, divulgar e processar o pensamento de matriz complexa, baseado em uma racionalidade expressiva sintonizada com a inspiração, a coragem e o talento polêmico, também obteve a adesão de Lima Barreto, no conjunto de sua obra literária e jornalística. Constatando esse papel reformador da imprensa para além da esfera do acirramento ideológico, Lima, a exemplo de Machado, é partidário da tese de que, no calor da discussão, no conflito de ideias, é que a mídia brasileira colhe seus melhores frutos, promovendo de maneira diversificada a inteligência coletiva. Na crônica ‘Elogio da morte’, publicada no periódico A.B.C., de 19/10/1918, Lima Barreto compreende que, no exercício pleno da liberdade de expressão valorizada pelo fazer jornalístico ético, não convém o combate agressivo e corrosivo entre os indivíduos, devendo ser privilegiado o debate dialético dos argumentos. Porém, adverte o cronista, tal prática encontrava forte resistência proporcionada pela tradição autoritária, que também regia grande parte da imprensa:

Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.

O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.

Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.

Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar são fechados e não aceitam nada que os possa lesar (LIMA BARRETO, 2004, p. 391).

Modelo sensacionalista

Posicionamentos dessa natureza vão contribuir para que Lima Barreto seja considerado o precursor da crítica da imprensa no Brasil, segundo a avaliação de Alberto Dines (1982), visto que em sua obra inaugural, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, o escritor já incorporava em seu projeto literário a avaliação ética do jornalismo praticado à época:

[…] se nossa imprensa tem como patrono Hipólito da Costa, o media criticism não pode ter outro santo padroeiro que não Lima Barreto que, com Isaías Caminha, ousou ridicularizar não apenas as panelinhas literárias que se abrigavam nas redações dos jornais, como também o jogo do poder, camuflado através dessas rivalidades. Pagou a ousadia com o boicote a seu nome, primeiro nome da primeira lista negra, a fogueira sem chamas da nossa inquisição jornalística (DINES, 1982, p. 150).

A partir do mencionado livro de Lima Barreto, dar-se-á o início de uma tradição literária nacional dedicada em fazer um diagnóstico dos inúmeros vícios que prejudicaram o cumprimento das promessas de emancipação pública feitas pelos defensores de uma imprensa livre e democrática. A censura ideológica sofrida e cometida pelos jornalistas em nome da disputa pelo encabeçamento do poder político era alvo das preocupações jornalísticas de Lima Barreto. Meio século antes do romance barretiano, Machado de Assis já se comportava como crítico da imprensa (SILVA, 2005). No mencionado artigo ‘A reforma pelo jornal’, ele precocemente já sublinhava que internamente a mídia precisaria estar disposta a por em xeque seus laços junto aos setores hegemônicos que governavam o país. Por isso, Machado, com ousadia, defendia que a reforma pela imprensa passava fundamentalmente por uma necessária reforma na imprensa, assinalando que ‘o jornal aqui não está à altura de sua missão’ (1997, p. 964).

Para Machado e Lima, havia pelo menos dois obstáculos que a imprensa brasileira deveria ultrapassar para fazer jus ao seu propósito libertário de promover a independência cultural de um povo em todos os seus níveis. Tais entraves seriam o sensacionalismo noticioso e a tendência editorial e valorativa de privilegiar a ideologia dominante no campo simbólico administrado pelos meios de comunicação.

De acordo com Machado de Assis, a deformação moral do profissional de imprensa pode ser compreendida em meio ao desdobramento de um tipo de jornalismo que, em nome da busca pela novidade e pelo sensacional, colabora para a instituição massificadora da transgressão como estágio de regra e da norma como regime de exceção. Tal postura editorial é chamada por Danilo Angrimani (1995) de espetáculo do ‘espreme que sai sangue’, devido à forte presença, nos jornais, de crimes, desastres, apelações sexistas, roubos, escândalos, monstruosidades e uma linha de acontecimentos traumáticos.

Na crônica publicada na Gazeta de Notícias, de 16/09/1894, Machado compreende, com exímia argúcia, que o sensacionalismo absorve para si o papel de válvula de escape de nossa ‘pulsão de morte’, compreendida como fenômeno obscuro e curioso da psicologia coletiva. No diálogo entre o narrador e uma fã de tragédias, a ironia machadiana chega a ser corrosiva. Os personagens ficaram frustrados por não ter havido vítimas decorrentes da queda do edifício da fábrica das Chitas. Ao invés de os dois se sentirem aliviados e satisfeitos por aquela excelente notícia, a senhora busca imaginar como seria a tragédia e os seus possíveis desdobramentos. O interlocutor, perversamente, constrói uma cena imaginada e como seria o impacto desta, frente à opinião pública: ‘imagine que morria gente, que havia pernas esmigalhadas, ventres estripados, crânios arrebentados, lágrimas, gritos, viúvas, órfãos, angústias, desesperos… Era triste, mas que comoção pública! Que assunto fértil para três dias!’. E justifica a necessidade humana que movimenta a ciranda sensacionalista: ‘nós precisamos de comoções públicas, são os banhos elétricos da cidade. Como duram pouco, devem ser fortes’ (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 623). Nesse sentido, o cronista apresenta uma comparação que simboliza bem os encantos e os desencantos causados pela notícia trágica: mais vale ‘o espetáculo de uma perna alanhada, quebrada, ensangüentada’ do que ‘o da simples calça que a veste’, conforme confessa sem titubear o narrador para depois dar-nos o motivo: ‘as calças, esses simples e banais canudos de pano, não dão comoção’ (1997, p. 624).

Comoção significa abalo de certa gravidade na ordem pública, sacudidela, choque resultante de descarga elétrica. Esses sentidos fazem da comoção a palavra-chave que movimenta o fazer jornalístico de viés sensacionalista. Entre ‘o grau mais radical de mercantilização da informação’ (MARCONDES FILHO, 1989) e os desejos obscuros da mente humana, encontra-se a exploração emocional dos fatos, praticada pelo modelo sensacionalista, que é contrário ao paradigma machadiano de jornal como ‘república do pensamento’.

Repórter sagaz

Lima Barreto também se comportou como crítico ferrenho da imprensa sensacionalista, ao denunciar em seu livro de estréia que o jornal O Globo, disfarce ficcional do poderoso Correio da Manhã, chefiado pelo magnata Edmundo Bittencourt, não media esforços para conquistar mais e mais leitores. Nem que para isso fosse necessário atropelar a ética com a invenção de fatos. Um crime bárbaro, que levou à morte um casal assassinado a facadas e decapitado, foi o suficiente para levar uma multidão à porta da redação do jornal O Globo, em busca de maiores esclarecimentos sobre o ocorrido. Isaías Caminha, narrador-personagem da história, conta a repercussão daquele acontecimento com a imensa curiosidade mórbida que o cercava:

A multidão, em frente ao jornal, aumentava sempre. Muitos subiam pedindo informações. A curiosidade era geral; o crime impressionara a população. Por essa estranha e misteriosa faculdade das multidões, aquele caso, vulgar um mês antes ou depois, naquele dia tomou a proporção de um acontecimento, de um fato pouco comum (LIMA BARRETO, 1976, p. 139-140).

Diante daquela oportunidade de alavancar a venda do seu jornal e assim superar seus concorrentes, Ricardo Loberant, diretor de O Globo e caricatura do poderoso Edmundo Bittencourt, aproveitando-se do interesse do público em acompanhar as informações relativas ao bárbaro crime, ordenou que o repórter mais criativo da redação, Adelarmo, a respeito do fato, ‘inventasse qualquer coisa, indícios, depoimentos, quaisquer informações’ (LIMA BARRETO, 1976, p. 140). Atitude, aliás, reprovável, conforme salienta Lima Barreto, que faz a denúncia dessa prática infelizmente tão rotineira nas redações de jornal.

Como defensores da qualidade jornalística guiada pela ética, Machado de Assis e Lima Barreto desarticularam a ideologia dominante no campo simbólico administrado pelos meios de comunicação, ao se posicionarem como jornalistas-pontes empenhados em acompanhar vozes ou trajetórias de vida normalmente ignoradas pela grande mídia. Para tanto, Machado convoca em suas crônicas o valor político de personalidades marginalizadas, como o líder sertanejo Antonio Conselheiro, principal alvo militar na Guerra de Canudos (1896-1897), e o escravo de ganho, Pai Silvério, que vai dissertar para o cronista sobre os efeitos do abolicionismo em sua vida. Já, Lima Barreto se projeta em seu personagem, Isaías Caminha, para denunciar, a partir do ponto de vista desse sujeito alijado da cidadania brasileira por ser pobre e negro, as mazelas da nossa imprensa, incluindo entre elas a barreira étnica responsável pelo ‘impedimento’ de afrodescendentes a se manifestarem no campo das ideias, como é o caso da atuação jornalística.

Ao povo do Arraial do Belo Monte de Canudos, Machado de Assis dedicou uma série de crônicas, sendo a última delas, a de 31/01/1897, um divisor de águas para o fazer jornalístico em tempos de guerra. Salienta o cronista que Antônio Conselheiro, sem direito à defesa, foi tachado de ‘fanático’, ‘salteador’, ‘inimigo número um da República’, e a imprensa abraçou esses rótulos com base apenas em fontes do governo, sem investigar se tais avaliações tinham fundamento ou não, sem ouvir e publicar a versão dos sertanejos. Quanto a isso, Machado se posicionou de forma explícita e incisiva: ‘protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro’ (1995, p. 401). E fez uma série de ressalvas a respeito da cobertura noticiosa no conflito de Canudos. O cronista observou e avaliou certos pontos que inviabilizaram o trabalho do repórter encarregado de fornecer as notícias do conflito: em primeiro lugar, ele escrevia da capital da Bahia, o que impossibilitava atestar in loco o fato e os seus desdobramentos. Além disso, o correspondente fundamentava a notícia nas versões de testemunhas de oitiva, e não de testemunhas oculares que viviam na pele o drama da guerra. Machado foi ousado ao denunciar que ‘nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos’ e aproveitou a oportunidade para apontar um caminho em prol de uma apuração verdadeiramente qualificada dos acontecimentos: o envio, para a região do semi-árido baiano, de ‘um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais subchefes’, e que pudesse construir, assim, a ‘verdade inteira’ sobre os fatos. ‘Seria uma proeza americana’, afirma o cronista (MACHADO DE ASSIS, 1955, p. 404).

Fonte de informação

Tal solicitação de Machado surtiu efeito. Prova disso foi o envio de uma série de correspondentes para aquela localidade, o que proporcionou uma cobertura jornalística de dimensões nunca antes vista. Walnice Nogueira Galvão é de opinião que ‘a Guerra de Canudos, se não inaugurou, deve ter intensificado extraordinariamente no Brasil a praxe jornalística de dispor enviados especiais no local dos acontecimentos’ (1977, p. 109). Arrisco dizer que o ‘grito de alerta’ dado por Machado preparou o terreno para o trabalho de escritores e jornalistas, como o realizado de forma destacada por Euclides da Cunha. Na condição de correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, ele pôde acompanhar de perto os dramas daquele conflito e reuniu suas impressões sobre o mesmo na célebre obra Os sertões, publicada em 1902.

Mais uma vez atento aos reflexos das ações hegemônicas sobre a vida daqueles que pertenceram à base da pirâmide social do seu tempo, Machado de Assis foi capaz de tirar da invisibilidade um tipo social ignorado há tempos por uma imprensa não acostumada a ouvir os dois lados da questão. Principalmente, quando se estava em jogo os interesses de senhores e escravos. No auge da campanha abolicionista, Machado opta em ouvir o personagem negro – Pai Silvério – e reproduzir a declaração deste ‘escravo de ganho’ em crônica publicada na seção ‘Gazeta de Holanda’, de 27/09/1887. O cronista pautou-se pelo princípio de dar crédito a quem de fato iria ser atingido diretamente pelo fim da escravatura. Informa Pai Silvério que ele era uma vítima constante de agressão física por parte do senhor: ‘pancada, quando não vendo, /Pancada que dói, que arde; / Se vendo o que ando vendendo, / Pancada, por chegar tarde’, O vendedor de verduras ainda denuncia o quanto a alimentação a que tinha direito era escassa: ‘(…) Comida pouca: / Pires de feijão, e um pingo / De café, que molha a boca’. E encerra o seu depoimento, dirigindo-se aos jurisconsultos, àquela altura empenhados em impor a figura do statu liber, espécie de meio-termo entre a liberdade e o cativeiro, construindo esta sentença emblemática: ‘tu tá livre, eu fico escravo’ (MACHADO DE ASSIS, 1938, p. 387).

Infere-se desta declaração que a condição escrava não constitui a identidade do negro e sim é configurada como fruto da construção cultural de uma hegemonia branca que reservou ao afrodescendente o exclusivo papel de força de trabalho, destituindo-lhe até mesmo da condição de sujeito.

Ao considerar Pai Silvério como fonte de informação (algo fora do comum na imprensa da época), Machado proporciona que o sistema escravocrata seja desvelado pela voz do escravo de ganho. Na crônica em questão, o personagem negro se apresenta como sujeito sábio, detentor de uma capacidade de análise apurada sobre os fatos, e plenamente capacitado em oferecer um depoimento consistente em prol de uma aguçada reflexão social e política a respeito do debate envolvendo os direitos de liberdade e propriedade, tão em evidência no certame ideológico do Brasil oitocentista.

‘Erotismo de publicidade’

Já no contexto republicano, Lima Barreto amplia a discussão sobre a ausência ou a pouca representatividade dos subalternizados na cena intelectual brasileira, quando oferece tratamento ficcional ao exercício crítico de retratar os abusos de poder cometidos pelo jornalismo, a partir da trajetória étnica de Isaias Caminha que experimentou as agruras da marginalidade e as benesses sociais de ter sido promovido a repórter de O Globo. Tal fato se deu porque ele não fez nenhum alarde ao testemunhar um deslize comportamental cometido pelo dono do jornal em que trabalhava. Infelizmente, o nosso personagem não deixou de ser contínuo graças ao fato de ser reconhecido como repórter promissor por Ricardo Loberant. Muito menos houve no dono do jornal a intenção explícita de atrelar a linha editorial do veículo à demanda étnico-social advinda daquele jovem que só era percebido na repartição como mais um prestador de serviços gerais. O que levará Isaías Caminha a ascender no mercado jornalístico é o fato de ele ter flagrado seu chefe em um bordel. Com receio de seu funcionário ‘dar com a língua nos dentes’, Ricardo Loberant promove o rapaz à condição de repórter do O Globo em troca do seu silêncio.

O problema do racismo começa a vir à tona na narrativa barretiana quando Isaías Caminha, recém-chegado à capital do império, é acusado de roubar o hotel onde estava hospedado. A desconfiança policial acaba pairando sobre ele por conta deste ser negro. Interrogado pelo delegado, o suspeito sofre várias intimidações, sendo constantemente humilhado pela autoridade legal. Perguntado se tinha relações no Rio de Janeiro, o suspeito se acanha em responder a questão no primeiro momento, mas depois revela que conhece o doutor Ivã Gregoróvitch Rostolóff, jornalista de O Globo. Surpreendido com a revelação, o delegado suaviza o tom da conversa:

– Por que não me disse logo? Quando se está em presença da polícia, a nossa obrigação é dizer toda a nossa vida, procurar atestados de nossa conduta, dizer os amigos, a profissão, o que se faz, o que não se faz…

– Não sabia que era um homem importante, por isso…

– Pois não! Um jornalista é sempre um homem importante, respeitado, e nós, da polícia, temo-lo sempre em grande conta… Vá-se embora, disse-me ele por fim, e procure mudar-se daquele hotel quanto antes… (LIMA BARRETO, 1976, p. 80-81).

Visto como um homem de poder, a menção nominal do jornalista livra Isaías de maiores complicações. É interessante ressaltar que, na seqüência da conversa, o delegado alerta: ‘– Não diga nada ao doutor Rostolóff – sabe? Ele pode publicar e ambos nós temos que perder…’ (LIMA BARRETO, 1976, p. 81). Além de respeitado, o jornalista é principalmente um sujeito temido, por gozar do poder de publicar as inconveniências sociais. Para Isaías, o profissional de imprensa só era visto assim porque trabalhava nos jornais: ‘Eles [os jornalistas] não valiam por si; o jornal é que lhes dava brilho’ (LIMA BARRETO, 1976, p. 141). Lima Barreto aponta os jornalistas, em geral, como seres medíocres, de pouca inteligência. A visão do protagonista a respeito desses agentes da comunicação fica cada vez mais sombria à medida que passa a trabalhar e conviver com eles diariamente. Por meio de Isaías Caminha, o autor faz uma aguda crítica de classe (a dos jornalistas), incluindo também uma avaliação radical do empresariado da comunicação, representado no livro por Ricardo Loberant:

O que observei neles, no tempo em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para não os amar, os imitar. São em geral de uma lastimável limitação de idéias, cheios de fórmulas, de receitas, só capazes de colher fatos detalhados e impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às idéias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e um pueril e errôneo critério de beleza (LIMA BARRETO, 1976, p. 78).

Identificam-se na obra de Lima Barreto pelo menos dois eixos de avaliação do trabalho comunicativo exercido na imprensa: o primeiro se refere à aura de prestígio e poder que envolvia os jornalistas perante a sociedade; e o segundo se enquadra no apontamento da mediocridade, da falta de escrúpulos e caráter do que exerciam atividades vinculadas à imprensa. O sórdido vínculo entre imprensa e poder foi também tema de destaque para Lima na crônica ‘Os nossos jornais’, publicada na Gazeta da Tarde, de 18/10/1911. Soa atual a crítica barretiana em relação ao empobrecimento da função social da imprensa, quando esta se comporta como agenciadora do marketing pessoal daqueles que utilizam o jornal para obter investimento financeiro e prestígio junto aos seus projetos pessoais e individualistas: ‘tipos ricos e pobres, néscios e sábios, julgam que as suas festas íntimas ou os seus lutos têm um grande interesse para todo o mundo. Sei bem o que é que se visa com isso: agradar, captar o níquel, com esse meio infalível: o nome no jornal’ (LIMA BARRETO, 2004, p. 107). Machado de Assis também observou tal fenômeno e o nomeou ironicamente de duas formas, a saber: ‘sede de nomeada’, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, e ‘erotismo de publicidade’, na crônica de 14/03/1885, publicada na Gazeta de Notícias.

Proeza machadiana

A futilidade das pautas e seções dos periódicos, além da política editorial chapa-branca, também foram repreendidas por Lima Barreto. Na crônica anteriormente citada, o jornalista se aborrece com a mediocridade comunicativa da mídia de seu tempo, sendo que esta peca ora pelo excesso, ora pela falta de informação: ‘os nossos jornais diários têm de mais e têm de menos; têm lacunas e demasias. Uma grande parte deles é ocupada com insignificantes notícias oficiais’ (LIMA BARRETO, 2004, p. 106).

Devido ao boicote ostensivo ao seu trabalho como jornalista e ficcionista, Lima Barreto, por criticar satiricamente as ‘panelinhas’ literárias e midiáticas de seu tempo, teve grande parte de seus textos contemplados na imprensa alternativa, em especial nos periódicos A Careta e A.B.C.. Assumindo o bônus de ter sua consciência crítica marcada pela retidão independente e o ônus de sofrer com o pouco reconhecimento do seu talento em vida, Lima Barreto optou pela ousadia satírica como estilo combativo para listar, se preciso fosse, os responsáveis direitos e indiretos pelo patrulhamento ideológico da sociedade em que vivia, sendo tal prática sorrateiramente conduzida pela grande imprensa. Nesse sentido, encontra-se nesta bombástica passagem de Recordações do Escrivão Isaías Caminha mais uma prova do empenho visceral de Lima em alertar a sociedade sobre a existência de um compromisso interno, um espirit-de-corps, mais importante do que o pacto entre jornalistas e leitores:

A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa ressuscitasse […] só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda prova… E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação. Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos parvos, imorais e bestas… […] E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção de mediocridades (LIMA BARRETO, 1976, p. 96).

Se não bastasse constatar que a imprensa, no afã de se comportar como o ‘Quarto Poder’, acaba funcionando muito mais como ‘quadrilha’, Lima Barreto, a partir do seu personagem Isaías Caminha, aproveita o espaço ficcional para expor a administração verticalizada que marca o funcionamento da redação do O Globo, mostrando que o jornal em questão jamais foi uma ferramenta a serviço da sociedade. A função crítica do periódico sempre esteve adequada aos anseios inescrupulosos de poder político por parte do seu chefe-fundador Ricardo Loberant:

Pelos longos anos que estive na redação do O Globo, tive a ocasião de verificar que o respeito, que a submissão dos subalternos ao diretor de um jornal só deve ter equivalente na administração turca. É de santo o que ele faz, é de sábio o que ele diz. Ninguém mais sábio e poderoso do que ele na terra (LIMA BARRETO, 1976, p. 102).

Com esse retrato sem retoques de um mandarim das comunicações, Lima Barreto atinge em cheio a reputação o magnata Edmundo Bittencourt, representado caricaturalmente pelo personagem Ricardo Loberant. Com resposta a essa crítica, o dono do Correio da Manhã encabeçou um movimento que faria com que os outros grandes jornais do Rio de Janeiro começassem a reagir com indiferença a qualquer ação proveniente de Lima Barreto. Se Lima preferiu uma crítica mais afiada e pormenorizada dos agentes midiáticos, Machado de Assis optou por um exame da mídia, privilegiando mais seus aspectos conjunturais. Ao invés de diretamente dar o nome aos bois e romper com os ditames das cadeias produtiva e receptiva do jornal, aliados majoritariamente ao status quo, conforme destacou destemidamente Lima; Machado, também na condição de crítico da imprensa, escolheu uma postura engenhosa, articulada em avaliar ironicamente o ‘comportamento de manada’ que articulado à mentalidade escravizadora e ao analfabetismo galopante inviabilizaram um jornalismo de transformação social no Brasil. Isso explica a proeza de Machado ter conseguido realizar a crítica da imprensa nos grandes veículos de comunicação, a exemplo do jornal abolicionista Gazeta de Notícias, mesmo prestando serviços jornalísticos a eles.

Avaliação ética

Na mencionada crônica da Gazeta de Notícias, publicada em 16/09/1894, Machado incorpora, por exemplo, a figura de um jornalista sensacionalista, não porque comunga desse parâmetro editorial, como nos faz crer uma leitura rasteira do texto, mas sim por preferir ‘entrar na pele’ e melhor denunciar os valores daqueles que promoviam um jornalismo com sede de violência e encantados pela tragédia. Trata-se de uma oposição sofisticada, fruto de uma monumental ironia. No caso da crítica à imprensa sensacionalista, o jornalista Machado de Assis protesta contra os efeitos artificiais trazidos pelas ‘semanas ricas’ e se posiciona a favor dos encantos das ‘semanas pobres’, com o objetivo de apontar um caminho ético e de qualidade editorial para a atividade jornalística a partir do lirismo poético e do temperamento artístico tão caros à crônica. Ao fazer uma espécie de alegoria das semanas, Machado faz uso da tática dispersiva a fim de avaliar um fato grave – o sensacionalismo midiático – a partir de uma abordagem leve. Por meio de uma lógica do avesso, o cronista conta que adora receber as visitas das semanas pobres e detesta receber as semanas ricas:

[…] e aí vamos, eu e a semana pobre, papel abaixo, falando de mil cousas que se ligam à banana, desde a botânica até a política […] Na há tempo nem espaço, há só eternidade e infinito, que nos levam consigo; vamos pegando aqui uma flor, ali de uma pedra, uma estrela, um raio, os cabelos de Medusa, as pontas do Diabo, micróbios e beijos, todos os beijos que se têm consumido, até que damos por nós no fim do papel. São assim as semanas pobres.

Mas as semanas ricas! Uma semana como esta que ontem acabou, farta de sucessos, de aventuras, de palavras, uma semana em que até o câmbio começou a esticar o pescoço pode ser boa para quem gosta de bulha e de acontecimentos. Para mim que amo o sossego e a paz é a pior de todas as visitas (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 622-623).

Ironicamente, Machado promove uma curiosa inversão de valores: pobres em matéria de acontecimentos bombásticos marcados pelo imediatismo em sua construção e recepção, tais semanas são, na verdade, ricas em matéria de poeticidade e imaginação. Nas semanas pobres, é estimulada a nossa percepção para os processos a longo prazo. A miudeza do cotidiano, marcada por acontecimentos banais a princípio, mas que neles continham uma realidade inusitada que vinha à luz liricamente, compunha a matéria-prima do trabalho literário e jornalístico de Machado. Para ele, as semanas ricas contrariavam as expectativas do cronista, pois exigiam…

…várias cerimônias, algum serviço, muitas cortesias. Demais, são trapalhonas, despejam as algibeiras sem ordem e a gente não sabe por onde lhes pegue, tantas e tais são as cousas que trazem consigo. Não há tempo de fazer estilo com elas, nem abrir a porta à imaginação. Todo ele é pouco para acudir os fatos (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 623).

As semanas ricas são justamente a matéria-prima do sensacionalismo, revela Machado. Lá, mora a morte da transcendência em nome da verdade factual, da produção em larga escala dos acontecimentos ‘de maior melindre’ (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 623). A decomposição desumana promovida pelo jornalismo de impacto ganhava força em relação à composição humana protagonizada pela imprensa de reflexão. Adeptos a esse segundo modelo de fazer jornalismo, Machado de Assis e Lima Barreto resistiram aos mecanismos da imprensa noticiosa, a partir de um diferencial literário que marcaram suas crônicas, elevando assim o nível de qualidade da mídia brasileira. Para tanto, eles teceram em seus escritos um conjunto de concepções teóricas e práticas que compuseram um tipo especial de agente comunicativo, que viria a ser chamado, na contemporaneidade, de media critic (crítico da imprensa).

Considerando os textos machadianos e barretianos, percebemos que o papel social do crítico da mídia consiste em trazer ao público uma contundente avaliação ética do campo jornalístico, com o intuito de contribuir para o debate a respeito das virtudes e dos vícios da imprensa. Além de críticos da imprensa, Machado e Lima fundamentaram paradigmas ideais de jornalismo até hoje pertinentes.

Referências

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Jornalista, doutorando em Literatura Brasileira, Belo Horizonte, MG

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