Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ARMAZéM LITERáRIO > JORNALISMO & LITERATURA

Machado de Assis, o ‘bruxo’ das palavras

Por Sebastião Jorge em 22/07/2008 na edição 495

Machado de Assis fez da vida uma luta incessante e diária contra as adversidades. Como a não bastar o trabalho que realizava para ganhar o pão de cada dia, tinha que aturar os ataques dos invejosos, daqueles que não aceitavam o seu sucesso. Arrogante e ousado – o poeta Cruz e Souza, afro-descendente, humilde figura do simbolismo brasileiro, escreveu:




‘Machado de Assis, assaz/ Machado de assaz, Assis:/ Oh! Zebra escrita com giz./ Pega na pena faz ‘zás’,/ Trás/ Sai-lhe o ‘Borba’ por um triz,/ Plagiário do ‘Gil Brás’,/ (…) Banalidades nos diz, (…)/ Machado de Assis assaz,/ Machado de assaz, Assis./ Adiante veremos novos desafetos.’


Quem diria que aquele moleque de cor parda, corpo frágil, doente, ainda criança, perdeu a mãe, a portuguesa Maria Leopoldina, e o pai, Francisco José de Assis, pintor de paredes e dourador, atingisse posições tão elevadas? Logo teria uma madrasta. O pai se casou pela segunda vez com uma lavadeira, a qual também morreu logo depois. Ficou sob os cuidados da madrasta Maria Inês, que o tratou bem. Impôs uma condição, tinha que trabalhar de dia e estudar à noite, à luz de velas. Conseguiu um emprego numa papelaria como caixeiro.


Tentou uma nova atividade, como vendedor. Gago e tímido, desistiu da oportunidade e foi ser coroinha da igreja de Nossa Senhora de Lampadusa. Nascido numa quinta do morro do Livramento, descendente de escravos, pobre, mas esperto, inteligente e interessado em tudo que se passava à sua volta, foi galgando posições que o levariam a ser não apenas o maior nome da literatura brasileira, como, no âmbito da administração pública, conquistou o mais alto posto, diretor geral do Ministério da Viação. É pouco?


Imprensa, porto de chegada e saída


O esforço e a sorte o acompanharam. Estava no lugar e na hora certa em determinados momentos, na companhia de pessoas influentes, o que o ajudou a subir os degraus da fama. Como aprendiz de tipógrafo, encontrou como chefe, na Tipografia Nacional, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias. Autodidata, teve como professor o padre Antônio José da Silveira Sarmento, que lhe deu aulas sem cobrar nada. Ingressou no quadro de caixeiros da livraria de Paula Brito, que fazia poesias, e terminou como revisor de um livro do chefe. Por esse tempo, com o conhecimento de inglês e francês, auxiliava Charles de Ribeyrolles na tradução de O Brasil pitoresco. Traduziu, ainda, os clássicos da literatura, como Victor Hugo (Trabalhadores do Mar) e Edgar Allan Poe (O Corvo).


Machado teve uma relação permanente com os jornais e revistas do Rio de Janeiro. Com eles aprendeu muito, e sem eles, talvez não conseguisse certas oportunidades. Emprestou o brilho da sua inteligência e a versatilidade da pena, com um texto agradável pela ironia e leveza. Certamente, aperfeiçoando-se com a leitura e os estudos. Eis a relação dos periódicos que atuou: Correio Mercantil, O Paraíba, Jornal do Povo (do Partido Liberal, no qual militou, coisa passageira), Diário do Rio de Janeiro, Semana Ilustrada, Jornal das Famílias, Diário do Rio.


Tornou comum aos jornalistas do século 19 o uso de pseudônimos, costume que chegou em meados do século 20. Machado de Assis não fez exceção. Os tinha para todo gosto e ocasião: Gil, Job, Platão, Lélio, Policarpo, Malzolio, Dr. Semana, Eleazar, Sileno etc. Gostava de escrever para jornal. Comunicação certa com os leitores. Fez da imprensa porto de chegada e saída. Encantou o seu público com o poder das palavras e idéias.


Uma nova fórmula


O jornal tornou-se ancoradouro seguro nos momentos difíceis. Dotado de talento, usou a pena para contar histórias, fazer romances, peças de teatro, críticas severas sobre obras de autores famosos. Alguns faziam parte de sua amizade e admiração, como Eça de Queiroz, a quem esmiuçou as fraquezas de O primo Basílio. Nem sempre se fez entendido. Muitos respondiam não com idéias, ou no mesmo nível. Certos insultos beiravam a mesquinhez. Sílvio Romero foi implacável.


Ao não aceitar o sucesso de Machado em detrimento do seu conterrâneo e a quem considerava uma das maiores culturas do Brasil, o conterrâneo Tobias Barreto, partiu para um linguajar chulo e declarou: ‘Brás Cubas não passava de um bolorento pastel literário’ (…). Por não tomar partido numa das eleições à presidência da ABL, que ele fundou, o candidato, padre José Severiano de Resende, até então amigo, deixou este depoimento: ‘O aborígine do Cosme Velho, autor de uma obra que não deixa rastro, nem sulco, nem marco’. Agripino Grieco, Sílvio Romero e outros que tentaram desmerecê-lo, a tempo se arrependeram. O autor de Dom Casmurro estava vingado.


A imortalidade de sua obra resistiu às maldades dos homens e do tempo. Cem anos depois de morto, continua mais vivo que nunca. Despertando interesse, sendo lido, levado às telas de TV e cinema. A crônica, que começou com José de Alencar no rodapé dos jornais, coube a Machado de Assis (1839-1908) aperfeiçoá-la, lapidá-la como a beleza e estética. Inventou uma nova fórmula. Este, sim, fez escola em tudo que escreveu. A crônica é um dos gêneros de sucesso, a se avaliar pelos lançamentos, aqui e lá fora, com aceitação do público. Grande ‘bruxo’.

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