Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > ‘CHAMA DE UMA VELA’

Mais um sebo que não quer ser um sebo a menos

Por Camila Moraes em 30/06/2015 na edição 857
Reproduzido do El País, 26/6/2015

Um sebo é um depósito de livros usados. Mas levante o primeiro título, espere o dono da casa se achegar e sinta na pele: um sebo é um depósito de histórias vivas. Não só por ser um espaço de literatura, mas porque cada livro ali empoeirado suscita, além de sua própria narrativa, muitos causos. É assim, ao menos, que os visitantes doSebo Chama de uma Vela são recebidos à rua Augusta, 1371, no centro de São Paulo.

Maurício Eloy, professor de História da Arte e História da Cultura e educador, fundou o Chama há 14 anos e há sete o instalou na pequena loja de galeria, das tantas que permanecem vivas naAugusta. Começou o negócio arriscando com um lote de livros italianos, da editora Mondadori, todos muito cuidados e chamativos, que foram vendidos aos poucos.

Logo, ele adquiriu a biblioteca pessoal da neta do escritor Monteiro Lobato, cheia de preciosidades, e assim foi adiante, farejando tesouros. Hoje dispõe de um acervo de mais de 8.000 livros, muitos deles relacionados a Filosofia, Antropologia e História, e outros tantos de ficção, sem temer inclusive os best sellers. “O segredo de um sebo é ter livros de grande valor e também títulos esgotados em editoras”, afirma Maurício, que, além de dar aula, já trabalhou em museus e centros culturais paulistanos.

Pelo Chama, já passaram muitos famosos, como o artista plástico Vik Muniz, o músico Arrigo Barnabé, o ator Marco Nanini e o chef Alex Atala – todos dispostos a trocar figurinhas com Maurício, na literatura e além. Mas são os anônimos que suscitam as melhores histórias: a menina que chegou chorando e saiu sorrindo com um livro de presente, o casal de idosos que passou um dia inteiro lendo nas duas únicas cadeiras do lugar, o físico apaixonado por música que terminou esquecendo a Física e levando um livro de violinos em relevo… , estudantes e professores do meio acadêmico atrás dos exemplares que já se esgotaram nas lojas tradicionais. E os muitos que chegam curiosos e saem convictos de ter encontrado uma toca de boas leituras e sincero afeto.

 

Uma opção confortável para leitores assíduos é comprar os livros garimpados pelo Chama de uma Vela na página do sebo na Estante Virtual, mas o recomendado mesmo é passar por lá e deixar-se atender pelos vastos conhecimentos do anfitrião, que estuda (e estuda mesmo) não só Filosofia, mas também xamanismo, ufologia, arte oriental e outros tantos temas.

“Minha aposta é ter um bom estoque e fazer um bom atendimento”, diz Maurício, que anda em dificuldades financeiras e se esforçando para não fechar as portas. Uma campanha de financiamento coletivo foi aberta para driblar a crise. O objetivo é receber apoios para que o sebo possa se reinventar, mudando para uma casa mais ampla, com espaço para os cursos e os encontros que lá acontecem informalmente e sem maior comodidade. Está ativa no Catarse, porém a dois dias de acabar e com uma arrecadação aquém do esperado.

Apesar da falta de recursos, ele continua farejando preciosidades literárias – “um sebo tem que adquirir novidades sempre” – e se vestindo de maneira especial. “Sou conhecido como o livreiro dos blazers”, diz, sobre a peça que não pode faltar em sua indumentária. Maurício, afim às velas que o levam à infância e à leitura à moda antiga (e também ao título do livro de seu filósofo preferido, Gaston Bachelard, que inspirou o nome do sebo), segue aceso. “Pretendo começar uma nova campanha em uma plataforma diferente. Não vou desistir”, promete.

Uma pescaria no Chama

Veja alguns títulos pescados no sebo de Maurício Eloy pelo EL PAÍS:

>> A ordem de Malta e o Brasil Imperial, de João Hermes Ferreira de Araújo: a história do Brasil a partir de suas ordens fechadas, assunto tão antigo e tão atual no país.

>> Biologia das paixões, de Jean Didier Vincent: uma dose necessária de Filosofia.

>> Bíblia Sacra Vulgata: uma preciosidade em latim para colecionadores e estudiosos de tradução literária, por exemplo.

>> Livro das mutações – Na escola de Confúcio, de Yeg Keq: um dos cinco clássicos chineses, que têm no i-ching as respostas para suas dúvidas e necessidades.

>> Coleção Obra Jornalística de Gabriel García Márquez: um tesouro de boas histórias que vão além de Cem anos de solidão.

>> Borges, uma biografia em imagens, de Alejandro Vaccaro: a trajetória do grande escritor argentino em uma edição brasileira rica em fotografias.

>> Poesias completas de García Lorca: livro que reúne os poemas do poeta espanhol, feito de capa de couro e papel especial, bonito de corpo e alma.

***

Camila Moraes, do El País

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