Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ARMAZéM LITERáRIO > FOGO SOBRE GAZA

Manter a imprensa afastada não funciona

Por Robert Fisk em 07/01/2009 na edição 519

Do que Israel tem medo? A velha desculpa de ‘área militar fechada’ para impedir a cobertura dos veículos de comunicação durante ocupações de terras palestinas tem sido usada por anos. Mas a última vez que Israel resolveu jogar esse jogo – em Jenin, em 2000 – o resultado foi um desastre. Impedidos de ver a verdade com seus próprios olhos, os repórteres divulgaram a versão dos palestinos, que denunciaram ter ocorrido um massacre promovido por soldados israelenses – e Israel precisou levar anos negando. Na verdade, ocorreu um massacre, mas não na escala inicialmente denunciada.


Agora, o Exército israelense está tentando usar a mesma estratégia. Banir a imprensa. Manter as câmeras longe.


Ontem [segunda, 5/1] pela manhã – poucas horas após o Exército israelense avançar pelo interior de Gaza para matar mais membros do Hamas e, é claro, mais civis – o Hamas anunciou a captura de dois soldados israelenses.


Sem um único jornalista ocidental em Gaza, os israelenses deixaram de dizer ao mundo se essa informação é ou não verdadeira.


Por outro lado, os israelenses são tão cruéis que as razões para banirem a imprensa podem ser facilmente explicadas: há muitos soldados israelenses matando muitos inocentes, provavelmente muito mais do que sabemos. E as imagens da matança seriam fortes demais para se tolerar.


Não que os palestinos tenham feito muita coisa para ajudar.


O sequestro por palestinos de um funcionário da BBC em Gaza, finalmente reivindicado pelo Hamas, fez com que meses atrás redes de TV de todo o mundo considerassem perigoso demais manter correspondentes em Gaza.


Lado sombrio


Voltando aos anos 80, a então União Soviética manteve todos os jornalistas ocidentais fora do Afeganistão.


Aqueles que estavam cobrindo a invasão russa e suas consequências brutais não conseguiam entrar no país, a não ser com a ajuda de militantes islâmicos. Na época, recebi uma carta de Charles Douglas-Hume, que era editor do The Times, para o qual trabalhava, fazendo uma importante observação. ‘Agora que não temos cobertura regular a partir do Afeganistão’, escreveu ele, ‘ficaria muito agradecido se você pudesse assegurar que as informações mais importantes vindas daquele país estão sendo publicadas. Não devemos deixar os fatos ocorridos no Afeganistão sem registro somente porque não temos um correspondente lá.’


Que Israel usa uma velha tática soviética para tentar cegar os olhos do mundo pode não ser exatamente uma surpresa. Mas o resultado é que a voz dos palestinos domina agora as transmissões.


Homens e mulheres palestinos que estão sob bombardeio aéreo e terrestre israelense estão agora contando suas histórias na TV, no rádio e nos jornais como nunca conseguiram contar antes, pois falam em reportagens sem qualquer tipo de avaliação da situação feita pelos correspondentes. Talvez isso se torne uma nova forma de cobertura – deixar os envolvidos contarem suas próprias histórias. O lado ruim, é claro, é que não há ninguém da imprensa ocidental em Gaza para fazer questionamentos ao Hamas, o que é uma vitória para o grupo.


Mas há um lado ainda mais sombrio dessa história. A versão israelense dos fatos tem sido tão acreditada pelo governo Bush que impedir jornalistas em Gaza pode ter se tornado uma questão menor para os militares.

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Colunista do Independent

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/01/2009 nelson lott

    TRAGÉDIA DE ERROS
    Napoleão dizia que guerra é coisa muito séria para ser tratada por generais.
    Israel começa outra guerra sem aviso prévio, ao mehor estilo Pearl Harbour.
    Bombardeia uma formatura de guardas de trânsito e infoma ter liquidado terroristas do Hamas
    Bombardeia mesquitas e justifica-se dizendo que eram paióis de armamento do Hamas como comprovam as explosões secundárias. Ou seja, primeiro atira e depois vê quem morreu. Quem ouve as explosões secundárias, o piloto do avião ou os sobreviventes ensudercidos?
    Israel manda os civis palestinos abandonarem a área e eles vão buscar refúgio em local seguro: junto à ONU. Israel bombardeia escola da ONU e mais uma vez afirma a ocorrência das explosões secundárias. A ONU informa que foram três granadas de tanque. Israel afirma que as tropas responderam ao fogo vindo da escola. A ONU informa que em 99,9% de certeza de que ão havia nenhum combatente do Hamás na escola. Israel informa que havia dois terroristas lá. Como foram identificados? A ONU declara que duas das suas escolas foram bombardeadas.
    Israel desarticulou a infra-estrutura do Hamas, mas os militantes são capazes de organizar a trégua de três horas.
    Israel autoriza a ONU a distribuir mantimentos e bombardeia o comboio da ONU.
    Um cardeal chama Gaza de campo de concentração e Israel acusa o religioso católico de pró-Hamas.
    Napoleão parece ter razão.

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