Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ARMAZéM LITERáRIO > REDAÇÃO JORNALÍSTICA

Menos doutrina, mais intuição

Por Leandro Fortes em 05/08/2008 na edição 497

Há dúzias de publicações no mercado editorial brasileiro sobre como devem ser o texto e o comportamento dos jornalistas. São, todas, variações do mesmo tema, com alguma novidade aqui e ali, boa parte montada para abocanhar as muitas fatias de estudantes que vêem na redação jornalística um mistério impossível de ser desvendado sem a ajuda de sábios da gramática, gurus do léxico e manuais de redação voltados para uns poucos escolhidos. No entanto, escrever bem, para o jornalista, não tem o mesmo sentido geral daquele normalmente atribuído às angústias das tribos de acadêmicos e focas (jornalistas novatos).

O texto jornalístico tem regras próprias e, não obstante ser um servo incondicional do idioma, prescinde de muitos dos elementos da língua em prol de sua orientação dogmática primordial: a objetividade noticiosa. No texto jornalístico não cabem adjetivos, circunlóquios, perífrases, metáforas, eufemismos e outras figuras nobiliárquicas do idioma. É um texto simples, claro, objetivo e, se possível, breve. Não significa, no entanto, que o estilo e a beleza devam ser desprezados. Consiste aí, inclusive, um dos grandes desafios do jornalista, o de mesclar a dureza da notícia com a leveza das palavras. O bom jornalista é capaz de construir frases imorredouras sem sacrificar, pelo excesso ou pela omissão, o sentido noticioso.

Regrinhas e pantomimas

Os tópicos que se seguem são o resultado de um exercício de reflexão – aliás, muito caro à profissão – concretizado a partir de conselhos práticos, fruto de minhas observações pessoais ao longo de uma sempre conturbada, mas apaixonante, carreira de repórter e professor de Jornalismo. Moldado pelo jornalismo regional baiano, no qual comecei, e curtido na selva das redações de Brasília, sempre me impressionou o distanciamento entre as coisas escritas nos manuais de redação, citadas com entusiasmo para platéias selecionadas, e a realidade da profissão.

Ao longo de mais de duas décadas de atividade, pude perceber que as angústias dos jornalistas são universais, mas os veículos de comunicação insistem em tratá-las com regras herméticas que, longe de serem bússolas, são nada mais do que compêndios de doutrina corporativa mal disfarçados de manuais do escoteiro mirim. Dizê-los inúteis, porém, seria uma injustiça, assim como negá-los como fonte de consulta seria instaurar uma falsa polêmica. Não é esse o objetivo deste livro.

Os defeitos dos manuais de redação não estão nas dicas de texto nem na pretensão de colocar cabrestos nos repórteres para, assim, adaptá-los às características de cada meio. O pecado capital de todo manual de redação é seu caráter doutrinário. Muitos deles são partes de um sistema maior e mais complexo, montado pelas grandes empresas de comunicação e voltado para a formação de jornalistas recém-formados. São cursinhos intensivos, cheios de regrinhas e pantomimas de recursos humanos, em que alegres gerações de repórteres são instadas a acreditar na inutilidade do diploma a eles outorgado pelas faculdades de Jornalismo.

Interesses corporativos

Tratam de reproduzir, com base em preconceitos e interesses nebulosos dos donos da mídia, a ladainha anti-diploma, herança de velhos jornalistas, alguns geniais, saudosos de suas formações empíricas e românticas, como se fosse possível às redações do Brasil do século 21 relegar seus quadros de formação a aventureiros de simpáticas construções literárias.

Por causa desse grupo de saudosistas, e de uns poucos e bem pagos acólitos cooptados nas cúpulas das empresas, os jornalistas brasileiros talvez formem a única categoria no mundo a ter representantes contrários ao reconhecimento formal da própria profissão. Aceitam, bovinamente, a depreciação moral do ofício que lhes garante o pão de cada dia.

Colabora para esse quadro geral de desentendimento a confusão instalada, também na área acadêmica, entre jornalismo e assessoria de imprensa, duas atividades que se tocam na funcionalidade, mas nada têm a ver uma com a outra. O jornalismo é um bem comum à sociedade e tem na sua abordagem científica signos e normas voltados para a disseminação da informação a partir de contrapontos críticos. A assessoria de imprensa, ou de comunicação, como queiram, apenas se utiliza da linguagem jornalística, mas trata, basicamente, de propaganda. É a anti-reportagem.

Por causa do enxugamento geral das redações e, em muitos casos, por conta da decepção generalizada com os rumos do jornalismo no Brasil, a maioria dos jornalistas diplomados não está em atividade na imprensa, mas em gabinetes de políticos, empresários e instituições públicas e privadas. Por serem em maior número, os assessores dominam, também, as estruturas sindicais. Por isso, a luta pelo diploma de jornalista, este aqui entendido como profissional da notícia, tornou-se também a luta pela reserva de mercado nas assessorias de imprensa. Deixou, portanto, de ser uma bandeira voltada para o orgulho profissional para servir a interesses corporativos, em tudo desligados da essência do ofício e da profissão de jornalista.

Rotina e fauna das redações

Em muitos sentidos, essa discussão se dá dentro de bases burocráticas, quase sempre respaldadas pelas regrinhas dos manuais de redação. É coisa com potencial para inibir as iniciativas pessoais dos repórteres e transformá-los em robozinhos eficientes, limpos e cheios de etiqueta social, totalmente adaptados às demandas editoriais e estéticas do meio que lhes paga o salário. Do ponto de vista funcional, certamente é difícil criticar esse modelo, eficiente como uma fábrica de parafusos. Para os jornalistas, no entanto, é um fator a mais de estresse. Além de se preocuparem com a luta diária pela melhor notícia, ainda têm que estar atentos a regras específicas de estilo e comportamento, sob pena de serem identificados como inadaptáveis, quando não rebeldes, pelos sábios de plantão nos aquários das redações.

Encasteladas em suas próprias e inquebrantáveis doutrinas editoriais, as redações dos grandes veículos brasileiros de comunicação mantêm esses cursinhos, verdadeiras fábricas de monstrinhos competitivos, em detrimento da universalidade do conhecimento e da representação do jornalismo como bem comum. Fixam-se na eterna lengalenga de ‘o repórter do jornal X sempre lavas as mãos depois de fazer xixi’ ou ‘o repórter do jornal Y nunca fala de boca cheia’. Até que apareça na redação um novo publisher – normalmente, uma figura misteriosa que nada entende de jornalismo, mas adora programas de qualidade total de recursos humanos – para mudar tudo: a linha editorial, a estratégia de marketing, os brindes da edição de domingo e, finalmente, a doutrina da moda.

Não é, portanto, a intenção deste livro uniformizar o texto de jornalistas e estudantes de Jornalismo, mas, justamente, expor conceitos holísticos para criar pontos de reflexão. São tópicos que devem ser utilizados como referências importantes para a construção do texto jornalístico – boas ferramentas para quem ainda caminha, mas tem vontade de voar. O estilo, a clareza e a beleza do que advirá daí passa a ser responsabilidade intransferível de cada um. A obra trata, ainda, de conceitos internos e externos do ofício, tanto no que diz respeito à rotina das redações como à fauna que nelas habita.

Um guia, não uma bíblia

Minha intenção é a de despertar a curiosidade dos estudantes e dos jovens profissionais sem lhes negar a realidade, o fato de que não é possível enfrentar o mercado de trabalho sem o conhecimento necessário de suas idiossincrasias. É preciso que alguém lhes diga, logo cedo, que há regras obscuras dentro das redações, muitas delas ditadas por chefes sem escrúpulos, puxa-sacos subservientes e sem caráter. E que, muitas vezes, eles são escolhidos justamente por isso. Dizer-lhes que o jornalismo é uma profissão apaixonante, viciante e corajosa, cheia de boas conseqüências para a sociedade, mas repleta de alminhas pequenas abertas ao suborno e ao achaque.

Contar-lhes da vantagem de ver o mundo com olhos de repórter, mas fazê-los entender que nem todo repórter pensa assim, pois há os que mentem, inventam e roubam matérias e pautas de colegas para se afirmar na hierarquia das redações. Fazê-los saber que, para atacar, difamar ou, simplesmente, fazer valer a posição editorial das empresas de comunicação, muitos jornalistas aceitam publicar pautas em vez de notícias, ainda que cientes do caráter antiético e criminoso desse tipo de ação. Ainda assim, é preciso reafirmar que, apesar de tudo, ser repórter é um estado de espírito, é ter a disposição de decodificar o mundo para o próximo e ter como recompensa uma nova jornada para trabalhar com mais amor e dedicação ainda. É matar um leão todo dia, toda semana, como se essa caçada atrás da notícia fosse, no fim das contas, uma razão para viver – sem que para isso seja necessário sacrificar a vida.

Este livro se pretende um guia, não uma bíblia. Nele, ouso tomar partido do jornalismo, de seus defeitos, de seus repórteres.

Divirtam-se.

******

Jornalista

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