Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Mexicanos lêem pouco, mas lêem

Por Wladir Dupont, da Cidade do México em 25/05/2004 na edição 278

É um segundo lugar, é verdade, mas lá está, olímpico, Paulo Coelho, ao lado da estrela maior da literatura mexicana, o poeta e ensaísta Octavio Paz, desaparecido há dez anos. O primeiro lugar, não mais exclusivo, é do colombiano Gabriel García Márquez, agora forçado a dividir espaço com o mexicano Carlos Cuauhtemóc Sánchez – este, desde 1992, autor de 11 livros para a juventude, espécie de manuais de orientação sobre ‘valores éticos e morais’, fenômeno de vendas na América Latina e nos núcleos hispânicos nos Estados Unidos. (Outro escritor mexicano famoso e respeitado, o romancista Carlos Fuentes, desde 1954 criador de vasta e bela obra ficcional, a mais recente um envolvente livro de relatos fantásticos, Inquieta Compañía, aparece na rabeira da pesquisa). São os mais lidos na região do Vale do México, aí incluída a capital, Cidade do México, segundo a 10ª Pesquisa de Consumo Cultural e Meios de Comunicação, realizada todos os anos pelo jornal Reforma.

A pesquisa revela dados curiosos, às vezes contraditórios e, em certa medida, reflete o que acontece no resto do país. O chamado Distrito Federal, com seus 20 milhões de habitantes, a maior cidade do mundo, é onde se concentra a grande indústria editorial e todos seus satélites – leitores, livrarias e bibliotecas, críticos e resenhistas, gráficas, fábricas de papel, associações de classe, escolas e faculdades. A frieza dos dados e números é quebrada com uma contundente visão crítica do escritor e dramaturgo Víctor Hugo Rascón Banda, presidente da Sogem – Sociedade Geral de Escritores do México.

Rascón Banda desaconselha entusiasmo aos promotores culturais, sobretudo aqueles envolvidos na luta por um índice maior de leitura no país: a pesquisa informa que 16% da população da cidade lê, todos os dias, livros desligados da escola ou do trabalho, e 33% já leram pelo menos um Prêmio Nobel de Literatura (Saramago, Paz, García Márquez). Ainda assim, de acordo com Rascón Banda, os mexicanos continuam, segundo dados da insuspeita Unesco, lendo em média 1,5 livro por ano. Uma vergonha.

Mérito dos livreiros

Se algum consolo há nesses números é que 98% dos entrevistados preferem ler um livro de verdade, no papel, não no computador. Mas o próprio governo reconhece, encabulado, a existência de 51 milhões de pobres no país, ou seja, conta aí um fator econômico negativo: o livro é caro (em média entre 15 e 20 dólares).

‘Quando essa gente deixar de ser pobre’, afirma Rascón Banda, ‘veremos se prefere acariciar as sedosas folhas de um livro ou olhar na fria tela que irrita os olhos.’ Além do mais, lembra, a indústria editorial mexicana atravessa um novo período de crise, sendo obrigada a reduzir tiragens (a média é igual a brasileira, 3 mil exemplares para começar) porque, além de sofrer a perda crescente de leitores, falta de dinheiro e indiferença à leitura, se vê às voltas com um severo corte – da ordem de 50% – de subsídios oficiais, entre eles a isenção do imposto de renda.

Mais ainda: como o hábito da leitura não é dos mais populares na cidade, 28% dos entrevistados pela pesquisa do Reforma confessam só pegar um livro por recomendação de um amigo ou familiar, não por iniciativa própria. Poucos têm o hábito de freqüentar as ótimas livrarias da capital mexicana – as principais são Gandhi, Fondo de Cultura Económica, El Sótano, El Parnaso, El Alma Zen, todas no bairro colonial de Coyoacán, ao sul da cidade).

Pouco lhes importam, portanto, as resenhas em jornais e revistas. Preferem procurar determinado autor, meio de ouvido, ou botar fé no que dizem os usualmente turbinados textos publicitários. De novo Rascón Banda ataca: ‘Trinta e três por cento declaram que já leram um Prêmio Nobel, mas o mérito aí é dos livreiros, que colocam mesas especiais na entrada, para exibir os premiados.’

TV e fofocas

Quanto ao gosto mais amplo dos leitores, a pesquisa traz à luz o seguinte: homens cinquentões e pessoas com uma educação básica preferem livros de história, clássicos da literatura e relatos de suspense. As mulheres, entre 31 e 49 anos e mais escolarizadas, ficam com os romances, além dos livros de auto-ajuda e poesia. ‘O mais surpreendente é que as donas-de-casa lêem poesia. Como conseguem os livros? Mistério a ser resolvido’, conclui Rascón Banda. (Aqui o crítico escorrega, pois a Cidade do México tem uma ampla rede de bibliotecas públicas e privadas, onde o cidadão comum pode se abastecer de livros gratuitamente.)

Se não lê mais do que um livro e meio por ano, então o que lê o chilango, assim denominado o habitante da Cidade do México? Segundo a pesquisa do Reforma, 43% dos entrevistados são vidrados nas revistas de fofocas do meio artístico, a principal delas a revistinha semanal TV Novelas, seguida de perto pela rival TV Notas. As duas juntas, mais outras quatro menores, têm uma tiragem batendo em um milhão de exemplares, com base em matérias escandalosas ou fotos provocadoras das estrelas da TV. Depois vêm as de revistas de esporte, saúde, arte e cultura, moda, política, beleza, sociais, e as pornográficas.

A pesquisa foi realizada entre os dias 21 e 23 de fevereiro passado e ouviu 820 pessoas de 16 anos de idade ou maiores, na Cidade do México e em regiões vizinhas. A margem de erro teórico, calcula o Reforma, é de 3,4%, com um nível de confiança de 95%.

Alfaguara, fonte inesgotável

Mas qual seria a opinião de uma grande casa editorial em todo esse panorama pouco animador, no qual os empresários do livro, editores e livreiros (é melhor nem falar da condição do escritor profissional) travam batalhas intermináveis e quase sempre frustrantes para fazer as contas baterem, ou pelo menos não perder muito?

Uma das maiores editoras mexicanas (as outras são a Random House-Mondadori, Planeta, Tusquets, Oceano), a filial da espanhola Alfaguara, do grupo madrilenho Santillana (que edita o jornal El País e, no Brasil, é dono da Editora Moderna-Salamandra), enfrenta a crise festejando 15 anos de atividades no país. A comemoração é parte dos 40 anos da casa matriz, fundada em 1944, em Palma de Mallorca, em plena ditadura franquista, pelo escritor Camilo José Cela e seus irmãos.

Alfaguara, em árabe significa ‘a fonte que corre e emana’.

Até hoje a editora tem honrado essa frase simbólica, pois com o tempo se converteu num ponto de referência da literatura moderna em espanhol, traduções incluídas, graças a qualidade das obras e autores de seu catálogo. Entre estes estão Juan Carlos Onetti, José Saramago, Mario Benedetti, Julio Cortázar, Augusto Monterroso, Gunter Grass, Mario Vargas Llosa, Susan Sontag, Carlos Fuentes, Javier Pérez-Reverte e outras figuras carimbadas. A coleção Alfaguara Global publica em média 100 títulos novos por ano; no México, em torno de 30.

Entre os autores mexicanos, a Alfaguara edita obras de Elena Poniatowska, Alberto Ruy-Sánchez, Ignacio Solares, Federico Campbell, Homero Aridjis, Sara Sefchovich, e a mais nova revelação da literatura local, o romancista Javier Velasco, que com seu livro El Diablo Guardián ganhou, no ano passado, o Prêmio Alfaguara de Romance. O prêmio foi criado em 1965 e o autor vencedor, espanhol ou internacional, embolsa 175 mil dólares e tem a obra editada em 16 países – Estados Unidos, inclusive.

Em recente entrevista coletiva à imprensa cultural da cidade, a diretora editorial da Alfaguara, Marisol Schultz, disse ao Observatório da Imprensa que de fato a luta é dura, constante, as crises vão e voltam, ‘mas nosso objetivo, fiel a uma vocação muito especial, a de divulgar sempre a boa literatura hispânica e internacional, é continuar apostando em autores de qualidade, incluindo os brasileiros’. Para tanto, segundo Marisol, a editora trabalha ‘com uma agressividade comercial muito maior que a de costume, pois é preciso promover bem os livros para obter resultados no mínimo satisfatórios’. De fato, o nivel dos livros da Alfaguara – projeto gráfico, capa, traduções – é da maior qualidade, nada devendo a editoras de outros países.

A propósito dos escritores brasileiros, Marisol faz publicamente um mea culpa pela falta, em sua editora, de presença maior da nossa literatura – falha que promete corrigir aos poucos. Mas, com orgulho, reitera a importância de autores como Clarice Lispector e Rubem Fonseca, no ano passado lançados ao mercado em ‘Obras Completas’, com edições primorosas. A Alfaguara também editou um romance do escritor e diplomata João Almino, Las cinco estaciones del amor.

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Jornalista e escritor brasileiro radicado no México.

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