Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > CASO PIMENTA NEVES

Mídia boboca corre atrás de audiência

Por Cláudia Rodrigues em 09/05/2006 na edição 337

Dias antes do julgamento começou a novela do assassinato da jornalista Sandra Gomide, ocorrido em agosto de 2000 num haras em Ibiúna, interior de São Paulo. O jornal Folha de S.Paulo fez até um especial, e nesse especial constava que o jornalista Antônio Pimenta Neves, chamado pela imprensa de réu confesso – na realidade, assassino flagrado por testemunhas que estavam no haras, fugiu do local do crime, abandonou o carro e escondeu-se na casa de um amigo – não teria direito a recorrer em liberdade, recurso negado pelo juiz do fórum de Ibiúna, local inclusive reformado especialmente para o caso. Era uma novela apenas? Uma encenação jurídica?

Parece que sim, porque o grande dia do julgamento já tinha um desfecho preconcebido, a falta de poder do juiz para questionar decisão anterior do Supremo Tribunal Federal, que já dera ao jornalista o direito de recorrer em liberdade. Ninguém da imprensa sabia disso? Os advogados de defesas também não sabiam? O de acusação estava totalmente por fora? Foi uma cena armada entre as tribos da mídia e do direito?

Depois de seis anos de um crime hediondo o réu foi julgado culpado e deve cumprir a pena, de 19 anos em regime fechado, em liberdade. Não faz sentido o sistema jurídico brasileiro, mas pelo menos serviu de exemplo para que se possa questionar os trâmites jurídicos, para não dizer tramóias, já que tem mais uma armada – a da idade do réu: em dois anos se livra completamente da necessidade de cumprir pena em regime fechado.

Tirando a palhaçada do direito, resta-nos questionar a mídia, que ficou dias anunciando que finalmente seria feita justiça em relação ao assassinato de Sandra Gomide, que levou um tiro nas costas ao correr para longe de seu ex-namorado inconformado com a separação; e outro mais, a uma distância de 30 centímetros, na cabeça, depois de já caída de costas no chão do haras.

Engodo judicial

O réu é confesso não porque confessou, mas porque havia testemunhas. E ainda que ninguém tivesse presenciado a morte da jornalista, na época com 32 anos, ela já havia registrado queixa do ex-namorado por ameaça e agressão física, sem contar a agressão moral: ela havia sido demitida por ele em represália ao fim do relacionamento. Ele seria descoberto de qualquer maneira, e de verdade só foi encontrado pela polícia porque deu baixa num hospital por tomar um coquetel de calmantes. A partir daí, clínica, visitas de amigos jornalistas e parcos sete meses de prisão, só para baixar a crista da opinião pública, antes do poderoso hábeas corpus, que tem um vigor ilimitado, pelo jeito.

A mídia fez telespectador, ouvinte e leitor de bobos, anunciando algo que já estava pré-determinado a não ocorrer. Ou então entrou de otária na ladainha dos advogados, o que é um completo recibo de incompetência num país cheio de jornalistas advogados, como o próprio Pimenta Neves.

A questão entre os advogados de defesa e os de acusação era apenas egóica, como costumam ser as grandes cenas de julgamentos de assassinato de mulheres no Brasil por companheiros inconformados com a separação. Agora terminou a novela, todos já sabem que o jornalista Antônio Pimenta Neves não cumprirá pena em regime fechado, embora conste, juridicamente, que essa foi a decisão do juiz, que tremia feito vara verde ao revelar numa entrevista coletiva o engodo judicial. Como diz um provérbio gaúcho, é de ficar trocando orelhas.

Desconforto ético

A mídia ficou mais exposta do que já está; demonstrou em cadeia nacional, em todos os veículos, que não sabe cobrir um julgamento, mas é boa na arte do sensacionalismo. O Judiciário manchou as mãos mais uma vez num crime cometido por pessoa privilegiada.

A vida breve da moça que fez escolha amorosa equivocada não pode ser trazida de volta, mas talvez sirva de exemplo para outras apaixonadas por chefes. Afinal, apaixonar-se por um homem mais velho, um chefe, acontece diariamente, mas manter o emprego e acompanhar o namorado numa carreira colada pode não ser procedimento adequado, até porque mexe com o direito e a desconfiança dos colegas. Pode servir de exemplo para homens vaidosos, que fazem questão de manter a namorada ao lado, como se a garantia de uma boa vida profissional também forneça segurança de amor eterno. Não deveria ser justamente o contrário para a preservação da auto-estima de ambos?

Que pena a jornalista Sandra Gomide sair da Gazeta Mercantil e não procurar emprego em outro lugar que não o Estado de S.Paulo, dirigido por Pimenta Neves. Lamentável que o diretor do Estado na época tenha chamado a namorada, passando por cima de outras opções na redação, para a editoria de Economia, investindo em animosidades previsíveis e óbvias. O desconforto ético que o casal não sentiu ao colar as carreiras é forte responsável pelo desfecho trágico, mas nepotismo é da esfera pública, inquestionável e muito praticado na área privada. Isso a imprensa também não reflete.

É correto ser subalterno do marido ou da mulher na vida profissional? Pode até ser num primeiro momento, na surpresa do amor, mas por anos a fio? Como o mais jovem, normalmente o subalterno, vai desenvolver seu caminho com determinação e auto-estima? Como reagem os colegas? Como fazer bons amigos numa redação em que se é a namorada do chefe? É uma saia muito justa, pode durar pouco tempo e quando prolongada pode acabar muito mal para ambos.

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Jornalista

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