Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ARMAZéM LITERáRIO >

Milhões de visitas a Vidas Lusófonas

Por Marinilda Carvalho em 01/02/2005 na edição 314

O site português Vidas Lusófonas (www.vidaslusofonas.pt) recebeu quase 4 milhões de visitas desde 5 de outubro de 1998, quando foi criado. Um feito que não muitas páginas da internet podem ostentar, ainda mais as dedicadas exclusivamente à cultura: Vidas Lusófonas apresenta biografias de personalidades dos países de língua portuguesa, escritas por gente de talento. Seu editor e coordenador é o jornalista e escritor Fernando Correia da Silva, autor de romances como Mata-Cães, Querença e Maresia.

São 86 biografias até agora, mais um cantinho chamado ‘Varanda’, onde se abrigam vultos internacionais (297 biografias breves e 9 mais longas). Todas primorosas, apesar (ou exatamente por isso) das normas estilísticas rígidas do site: o coordenador exige o tempo do verbo no presente, o uso de poucos adjetivos, que o ‘rigor histórico tenha impacto de short story‘, que se diga em 10 palavras o que se costuma dizer em 50, que se ‘evidencie o nó dramático da história’ e ‘não se explique o porquê da ação, que ela se explique por si mesma’. O site ainda oferece uma instrutiva ‘Tábua Cronológica’, para que o leitor situe o biografado nos acontecimentos de seu tempo.

Fernando economiza palavras até nas entrevistas (‘Monossilábico? Isso espanta? Vosmicê bem sabe que a dama pela qual me bato é a Dona Concisão…’, argumenta a quem se queixa). Nesta curta conversa por e-mail, de Lisboa, a custo conta como conseguiu atrair grandes autores para o ‘voluntariado cultural’ que seu site pratica e resume em uma linha as dificuldade para mantê-lo: não recebe um centavo de apoio. ‘Isto tem que mudar mas não sei exactamente como…’, diz.

***

Para você, qual é o papel da biografia?

Fernando Correia da Silva – Para mim, biografia é uma forma lúdica de tourear ou driblar a morte a que todos nós estamos condenados…

Alberto Dines disse que o biografismo luso-brasileiro não se desenvolveu ‘por razões que a antropologia poderia estudar: a sociedade tribalista, fechada, não admite o Outro, só admite iguais’. Você concorda?

F. C. S. – Sim, o Dines é capaz de ter razão. Claro que o meu ‘site’ tenta romper essa amarra.

Como o editor do Vidas Lusófonas consegue evitar a apologia pura e simples dos biografados?

F. C. S. – Tronos e apologias dão-me vómitos.

O que é mais necessário na biografia, o estudo psicológico ou o dos processos históricos? Ou ambos são imprescindíveis?

F. C. S. – Diz bem: ambos são imprescindíveis.

Como você conseguiu atrair autores tão bons à empreitada da biografia? Qual foi sua lábia? Não é a remuneração…

F. C. S. – A minha lábia foi a de mobilizar boa gente para o voluntariado cultural.

Que biógrafo lhe serviu (ou serve) de inspiração em suas biografias?

F. C. S. – Há muitos anos, era eu um adolescente, muito me impressionou a biografia de Fernão de Magalhães redigida pelo Stefan Zweig.

O estilo do sítio é bem definido. No início, os autores reclamavam das rígidas ‘normas de estilo’. Você ‘flexibilizou’ as exigências ou a ‘briga’ continua?

F. C. S. – As normas continuam sendo as mesmas e os pontos em que não cedi, e continuo a não ceder, são:

1) Concisão, dizer em 10 palavras aquilo que normalmente se diz em 50; ou seja: abaixo o neo-barroco!

2) A acção transferida para o presente porque mais força tem relatar o que está acontecendo do que o relato do acontecido.

O texto da biografia do Rondon (em forma de entrevista de um cacique nhambiquara a uma repórter bobinha) foge ao padrão. Como você teve a idéia desse formato? Algum biógrafo alegou que você fugiu à rigidez do ‘manual’?

F. C. S. – Na nossa proposta de biografias não há qualquer rigidez. A cada biografia deve corresponder uma determinada intriga romanesca. A de Rondon é como você aponta. Na de Castro Alves construí uma máquina do tempo na qual chega a embarcar Agripino Grieco. Na do Alexandre O’Neill há uma troca de impressões entre biógrafo e biografado. Cada figura, cada intriga! Faço-me entender?

A Tábua Cronológica, que acompanha os fatos do mundo à época do biografado, é uma das preciosidades do sítio. Dá muito trabalho fazer?

F. C. S. – Sim, dá bastante trabalho. Cada nova biografia que é instalada obriga-me a mexer na Tábua Cronológica.

O sítio continua com problemas financeiros ou houve uma melhora?

F. C. S. – Não recebo um centavo de apoio. Nem eu nem os colaboradores do ‘site’. Isto tem que mudar mas não sei exactamente como…

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