Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > SALÃO DO JORNALISTA ESCRITOR

Momentos de literatura e de reflexão

Por Rodolfo Tiengo Fernandes em 27/11/2007 na edição 461

Mais de 13 mil pessoas foram conferir a primeira edição do Salão Nacional do Jornalista Escritor, realizado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no Memorial da América Latina, em São Paulo. Entre 15 e 18 de novembro, diferentes personalidades ligadas à literatura e ao jornalismo participaram de entrevistas e debates no Auditório Simon Bolívar.

Estudantes de Jornalismo de várias partes do país lotaram as dependências do Memorial para ficarem mais perto de grandes nomes da imprensa. O objetivo central do Salão Nacional do Jornalista Escritor, promovido em homenagem aos 100 anos da ABI e ao falecido jornalista Joel Silveira, foi o de levantar questões a respeito do jornalismo literário, modalidade marcada pelo uso de elementos da ficção. Desde a quinta-feira (15), passaram pelo auditório Simon Bolívar nomes como Ruy Castro, Ricardo Kotscho, Luís Fernando Veríssimo e José Hamilton Ribeiro, reconhecidos pelo trabalho jornalístico que se aproxima da literatura. Também participaram dos debates e entrevistas Heródoto Barbeiro, Ziraldo e Ignacio Ramonet, diretor do Monde Diplomatique.

Ao contrário de uma discussão metódica sobre um conceito ainda em estudo, que já é visto como um modismo acadêmico, o que se viu foi um debate contundente e aberto sobre a atividade jornalística, em estado puro. Os jornalistas que figuraram no domingo (18) – entre eles, Mino Carta, Eliane Brum, Caco Barcellos, Juca Kfouri e Domingos Meirelles – não fizeram referência e nem quiseram construir um gênero específico. Ao contrário, deram contribuições para o entendimento e a reconstrução dos preceitos do jornalismo na atualidade.

‘Faria tudo de novo’

Foram marcantes as palavras de Audálio Dantas, presidente da ABI, no encerramento do evento. Dantas criticou a ausência da cobertura dos grandes veículos ao Salão, destacou a necessidade de mudança de postura por parte dos jornalistas e reclamou da maneira como as pessoas marginalizadas são expostas gratuitamente, sem que tenham condições de se defender e talvez dar a verdade dos fatos.

A primeira entrevista do domingo foi às 14h, com Juca Kfouri, jornalista que em 36 anos de carreira trabalhou nas revistas Placar e Playboy, além de ser colunista da Folha de S.Paulo e comentarista esportivo no SBT, Globo, Cultura, ESPN Brasil e Rede TV. Entrevistado por Claudinei Ferreira, Kfouri contou histórias, falou de futebol – especialmente do Corinthians –, política e jornalismo.

Formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, Kfouri lembrou episódios de sua militância durante a ditadura militar, citando o de sua prisão, quando foi interrogado por 12 horas, além de sua atuação no departamento de documentação da Editora Abril, o que lhe custou os olhos atentos da polícia. Juca confessou que no início de sua carreira não tinha a pretensão de ser jornalista; seu intuito era dar seqüência aos estudos na universidade e demonstrar que o futebol não é um elemento de alienação, mas de mobilização.

Apesar de recentemente ter publicado um livro direcionado ao público infantil, negou ser um escritor e reforçou que é um profissional de imprensa, tarefa que Kfouri cumpre ‘rindo’ – disse com ênfase que, se fosse preciso, ‘faria tudo de novo’ (…), ‘do mesmo jeito’.

Novo entendimento da realidade

Juca se emocionou ao lembrar de companheiros de trabalho que o ajudaram e, apontando o dedo para a platéia, afirmou que a verdadeira função do jornalista é fiscalizar o poder e adotar sempre uma postura crítica. Salientou aos estudantes que é essencial ao jornalista a preocupação com os problemas, sejam eles do bairro, da cidade ou do país. Ainda comentou que o jornalista sempre tem um lado e lembrou que, apesar de conviver com o poder, o profissional de imprensa não faz parte dele.

O encontro mais esperado do dia reuniu no mesmo palco Caco Barcellos, Eliane Brum e Domingos Meirelles, intermediados por Florestan Fernandes Jr. Colocou-se em pauta a importância do jornalismo investigativo e do jornalismo literário. Os jornalistas rechaçaram o jornalismo declaratório e ofensivo praticado ultimamente, bem como a falta da crítica, vista como positiva e necessária para o desenvolvimento de qualquer sociedade.

Eliane Brum, autora de A vida que ninguém vê, abriu a discussão expondo a necessidade de renovação do jornalismo por meio da literatura. Criticou a postura preguiçosa por parte dos repórteres de não ouvir pessoas diretamente envolvidas em fatos relevantes, como a violência e a criminalidade em geral. Arrancou palmas do público ao falar da importância da mulher brasileira, que muitas vezes passa dificuldades nas periferias e não é respeitada pela mídia. A referência foi feita, sobretudo, às mães de traficantes de drogas; recentemente, a jornalista publicou reportagem na revista Época, intitulada ‘Meu filho foi assassinado’, em que várias mulheres, mães de soldados do narcotráfico, deixam depoimentos marcantes.

Apesar do uso cada vez mais constante do telefone e da internet nas grandes redações, Eliane Brum, vencedora do Prêmio Vladimir Herzog com a matéria ‘No Brasil do Zé Capeta’ (Época, 5/2/2007), reforçou a necessidade de checar as informações na rua, fazer a tarefa simples da reportagem, perguntar às pessoas e verificar a validade das informações recebidas. Eliane ainda expôs a importância do jornalismo literário, que consente criar personagens e contar boas histórias, como possibilidade de se dar um novo entendimento à realidade.

Um país em que poucos lêem

Destacada foi a fala de Domingos Meirelles, apresentador do programa Linha Direta e autor do livro 1930: Os órfãos da revolução – continuação de seu primeiro livro, que trata da Coluna Prestes, da Revolução de 1930 e da derrubada do presidente Washington Luís. Além de dar detalhes sobre a publicação, Meirelles acrescentou um comentário à declaração de Eliane Brum. Ele disse que um grande problema dos jornalistas da atualidade é a arrogância, o que também arrancou muitos aplausos da platéia.

Nascido na periferia de Porto Alegre (RS) e uma das principais referências do jornalismo literário no Brasil, Caco Barcellos disse ao público presente ao Salão do Jornalista Escritor que os repórteres geralmente circulam pelo eixo mais elitizado das cidades, mas é preciso criar o hábito de conhecer a periferia e saber como é a realidade de perto. Falou também das ameaças que sofreu quando publicou Abusado e Rota 66 – ambos ganhadores do prêmio Jabuti de Literatura.

Questionado sobre o impacto do livro-reportagem na sociedade, o jornalista, que atualmente dirige o programa Profissão Repórter, da Rede Globo, disse que a repercussão do livro é reduzida e lenta num país em que poucos lêem. Barcellos afirmou que iniciar uma nova reportagem é o mesmo que começar um novo estudo e ter a possibilidade de conhecer, todos os dias, lugares e pessoas diferentes.

A versão do patrão

Mino Carta encerrou o ciclo de palestras no Memorial da América Latina. Durante a última entrevista no Salão Nacional do Jornalista Escritor, criticou o jornalismo brasileiro e falou sobre a revista CartaCapital, da qual é editor. O jornalista afirmou que começou a carreira porque era um ‘mercenário’, precisava arranjar dinheiro para comprar um terno. Sem formação em jornalismo, sua fonte de aprendizado foi a leitura de romancistas como Charles Dickens e Henry Fielding.

Sempre irônico, Mino criticou a atuação de veículos de comunicação nos quais atuou, como Veja e IstoÉ. ‘Eu tenho pena deles’. No meio da conversa, chegou a chamar Roberto Civita de uma ‘refinada besta’. O editor alega que não costuma ler revistas e jornais brasileiros – de texto muito ruim, na opinião dele. Ainda observou que o Brasil é o único país do mundo em que jornalista chama o chefe de colega.

Também fez comentários a respeito da TV Globo. Mino Carta se diz contra uma série de posturas adotadas pela emissora, a começar por seu vínculo com o regime militar. Ainda falou da Record, um sinal de quebra do monopólio das mídias, embora, segundo ele, financiado pelo dízimo da Igreja Universal, de Edir Macedo.

Aproveitou a ocasião para tecer crítica ao jornalista Mário Sérgio Conti, da revista Piauí, por não ter dado atenção, no livro Notícias do Planalto, à versão de Mino sobre desacordos com a Abril. ‘Ele colocou somente a versão do patrão.’ Isso motivou a publicação do livro O Castelo de Âmbar, no qual Mino Carta conta uma história real, porém com nomes fictícios, em que revela os bastidores do seu rompimento com a editora. Mino disse que o nome do livro surgiu de lembranças de sua infância.

O fato é o fato

Respondendo às várias perguntas sobre o posicionamento político da CartaCapital, Mino alegou ter apoiado abertamente a campanha presidencial de Lula em 2002 e 2006. Ao mesmo tempo, garante adotar uma postura independente na revista. Disse ter achado um absurdo a campanha feita pela grande mídia contra Lula no ano passado, quando repercutiram denúncias sobre a forja de um dossiê, por parte dos integrantes do PT, contra José Serra. No momento em que Mino Carta disse isso, timidamente da platéia, alguém que não concordou com as palavras do editor gritou: ‘Mensalão!’ Mino Carta alegou que é contra uma série de atitudes e ideologias políticas e deixa isso bem claro no seu veículo, enquanto em outros sempre há o discurso hipócrita da imparcialidade.

Em um momento da entrevista, Mino, que continua até hoje utilizando suas máquinas de escrever em vez do computador, disse que nos dias atuais não seria aceito em jornal ou revista algum, pois não teria o que fazer. Em seguida, acrescentou: ‘O primeiro a recusar seria eu mesmo’. Quando lhe perguntaram sobre os critérios para se trabalhar na CartaCapital, Mino Carta afirmou que é preciso estar naturalmente afinado com as ideologias do veículo e saber escrever.

Em mais críticas à grande imprensa, alegou que o fato é o fato e não aquilo que a imprensa acha que é. Salientou que os grandes veículos de comunicação não estão interessados em mudar a sociedade, mas em manter o status quo. Aproveitou também para comentar que não acredita no novo jornalismo – ‘o novo jornalismo não existe’ –, mas, sim, no bom jornalismo.

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Repórter do Jornal Democrata, de São José do Rio Pardo, SP

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