Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ARMAZéM LITERáRIO > FOTOJORNALISMO

Nanete Neves

03/02/2004 na edição 262

‘Livro relata ingresso da fotografia na imprensa brasileira, do tempo do daguerreótipo ao Rio de Janeiro imperial e sede dos primeiros jornais

Fotógrafo anônimo registrou a praça de Ouro Preto na partida da 1ª Expedição de Minas para Mato Grosso…

A fotografia contribuiu para a nossa visão do mundo e da nossa própria identidade. Contar o seu caminho foi o desafio que o fotógrafo, designer e pesquisador carioca Joaquim Marçal Ferreira de Andrade encarou ao escrever o livro ‘História da Fotorreportagem no Brasil – a fotografia na imprensa do Rio de Janeiro 1839-1900’, que acaba de ser lançado (editora Campus, 304 págs, R$ 49) sob a chancela da Biblioteca Nacional.

‘Sempre tive interesse pela evolução da fotografia brasileira, muito além dos fotógrafos. Por isso me voltei mais para as aplicações desse recurso no início da imprensa, visando mostrar o quanto ela contribuiu para a formação da nossa nação’, diz o autor, que contou com a colaboração de sete bolsistas na extensa pesquisa de 1.126 jornais do período.

O livro traz 200 imagens, a maioria nunca antes publicada, traçando um painel da imprensa ilustrada. Aborda os primórdios da fotografia carioca, desde os tempos do daguerreótipo – primeiro processo fotográfico patenteado e disseminado pelo mundo – em 1939, até 1900, período em que o Rio sediou o Império, a capital da República, e os principais órgãos de imprensa do país.

‘Adoraria avançar a partir de 1900, quando o Brasil começou a acelerar para se igualar aos países mais adiantados. Como por exemplo, aprofundando na importância da revista ‘O Cruzeiro’, um marco na fotorreportagem brasileira. Mas o livro partiu de uma tese de doutorado, eu tinha prazo para concluí-lo. Quem sabe tome coragem para fazer o número 2’, brinca o autor, que é Chefe da Divisão de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional e professor adjunto de fotografia da PUC-Rio, mestre em Design e doutorando em História Social.

Filho do fotógrafo Olímpio de Souza Andrade, chefe do arquivo do Correio da Manhã, desde jovem Joaquim acompanhou processos de catalogação e microfilmagem. Com o tempo, foi se aprofundando na pesquisa que chega até o surgimento da fotorreportagem, uma fotografia editorialmente engajada desde o ato da sua produção, capaz de gerar reportagens jornalísticas em que o texto permanece em segundo plano: o início da grande imprensa ilustrada.

No livro, Joaquim destaca que o domínio português sobre a colônia brasileira atrasou e muito o nosso desenvolvimento, por proibir a livre produção ou circulação de papéis. A imprensa no Brasil só começa depois de 1808, quando, fugindo da invasão francesa em Portugal, o Príncipe Regente D. João, junto com a família e a corte, muda-se para o Rio de Janeiro, trazendo arquivo, biblioteca e uma oficina gráfica completa. Ou seja, a impressão em solo brasileiro começou com três séculos e meio de atraso com relação à Europa.

O jornalismo periódico se originou na Imprensa Régia, com a ‘Gazeta’ do Rio de Janeiro, em 1808 seguida de várias publicações. Entre 1811 e 1821, eram fundadas outras tipografias na Bahia, Recife, Maranhão e Belém do Pará, todas ainda submetidas à censura, somente abolida pelo príncipe regente D.Pedro em 1821.

Empenhado na modernização do Brasil, o príncipe D.João trouxe em 1816 uma missão artística francesa que ajudou a criar a Academia Imperial de Belas Artes. Juntos, brasileiros, portugueses e estrangeiros se empenharam em desenvolver uma imprensa brasileira. Para se ter uma idéia, foi um francês quem fundou o ‘Diário Mercantil’ que em 1827 gerou o ‘Jornal do Comércio’, até hoje existente.

Em busca de maior leveza, os periódicos empregavam vinhetas, ornatos, retratos de personalidades, igrejas ou paisagens gravadas no metal ou desenhadas na pedra e impressas separadamente. E em 1827 surgem as caricaturas como forma de crítica social. Era o começo da imprensa ilustrada.

O primeiro cidadão brasileiro a tirar uma fotografia foi D.Pedro I, em 1840, então com 14 anos, que comprou um daguerreótipo de um abade francês de passagem pelo Rio. Esse abade era um dos vários fotógrafos aventureiros, europeus ou americanos que registraram nossas primeiras imagens, muitas delas da nobreza brasileira em seus casarões de fazenda. Nesse ano registra-se o primeiro instantâneo, de autoria do Abade Luis Compte, que fotografou o Paço Imperial com a tropa à sua frente mais um grupo de pessoas.

Os primeiros fotógrafos brasileiros surgiram no final do século XIX. Nessa época, a maioria ainda se dedicava à documentação de edifícios e monumentos, servia ao governo ou à aristocracia. Mas na Europa, a imprensa já começava a se utilizar da fotografia, mesmo que ela não pudesse ainda competir com as xilogravuras ou litografias.

O emprego cada vez maior de fotos na imprensa ilustrada européia já gerava polêmica. Tanto, que em 1859 o pensador Charles Baudelaire advertia: ‘Se se permitir que a fotografia substitua a arte, em breve ela a suplantará ou a corromperá’. Para ele a fotografia tinha que ser uma serva a serviço da imprensa, assim como a imprensa e a estenografia deveriam ser servas da literatura.

Enquanto lá fora a questão era conceitual, o problema aqui ainda era técnico. O longo tempo de exposição dificultava a tomada de instantâneos em movimento. Mas o fotógrafo paisagista alemão Augusto Stahl driblou essa dificuldade, ao registrar em quatro imagens consecutivas, o desembarque de Suas Magestades em Recife, em 1859, considerada a primeira reportagem fotográfica feita no Brasil.

Em 1860 Henrique Klumb, alemão radicado no Rio, fotografou a Igreja do Carmo e o Paço Imperial do Rio de Janeiro e é tido como o precursor do instantâneo, por mostrar as pessoas em movimento. Era a primeira crônica social brasileira, ainda que manipulada pelos artistas gravadores.

Marc Ferrez foi inovador. Fotógrafo da Marinha Imperial, desenvolveu uma câmera com visor independente. E foi o primeiro a empregar o recurso da profundidade e por isso é apontado como o mais completo fotógrafo brasileiro do fim do século XIX, Sua foto do Túnel da Mantiqueira de 25/6/1882 é inovadora , pois colocou no centro do foco o casal real e a comitiva. Desfocadas, as pessoas da vila e a paisagem funcionam como que moldura.

O caráter mais informativo da fotorreportagem aqui surge em 1894, quando o mesmo Ferrez focou os estragos provocados em duas embarcações pela Revolta da Armada, inssurreição contra o presidente Floriano Peixoto ocorrida na Guanabara. No mesmo ano, sua competência se comprovava no clique da festa da posse do presidente Prudente de Morais, dotada de todos os ingredientes jornalísticos.

Mas em 1878 só a palavra não era suficiente. Movido por revolta, o jornal ‘O Retirante’, do Ceará, na falta de melhor recurso técnico, colou na capa de cada exemplar, cópias em papel albuminado, reforçando a denúncia contra os responsáveis pela situação miserável do Nordeste. Simultaneamente o jornal ‘O Besouro’, do Rio, também imprimia uma foto denunciando o mesmo fato. Seu recurso foi misturar desenho com a fotografia de crianças vítimas da seca.

Em 1891 foi fundado o ‘Jornal do Brasil’, com suas próprias oficinas de fotografia e galvanoplastia. Na mesma década era lançada a ‘Revista da Semana’, suplemento ilustrado que revolucionou a forma de ‘contar histórias’. Ela alternava fotos de crueza impressionante (como a série da autópsia numa menina, o seu caixão e as flores do velório), com outras nitidamente produzidas para relatar um fato (um coronel sendo atacado), seguida da explicação: ‘fotografia instantânea apanhada casualmente por um de nossos fotógrafos’.

Apesar dos esforços de aprimoramento dos filmes e técnicas de impressão, só no século XX a fotorreportagem tem a função valorizada. No Brasil, ela só toma corpo a partir da revista ‘O Cruzeiro’, que abriu espaço para o repórter fotográfico, criando um novo universo editorial e mudando o processo de comunicação.

Se hoje não existe mais a figura do repórter desenhista ou do repórter gravador, a imprensa não pode viver mais sem o repórter fotográfico. Ou, como diz o veterano fotógrafo Orlando Brito, ainda em atividade: ‘A fotografia e o fato têm de andar sempre juntos, como pão e manteiga’.’

 

JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

‘Preço competitivo’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 29/01/01

‘Sempre de olho na poupança (no bom sentido, é claro!), como devem fazer os patriotas brasileiros, nosso leitor José Carlos Teixeira escreveu à coluna, diretamente de Itapoã, onde o pessoal se estica na rede para ler os jornais do país inteiro:

‘Manchete do Jornal da Tarde, de São Paulo, em 21/01/2004, possivelmente escrita por um redator que não chegou a freqüentar a escola (certamente a família não podia comprar tantos livros e cadernos exigidos):

Economize até 250% na compra do material escolar

Imagino a felicidade de Janistraquis ao saber que agora, segundo o JT, basta ir à papelaria, escolher o material e, além de não pagar nada, ainda receber de troco o equivalente a 150 por cento do valor da compra.

Melhor que isso, só pescar de bomba, como dizemos aqui na Bahia.’

Janistraquis também leu, ó Zé Carlos, e, animadíssimo, correu à papelaria aqui da cidade, onde pediu uns lápis e exigiu 250% de desconto.

A dona do estabelecimento mandou-o esperar um pouco, saiu e voltou com dois enfermeiros da Santa Casa. Foi difícil tirar o pobre de lá.

Serron & Miltão

Esta coluna cumprimenta José Márcio Mendonça, diretor da Rádio Eldorado de São Paulo, pela contratação de Sérgio Rondino e Mílton Leite, noticiada pelo Edu Ribeiro. São duas vozes Classe A para esta emissora sempre comprometida com o bom gosto.

A notinha de Jornalistas & Cia. anuncia que Rondino (‘Serron’ para os amigos dos velhos tempos do Jornal da Tarde) vai apresentar um novo programa; já o nosso Miltão será editor-chefe, porém Janistraquis garante que se botarem um microfone por perto ele jamais ficará calado, para conforto de ouvintes ermos da elegância de seu verbo.

Citado o quê?

Nossa considerada leitora Mariana Galiza leu a seguinte matéria no UOL:

Jogador amador morre de infarto no aquecimento

Estocolmo, 27 jan (EFE)- Um jogador de 30 anos, da equipe sueca de amadores Kaevlinge Gif, morreu de um infarto durante os exercícios prévios a um treinamento, informa hoje, terça-feira, o jornal ‘Aftonbladet’.

O jogador caiu subitamente quando fazia exercícios de aquecimento, segundo o citado rotativo, e as equipes médicas não conseguiram reanimá-lo.

Por enquanto, nem o time de futebol, da liga regional, nem os médicos que o atenderam facilitaram informação sobre as causas de sua morte.

O citado jornal relaciona essa morte súbita com a ocorrida no domingo passado, quando o profissional húngaro Miklos Feher morreu em plena partida de sua equipe, o Benfica de Lisboa.

Indignada, Mariana desabafa: ‘Citado rotativo???? Citado jornal???? que linguagem, hein??? Mais uma desses tradutores de notícias de agência!!!’.

Pois é, minha filha; o pessoal precisa ficar mais atento às lições do nosso Daniel Sottomaior, né não?

Advogados…

Por falar em Daniel, o cada vez mais indispensável diretor de nossa sucursal paulistana despachou da Avenida Paulista:

‘Se depender dos tradutores do Estadão, o Código Civil vai mudar mais uma vez. Agora, além de pessoas físicas e jurídicas, fenômenos sociais também terão advogados.

É que, em inglês, advocate significa defensor. Ao citar um artigo do renomado The Economist sobre a demarcação de terras em Roraima, o jornal descreve um dos lados da contenda como ‘advogados do crescimento econômico’’.

Cansaço…

Assistíamos à indigente estréia do Vasco na Taça Guanabara (2 a 0 contra a Portuguesa, com gol contra e tudo), quando a TV mostrou, sentado ao banco de reservas, um senhor cujas feições não me eram de todo desconhecidas.

Permaneci minutos a matutar e, de repente, lembrei-me; era ele, Donizete, dito ‘O Pantera’! Janistraquis, que anda mais ligado aos segredos vascaínos do que eu, estranhou minha surpresa:

‘É claro que é o Pantera, considerado; aliás, dizem em São Januário que ele só não foi embora porque não conseguiu se levantar…’.

Arquivo recente

O diretor de nossa sucursal no DF, Roldão Simas Filho, despachou de lá, mais irritado do que Cristovam Buarque com a demissão pelo telefone:

‘O Correio Braziliense de 8/1, pág. 16, noticia a invasão da sede da Funai em Boa Vista, realizada pelos índios chefiados pelo chefe (cacique?) Gilberto Macuxi, dizendo que ‘os arquivos e computadores foram vasculhados’. A foto mostra um índio saindo do prédio, carregando um micro computador. O verbo empregado é um eufemismo, simpático aos índios. Deveria ter sido usado o verbo correto: saquear. Os índios são irresponsáveis segundo a lei? Ninguém os prendeu?’.

Pois é, considerado Roldão; no Brasil, índio é tratado como criancinha indefesa; depois, quando aparece o cacique Paulinho Paiakã e estupra uma donzela com ajuda da mulher que vive com ele, reclamam. Porém, continuam sem fazer nada.

Decifra-me!

Celsinho Neto, ardiloso e sempre atento diretor de nossa sucursal cearense, enviou este modesto porém insinuante despacho:

‘Veja o título de matéria publicada no nosso inesquecível Diário do Nordeste: Suspeito de matar sua ex-esposa ouvido hoje.

Minha esposa não, a dele, pois afinal e felizmente sou solteiro. Aqui pra nós, que ex-esposa o cabra matou? Ou ele conseguiu assassinar a ex-esposa de outra pessoa? No melhor estilo decifra-me ou te devoro…’

Janistraquis gostou desse ‘ex-esposa de outra pessoa’, Celsinho; não é esposa de outro homem, é de outra pessoa… O Ceará, como sempre, na vanguarda!

Inimiga do Estadão

Nosso considerado Vito Diniz, de Petrópolis, transmite ecos do vexame no Pré-Olímpico, ainda naquele início em que todos nós achávamos que iria ser mole:

‘Rochemback em alta com o técnico, dizia o ‘olho’, intertítulo, entretítulo ou o que seja aquilo que o Estadão inventou entre o título e a matéria:

‘O volante cai nas graças de Ricardo Gomes e só não jogou ontem porque chegou na terça-feira’.

Como todos nós que assistimos à vitória do Brasil sobre a Venezuela sabemos, atesta a maioria dos jornais e comprova o site da CBF, que publicou no mesmo dia a ficha do jogo, Rochemback jogou, sim. Entrou lá pelo meio do segundo tempo e deu, inclusive, mais dinamismo ao meio-campo brasileiro.

O Estadão é que não viu porque, obviamente, não aguardou o final da partida para fechar a edição – pelo menos a edição que circulou aqui no Rio. Como diziam nossas avós, a pressa é mesmo inimiga do Estadão…’.

É verdade, Vito; e essa frase é do tempo em que Dondon jogava no Andaraí.

Nota dez

O melhor texto da semana pertence à incandescente lavra do professor João Amado no Observatório da Imprensa:

‘(…) Os livros analisados neste ensaio, A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada e A ditadura derrotada, de Elio Gaspari, sem a publicidade que tiveram não seriam lidos nem pelo mesmo número de pessoas, nem da mesma forma. Eles devem ser vistos de maneira integrada, como parte de uma mega-campanha. A cobertura da imprensa preparou os leitores para ler os livros de Gaspari como grandes obras historiográficas. Afinal, ‘a propaganda é a alma do negócio’ (…).

(…)Em suma, Gaspari conta a versão da história que interessa ao ‘andar de cima’, ou seja, às grandes empresas multinacionais e nacionais, à ‘máquina de informação americana’ e aos poderosos em geral. Tenta apagar os rastros da CIA no Brasil (nos casos Chandler e Anselmo), omite quem foi Dan Mitrione e chama os guerrilheiros de ‘terroristas’, mostrando de que lado está e a quem seus livros servem. O ‘andar de cima’, comovido, agradece.’

Errei, sim!

‘CÂNDIDO CHEVROLET – Em pose austera à frente de um automóvel, exibia-se o marechal Rondon em página da Folha. Abaixo, esta obra-prima de legenda: ‘O marechal Cândido da Silva Rondon (centro), que será tema da minissérie da Manchete’. Fiquei intrigado. Que teria levado o redator a identificar tão precisamente o personagem, se na foto estavam somente ele e o carro? Meu secretário tinha óbvia explicação: ‘Ora, considerado, o redator esclareceu que o marechal estava no centro da foto para a gente não confundi-lo com o automóvel!’. É bem possível.’ (novembro de 1993)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP) ou moacir.japiassu@bol.com.br).’

 

LÍNGUA PORTUGUESA
Deonísio da Silva

‘A crase em crise’, copyright Jornal do Brasil, 2/02/04

‘A crase, ao contrário de Minas, não está onde sempre esteve. Uma tropa de choque, composta de crases deslocadas, macula expressões, comunicados, editais, informes e avisos, tornando-os estranhos ao espírito de nossa língua.

Legiões de crases indevidas, somadas a outros erros em exibição, não teriam chegado aonde chegaram sem encontrar resistência de ninguém, sejam redatores ou revisores, se o nível de nosso ensino não tivesse caído tanto.

Ao dar voto aos analfabetos em 1988, talvez os parlamentares estivessem de olho nos eleitos e não nos eleitores. Pois não é possível que tantas sejam as autoridades que não percebam a derrota de nossa língua em tão abundantes amostras. Afinal, por trás de todos os cargos que não são preenchidos por concurso público há alguém, eleito pelo povo, que em última instância é o principal responsável por ter escolhido a quem escolheu para ocupá-los. Um prefeito pode não saber direito o português, mas não é possível que sua Secretaria da Educação seja dirigida por quem, não apenas desconhece, como também desrespeita a língua. Ou permite desrespeitos.

Um dos piores exemplos é dado nas placas de trânsito, humilhando motoristas e passageiros. Os responsáveis por tais erros públicos estão incorrendo em abusos e quem sabe pudessem ser devidamente enquadrados. Não sei como é que o Ministério Público ainda não tomou providência nenhuma. Afinal, a língua é patrimônio público, a língua não foi privatizada. Talvez seja o caso de impetrarmos habeas-corpus que nos garanta o direito de não cumprir leis, normas, determinações e avisos mal escritos.

‘Rodovia Washington Luiz’ e ‘Santa Engrácia à 20km’ são placas com dois erros. Quem escreveu tais palavras quis identificar a estrada e informar que a localidade está a 20km do ponto em que foi posta a placa. Aliás, rodovia é neologismo criado pelo presidente Washington Luís (com ‘s’ e não com ‘z’), que estava na Presidência da República na famosa crise de 1929. Ele juntou duas palavras, via e rodar, vindas do latim: via, caminho, estrada, e rotare, rodar, percorrer. É ele o autor da frase famosa, que resumia seu programa de governo: ‘governar é abrir estradas’.

A crase desnecessária sobre o ‘a’, que no caso funciona como preposição, é um dos mais freqüentes exemplos conhecidos como hipercorreção ou ultracorreção. Em qualquer dos casos, a denominação gramatical é controversa.

Com efeito, hipercorreção e ultracorreção semelham eufemismos que evitam o óbvio: identificar o erro. Quem põe crase onde não deve, erra. Indo além de onde deveria, vai a lugar errado. Os prefixos ‘hiper’ e ‘ultra’, presentes em outras palavras, favorecem tal entendimento. Um hipermercado vai além de um mercado ou de um supermercado. De todo modo, sua essência é a mesma. É um mercado.

Com a crase sobre o ‘a’, não se dá o mesmo. A crase indica contração de preposição com artigo, duas classes gramaticais diferentes.

Explico a abertura da coluna de hoje. Na crise da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 agosto de 1961, o escritor Otto Lara Resende, autor de frases memoráveis, assim definiu a posição do então governador Magalhães Pinto: ‘Minas está onde sempre esteve’.

E Ferreira Gullar fez curioso esclarecimento: ‘a crase não foi feita para humilhar ninguém’. Mas, à revelia de muitos, está humilhando os brasileiros há muitos anos e a muitos quilômetros dos gabinetes. Às vezes, é dentro dos próprios palácios que a crase, somada a outros erros grosseiros, age como inimiga solerte conspurcando documentos oficiais que atestam a ignorância dos redatores. Afinal, que autoridade pode revisar o papelório que é obrigada a assinar todos os dias?’

 

NOTÍCIA & INTERPRETAÇÃO
Carlos Chaparro

‘Na rabeira da notícia’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 31/01/01

‘O XIS DA QUESTÃO – Sem capacidade de oferecer novidades no plano da informação, os jornais diários ainda não encontraram formas criativas de potencializar e tirar proveito das aptidões interpretativas que só os meios impressos possuem. Assim, limitado tecnologicamente pelo ciclo de periodicidade de 24 horas, na rabeira da notícia, o jornalismo diário impresso repete conteúdos pensados e produzidos para alcançar o mundo pela televisão.

1. Mundo novo

Nos processos civilizacionais, as grandes mudanças culturais são decorrências de revoluções tecnológicas. Acredito nisso. Devemos, por exemplo, às fantásticas tecnologias de difusão a possibilidade de uma vitalidade democrática que nos permite produzir aqui, de imediato, a discussão política sobre o que de importante o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz e faz em suas viagens pelo mundo, qualquer que seja o lugar onde esteja. Podemos acompanhá-lo ao vivo, em cores, com som e movimento, usufruindo o milagre contemporâneo do acesso instantâneo e universal à informação, com direito aos mínimos detalhes. Temos tido bons exemplos disso, nos últimos dias.

No show do noticiário, entretanto, a festa é da televisão, grande beneficiária das tecnologias de difusão. A televisão tem a capacidade da difusão instantânea e universal, e por isso para ela se organizam os programas, os cenários, as cenas, as cronologias, os movimentos, as indumentárias, as falas e o gestual, na produção atualidade.

Porque tudo pode ser visto e ouvido pela TV na hora em que as coisas acontecem, qualquer que seja o lugar do mundo em que aconteçam, dois fenômenos novos surgiram no mundo da informação jornalística: desapareceu o intervalo de tempo entre o fato e a notícia, dentro do qual o jornalismo antigamente trabalhava; e eliminou-se a noção de distância geográfico-narrativa, porque a televisão traz os fatos à nossa casa e nos leva aos locais onde acontecem, numa fusão de espaços que resulta em algo abstrato, universal, já chamado de ‘espaço mediático’. É um mundo novo.

E o jornalismo impresso, como fica nisso?

2. De janela a espelho

O tema é recorrente, mas a discussão, interessantíssima, e por ela já Umberto Eco se interessou. Alguns anos atrás, em um seminário organizado pelo Senado italiano para senadores e diretores dos principais jornais da Itália, ele analisou os problemas do jornalismo impresso e fez uma crítica particularmente aguda aos jornais diários, ao mostrar a ‘dependência patológica’ que sofrem em relação à TV.

O texto está em um pequeno livro editado no Brasil em 1998 (Cinco escritos morais, São Paulo, Record, 1998, tradução da edição original italiana, Cinque scrittti morali, RCS Libri, Milan, 1997). E por acaso o reli esta semana. Como o título diz, trata-se de uma coletânea de cinco textos de Eco, alguns deles conferências que pronunciou, outros, intervenções mais simples, feitas em eventos menores. No escrito dedicado à crise da imprensa, Umberto Eco afirma que a TV, além de pautar as redações dos jornais, lhes impõe o estilo da entrevista, mesmo para a simples notícia.

No entendimento de Umberto Eco, a obrigatoriedade da entrevista que caracteriza o noticiário da TV contaminou a imprensa diária, e não só na informação política, onde se criou uma dinâmica de entrevistas e desmentidos, em ganhos sucessivos de espaço que mantêm os políticos na crista da informação diária. ‘Os jornais publicam uma dezena de entrevistas por dia, requentadas várias vezes, pois o entrevistado diz apenas o que já disse à televisão e a outros jornais’.

Tornar a entrevista mais atraente passou a ser também uma habilidade de quem a concede. Na opinião de Umberto Eco, para criar atrativos, a linguagem política mudou radicalmente nos últimos anos. Treinados pelas ‘características do debate e da altercação televisiva’, os políticos deixaram de ser cautelosos, para se tornarem pitorescos e imediatistas. Desenvolveram a capacidade de improvisar a verdade.

Eco considera que o abuso da entrevista é um maná para os jornais diários. Mas aponta uma deformação que pode ser fatal à imprensa: ‘o político (…) acha interessante que cada declaração, dada apenas a um meio de comunicação, encontre eco na caixa de ressonância de todos os outros juntos. Assim, a mídia impressa, de janela para o mundo, passa a ser espelho. Os espectadores e leitores olham um mundo político que se mira a si mesmo, como a rainha da Branca de Neve’.

3. A ‘semanalização’ como fuga

Esse é o quadro de uma imprensa diária que, na visão de Umberto Eco, se ‘semanalizou’ para sobreviver numa sociedade informada pela televisão. Para Eco, a ‘semanalização’ da imprensa diária surgiu como fuga à ingrata concorrência com a TV, na informação de cada dia. Para evitar o desaire, os diários tornaram-se cada vez mais semelhantes aos semanários da faixa média, com ‘espaço enorme dedicado às variedades, à discussão de notícias de costumes, de fofocas sobre vida política, de referências ao mundo do espectáculo’.

Na proposta de soluções, Umberto Eco não alcança o brilho da análise. Chega a se refugiar na ironia. E quando não ironiza, propõe inviabilidades. No que se refere à problemática das entrevistas, por exemplo, a solução defendida pelo ilustre professor é exageradamente acadêmica, pouco prática: ‘Uma entrevista séria deveria tomar muito tempo e o entrevistado deve rever as citações entre aspas, para evitar mal-entendidos e desmentidos’. A cultura jornalística repudiaria a idéia

Mas a discussão precisa ser feita, em busca de formas viáveis e criativas para se potencializar e tirar proveito das aptidões interpretativas que só os meios impressos possuem. Quem tem sugestões, por aí?

NOTA DE RODAPÉ

Entre os comentários ao texto da semana passada, alguém sentenciou que ‘o professor Chaparro errou feio na coluna em que duvidava da informação que antecipava os dois novos ministros. O repórter estava certo. Apressado foi o colunista do Comunique-se’.

Nada a questionar, porque respeito o direito de cada um entender como quiser os escritos alheios. Mas, para elucidar quem eventualmente tenha dúvidas, transcrevo exatamente o que escrevi, na coluna citada:

‘(…) na edição de 8 de janeiro,a Folha de S. Paulo, em texto de Kennedy Alencar, anunciou sem resssalvas nem prudências condicionantes: ‘Planalto convida Eunício e Campos para o ministério’. A notícia é precisa: ‘Com o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro José Dirceu (Casa Civil) convidou anteontem o líder do PMDB Eunício de Oliveira (CE), para integrar o ministério sem definir a pasta e acertou ontem a substituição de Roberto Amaral (Ciência e Tecnologia) por Eduardo Campos (PE), líder do PSB na Câmara’.

‘Só faltou identificar a fonte da notícia, como aval de credibilidade. Ainda assim, é provável que tudo se confirme ou já esteja confirmado. E se assim for, confirmado estará também o ‘noticiário especulativo’ tão criticado pela nota oficial do Presidente da República.

‘Mas o que interessa salientar, aqui, é a força da informação em ‘off’, na construção do noticiário político, em momentos de crise ou tensão, como este da reforma ministerial’.’

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