Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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ARMAZéM LITERáRIO >

“Não sou fascista”

Por O Estado de S.Paulo em 28/11/2008 na edição 513

Fazia dois anos que José Saramago não conversava com o Estado. O motivo foi a discordância do escritor em relação a uma reportagem publicada em 2006, a partir do lançamento de As Pequenas Memórias, um ensaio autobiográfico. Mais especificamente sobre um determinado trecho em que Saramago narra como, aos 13 anos, foi incorporado à Mocidade Portuguesa, ou seja, à juventude que apoiava o ditador português Antônio Salazar.


‘Era um garoto e, em um determinado dia, ao chegar à escola, eu e meus colegas fomos informados de que passaríamos a integrar a Mocidade’, disse o escritor, que rechaçou, assim, o título da matéria, ‘Eu fui salazarista’. ‘Eu nunca disse essa frase.’


Segundo o escritor, àquela idade, não seria possível fazer uma adesão consciente (‘foi algo automático’), diferente, aliás, do que se passou com o alemão Günter Grass, também Nobel de Literatura, que confessou na autobiografia Nas Peles da Cebola (Record) ter pertencido à Juventude Hitlerista, causando grande polêmica. ‘Isso aconteceu quando Grass já era um rapaz, portanto, consciente de seus atos. Mesmo assim, depois ele teve uma responsabilidade cívica intocável.’


O episódio está descrito na página 131 da autobiografia de Saramago. Em 1936, quando começava a Guerra Civil Espanhola, ele, jovem estudante de uma escola industrial, leu nos jornais sobre o conflito, acompanhou o desenrolar dos combates e percebeu que estava sendo ludibriado pelos militares reformados que censuravam a imprensa. Essa foi a razão por que, mandado pelos colegas ao Liceu de Camões para apanhar sua farda verde e castanha da Mocidade Portuguesa, deu um jeito de ficar no fim da fila até que se esgotasse o estoque dos malditos barretes e calções de Salazar.


Saramago julgou o foco do texto publicado no Estado como sensacionalista. ‘Minha trajetória mostra que jamais fui oportunista, política ou culturalmente’, disse ele, entendendo que o jornal havia, portanto, não cometido um erro, mas agido intencionalmente em acusá-lo. ‘Uma surpresa vinda de um órgão de comunicação ao qual nunca neguei uma opinião ou uma entrevista, um jornal que, para muitos, é como uma bíblia laica de questões políticas e sociais’, afirmou. ‘Poderiam me chamar de comunista que, para muitas pessoas, soa como xingamento, e não para mim; mas jamais de fascista.’ Para o escritor, não houve erro, mas ‘uma falta intencional’.


Como não recebeu na ocasião a retificação que julgou necessária, especialmente em relação ao título da matéria, Saramago então decidiu não mais conceder entrevistas ao jornal.


O silêncio foi superado na segunda-feira (24/11), depois de uma reunião do escritor com editores e o diretor de redação, em que se repassaram as circunstâncias da matéria e suas repercussões.


O Estado jamais pretendeu agir com intencionalidade em relação ao escritor José Saramago. Ao contrário, sempre ressaltou sua consciência política e inabalável disposição em defesa dos direitos humanos. Tratou-se de uma edição infeliz, que merecia, de fato, ter tido correção à época. No momento em que Saramago volta ao Brasil para divulgar seu mais recente livro, atraindo o enorme público que o admira, as relações entre escritor e jornal foram restabelecidas, ato selado com a entrevista a seguir.


***


‘Quem espera por uma história sombria vai ficar bem surpreso’


Ubiratan Brasil


Uma certa fragilidade ainda é aparente, resquício de uma grave enfermidade respiratória que quase o matou. Mas, aos 86 anos, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, enfrenta com rara lucidez e energia renovada seu novo tour pelo Brasil, promovendo agora o lançamento mundial de A Viagem do Elefante (Companhia das Letras, 264 páginas, R$ 42), livro em que narra a aventura verídica de um elefante que rumou, em 1531, de Lisboa a Viena, presente de um rei português. ‘Tive algo semelhante a três pneumonias, perdendo 20 quilos em pouco tempo’, disse o autor de sucessos como Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em entrevista ao Estado, na segunda-feira (24/11), depois de homenageado por funcionários da editora.


O senhor gosta de dizer que A Viagem do Elefante é mais uma história que um romance. Por quê?


José Saramago – Na verdade, eu prefiro chamá-lo de conto. Não me preocupei com o número de páginas para defini-lo devidamente, mas, nesse livro, não há nenhum ingrediente que se costuma encontrar em um romance, como um conflito complicado ou um problema de família. A própria forma de narrar é a de contar algo, daí eu tê-lo chamado de conto, como apropriadamente consta na edição brasileira. Em Portugal, porém, isso não foi aceito e lá chamam de romance. Como não quis entrar em uma discussão sem sentido, não argumentei, mas preferia que o tratassem então de ‘livro’ e não romance.


O enredo é inspirado em fatos históricos, mas a possibilidade de poder criar personagens fictícios foi o que mais o atraiu?


J.S. – Sim, pois os fatos históricos preencheriam apenas duas ou três páginas, com todos os pormenores. Não mais que isso. Confesso que não esperava escrever um livro com mais de 250 páginas – acreditava chegar a, no máximo, 120. Mas, como tive de inventar situações, seu tamanho ficou maior. O que me agrada no trabalho final é o fato de o leitor ser conduzido pela linguagem e não apenas pelo enredo. Como autor, acredito que a escrita é ao mesmo tempo atual e referente ao momento em que se passa a história, século 16. Fiz, então, uma simbiose entre o português que falamos hoje e o que se escrevia naquela época. Acho que ficou bem resolvido, pois introduz uma dinâmica diferente: o leitor é constantemente surpreendido (como eu mesmo fiquei) com certas palavras e construções frásicas.


Como foi essa surpresa?


J.S. – Foi algo que não posso dizer que tenho explicação. Mas vou tentar explicar. À medida que envelhecemos, vamos acumulando aquilo que chamo de segmentos lingüísticos. Hoje, não falo como quando tinha 8 anos nem sequer quando estava com 30. Há uma espécie de camadas que vão se acumulando, do mais antigo ao mais recente. Tenho a impressão de que, durante a doença que me atacou e da qual tive a rara sorte de escapar com vida (ao menos um médico que me atendeu disse isso), camadas antigas voltaram à superfície. Ou seja, palavras que eu não mais usava ali estavam e figuram na história. Não apenas escrevi o livro, mas o livro também escreveu a mim. Não posso dizer que se trata de uma verdade científica, mas algo realmente diferente se passou pela minha cabeça.


O senhor acredita então que, se não tivesse enfrentado a enfermidade, o livro teria sido diferente?


J.S. – Possivelmente. Eu contaria a mesma história. No essencial, talvez não existiriam grandes diferenças. Mas, justamente o que não é essencial contribui (e muito) para que essa história se torne única.


Um leitor desavisado, que não soubesse o que lhe passou, não desconfiaria de sua doença, pois o livro é recheado de humor e ironia.


J.S. – De fato, o humor é o que aparece mais. E assim tinha de ser, pois não gosto de pôr a minha intimidade assim a claro. Quem espera por uma história sombria surpreende-se. Não tanto pelo humor, que está presente em minha obra, mas pela forte presença que nunca antes tinha acontecido. O livro começou a ser escrito em fevereiro de 2007 e, até maio, escrevi cerca de 40 páginas. Não avancei porque minha saúde piorou. Mas, como eu já estava determinado a um certo tipo de narrativa, não houve uma quebra no estilo. Tanto que, 24 horas depois de ter saído do hospital, corrigi aquelas 40 páginas e escrevi o que faltava. É como se houvesse outro eu a escrever por mim. Nesse período, aconteceram coisas muito estranhas. Como ter a visão de um fundo escuro com quatro pontos luminosos, que formavam um quadrilátero irregular. Para mim, aqueles quatro pontos eram eu. É um exemplo de como estava minha cabeça naquele momento e de como estava convicto em terminar o livro.


Suas opiniões sempre são muito apreciadas. Assim, o que se pode esperar do presidente americano Barack Obama.


J.S. – Em condições normais, seria apenas mais um presidente. Mas trata-se de um negro no comando. É uma revolução, porque invadiu o consciente e o inconsciente de um país que sempre enfrentou o racismo e a Ku Klux Klan.


E sobre a atual crise econômica?


J.S. – É o que me faz repetir que Marx nunca teve tanta razão como agora.

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