Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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“Não temos uma crítica literária”

Por Luciano Martins Costa em 05/07/2008 na edição 492

O escritor e jornalista Luis Fernando Verissimo conversou com o Observatório da Imprensa durante a Festa Literária Internacional de Parati (FLIP). Sua entrevista:


Como vê a relação entre a imprensa e os fatos culturais especificamente em relação à literatura?


Luis Fernando Veríssimo – Acho que em termos da cobertura da imprensa, de eventos culturais e livros, nós estamos bem servidos. Parece que falta no Brasil é crítica literária. Nós não temos críticos à altura do que existia há algum tempo – estão vivos ainda, mas não estão na ativa. Como o Antonio Cândido, não é? Não apareceu ninguém desse quilate. Então acho que a nossa falha é de falta de críticos.


Você refere ao fato de que os cadernos de cultura viraram praticamente cadernos de entretenimento?


L.F.V. – É. Como eu disse antes, em termos de cobertura de fatos culturais nós não podemos nos queixar. Tem esses segundos cadernos, cadernos de literatura, cadernos de cultura que prestam esse serviço, e eu acho que o fazem bem. Mas infelizmente não temos uma crítica literária.


Qual seria sua referência, na imprensa internacional, que falta ao Brasil?


L.F.V. – Nós temos muitos críticos americanos, ingleses, que fazem resenhas de livros e que, eles mesmos são personalidades – como críticos, não como escritores. Então parece que isso é o que estamos em falta.


Como encontrar o equilíbrio entre a necessidade de divulgação da obra literária e a ação muito ativa do marketing das editoras? Existe uma produção literária real e uma produção literária mediada, uma literatura que está na mídia e uma literatura que não está na mídia. Isso se deve, em parte, ao fato de que as grandes editoras são muito mais ativas em termos de marketing. Como encontrar um equilíbrio para que se possa trazer ao público a melhor literatura sem que ela seja necessariamente vinculada ao interesse comercial das empresas?


L.F.V. – Obviamente, as editoras são empresas comerciais, que precisam obter lucro, precisam vender. Então elas estão interessadas mesmo no chamado best seller, aquele livro que tem um público certo, que tem a venda garantida, mas sempre sobra alguma coisa para os autores novos e para uma literatura menos comercial, vamos dizer assim. São pequenas editoras que não estão tão interessadas em grandes lucros, e são outras maneiras que tem o autor novo ou o autor mais experimental, mais diferente, de vender o seu trabalho. Mas é claro que as grandes editoras mesmo estão interessadas em livros que vendam.


E a vinculação entre literatura e a televisão? Você vê como um bom sinal o nascimento ou o desenvolvimento de minisséries ou telenovelas em cima de obras literárias?


L.F.V. – A televisão sempre ajuda, não é? Um texto que esteja no ar, uma adaptação de romance que esteja no ar, obviamente vai fortalecer as vendas. Temos vários exemplos recentes disso. Acho bom. Acho que tudo que promova o livro é bom.


E a Flip? Como você vê a feira sendo um veterano participante? Não como participante veterano, quero dizer.


L.F.V. – Também um participante veterano. A Flip é ótima, porque é uma festa. Antes de mais nada é uma festa. Eu acho que tudo que transforma o livro e a literatura, o escritor, em notícia, em evento, em festa, é uma coisa positiva. Porque está promovendo o livro.


A presença de cerca de 400 jornalistas aqui é um bom sinal pra você? De que a imprensa está atenta a esse fato cultural?


L.F.V. – São 400, é? É bastante. Aí eu acho que é um bom exemplo da cobertura que a nossa imprensa dá à literatura como evento, como espetáculo, como acontecimento. E também um pouco o lado cultural, intelectual mesmo, além da parte festiva.


E quanto à presença do autor brasileiro no cenário internacional? Você acha que estamos já colocando a realidade brasileira de uma maneira correta ou adequada, num bom volume, na literatura?


L.F.V. – Não sei. Nós temos, claro, vários autores que têm projeção internacional, começando obviamente pelo Paulo Coelho, que é um fenômeno cultural no mundo todo, mas não vejo assim outro autor. Talvez o Jorge Amado, que está sendo vendido, Rubem Fonseca tem seu público no exterior, Clarice Lispector e Moacyr Scliar, também. Mas ainda não é o que poderia ser, ainda não é o ideal. Ainda temos uma literatura pouco conhecida e que ainda não está à altura da literatura em língua espanhola, por exemplo, que tem um mercado maior do que o de língua portuguesa.

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