Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ARMAZéM LITERáRIO > ENTREVISTA / LUIS FERNANDO VERISSIMO

“Não temos uma crítica literária”

Por Luciano Martins Costa em 05/07/2008 na edição 492

O escritor e jornalista Luis Fernando Verissimo conversou com o Observatório da Imprensa durante a Festa Literária Internacional de Parati (FLIP). Sua entrevista:


Como vê a relação entre a imprensa e os fatos culturais especificamente em relação à literatura?


Luis Fernando Veríssimo – Acho que em termos da cobertura da imprensa, de eventos culturais e livros, nós estamos bem servidos. Parece que falta no Brasil é crítica literária. Nós não temos críticos à altura do que existia há algum tempo – estão vivos ainda, mas não estão na ativa. Como o Antonio Cândido, não é? Não apareceu ninguém desse quilate. Então acho que a nossa falha é de falta de críticos.


Você refere ao fato de que os cadernos de cultura viraram praticamente cadernos de entretenimento?


L.F.V. – É. Como eu disse antes, em termos de cobertura de fatos culturais nós não podemos nos queixar. Tem esses segundos cadernos, cadernos de literatura, cadernos de cultura que prestam esse serviço, e eu acho que o fazem bem. Mas infelizmente não temos uma crítica literária.


Qual seria sua referência, na imprensa internacional, que falta ao Brasil?


L.F.V. – Nós temos muitos críticos americanos, ingleses, que fazem resenhas de livros e que, eles mesmos são personalidades – como críticos, não como escritores. Então parece que isso é o que estamos em falta.


Como encontrar o equilíbrio entre a necessidade de divulgação da obra literária e a ação muito ativa do marketing das editoras? Existe uma produção literária real e uma produção literária mediada, uma literatura que está na mídia e uma literatura que não está na mídia. Isso se deve, em parte, ao fato de que as grandes editoras são muito mais ativas em termos de marketing. Como encontrar um equilíbrio para que se possa trazer ao público a melhor literatura sem que ela seja necessariamente vinculada ao interesse comercial das empresas?


L.F.V. – Obviamente, as editoras são empresas comerciais, que precisam obter lucro, precisam vender. Então elas estão interessadas mesmo no chamado best seller, aquele livro que tem um público certo, que tem a venda garantida, mas sempre sobra alguma coisa para os autores novos e para uma literatura menos comercial, vamos dizer assim. São pequenas editoras que não estão tão interessadas em grandes lucros, e são outras maneiras que tem o autor novo ou o autor mais experimental, mais diferente, de vender o seu trabalho. Mas é claro que as grandes editoras mesmo estão interessadas em livros que vendam.


E a vinculação entre literatura e a televisão? Você vê como um bom sinal o nascimento ou o desenvolvimento de minisséries ou telenovelas em cima de obras literárias?


L.F.V. – A televisão sempre ajuda, não é? Um texto que esteja no ar, uma adaptação de romance que esteja no ar, obviamente vai fortalecer as vendas. Temos vários exemplos recentes disso. Acho bom. Acho que tudo que promova o livro é bom.


E a Flip? Como você vê a feira sendo um veterano participante? Não como participante veterano, quero dizer.


L.F.V. – Também um participante veterano. A Flip é ótima, porque é uma festa. Antes de mais nada é uma festa. Eu acho que tudo que transforma o livro e a literatura, o escritor, em notícia, em evento, em festa, é uma coisa positiva. Porque está promovendo o livro.


A presença de cerca de 400 jornalistas aqui é um bom sinal pra você? De que a imprensa está atenta a esse fato cultural?


L.F.V. – São 400, é? É bastante. Aí eu acho que é um bom exemplo da cobertura que a nossa imprensa dá à literatura como evento, como espetáculo, como acontecimento. E também um pouco o lado cultural, intelectual mesmo, além da parte festiva.


E quanto à presença do autor brasileiro no cenário internacional? Você acha que estamos já colocando a realidade brasileira de uma maneira correta ou adequada, num bom volume, na literatura?


L.F.V. – Não sei. Nós temos, claro, vários autores que têm projeção internacional, começando obviamente pelo Paulo Coelho, que é um fenômeno cultural no mundo todo, mas não vejo assim outro autor. Talvez o Jorge Amado, que está sendo vendido, Rubem Fonseca tem seu público no exterior, Clarice Lispector e Moacyr Scliar, também. Mas ainda não é o que poderia ser, ainda não é o ideal. Ainda temos uma literatura pouco conhecida e que ainda não está à altura da literatura em língua espanhola, por exemplo, que tem um mercado maior do que o de língua portuguesa.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/07/2008 Luan Antunes

    Somente uma pessoa da categoria do LFV poderia falar de tal problema nacional. Bom lembrar que a nossa literatura tão rica, vive hoje um descaso por parte da mídia, como o cinema nacional também. Passou a FLIP, acabou literatura no ano. Passou o festival de Gramado morreu o cinema verde e amarelo no ano. O que vale é festa, o conteúdo fica de lado.
    Pena ver, que o nome de quem nos representa lá Fora, Paulinho, não é lá sinônimo de qualidade e essência da verdadeira literatura brasileira, como Clarice Lispector e Machado de Assis.
    Mas lá fora já faz muito mais do que aqui dentro, embora possa fazer muitos brasileiros passar a gostar de um ruim escritor, pelo desprezível motivo de um ex-presidente Americano e outros nomes famosos serem fãs de suas obras.

  2. Comentou em 01/06/2005 Julian Rodrigues

    A mídia e a Parada: a Folha e o Estado  são exceção??

    Julian Rodrigues

        Como faço toda segunda-feira pós Parada GLBT de Sampa, comprei a Folha e
    o Estadão para ler a cobertura dos dois principais jornais paulistas, e
    brasileiros, sobre a maior Parada do Orgulho Gay do mundo, ocorrida no dia
    anterior.

        A Parada, como sempre, estava, lá, na capa, com belas fotos. Não era a
    manchete principal, mesmo tendo batido todos os recordes de público. Para os
    editores não era também o assunto mais importante da véspera. Até aí, apesar
    de pequena decepção, nada de muito novo ou surpreendente. Leio, então,  a
    legenda das fotos e descubro que as matérias sobre a Parada continuam nos
    cadernos Cotidiano e Cidades. Ou seja, sem discutir a tradição de coberturas
    do tipo, o fato concreto é que a Parada ainda é majoritariamente vista como
    pauta comportamental   e não política ou de interesse geral –  o chapéu da
    matéria do Estado de São Paulo é justamente Comportamento.  Aliás, quando
    será que esses veículos vão veicular as notícias da Parada nos cadernos
    principais dos jornais?

        Mas a leitura das matérias é que me deixou impressionado. Falta muito
    ainda para a chamada grande mídia dar um tratamento jornalístico minimamente
    denso à causa e às manifestações de lésbicas, gays e transgêneros. Comecemos
    pela matéria do Estadão, que, embora mais conservador que seu rival, tem uma
    qualidade jornalística superior.

        A matéria assinada por Rose Bastos e Silvia Amorim, destaca, num titulo
    neutro, o número de participantes – 1,8 milhão, segundo a PM. Depois, toda a
    construção do texto se dá em cima dos aspectos pitorescos, exóticos e que
    chocam o senso comum conservador. São parágrafos e parágrafos descrevendo
    personagens – homens –  que se ‘montam’ para ir à Parada Gay. São gays
    vestidos de querubim,  de primavera, carteiros de calcinha, grupos
    fantasiados de policiais militares, artistas húngaros, trios elétricos
    barulhentos, adolescentes bêbados. Na visão de o Estado de São Paulo é essa
    multidão freak, o que compõe ‘o mais interessante’, o que merece quase que
    exclusivamente ser mencionado.  Dos onze parágrafos desta  matéria
    principal, dez tratam destes aspectos e apenas o último destaca que o tema
    da manifestação é a exigência da aprovação imediata da união civil entre
    pessoas do mesmo sexo.

          Alguém pode argumentar que as fotos trouxeram informações importantes,
    como a presença de José Serra, justamente vaiado na manifestação (o prefeito
    hesitou em comparecer à Parada, ficou só meia hora e não quis de declarar
    apoio à união civil), da ex-prefeita Marta, do presidente do PT ou da
    senadora Heloisa Helena. Mas foram pequenas notas que, entretanto, não
    alteram o tom geral da matéria, que é excessivamente superficial. Faltou
    informação sobre a diversidade e sobre o simbolismo de uma manifestação de
    quase dois milhões de pessoas no centro financeiro do Brasil. Faltou,
    sobretudo, análise dos impactos de um evento como este para a vida de dez
    por cento da população brasileira, que, entretanto, ainda não têm seus
    direitos civis plenamente assegurados.

           Já quando fui ler a Folha de São Paulo, que cultiva fama de
    progressista e faz questão de apoiar a união civil em editoriais, tive uma
    surpresa agradável. Salvo engano, é a primeira vez que a cobertura da Parada
    ganha uma página inteira –  a primeira – do caderno Cotidiano. Tivemos de
    chegar à nona edição e a dois milhões de pessoas para conseguir esse
    espaço – isso num jornal conhecido por ser generoso com assuntos
    desimportantes, futricas, e mudernidades diversas. Quando li a manchete, que
    destaca uma possível maior participação feminina continuei animado. Mas, ao
    ler a matéria, essa brevíssima alegria virou rapidinho decepção. O texto da
    Folha substitui  a descrição dos rapazes exóticos do Estado  lésbicas e
    passa quase a metade do tempo descrevendo os tipos de lésbicas presentes à
    Parada, destacando um casto selinho trocado por duas avozinhas. Parece
    simpático, mas, de novo, nos retrata pelo que há de inusual, somente isso.
    O final da  matéria é dedicado às personalidades: a participação de Jean e
    os gritinhos fanáticos das fãs de Gagliasso.

            Mas, no meio, a repórter Laura Caprone comete trechos como esses:
    ‘Foi uma enorme brincadeira, regada a litros de cerveja, uísque falsificado
    e vinho barato. Uma diferença e tanto em relação à Marcha para Jesus,
    realizada há três dias no local (…). Aqui e ali, viam-se manifestantes
    fumando maconha, enquanto dançavam ao som de Ivete Sangalo, Cazuza e Cássia
    Eller.’  Ou então esse: ‘As bolachas ainda são mais tímidas. Ao lado delas,
    muito mais à vontade, desfilavam gays como Rogério de Mattos Cardoso, 19, e
    Cleomilson Bezerra de Souza, também 19, delineador marcando os enormes olhos
    castanhos. Sem camisa, corpos esquálidos, eles trocavam beijos lascivos,
    enquanto beliscavam um o corpo do outro. Também mordiam-se e abriam a
    braguilha das calças’.

            Tirante o mau-gosto e o duvidoso pendor literário, o que  orienta
    todo o texto da jornalista é o  que estranho, o que pode chocar os vestutos
    senhores que lerão a reportagem. Os meninos magricelas excitados em plena
    luz do dia. Os meninos e meninas fumando unzinho sem ser incomodados pelos
    policiais enquanto tomam  vinho barato. Isso é que é a notícia e esse lado é
    o que deve, ou merece mostrado. Mas será que a Folha só viu isso? Será que a
    Parada que exige direitos civis e junta tanta gente diferente  sem nenhum
    incidente relevante não têm  outros fatos  que mereciam ser destacados? E
    não me venham falar  que isso é norma do jornalismo. Há como escrever textos
    informativos e rigorosos sem chatice e preservando o interesse para o leitor
    comum.

            Eu não assisti à cobertura televisiva, que também parece ter sido
    maior esse ano do que nos anos anteriores. Mas, conhecendo o baixo nível de
    nossas emissoras, o brilhantismo intelectual dos apresentadores dominicais e
    vendo como se comporta a mídia impressa, fico imaginando o grau de
    superficialidade do que deve ter sido divulgado também pela TV. Alguns dirão
    que as televisões e os jornais são apenas empresas que devem gerar lucro e
    se orientam por critérios mercadológicos.  Parece que o que vende é tratar
    gays e lésbicas como animaizinhos alegres, inconseqüentes e inofensivos. É
    verdade  que as perspectivas têm melhorado. Que temos ganhado mais espaço.
    Que o preconceito tem diminuído.

        Mas, diante de um evento concreto, tão espetacular e importante quanto à
    Parada da Paulista, tudo o que nossa mídia tem para oferecer é essa
    cobertura boboca e chinfrim? Que, no máximo, serve para mostrar  quanta
    gente esquisita  há no mundo e que, afinal, é melhor deixá-los viver como
    são? Ou então, no caso da cobertura da Folha  –  com sua visceral antipatia
    à Marta Suplicy –   é capaz de  chamar mais atenção para uma eventual
    instrumentalização eleitoral de sua presença ali do que para o fato de que o
    seu projeto pioneiro faz dez anos sem  ainda ter sido  aprovado, mas foi
    fundamental para impulsionar a luta GLBT e as próprias paradas? E  sem
    informar  que Marta esteve presente em todas as edições do evento? Ou seja,
    a única vez que a cobertura fala em política é para fazer intriga menor, não
    para discutir o principal: os direitos desta parcela da população. É como o
    Estadão, que em uma de suas notas teve a pachorra de destacar que o vereador
    tucano  Roberto Trípoli não teve seu nome mencionado pela organização da
    Parada. Eu pergunto: e eu com isso?

        Portanto, diferentemente do que muitos possam pensar, as aparências
    enganam no caso da mídia e dos GLBT. A cobertura pode ter aumentado em
    quantidade, mas não em qualidade. E se é verdade que os veículos são
    empresas, é mais verdade ainda que a comunicação social é um bem público,
    que os canais de rádio e TV são concessões do Estado. Devem tratar das
    questões com mais propriedade, mais respeito, mais seriedade. Contribuindo
    para que a luta pela igualdade e contra o preconceito possa efetivamente
    avançar. Divulgando informação inteligente e de qualidade. Hoje, a mídia
    mais difunde estereótipos que aprofunda o debate sobre o tema. Há exceções,
    obviamente. E muito do espaço que hoje temos se deve à organização e
    mobilização do movimento e dos ativistas gays, não foi concessão de
    empresários politicamente corretos.

         Está na hora, contudo, de voltar a pensar sobre o assunto e a cobrar
    muito mais da mídia, às vezes tratada com excessiva condescendência. Cobrar
    mais respeito com seu público. Cobrar, sobretudo, seriedade a tratar, por
    exemplo, de um evento que reúne quase dois milhões de pessoas.  Pelo menos a
    Folha e o Estadão,  ficaram, mais uma vez, nos devendo uma cobertura
    razoável. Quem sabe na décima edição da Parada.

    Julian Rodrigues

    Professor, assessor parlamentar, é  militante GLBT

    Membro do grupo Identidade

    Articulador da Frente Parlamentar pela Livre Expressão Sexual

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