Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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ARMAZéM LITERáRIO >

Ninguém forma leitor se não for leitor

Por Galeno Amorim em 06/10/2009 na edição 558

Mestra em Ciência da Literatura pela UFRJ e escritora, a presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, Anna Cláudia Ramos, defende a formação de mediadores de leitura como ponto central das políticas públicas do livro e leitura. ‘O governo deveria investir em cursos de formação continuada para todos os educadores’, ela diz. ‘Sabemos que ninguém forma leitor se não for leitor’, acrescenta Anna Cláudia, para quem nunca se falou tanto nesse tema como agora, no Brasil. Mas ainda falta muito, observa. ‘Só seremos um país leitor no dia em que o livro for objeto de consumo tanto quanto um tênis ou um celular’, afirma em entrevista exclusiva à agência de notícias Brasil Que Lê.

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Qual deve ser o foco central de atuação dessa nova gestão à frente da AEILIJ?

Anna Cláudia Ramos – Em primeiro lugar, dar continuidade a tudo que já vinha sendo feito nas gestões anteriores, pois, como disse no editorial do boletim comemorativo dos 10 anos da AEILIJ, cada mandato tem apenas uma nova ênfase; a diretoria pode ser trocada, mas quem chega, não chega destruindo o que vinha sendo feito, e sim, dando continuidade ao que a categoria precisa para se fortalecer cada vez mais. Sendo assim, continuaremos nossa luta em prol da valorização cada vez maior dos direitos autorais de escritores e ilustradores e da democratização da literatura no país. Nossas parcerias com a FNLIJ, Flipinha/Casa Azul, com o site Dobras da Leitura e agora com o grupo que integra o Manifesto por um Brasil Literário serão mantidas e fortalecidas.

Governo pode e deve colaborar

Também queremos cada vez mais conscientizar a população sobre a importância da leitura de literatura infantil e juvenil e qual o papel da literatura na formação de um cidadão. Para isso estamos criando uma série de textos que serão divulgados ao longo dessa gestão criando diálogos com professores, pais, bibliotecários, jornalistas, crítica especializada. Mas estamos atentos a tudo que vem acontecendo em relação ao livro e à leitura no país, pois uma instituição forte precisa estar unida em prol de sua categoria. E claro, queremos continuar dialogando com o MinC e o MEC no sentido de garantir ações concretas a partir das propostas tiradas no Fórum Literatura nas Escolas, que houve em Brasília em julho de 2008, e no Seminário Mediadores de Leitura, organizado em março deste ano pelo PNLL.

Na sua opinião, as políticas públicas de leitura no Brasil estão ou não avançando?

A.C.R. – Estão, sim, com todos os problemas que ainda existem nunca se falou tanto de políticas em torno do livro e da leitura no país. Mas não só as políticas públicas estão avançando. Eu diria que as iniciativas privadas também estão avançando cada vez mais e são necessárias na formação de uma rede em prol da formação de um país leitor. Creio que o maior avanço que tivemos nesse sentido foi a criação do Manifesto por um Brasil Literário, que nasceu da vontade do Instituto C&A, da Associação Casa Azul – organizadora da FLIP –, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), do Instituto Ecofuturo e do Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF) de juntar esforços e experiências para incentivar a criação de um Movimento por um Brasil literário. O manifesto pretende ampliar o debate em torno da importância da leitura de livros de literatura, acolher propostas e engajar o maior número de pessoas em torno desta causa. A AEILIJ foi convidada para ser parceira desse movimento e o MinC também. Estivemos todos juntos numa reunião no início de agosto. Creio que quando as políticas públicas se unirem em torno das boas iniciativas privadas que já existem certamente iremos avançar para mudar o conceito existente em torno da leitura literária. Só seremos um país leitor no dia em que o livro for objeto de consumo tanto quanto um tênis de marca ou um celular de última geração. O governo pode e deve colaborar para essa mudança.

Incremento de programas de leitura

Quais devem ser as prioridades dessas políticas nos próximos anos?

A.C.R. – Colaborar na formação de um Brasil leitor. O governo brasileiro investe na compra de livros para formação de acervos de bibliotecas escolares com o programa PNBE. Isso é muito bom, mas é preciso mais que isso, é preciso investir na formação de mediadores de leitura para garantir não só o acesso aos livros, mas a formação de novos leitores. Já sabemos que ninguém forma leitor se não for leitor. O governo deveria investir em cursos de formação continuada para todos os educadores, valorizando isso desde o momento da formação inicial dos professores com cursos de literatura infantil e juvenil nos cursos de Magistério, Pedagogia e Letras, por exemplo. É preciso mudar o valor que se dá ao livro no Brasil. É preciso que as pessoas entendam o valor da literatura na formação plena de um cidadão. Sendo assim, o governo deveria dar o exemplo e colaborar para mudar essa imagem de livro como algo enfadonho ou cansativo. Ler é tão bom quanto brincar ou namorar. Mas as políticas públicas não podem esquecer que é preciso que todos tenham acesso à cultura literária, por isso é preciso continuar com o projeto de zerar os municípios sem biblioteca, mas aí voltaremos ao mesmo tema: não adianta apenas montar biblioteca com bons acervos, é preciso que esta funcione de verdade como um espaço de formação de leitores. Para isso é preciso que haja bons mediadores de leitura. Não podemos esquecer que um povo só melhora com muita educação e informação de qualidade.

O que a AEILIJ pensa sobre o Fundo Pró-Leitura que está sendo criado pelo governo?

A.C.R. – Somos solidários com qualquer iniciativa que incremente programas de leitura, principalmente voltados para a leitura da Literatura. No caso do Fundo Pró-Leitura, achamos necessário, em primeiro lugar, que a formatação seja decidida por um consenso que envolva representação de autores, editores e livreiros, os quais devem administrar esse Fundo, fiscalizando seu recolhimento e direcionando 100% da sua receita para o fim estipulado: incremento de programas de leitura.

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