Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ARMAZéM LITERáRIO > LIVRO DIDÁTICO

Ninguém faz a cabeça de quem lê. Só o leitor

Por Deonisio da Silva em 09/10/2007 na edição 454

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) informa que em 2006 o governo foi o maior comprador de livros do mundo. E comprou bem baratinho. Cada um dos 96.910.126 volumes custou 6,35 reais; para tanto, desembolsou 616 milhões de reais. Neste caso, aproveitou muito bem o dinheiro público. Que livro o leitor pode comprar por 6,35 reais? Cada exemplar custou menos do que uma revista, com o agravante de que livro não tem anúncio. Nem na capa, nem nas páginas internas.

Foi um avanço em relação a 2005, quando comprara 65.182.040 exemplares ao preço médio de 5,78 reais, pagando 377 milhões de reais.

Foi de Ana Paula Sousa, em CartaCapital, uma das melhores reportagens sobre o livro didático, ao deslindar o contexto das denúncias feitas pelo jornalista Ali Kamel em O Globo (18/9/2007): ‘Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada. Algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém’ [ver ‘A polêmica sobre a nova história‘].

O juízo de Ali Kamel é de uma obviedade atroz, mas isso não foi destacado por ninguém. Nem por CartaCapital. Evidentemente, também a cabeça de Ali Kamel, assim como a deste colunista, ‘foi trabalhada’ nas escolas que ambos freqüentaram, ambos ‘foram enganados’ quando crianças e nada foi feito por nenhum ‘ministério, congresso, por alguém’. Ambos, por certo, leram muitos outros livros. E assim nenhum dos dois continuou enganado.

Alunos sempre foram ‘enganados’

Na escola, aprendi que Alexandre tinha sido um grande homem, um dos maiores de todos os tempos. Um dia topei com este parágrafo no Sermão do Bom Ladrão, do padre Antônio Vieira:

‘Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. `Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?´ Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres’.

Todos os alunos sempre foram enganados sobre outros assuntos. Ensinaram-lhes o número errado de planetas; ensinaram-lhes que a democracia grega era exemplar (como, se votavam cerca de 200 pessoas representando uma cidade inteira?); ensinaram-lhes a odiar Nero, que incendiou Roma (mas não lhes ensinaram que ele fez a reforma agrária na África, o que Santo Agostinho reconhece de passagem, num livro sobre música); ensinaram-lhes primeiramente que Getúlio Vargas foi ‘pai dos pobres’ e depois que foi ‘mãe dos ricos’; ensinaram-lhes que ele era amado, depois que ele era odiado, mas para isso tiveram que omitir que ele, deposto, foi reeleito pelo povo e que, apesar de tantas denúncias, não era corrupto, nem havia mar de lama no Palácio do Catete, apenas uma pocinha. Ainda menor se comparada com os governos de hoje. Etc.

Nos anos 1970, o escritor Osman Lins debateu-se quase solitário em livros como Problemas Inculturais Brasileiros e Guerra sem Testemunhas. Ninguém lembrou este autor ao escrever sobre o que ele tanto denunciou.

Trajetória de Paulo Renato

Fazer a cabeça das crianças é coisa muito antiga. Alguns livros de referência – mas nossos jornalistas, por norma, lêem pouco e por isso não podem referir livros que não leram – poderiam ajudá-los, como é o caso de Para Ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, escrito num período em que o governo de Salvador Allende enfrentava o jogo sujo do governo dos EUA, cujos funcionários ajudaram a assassinar o presidente e seus ministros. E Augusto Pinochet, o ditador que os EUA tanto ajudaram, foi para a cadeia na Inglaterra, anos depois. E semana passada a viúva e os filhos foram presos no Chile, acusados de corrupção. Também é bom ler Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, A reprodução. Elementos para uma teoria do sistema de ensino.

Ana Paula Sousa destacou, em CartaCapital, que as denúncias de doutrinação petista não procediam: o livro que serviu de cavalo de batalha, Nova História Crítica (Nova Geração Editorial, 319 páginas), de Mario Schmidt, foi escolhido no governo de Fernando Henrique Cardoso.

A jornalista lembrou também que Paulo Renato Souza, ministro da Educação nos dois governos de FHC, tornou-se consultor do grupo editorial Santillana, líder de vendas de livros para o governo federal.

Mas diz pouco sobre o ex-ministro. Ex-reitor da Unicamp, onde enfrentou uma dura onda de calúnias antes de ser eleito para a reitoria, trabalhou também no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e, em São Paulo, foi secretário da Educação no governo Franco Montoro.

Heranças benditas

Paulo Renato Souza, deputado federal (PSDB-SP), se nada tivesse feito no MEC, apenas este programa de compras de livros, depois objeto de sucessivos aperfeiçoamentos, teria deixado seu nome na história como líder de um projeto que seguiu o conselho dado por Castro Alves, ainda no século 19, enaltecendo o livro em seu belo poema O Livro e a América:

‘Oh! Bendito o que semeia/ Livros à mão cheia/ E manda o povo pensar!/ O livro, caindo n´alma/ É germe – que faz a palma,/ É chuva – que faz o mar!’

Que seja criticado por seus defeitos, não por suas qualidades. O que ele fez com a política de livros, fez também com o processo de avaliações nas universidades, ainda excessivamente quantitativas, mas ainda assim avaliações. Antes dele, as avaliações, ou não existiam, ou eram pífias.

O governo Lula soube manter políticas deflagradas por seu antecessor (no primeiro mandato; agora o antecessor dele é ele mesmo) de que são exemplos a bolsa-escola, a avaliação das universidades e a compra de livros, aperfeiçoando essas boas iniciativas, mas infelizmente o presidente e a mídia insistem em comparações equivocadas, referindo-se à ‘herança maldita’. Neste caso, foram três heranças benditas. Tanto que as manteve.

Ajustes indispensáveis

O jornalista LuIs Nassif foi direto ao assunto no seu blog:

‘As campanhas recentes contra livros didáticos têm como pano de fundo um mercado milionário. Só para 2008, as compras do MEC chegarão a R$ 186,7 milhões para o ensino médio e em R$ 560 milhões para o fundamental. Desse total, a Moderna (controlada por capital espanhol) vendeu R$ 212 milhões, R$ 125 milhões a mais que no ano anterior. O ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza é consultor da empresa.’

Nassif lembrou também outra coisinha. ‘A editora Abril, que edita a Veja, sempre tão impiedosa com o governo Lula, vendeu, para 2008, R$ 162 milhões ao MEC através de suas controladas editoras Ática e Scipione’, um aumento de R$ 73 milhões em relação a 2007!

O colunista deu outra nota esclarecedora: ‘A editora Saraiva vendeu R$ 98 milhões para 2008 contra R$ 39,2 milhões em 2007’. E concluiu: ‘Dentre as dez maiores, há pouco espaço para pequenas editoras ou autores individuais.’

Mario Schmidt, o Paulo Coelho dos livros didáticos, vendeu milhões de exemplares. Mas o governo não obrigou as escolas a adotar o seu Nova História Crítica. Ele foi escolhido por uma comissão de professores.

De pequenos ajustes indispensáveis, e que já estão sendo feitos, fizeram um cavalo-de-batalha para criticar o governo Lula. Miraram em Fernando Haddad e acertaram em Paulo Renato Souza. Nos dois casos, os alvos estão errados. O que precisa ser atacado é o problema, não os dois ministros. Um criou o programa, outro o manteve, como já fizera Tarso Genro, aperfeiçoando-o. E o programa é bom.

Eternos são os livros

Que houve acerto, já sabemos. Antes, muitos alunos nada liam porque não havia livros. Agora lêem, e lêem mal, em muitos casos, porque os livros escolhidos não foram os melhores.

Está de bom tamanho. Mudemos os livros, aperfeiçoemos as formas de escolha e daremos mais um passo à frente. O principal já foi dado: o Brasil tem um projeto de livro didático.

Qual é a responsabilidade da mídia? Deixar de ser irresponsável, deixar de tomar partido a priori, sem examinar, com a devida isenção, o problema.

O que tem havido é um combate que deveria dar náuseas em qualquer intelectual: abdicar de sua capacidade crítica para endossar ou reprovar um governo, qualquer que seja ele.

Todo governo passa, dure quatro, oito ou mais anos. O intelectual, porém, tem no mínimo a vida inteira para ser examinada sua contribuição ao país. E, se deixar livros, nem a morte impedirá que ele continue na berlinda, pois eternos são os livros, não os autores.

******

Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século); www.deonisio.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/10/2007 Paulo Bandarra

    Parece que nesta região ele não era muito bem quisto ou se concentrava a resistencia. novembro de 1939, Hitler escapou por pouco de um atentado que matou oito pessoas. A bomba, detonada no porão de uma cervejaria em Munique. Sophie Magdalena Scholl presa em Fevereiro de 1943 enquanto distribuía o 6º panfleto, na Universidade de Munique. Mas são exceções a regra!

  2. Comentou em 12/10/2007 Ricardo Camargo

    Acresço ainda um dado de fato às observações do Prof. Deonísio, que foram indispensáveis para esclarecerem melhor a sua posição e, por outro lado,limparam o terreno de estéreis discussões de cunho político-partidário, em que a crítica poderia ser confundida com a ofensa:o OI não tem a finalidade de patrulhar a mídia, muito menos de servir como um dique,mas de propiciar a identificação dos pontos em que ocorre a manipulação.Por outro lado,fiz o primário aos tempos em que o livro de Estudos Sociais e Ciências da Profa. Débora de Pádua,editado pelo IBEP,era expressamente engajado na defesa do Governo Militar.A consulta aos livros de Teoria Geral do Estado e Direito Constitucional dos srs. Sahid Maluf e Paulino Jacques sempre inseriam um voto de louvor ao movimento militar (‘mercê de Deus’, ‘revolução gloriosa’ e outros que tais).Ernest Forsthoff e Carl Schmitt, Wilhelm Sauer e Karl Larenz continuam sendo referenciais na Faculdade de Direito, principalmente o último, que, no Partido Nazista, tinha a função especial de demolir a Teoria Pura do Direito,do judeu Hans Kelsen e,não obstante,principalmente para os civilistas, é considerado de citação obrigatória.E com isto não há qualquer louvor aos regimes de força de esquerda e de direita, mas tão-somente a exposição do fato de que eventuais passagens laudatórias não são raras em livros didáticos,embora não sejam recomendáveis.

  3. Comentou em 12/10/2007 Deonísio da Silva

    Sempre que posso, gosto de dialogar com os leitores. Então, replico:
    1) alguns dos mais notórios intelectuais que combateram o fascimo e o nazismo, foram alfabetizados e ensinados em escolas fascistas e nazistas, que não fizeram a cabeça deles, apesar da propaganda maciça, das distorções etc.
    2) O jornalista Ali Kamel comete um erro metodológico (analisa um livro entre 400 títulos): tira conclusões de amostra que leu mal e quer que erradas valham para todo o contexto! Comete também um erro epistemológico, mas estas questões são muito complexas para aqui serem explicadas. De todo modo, reitere-se que é preciso testar melhor as hipóteses, conferir os resultados e os caminhos percorridos para chegar a tais conclusões. Mas sou seu leitor habitual e este artigo que ele escreveu tão cheio de equívocos não anula os méritos de outros. De alguns deles discordei, mas reconhecendo que estavam bem escritos.
    3) Paulo Renato de Souza serviu a Montoro, a Quércia, a FHC. Foi secretário de Estado, reitor, ministro. À frente do MEC , enfrentou universidades federais, muitas delas dirigidas por reitores petistas que o tratavam, não como ministro, mas como inimigo político. Acho um equívoco examinar o trabalho intelectual de quem quer que seja à luz dos governos aos quais serviram ou servem. Oswaldo Aranha, Gustavo Capanema e Carlos Drummond de Andrade trabalharam para Getúlio Vargas!

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