Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ARMAZéM LITERáRIO > PALAVRAS LEMBRADAS

No papel, boas conversas de boteco

Por Mouzar Benedito em 08/02/2005 na edição 315

Palavras são palavras, nada mais que palavras, dizia um velho político caricaturado num programa de humor da televisão. Mas há quem veja nas palavras a verdade absoluta, a honradez ou qualquer coisa do gênero. São as pessoas que dizem que o fulano é um homem de palavra, que o beltrano não tem palavra. Palavra! Exclama o sujeito que afirma que tudo o que disse é verdade.

Pois é. O lado da palavra solta, da brincadeira, das palavras que não são nada mais do que palavras, se encontra com o outro lado, da palavra como ponto de honra, entre outras qualidades, neste livro de autoria de dois profissionais da palavra escrita, Jô e Robson, jornalistas do tempo em que a palavra era perigosa para quem levava a sério a profissão, ou seja, a palavra escrita. São dois militantes da imprensa alternativa, que garantiram um lugar ao estado do Espírito Santo no sagrado (epa!), ou melhor, iconoclástico Brasil da imprensa alternativa, com o jornal Posição, de altíssima qualidade palavral, informativa, ideológica e política.

Quando me convidaram pra fazer esta orelha, respondi sacanamente: ‘Palavra, pra orelha, tem que ser oral e não escrita’. Mas era mesmo pura sacanagem minha. As filosofias, as histórias, as memórias, os desgostos, as boas lembranças, as más lembranças, as piadas, as emoções… como expressar tudo isso?

Jô e Robson fuçaram o passado distante e o próximo, fundiram conceitos, pensamentos e palavras neste livro. São textos lembrados, rememorados e contados muitas vezes numa mesa de bar, com a palavra regada pela grande adubadora nacional da palavra dita ou escrita de todo o Brasil: a cachaça boa e legítima que eles e eu apreciamos.

Palavras me parece uma conversa de boteco. De boteco dos bons, desses em que a palavra é o instrumento – incrementado pela boa bebida – para transmitir conhecimento, ideal, contestação e humor. Não é à toa que o livro tem no título de vários textos a palavra ‘filosofia’. Boteco, cachaça e palavra são fontes generosas de pensamentos e ideais. Durante um bom tempo, critiquei a proliferação das casas de sucos de frutas, apesar de gostar muito deles, dizendo que ninguém falava mal do governo numa casa dessas. Lugar de falar mal do governo é no boteco, tomando cachaça ou cerveja. E lendo os originais deste livro, lembro também que não é numa casa de suco de frutas que a gente relembra bons e maus momentos, de boas pessoas e outras nem tanto, esticando a conversa. Isso é coisa de boteco. Palavra!

***
Apresentação

Jô Amado e Robson Moreira

Durante o tempo em que escrevíamos este livro, amigas e amigos nos perguntavam: ‘Mas de que gênero de livro se trata?’ Encurralados, nos esquivávamos a responder, pois talvez a melhor forma de definir o gênero fosse chamando-o híbrido.

A idéia central, evidentemente, é a palavra, mas o universo que ela abrange é enorme: há a palavra engraçada, dos causos, há a palavra gritada, da revolta, há a palavra guardada, da memória, há a palavra harmoniosa, da música, há a palavra triste, da saudade…

E a palavra, de certa maneira, é o nosso negócio: trabalhamos juntos, embora nem sempre de maneira constante, há mais de 30 anos. E trabalhamos com a palavra.

Não podíamos deixar de registrar nossa gratidão a todos os amigos e pessoas citadas, sem os quais teríamos ficado sem o essencial: as palavras.

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Jornalista

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