Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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29/11/2006 na edição 409

TELEVISÃO
Ricardo Calil

Crepúsculo da deusa, 21/11/06

‘No filme ‘Crepúsculo dos deuses’ (1950), obra-prima de Billy Wilder, a antiga diva do cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson) tenta fazer, a qualquer custo, sua reentré no cinema falado. Mas a tentativa esbarra em um problema: seu estilo de interpretação expansivo e grandiloqüente não se adapta à Hollywood de então.

A Sonia Braga de ‘Páginas da vida’ lembra muito a Norma Desmond de ‘Crepúsculo dos deuses’. Em seu retorno às telenovelas, no papel da artista plástica Tonia Werneck, ela parece um objeto estranho, uma relíquia setentista, com sua interpretação teatral e afetada, seus gestos largas e sua fala estranhamente pausada, contrastando com o naturalismo global dos outros atores.

No início da novela, o problema não era tão grave assim, mesmo porque seu personagem entrava muda e saía quase calada de cena. Tonia aparecia fazendo tai chi chuan, criando suas esculturas e pouco mais. Agora que ela foi obrigada a falar, o descompasso com o resto do elenco ficou evidente e originou uma série de momentos embaraçosos – como a coletiva de imprensa da artista aos jornalistas e, principalmente, as cenas de amor com Edson Celulari (que, convenhamos, não tem ajudado muito).

É grande a tentação de dizer que Sonia Braga desaprendeu a atuar – uma sensação que vem desde sua atuação no filme ‘Tieta do agreste’ (1996) e passa também por sua participação na série americana ‘Sex and the city’ em 2003. Mas talvez isso não seja verdade, por dois motivos.

Primeiro, porque ela nunca foi conhecida por seus dotes interpretativos, mas como um ícone de uma certa beleza, brejeirice e picardia brasileiras. Foi assim que ela conheceu seu auge nos filmes ‘Dona Flor e seus dois maridos’ (1978) e ‘A dama do lotação’ (1978) e nas novelas ‘Gabriela’ (1975) e ‘Dancin’ Days’ (1978). Mas, com o passar do tempo, ela deixou de ser um símbolo sexual, sem chegar a se tornar uma grande atriz.

Depois, porque ela não oferece exatamente uma má interpretação em ‘Páginas da vida’ (para tanto, basta ver Regina Duarte), mas um espetáculo à parte. Como Norma Desmond, a atriz parece viver em um universo só seu (não o de Tonia Werneck, mas o de Sonia Braga), em que se move de maneira mais lenta e fala de maneira mais pausada que o resto da humanidade. Algo que talvez fizesse sentido no cinema mudo, no teatro kabuki ou na ópera chinesa, mas não na novela das oito.’



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