Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Notas de uma assessora de encrenca

Por Gilda Matoso em 28/11/2006 na edição 409

Gostei da idéia do livro, mas com minha jornada que às vezes parece ter 26 horas, semanas de oito dias e meses de mais de 35 dias, cadê tempo? Ocorreu-me então pedir a um de meus irmãos que fosse digitando os casos que, depois, organizaríamos em formato de livro.

Convidei o número dois da irmandade, Luiz Antônio, oficial reformado da Marinha, conhecido em casa como Luizinho, na Marinha como Kid e que eu chamo de Panta (apelido roubado da célebre criação de Chico Anysio, Pantaleão), por sua imaginação fértil, injetando ‘flores’ e ‘enfeites’ nos casos que conta. A calhar para uma empreitada como esta.

Para evitar possíveis mal-entendidos, ressalvo desde logo que sou Gilda de Queirós Mattoso desde que nasci. Sou descendente em linha direta de Euzébio de Queirós Coutinho Mattoso Câmara, o senador Euzébio de Queirós, que dá nome à lei de sua autoria que aboliu o tráfico de escravos (por isso alguns o chamavam de ‘o Euzébio da Lei’). Esse meu trisavô, que ganhou nome de avenida em São Paulo e de rua no Rio, foi ainda ministro, senador e responsável pela introdução do telégrafo elétrico no Brasil. Enfim, é uma figura de nossa história.

Meu pai, embora orgulhoso de tal descendência, sempre ressaltou que essa origem por si só nada significa. Temos que construir nosso patrimônio intelectual de educação e caráter, algo que não pode ser roubado, que não desaparece numa queda da bolsa, que nenhuma revolução de qualquer coloração ideológica despreza ou destrói. Essa primeira ressalva é para proteger a imagem e a reputação de outras homônimas que, depois de mim, e por força de casamentos com primos, adotaram um nome idêntico ao meu. Fiquem, portanto, tranqüilos os amigos e conhecidos dessas outras non-nées: nenhuma delas passou pelas situações relatadas neste livro, nem vêm ralando, como eu, o seu pão de cada dia nas histórias aqui contadas.

Nasci em Niterói, filha temporã – Ângela, a caçula da família, já tinha 9 anos quando cheguei! – de Paulo de Queirós Mattoso, engenheiro ferroviário, e Liddy Kerr Pinheiro de Queirós Mattoso, esposa-e-mãe-tempo-integral. Fui recebida por seis irmãos (Paulo, Luiz Antônio, Roberto, Sérgio, Lia e Ângela), excitados com a chegada de mais um/uma (ainda não havia o ultra-som, que liquidou com a deliciosa expectativa). Nas últimas semanas que antecederam ao nascimento, os seis e meus pais iniciaram um processo democrático de escolha de nomes. Cada um indicou um nome de menina e outro de menino; todos deram notas a todas as indicações; tabularam; chegaram finalmente aos vencedores: Gisela e Bruno. Logo depois do nascimento, conta Luizinho, dispararam telefonemas e telegramas para parentes e amigos: ‘Gisela chegou!’ Dois dias depois, dr. Paulo entrou no quarto e entregou a Liddy a certidão:

– Pronto. Está registrada.

Ela leu e o espanto foi geral: ‘GILDA?’

O velho, imperturbável:

– E vocês acham que eu ia abrir mão do meu pátrio poder?

Pelo menos aproveitaram-se as iniciais já bordadas… A escolha desse nome foi influência de Gilda, filme com Rita Hayworth e Glen Ford, grande sucesso no mundo todo.

‘Síndrome de tietagem’

Minha casa era na esquina de uma vila, na rua Lopes Trovão, em Icaraí. Na frente, uma varandinha e um minijardim. Uma mureta entre nossa casa e a outra, à esquerda, geminada, impedia quem viesse pela calçada de ver se havia alguém na varandinha. Roberto ficava parado na beira da calçada, voltado para a casa, encostado displicentemente no poste. Portão do jardim para a calçada aberto. Na varanda, Sérgio me segurava pelas axilas, de frente para Roberto, lá fora. Quando um casal de incautos, preferencialmente maduros ou idosos, vem voltando da praia, já quase no nosso portão, Roberto faz um leve sinal. Sérgio me atira. Passa aquele bebê voando pela frente do pobre casal. Roberto agarra. Dizem que eu sacudia as perninhas, excitada, querendo ‘voar’ mais. O casal fica indignado. Quase sempre batem palmas chamando Liddy, para reclamar e denunciar a brincadeira imprudente.

Eu tirava boas notas na escola. Menos em comportamento. Fim do mês, época de trazer a caderneta, logo após entrar em casa, mamãe perguntou:

– Então, tornou a tirar zero em comportamento?

Com voz meio sonsa eu respondi:

– Tirei dez.

Mamãe não acreditou. Arrogante, exibi a caderneta. Estava lá: ao lado do ‘zero’ redondinho da professora, um algarismo ‘1’ todo troncho. Detalhe: é que eu, sem vocação para falsária, havia colocado o ‘1’ à direita do zero.

Em 1957, minha cunhada Lysette estava grávida da que seria a primeira neta de Paulo e Liddy, Marta. Eu seria tia aos 5 anos. Findo um almoço num domingo de dezembro, Lysette já pesadona, perguntei:

– Quando vai nascer o bebê?

– Em janeiro/fevereiro. Estou doidinha pra nascer logo.

Por quê?

– Vai ser a primeira pessoa em quem vou mandar.

Explico-me. Temporã como era, todos davam palpites na minha educação e mandavam em mim. Queria ir à forra.

Em 1973, Luizinho foi mandado pela Marinha para acompanhar a construção de submarinos na Inglaterra. Comissão de dois anos, a lei bancava as passagens da mulher, filhos e um/uma acompanhante. Fui com eles para ajudar Lysette a cuidar da casa e das sobrinhas. Cursava então o segundo ano do curso de Letras da Universidade Federal Fluminense, a UFF. Quiseram até me dar um novo nome, mais adequado para uma preceptora: Agatha. Não colou. Eu já era fluente em inglês e arranhava o espanhol. Lá onde moramos, Barrow-in-Furness, havia também uma comissão da Marinha da Argentina que acompanhava, no mesmo estaleiro, a construção de uma fragata. Fiz amizade com uma garota portenha, Susanita, e em pouco tempo já me defendia bem em castelhano, língua que estudara no Centro Educacional de Niterói, com a professora Magnólia Brasil Barbosa.

Em 1975, quando a comissão chegou ao fim, não voltei com Luizinho para o Brasil. Mudei-me para Londres, onde morava nosso irmão Paulo com a família, ele subgerente da agência do Banco do Brasil lá. Entrei em um curso de italiano na embaixada daquele país. Estava ainda nas primeiras aulas quando li um anúncio de uma elegante loja de presentes finos e papelaria de luxo, Smythson’s of Bond Street, procurando jovens atendentes que falassem italiano e espanhol. Apresentei-me e ganhei o emprego. Atendi pessoas famosas, como Ava Gardner, princesa Margareth, rainha Sofia da Espanha, Fred Astaire, Frank Sinatra, Greta Garbo, entre muitos outros. Essa experiência serviu para que eu me acostumasse ao trato com famosos, poupando-me da ‘síndrome de tietagem’, isto é, do deslumbre frente às personalidades.

Receitas irregulares

Num dos primeiros dias naquele emprego, entraram o embaixador italiano em Londres e senhora, fregueses da loja. O gerente, todo solícito, informou: ‘Senhor embaixador, agora temos uma pessoa para atendê-lo em sua própria língua’. Fiquei lívida. Mas só por alguns segundos. Logo me recompus e mandei ver, numa mistura de italiano, espanhol e português: ‘Signor ambasciatore, per prendere questo posto ha detto que parlo italiano! Aiuto!‘ (‘Senhor embaixador, para conseguir este emprego eu disse que falo italiano! Socorro!’) O embaixador, compreensivo, deu uma piscadela discreta para mim e, voltando-se para o gerente, em inglês, agradeceu a gentileza, elogiou o meu italiano e passou a falar comigo bem devagar. Recebi meu primeiro aumento.

Findo o curso, tirei primeiro lugar e, por sugestão de minha professora, me inscrevi no curso de Língua e Literatura Italiana da Universidade de Perúgia. Lá fui eu incorporar mais uma língua. Cobria minhas despesas com as economias que fizera em Londres, com um dinheirinho que Liddy me mandava quando possível e receitas de duas fontes: a atuação como baby-sitter e o trabalho com Franco Fontana, um empresário que fazia, na Europa, produções com artistas brasileiros e de outras nacionalidades, inclusive europeus.

Com ele, conheci muitos de meus ídolos – Chico Buarque, Gal Costa, Tom Jobim, Caetano Veloso, Maria Bethânia, entre outros – e reencontrei o maior de todos eles, Vinicius de Moraes. Depois da temporada italiana, mudei-me para Paris, pois queria aprender a língua francesa. Morei primeiro com minha prima Otilie (ramo Kerr da família), arquiteta que trabalhava na França. Eu fazia então um curso intensivo na Aliança Francesa. Depois, morei com minha amiga de infância, Ruth Washington, que chamo de Rutão. Éramos vizinhas de prédio de Marilia Nóbrega da Câmara Torres, que fizera primeira comunhão comigo e Berenice Campos, filha de nossa professora de ginástica, dona Letice. Ruth era médica recém-formada e fazia alguns cursos de especialização na França, como, por exemplo, nefrologia e acupuntura.

As minhas receitas financeiras vinham de variadas fontes: das aulas de português que dava a executivos da multinacional Rhodia, que viriam para o Brasil; das participações como backing vocal em gravações francesas de temas hispano-americanos e brasileiros; do trabalho como baby-sitter – tive, entre meus clientes, os filhos do famoso comediante francês Coluche, uma espécie de Jô Soares gaulês; e continuava a trabalhar com Franco Fontana, nas temporadas francesas de artistas brasileiros. Eram receitas irregulares. Rutão e outras amigas chegaram a se lançar no ramo de catering: preparavam e serviam refeições de comida baiana a pequenos grupos de casais franceses. A opção única era vatapá, que elas começavam a fazer no apê delas e finalizavam na casa da anfitriã do jantar. Serviam a iguaria ao som de Caymmi e fantasiadas de baianas, à la Carmen Miranda.

Boa dupla

Uma tarde telefonei para o escritório em que Luizinho trabalhava, no Rio:

– Estou voltando, com Vinicius. Estou vivendo com ele.

Por pouco o ‘Panta’ não apagou.

– Gilda, que loucura! Não faça isso. Deixa ele voltar sozinho. Vamos tentar preparar Liddy para receber um genro quase da idade dela!

Assim foi feito. Passada a perplexidade de todos, mamãe inclusive, voltei. Levei Vinicius para conhecer sua nova sogra. Conquistada Liddy, todas as resistências caíram. E meus irmãos se incorporaram alegremente à imensa legião de cunhados do Poeta.

Hoje sou sócia de Marcus Vinicius dos Santos na Mattoso & Vinicius Produções Artísticas Ltda., empresa de assessoria de imprensa e relações públicas. Formamos uma boa dupla e somos como dois irmãos que se querem e se entendem muito.

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Assessora de imprensa

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