Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ARMAZéM LITERáRIO > DIÁRIO DE BORDO

Notas de uma viagem à China

Por José Marques Melo em 12/08/2008 na edição 498

Em 1958, o jornalista Luiz Beltrão desbravou o caminho da China. Nessa ocasião, ele exercia a vice-presidência da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Tendo ingressado no jornalismo em 1936 e desenvolvido uma carreira coroada pelo êxito, foi natural que Luiz Beltrão enveredasse pelas atividades corporativas. Sua militância começou na Associação Pernambucana de Imprensa, onde ocupou o cargo de presidente, ampliou-se para o Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco e culminou com a sua eleição para a direção da Fenaj. Nessa condição, ele representou o Brasil em várias conferências internacionais de jornalismo, recebendo convites para visitar países como os Estados Unidos, a Rússia e a China.

Convidado pela União dos Jornalistas Chineses, Luiz Beltrão visitou a China, em companhia de sua esposa, D. Zita. De volta ao Brasil, publicou reportagens na imprensa do Recife, narrando, entusiasmado, suas aventuras pela terra de Mao Tse-tung. Enorme sucesso fez a série, de tal modo que o autor decidiu enfeixá-la num livro, com o título Itinerário da China, lançado em 1959 pela Imprensa Oficial de Pernambuco.

O incrível é que, meio século depois, a China ainda permaneça desconhecida e enigmática para a sociedade brasileira, apesar de se haver convertido em potência industrial, peça-chave da economia globalizada.

Amostra do continente

Para furar esse bloqueio interativo, uma delegação brasileira de professores e pesquisadores da comunicação visitou a China, em julho de 2007, a convite das autoridades nacionais, aglutinadas pela Intercom.

Fundada em São Paulo, no dia 12 de dezembro de 1977, a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação reúne mais de mil pesquisadores em seu quadro social e congrega cerca de cinco mil participantes em seus congressos anuais. É a associação representativa dos comunicólogos e midiólogos brasileiros junto à comunidade científica nacional (SBPC) e aos fóruns internacionais legitimados pelas ciências da comunicação (Alaic, Lusocom, Ibercom e Iamcr). Edita semestralmente a Intercom – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, periódico acadêmico de referência nacional, Qualis A, promovendo congressos nacionais e regionais que atraem a participação de pesquisadores do Brasil e América Latina, além de simpósios temáticos e colóquios internacionais.

Sob a égide da Intercom, jornalistas, publicitários, relações públicas, radialistas, fotógrafos e educomunicadores, entre outros tipos ocupacionais, percorreram uma amostra do continente chinês para conhecer o país, contatar seu povo, desvendar sua cultura.

Os prismas da sociedade

O grupo visitou universidades e empresas midiáticas, conheceu monumentos, templos, museus e outros espaços culturais. Conversou com agentes oficiais, guias turísticos, cidadãos comuns. Informou-se razoavelmente sobre fatos, pessoas, instituições.

Inspirados em Luiz Beltrão, os participantes dessa aventura, cogitaram, no retorno, a publicação de um livro que reunisse suas impressões de viagem. Cada um teve liberdade de escrever sobre o que bem entendesse. Cerca de um terço da delegação mostrou-se interessada em cooperar.

O resultado está contido no livro Caleidoscópio chinês (Sorocaba, Ediuniso / Provocare, Intercom, 2008). Os capítulos enfocam diferentes prismas da sociedade e aspectos variados do cotidiano, uns convergentes, outros multifacetados.

São os seguintes os textos incluídos: 1. Fragmentos de uma viagem onírica – José Marques de Melo (São Paulo); 2. Um fotógrafo em estado de graça – Paulo César Boni (Paraná); 3. Pasárgada chinesa – Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo e Sergio Pio Bernardes (São Paulo); 4. Percurso da aprendizagem – Zélia Leal Adghirni (Brasília); 5. As ilusões perdidas – Scarleth O’Hara (Pará); 6. Imaginário construído para o turismo – Susana Gastal (Rio Grande do Sul); 7. O olhar estranho – Márcia Perencin Tondato (São Paulo); 8. Entremeios educativos – Adilson Citelli (São Paulo); 9. A China são muitas – Sandra Pereira Tosta (Minas Gerais) e Ada Cristina Machado (Rio Grande do Sul); 10. Mosaico de contradições – Antonio Teixeira Barros (Brasília).

Homenagem ao pioneiro

Trata-se de um mosaico perceptivo, matizado por variáveis de natureza sócio-cultural e costurado por linha explicitamente política.

Os autores de Caleidoscópio chinês conotam suas raízes ecológicas, próximas ou distantes. Olhares paulistas se cruzam com nuances gaúchas, paraenses, brasilienses, mineiras, paraenses e nordestinas.

Enfim, um poliedro simbólico, capaz de suscitar o interesse de futuros viajantes e de motivar potenciais pesquisadores sino-brasileiros.

Sua publicação, no ano em que o Brasil celebra os 90 anos de nascimento de Luiz Beltrão (1918-1986), constitui uma homenagem ao pioneiro das ciências da comunicação, também desbravador do itinerário da China para jornalistas e comunicólogos brasileiros.

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Diretor-titular da cátedra Unesco de Comunicação, Universidade Metodista de São Paulo

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