Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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ARMAZéM LITERáRIO >

Novidades no livro e na leitura

Por Deonisio da Silva em 29/09/2009 na edição 557

Galeno Amorim, diretor do Observatório do Livro e da Leitura, começa assim seu artigo em O Globo (28/9/2009, pág. 7:

‘Já se sabe que a década atual não entrará para a história como aquela em que os problemas da baixa leitura foram sanados ou que o Brasil se aproximou dos índices dos países desenvolvidos’.

O tom pessimista da abertura, porém, cede a algumas constatações animadoras. O índice de livros lidos, por ano, por leitor, passou de 1,8 para 4,7 – segundo a pesquisa ‘Retrato da Leitura no Brasil’. Os programas sociais do livro alcançaram 30 milhões de alunos pobres.

Estou escrevendo este artigo na segunda-feira (28/9). No domingo (27), fui a uma grande livraria de São Paulo. Estava lotada, um verdadeiro formigueiro. Mas que livros estão sendo vendidos? A mídia, há muitos anos, nos diz que os livros mais vendidos são tais e quais. Todos sabem que essas listas, à semelhança dos dados animadores que volta e meia vêm à tona, demandam aferições adicionais. Se estão lendo mais, por que estão escrevendo tão mal?

É verdade que o efeito não é imediato, mas quem lê, escreve melhor, pois domina um código que para a fala chega a ser estranho, tendo em vista os contextos. O exemplo emblemático e caricatural era o do ex-presidente Jânio Quadros, que falava como escrevia e escrevia como falava. Todos os outros usuários da língua utilizam com discernimento os dois códigos, já que a língua semelha uma roupa. Os leitores não vão à praia em traje de gala ou passeio completo e não recebem o diploma de curso superior vestindo sunga ou biquíni.

Bom exemplo

O outro exemplo é o do presidente Lula e sua proclamada ojeriza a livros, revistas e jornais. Ele não fala como escreve porque não escreve, e não escreve como fala porque simplesmente não escreve. Ou, se escreve, guarda tão bem que jamais é lido. A excessiva indulgência de setores da mídia com o descaso que o maioral desses oito anos dedica à leitura e à escrita é prejudicial ao próprio presidente, pois cria uma má vontade, igualmente notória, de grande parte da mídia, para com os reconhecidos sucessos da era Lula no campo da cultura, do ensino, do livro, da leitura.

Depois de vacilações iniciais, o seu governo vem implementado medidas muito pertinentes em todos esses setores. Lula não lê, mas os brasileiros estão lendo mais em seu governo. Lula não vai às livrarias, mas em seu governo o índice de leitura per capita aumentar, cousa é que deve admirar e consternar o presidente. Por sorte, o povo não segue seus péssimos exemplos na questão do livro e da leitura.

Saí das livrarias em São Paulo, onde vou algumas vezes apenas, e voltei às do Rio, onde o movimento é igualmente intenso, o que de certa forma explica o relativo insucesso da Bienal do Livro, que está perdendo dois de seus grandes atrativos, sem que sejam tomadas providências para correção.

Um: livros antes encontráveis apenas na Bienal, podem ser adquiridos na internet com um cartão de crédito ou simplesmente baixados em arquivo, se já estiverem em domínio público. Ou simplesmente lidos na tela do computador, como os jornais e as revistas.

Dois: a Bienal e outros eventos literários precisam acordar. Os debates são frutos de discordâncias, sempre saudáveis, férteis, deslocadas de conhecidos axiomas tidos por irrevogáveis. E culpar o público é fácil, quero ver é resolver os problemas do público, como vem fazendo a internet sem queixa nenhuma. Está difícil ler na telinha? Melhora-se a definição. Está lenta? Dá-se banda larga por telefone, por rádio, sem fio nenhum e em breve também pelos fios da rede elétrica.

Salvo poucas exceções, as livrarias simplesmente não inventam nada. Mas aquelas que inventaram, estão se dando bem. Em várias livrarias, o leitor toma um café, faz um lanche ou almoça ou janta, conversa com amigos, realiza o convívio social, que costuma trazer surpresas agradáveis. Afinal, quem é amigo de livros tem perfil diferenciado. Bons profissionais de todos os ramos, incluindo atores e atrizes, são vistos comprando livros. Frequentar as livrarias já é um bom exemplo, pois a maioria visita apenas as outras lojas, aquelas que não têm livros. Mas e se os hotéis e restaurantes tivessem livros, não seria bom?

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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